Análise crítica do ENEM 2008: estamos no rumo certo?

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Estudantes e profissionais de todo o Brasil realizaram mais uma vez o esforço coletivo chamado ENEM. Numa rápida busca pela rede, os formadores de opinião parecem estar satisfeitos com o processo como um todo. Alguns dizendo que a prova está mais difícil, outros que está igual, a maioria concordando que era cansativa e teve maior número de gráficos e tabelas. Já começam a aparecer estatísticas sobre o exame, pressupondo que ele é uma boa fonte de informação sobre qualidade de ensino. Mas quase não se vê alguém avaliando a qualidade do que foi feito, no sentido mais amplo da palavra. Tal nível de reflexão parece ter diminuído nos últimos anos, como se o ENEM já estivesse mais aceito pela sociedade. Buscamos aqui fazer um contraponto a este aparente consenso, identificando aspectos problemáticos da prova e seu contexto. Sem tal análise crítica corremos o risco de gastar muita energia e obter poucos resultados. Ou pior ainda, colher frutos indesejados.

ÍNDICE

Os objetivos do ENEM

Questões comentadas

Teoria e Prática

Algumas conclusões

Os objetivos do ENEM

O ENEM surgiu como uma espécie de "alternativa filosófica" ao vestibular, uma prova que não focaria tantos conteúdos específicos como na Fuvest, pois seu objetivo não era selecionar a elite da elite, mas sim o de avaliar o ensino médio no Brasil. No site do Inep temos os objetivos do ENEM, que numeramos abaixo:

a) "aferir desenvolvimento de competências fundamentais ao exercício pleno da cidadania."

b) Servir como "modalidade alternativa ou complementar aos exames de acesso aos cursos profissionalizantes pós-médio e ao ensino superior."

c) "possibilitar a participação em programas governamentais de acesso ao ensino superior, como o ProUni, por exemplo, que utiliza os resultados do Exame como pré-requisito para a distribuição de bolsas de ensino em instituições privadas de ensino superior."

d) "oferecer uma referência para auto-avaliação com vistas a auxiliar nas escolhas futuras dos cidadãos, tanto com relação à continuidade dos estudos quanto à sua inclusão no mundo do trabalho."

e) "A avaliação pode servir como complemento do currículo para a seleção de emprego."

Fonte: http://www.enem.inep.gov.br/

O primeiro objetivo é o que se esperaria do exame. Está explicito que ele não foca conteúdos, mas sim competências básicas para a cidadania. Esta ausência de conteúdos específicos é considerada benéfica pela maioria, porque enfatizaria "mais o raciocínio do que a memória", uma das lendárias buscas pedagógicas da modernidade. Vamos ver como ela ocorreu na prática este ano.

Dos outros 4 objetivos, apenas o ítem d) tem algum teor pedagógico. No geral, os 4 aplicam o princípio da meritocracia, da seleção dos melhores. O ítem c) cita como exemplo um programa do governo federal, o mesmo que faz o ENEM, o que não deixa de ser uma forma de propaganda.

Vemos também uma estranha finalidade para uma prova de 5 horas, que é a de ajudar na escolha profissional. Não parece que o exame poderia ser de grande valia neste quesito, até porque se propõe a ser multidisciplinar. Se for uma prova muito bem elaborada, pode até ajudar indiretamente, dando ao aluno exemplos de práticas/problemas profissionais pouco conhecidos.

Temos assim, no fundo, 2 objetivos para o ENEM:

1- Avaliar o quanto o aluno que sai do Ensino Médio é competente para exercer sua cidadania.

2- Servir de referência para seleção de pessoas, seja no mundo acadêmico seja no mundo profissional.

De cara vemos que não são objetivos necessariamente harmoniosos entre si. A não ser que "exercer a cidadania" seja igual a tirar boas notas na faculdade ou ser um bom funcionário de uma empresa. Mas não quer dizer que são inconciliáveis. Tudo depende da qualidade da prova. Se adotamos com mais intensidade o princípio da meritocracia e fazemos um esforço nacional para isso, é preciso que o exame tenha uma qualidade, como se diz, de excelência. Esta é a primeira condição para que se possa começar alguma discussão.

