O criacionismo pode ser ensinado nas aulas de ciências?

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Comento abaixo alguns trechos da reportagem MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciências, de Fábio Takahashi e Talita Bedinelli (Folha de S.Paulo 13/12/2008). Veja também a discussão sobre o acordo Brasil-Vaticano, que trata do catolicismo nas escolas públicas.


"O Ministério da Educação tomou posição no debate relativo ao ensino do criacionismo nas escolas do país. Para o MEC, o modelo não deve ser apresentado em aulas de ciências, como fazem alguns colégios privados, em geral confessionais (ligados a uma crença religiosa).

"A nossa posição é objetiva: criacionismo pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências", afirmou à Folha a secretária da Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar.

Apesar do posicionamento, o MEC diz não poder interferir no conteúdo ensinado pelas escolas, pois elas têm autonomia"

Aqui chegamos numa contradição. O MEC proibe o criacionismo nas aulas de ciência, mas está proibido de interferir no conteúdo escolar.

A reportagem continua informando que o colégio Mackenzie - assim como outras escolas ligadas a instituições religiosas, como o Pueri Domus ou o Santa Maria - "adotou neste ano apostilas que apresentam o criacionismo nas aulas de ciências nos anos iniciais do ensino fundamental."

Como isso vem sendo feito? Será um equívoco ensinar criacionismo nas aulas de ciências?

criacionismo

Para ensinar, por exemplo, evolução das espécies, não seria interessante compará-las com outras formas de se explicar a diversidade e a