O mesmo se diz do ranking do Inep, que segundo o site tem 3 anos e "passou a divulgar as médias dos alunos por escola, por município e por unidade da Federação." Aqui aparece o último objetivo do exame, que seria possibilitado pelo ranking:

3- "promover maior responsabilização de todos os atores envolvidos no processo educativo pelos resultados da aprendizagem (gestores das redes de ensino, diretores de escola, professores, pais e os próprios estudantes)." (site do ENEM)

Neste mato tem coelho, cobra, elefante... mas vamos deixar isso pra outra hora.

Sendo assim, as finalidades do ENEM não são poucas. Ele deve ajudar o aluno a saber se estudou bastante, ajudar empresas a escolherem bons profissionais, ajudar os pais a escolherem uma boa escola, os professores a fazerem bons cursos e por aí vai. Ou seja, a prova do ENEM deve ser um primor, uma obra de arte. E lembro de uma questão de 2007 que era realmente muito boa, pedindo ao aluno para calcular quantos dias um cortador de cana precisava trabalhar para comprar a cana que ajudava a produzir. E se antes estava boa, agora deve estar ainda melhor.

Pois bem. Vejamos então algumas questões selecionadas da prova deste ano.

Questões comentadas

Q-9: Esta questão seria interessante se não fosse de múltipla escolha. Os alunos poderiam compreender que as duas coisas são possíveis. Se não precisassem ficar presos ao texto, poderiam dizer que a) e b) podem ser verdadeiras, pois o clima e o bioma se interferem mutuamente. Mas a questão acaba indo para outro lado. Dá opções absurdas como floresta no oceano e uma opção verdadeira que não está no texto. É verdade que está explicito "de acordo com o texto", mas onde isso leva? Em primeiro lugar, à desvalorização do conteúdo aprendido antes do ENEM. O que não é nada bom para a escola, e inclusive contradiz o primeiro objetivo do exame. E esta questão está dizendo a mesma coisa do texto inicial da redação, o "motor hídrico", como se esta fosse uma informação que o governo quisesse passar de qualquer jeito para os alunos que acabaram o ensino médio. Viva a amazônia! Muito bem, mas meus amigos no Acre não estão tão otimistas com as novas "políticas de desenvolvimento sustentável" para nossa principal floresta... mas isso é outra estória.

Q-10: Esta questão achei bem interessante. Não é difícil, não requer conhecimentos prévios, exceto a capacidade de leitura atenta. E se você trabalhar um pouco em cima dela em aula, pode ser um interessante exemplo para discutir o equilíbrio ecológico. Mas não podemos dizer que ela avalia conhecimentos de ecologia aprendidos no ensino médio. Ela avalia a capacidade de ler um texto e escolher a opção que mais reflete as informações do texto.

Olhando esta questão, temos a impressão de que o objetivo do ENEM não é avaliar os aprendizados do ensino médio, mas aprendizados do ensino fundamental, ou do teste PISA, sei lá. Ao mesmo tempo, ele parece ser mais parte de uma aula do que avaliação do término das aulas. Este é um ponto importante.

Os comentários aqui também valem para a questão 57.

Q-11: Essa é um clássico da pedagogia moderna! Lembra uma frase que ouvi do professor de história agora há pouco na reunião: "Se um aluno me disser que foi bem no ENEM, vou dizer: parabéns pra você, meu fio, porque eu não tenho nada com isso". Afinal, se o ENEM tem como objetivo avaliar o ensino médio, qual é a finalidade desta questão? Raciocínio lógico, vão dizer. Pois bem, não deixa de ser, mas é uma forma bem pobre de lógica. Tirando o tamanho do texto que precisa explicar as regras do jogo da velha. E quando uma universidade, empresa ou pessoa for olhar a nota de um candidato ou o ranking das escolas no Inep, ninguém lembrará que uma das questões testava a competência de se jogar jogo da velha. Quem deve ter ficado feliz foi aquele aluno que faltava na aula pra ficar brincando de passatempos. Talvez ano que vem perguntem sobre o truco, precisamos incluir isso no currículo.

Q-17: Aqui continua valendo os comentário anteriores. Se o ENEM serve para avaliar o ensino médio, eu gostaria de saber qual professor se sentiu contemplado por esta pergunta. O exemplo de alterações no ideograma é bem interessante, embora completamente inédito nos livros didáticos (exceto, provavelmente, os de chinês ou linguística). A questão é a segunda de um trio que aborda a china, recente capital dos jogos olímpicos. Por que isso? Podemos imaginar algumas razões clássicas, como "partir da realidade do aluno", ou "tratar de temas atuais", sei lá. Mas o que isso tem a ver com a competência aqui testada? E o que esta competência, seja qual for, tem a ver com a cidadania?

Ou seja, em que medida o ENEM de 2008 fez o que disse que ia fazer?

Será que esta prova tem a qualidade que todos esperam de algo deste porte? Que competências ensinadas na escola ajudaram o aluno a escolher a alternativa B? As outras são absurdas, exceto uma que parece uma faca. O que nós, professores, podemos fazer com isso? Talvez seja mais sincero dizer ao aluno: "você pode fazer a lição de casa sobre história da china ou ver os jogos olímpicos pela televisão, no final da no mesmo".

Q-37: Esta questão parece bonita, mas é na verdade um atentado à inteligência! Depois de um confuso parágrafo definindo o conceito de indício (proveniente da semiótica de Pierce), propõe ao aluno usar o conceito para escolher uma opção visual. Aquele aluno esforçado e afeiçoado a questões teóricas perderá algum tempo tentando compreender a definição, e no final isso pouco ajudará. Ou por ser de difícil compreensão, ou porque, pela definição dada, poderíamos escolher a bandeira como indício de nação. Se ele tivesse estudado semiótica, saberia a diferença entre ícone, índice e símbolo, e teria acertado a questão sem problemas. Mas não creio que alguém considere semiótica como parte do currículo mínimo brasileiro.

Mas o pior é que, na prática, não chega nem a disso. O aluno mais esperto pegaria apenas a frase final, que faz a analogia da tempestade. Esqueceria a definição teórica, como fez tantas vezes durante o ensino médio. Vai por analogia. Um raciocínio extremamente válido, mas não me venham dizer que a questão testou a habilidade de "utilizar definições teóricas" ou algo do tipo. E ainda tem um terceiro tipo de aluno. Aquele que ficou vendo seriados de detetive nas horas de estudo, leu a palavra "indício", lembrou de uma lupa, esqueceu o texto, viu uma pegada, marcou, e acertou sem mais delongas.

O problema colocado aqui é: que tipo de aluno esta questão tende a recompensar? O tipo que queremos, aquele que se tornará um cidadão? E mais uma vez: a escola ajudou o aluno a acertar esta questão? A lição aprendida parece ser novamente: "estude linguística ou veja seriados de investigação policial, que no final tudo dá na mesma".

Q-38: Esta questão é, se me permitem, bizarra! Vejamos as competências exigidas:

  • saber que quando as pessoas sorriem elas não estão angustiadas;

  • enxergar figuras com bastante precisão visual (não estar com o olho cansado de ler textos, por exemplo)

  • saber que não existe "vida íntima" entre oito pessoas;

  • saber quando ocorreu o cubismo

  • saber o que significam termos como "figura humana" ou "delineada".

    E ainda podemos incluir outra competência que talvez tenha sido pensada para esta questão:

  • não pensar, de maneira preconceituosa, que os artistas falam dos conflitos de classe

O que estas competências tem a ver com o ensino médio brasileiro? Por que não "vida íntima"? Isto é um conceito claro que faz parte do que chamamos de conhecimento? Por que sim "composição harmoniosa"? Vale a mesma pergunta. E o que há de harmonioso na composição? Uma pessoa no meio com dois lados diferentes? Isto não cria uma desarmonia, um lado cheio e outro vazio?

Em outras palavras: boas aulas de artes ajudariam o aluno a acertar esta questão?

Pior ainda: se alguém ficar vendo televisão no tempo da aula de artes e depois fizer o ENEM, talvez tenha mais chance de acertar do que um aluno dedicado e preocupado com o conceito de "composição harmoniosa". O esperto telespectador, por sua vez, rapidamente associará o sorriso na cara com a palavra "harmonia" e acertará a resposta sem maiores lágrimas.

E o que dirá o professor de artes aos seus alunos? Estudem cubismo ou vejam televisão.

Q-40: Esta é explicitamente bizarra! Por que gastar papel e neurônios com isso? Mais respeito com as árvores e sinapses, por favor!

Tirando a maioria das observações anteriores, que valem aqui, somamos dois problemas centrais. Em primeiro lugar, a questão se refere à "figura", não ao texto, o que poderia justificar a escolha da questão c. Mas tudo bem, não estamos imaginando que alguém vá se apegar a um detalhe deste. Seria um "excesso desnecessário de inteligência".

Mas o pior aspecto desta questão é seu lado "moralista". Ela não só ensina um conteúdo, como as outras, mas este conteúdo é moral, ético, ideológico, seja qual for a palavra. Qual é o objetivo de colocar esta questão para todos os estudantes do Brasil? Dizer que a coisa está difícil mas estamos caminhando? Tipo uma apologia ao "gradualismo Palocci"? Este tipo de questão é um exemplo do que desejamos de um ensino democrático voltado à cidadania? Exercer a cidadania é admitir que "com perseverança tudo se alcança"?

Isso não soa muito bem.

Q42: Aqui acho que os comentaristas do Etapa (ao qual agradeço pelas imagens) foram benevolentes com os organizadores do ENEM ao sugerir que conhecimentos de história poderiam ajudar na resposta. Na minha opinião, são 4 opções absurdas (duas, inclusive, iguais) e uma que sobra. O que há de escola aqui? Discutir a pureza do porco? A relação histórica entre religiões? O preconceito étnico? Nada disso aparece na prática, embora as palavras estejam todas ali. O que temos é mais uma questão que testa duas competências básicas:

1- Ler textos (rapidamente) e entendê-los (mesmo depois de 4 horas fazendo isso).

2- Distinguir o absurdo do possível. O obviamente absurdo, no caso.

Q-62: Outra pergunta que beneficia igualmente o aluno dedicado e aquele que só ficou vendo televisão. Que tipo de meritocracia estamos fazendo na prática?

Questões do ENEM 2008, prova amarela.

Imagens retiradas do site http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL742278-5604,00-VEJA+A+CORRECAO+DA+PROVA+DO+ENEM.html

Teoria e Prática

Depois de observar com mais cuidado a prática, vamos nos aprofundar nos princípios que teoricamente norteiam a elaboração do exame. Segundo documento do INEP:

"...a competência de ler, compreender, interpretar e produzir textos, no sentido amplo do termo, não se desenvolve unicamente na aprendizagem da Língua Portuguesa, mas em todas as áreas e disciplinas que estruturam as atividades pedagógicas na escola. O aluno deve, portanto, demonstrar, concomitantemente, possuir instrumental de comunicação e expressão adequado tanto para a compreensão de um problema matemático quanto para a descrição de um processo físico, químico ou biológico e, mesmo, para a percepção das transformações de espaço/tempo da história, da geografia e da literatura.

(...)

Busca-se, dessa maneira, verificar como o conhecimento assim construído pode ser efetivado pelo aluno por meio da demonstração de sua autonomia de julgamento e de ação, de atitudes, valores e procedimentos diante de situações-problema que se aproximem o máximo possível das condições reais de convívio social e de trabalho individual e coletivo." (MEC. 1999. ENEM - DOCUMENTO BÁSICO)

É um trecho muito bonito, parece ótimo. Mas e quando lembramos do que vimos nas questões selecionadas? O ENEM está pedindo conhecimentos específicos de todas as disciplinas quando diz "interpretação de texto"? E quando ele fala do julgamento de valores, o que será que isso significa? Perceber que "devagar se vai ao longe"? E o que significa se aproximar das condições reais de convívio social? Perguntar sobre o jogo da velha? Vejamos a versão mais atual do documento, que descreve o que seria uma boa questão do ENEM (grifo nosso):

"Nas questões de múltipla escolha da parte objetiva da prova, o participante exerce o papel de leitor do mundo que o cerca. São propostas a ele situações-problema originais (...)

As situações-problema são estruturadas de tal forma a provocar momentaneamente um "conflito cognitivo" nos participantes que os impulsiona a agir, pois precisam mobilizar conhecimentos anteriormente construídos e reorganizá-los para enfrentar o desafio proposto pela situação.

Nesta parte da prova, o participante é o leitor de um texto (situação- problema) estruturado por outros interlocutores (elaboradores de questões) que consideram todas as possibilidades de interpretação da situação-problema apresentada e organizam as alternativas de resposta para escolha e decisão dos participantes. Essas alternativas pertencem à situação-problema proposta uma vez que, em geral, todas são possíveis, são necessárias, mas apenas uma delas é possível, necessária e condição suficiente para a resolução do problema proposto.

A mobilização de conhecimentos requerida pelo Enem manifesta-se por meio da estrutura de competências e habilidades do participante que o possibilita ler (perceber) o mundo que o cerca, simbolicamente representado pelas situações-problema; interpretá-lo (decodificando-o, atribuindo-lhe sentido) e sentindo-se "provocado", agir, ainda que em pensamento (atribui valores, julga, escolhe, decide, entre outras operações mentais)" (MEC, 2002. ENEM - Documento Básico (versão completa para todos os anos)

Não foi isso que vimos nas questões selecionadas. Claro, elas foram escolhidas com o propósito de uma análise crítica, há outras mais adequadas ao princípios explicados acima. Mas como ressaltamos no começo, a qualidade das questões do ENEM é um pressuposto fundamental para qualquer finalidade que se possa atribuir a ele. Ele é um esforço nacional. Neste sentido, não pode haver nenhuma questão ruim. Nenhumazinha. Isto é a qualidade esperada de um exame nacional do ensino médio. Se acabar tendo uma pergunta incoerente com os princípios, a gente pode até relevar, mas não sem antes expressar nossa indignação profissional e cidadã.

Mas o que vimos foram problemas simples, sem qualquer conflito entre alternativas possíveis. Se a idéia era que as cinco possibilidades de resposta representassem diferentes tipos de raciocínio ou estratégia, não foi isso que aconteceu. Muitas vezes eram 2, 3 ou mesmo 4 possibilidades absurdas para quem leu o texto com atenção. Que tipo de raciocínio levaria um aluno aluno a dizer que as florestas estão no oceano? O fato delas serem um "gerador hídrico"? Ou a exaustão (a ausência de raciocínio) causada pelos longos textos e imagens? O que o ENEM está de fato medindo?

E as situações problema que vimos? Criam conflitos cognitivos e provocam o aluno? Lembre sempre do jogo da velha...

E a mobilização de conhecimentos anteriormente construídos, ou seja, aprendidos durante toda a vida escolar? Como vimos, este princípio acabou sucumbindo por algum motivo, reduzindo-se em muitas questões à capacidade de ler, entender, e saber identificar situações absurdas. Se é isso que esperamos da escolaridade até o final do ensino médio, aí não tem jeito. Será muito difícil sair da situação atual, onde políticos corruptos e suspeitos são reeleitos, onde sobra emprego e falta mão-de-obra qualificada. Porque ser um bom profissional não se reduz a ler um manual e entendê-lo, como talvez muitos acreditem.

Esta incoerência entre os princípios teóricos e a prática é muito perigosa se considerarmos o número cada vez maior de pessoas/entidades que citam notas e rankings do ENEM como forma adequada para avaliar ou comparar qualidade pedagógica. Porque, já que é para evocar provérbios, as pessoas podem estar comprando gato por lebre.

Algumas conclusões

Afinal de contas, estamos no rumo certo? Para onde o ENEM estaria nos levando? Como vimos, a qualidade da prova é um importante pressuposto para começar a discussão. Mas as questões analisadas deixam sérias dúvidas quanto a isso. Entretanto, pouco se discute a qualidade do ENEM, a mídia (e portanto as pessoas) prefere ficar fazendo interpretações de números e estatísticas cuja base pode ainda não estar muito sólida. No portal 180 graus podemos encontrar uma exceção a esta tendência:

"Na opinião de Isabel Franchi Capelletti, professora da pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autora do livro "Análise crítica das políticas públicas de avaliação", a variação das médias mantendo sempre um sobe e desce é um indicador da fragilidade do exame"

Buscamos, a seguir, sintetizar alguns aspectos problemáticos do ENEM que foram identificados. Não estamos, com isto, levantando bandeiras ingênuas do tipo "fora ENEM", mas sim buscando aprofundar a discussão para evitar a navegação rumo a mares duvidosos. Porque os resultados da educação demoram para aparecer. Não dá para ficar esperando um feedback do tipo "é, esta geração toda está realmente mal-educada, precisamos mudar as políticas educacionais".

De maneira geral, partindo dos princípios do próprio ENEM, as questões analisadas apresentaram três tipos de problemas: a) enunciados com textos longos que não caracterizam uma situação problema e estão "descolados" das alternativas; b) questões que exigem a mobilização de conteúdos específicos que não se constituem em conceitos nucleadores na organização curricular da educação básica; c) questões que estão respondidas no próprio enunciado. Vejamos onde isso pode dar.

Aspectos considerados problemáticos no ENEM 2008:

- Muitas questões não pediam conteúdos específicos mínimos esperados ao final do ensino médio. Apenas interpretação de texto e bom senso. Embora isso seja interessante para avaliar a habilidade de leitura, é prejudicial em outros sentidos. Como os professores irão convencer os alunos a aprofundarem seu saber, o que em geral exige esforço pessoal, se as habilidades necessárias para o Exame Nacional (fora a leitura) podem ser adquiridas mais confortavelmente pela televisão ou revista semanal "informativa"? Como as escolas e instituições de ensino vão se adaptar a este tipo de prova?

- As situações-problema exigiam pouco conflito interno, raciocínio e reorganização de idéias, como está na proposta do exame. Se uma pessoa fizer apenas uma questão, não terá grandes "conflitos cognitivos". Basta dar tempo suficiente para ela entender o que está explícito. A dificuldade é o cansaço mental. Isto é prejudicial, pois o ENEM deveria beneficiar os alunos capazes de tecer um raciocínio crítico, como se espera de um cidadão consciente. Mas para isso é preciso tempo, conhecimentos prévios, e um problema minimamente complexo. O que não se observou em muitas questões.

- A prova parece valorizar a cidadania, pois fornece aos alunos várias informações relevantes para o Brasil de hoje. Mas por outro lado está fazendo o papel da escola, desvalorizando sua competência em ensinar coisas importantes para o cidadão. Além disto, ler textos de forma rápida e buscar logo a alternativa "não absurda" parece ser uma forma pouco adequada de se ensinar (ou medir) habilidades necessárias para a cidadania plena.

- A escolha por uma prova temática também é assunto controverso. Não seria pouco democrático selecionar positivamente os alunos em virtude de suas afinidades escolares? Suponhamos que uma escola fez um curso especial sobre desenvolvimento sustentável no Brasil, enquanto na outra os alunos se propuseram a colocar em prática a agenda 21. Em ambos os lugares se fez um ótimo trabalho educacional relacionado ao meio ambiente, mas certamente os alunos da primeira escola terão um desemprenho melhor no ENEM. Este é o preço de uma prova temática, caso não seja muito bem feita - ou seja, numa abordagem realmente interdisciplinar do tema. Não sei se esse foi o caso.

- O interdisciplinar, sem a profundidade de cada áreas do conhecimento, acaba muitas vezes se tornando um "adisciplinar", apenas questão de bom senso.

- Por que tantas imagens? Podemos responder esta pergunta de várias formas. Por um lado os gráficos e tabelas são parte importante da cultura e precisam ser trabalhados. Muito bem. Por outro lado, podemos especular que o uso intensivo de artifícios visuais esteja relacionado a uma certa "cultura televisiva", onde as imagens às vezes dizem mais que as palavras. Mas isto é apenas especulação. Vejamos então dois casos problemáticos. 1) Dentre tantas imagens, não havia nenhum mapa, que é um dos tipos de imagem que faz parte do "currículo normal". Vemos aí, mais uma vez, certa desvalorização da cultura escolar. 2) Em uma das imagens a ser interpretada, a do caracol, encontramos dois tipos de problema. Em primeiro lugar, partindo das alternativas, o que estava sendo interpretado era o pequeno texto presente na imagem, não suas características visuais, como é de se supor. Em segundo lugar, o conteúdo que está sendo transmitido nesta questão é de caráter moral, ideológico. Isto é o que esperamos de um exame nacional do ensino médio? E ainda há a questão de que o referido provérbio pode representar, em certa medida, uma postura política. Postura inclusive muito semelhante à adotada pelo governo federal de forma geral. Não que esta tenha sido a intenção dos autores da pergunta, mas que abre a brecha para interpretações desnecessárias, isso abre.

- Para ser cidadão basta entender um manual e ver televisão? Afinal, o ENEM avalia as competências para a cidadania plena, mas muitas questões se baseavam em interpretação literal do texto ou "conceitos" do senso comum televisivo. Precisamos ter mais clareza de qual cidadão queremos: um leitor de manuais, um telespectador ou um leitor do mundo? Alguém que vê apenas a superfície do mundo, passando rápido de um assunto pro outro? Alguém que interpreta um texto sem precisar de conteúdos prévios? Alguém que não consegue entender um texto simples porque está cansado? O ENEM acaba sendo uma espécie de símbolo, de referência, o ritual final de passagem da criança para o cidadão (ao menos na dimensão escolar, pois ele ainda não responde por seus atos). Precisamos tomar cuidado com o tipo de símbolo que estamos criando em nossa cultura.

O ENEM interfere na vida do brasileiro em vários sentidos. A nota do aluno guia análises de currículo, políticas públicas e os rankings divulgados atuam na percepção que as pessoas têm sobre a nação, um estado, cidade, escola, etc. Isso já é muito. Mas ele também interfere de outra maneira, mais sutil e menos imediata. Afinal, é a principal referência objetiva e oficial do que se espera do "aluno-quase-cidadão" ao final da educação básica. Mas se tomarmos a prova deste ano como referência, para qual rumo estamos caminhando? Se o ENEM continuar assim, o que as escolas vão trabalhar na sala de aula? Jogo da velha? Ensinar a ver apenas o óbvio, o literal, a informação explícita do texto, quase sem informação prévia? Que cidadãos brasileiros teremos no futuro?

Precisamos cuidar melhor do ENEM. As críticas apresentadas neste texto têm esta intenção. Porque encontrar problemas é fácil, difícil é resolver. Neste sentido, o que quer dizer "cuidar melhor do ENEM"? Essa já outra longa discussão, mas podemos apontar algumas condições fundamentais. A primeira é fazer todo o trabalho possível e imaginável para garantir a coerência entre as questões e os princípios do ENEM. Parece que nesse ano não foi feita pré-amostragem, por exemplo, mas não chegamos estudar o assunto. Outra condição importante para o sucesso do exame é a elaboração de um currículo mínimo para o ensino médio. Este é outro assunto controverso, mas inevitável se considerarmos nossas conclusões aqui. Outra questão fundamental é o que fazer com o ENEM. Como os resultados devem ser utilizados? A natureza e grau de refinamento do ENEM justifica a publicação de rankings onde uma questão já faz diferença? Lembremos do jogo da velha... Também é importante destacar a necessidade de se discutir permanentemente o ENEM, não acharmos que ele está bem acabado, já funciona "no automático", pode ser terceirizado, coisas do tipo. O currículo, o ensino e sua avaliação precisam ser continuamente repensados pela coletividade, caso contrário estão sujeitos a se tornar apenas um amontoado de papeis numa sociedade pouco afeiçoada à escola.

*

Agradecimentos especialíssimos aos colegas do colégio Equipe, sem os quais o presente texto não existiria. Muitas informações e idéias deste artigo vieram da reunião de professores desta semana.

Última atualização em Seg, 16 de Abril de 2012 05:31  


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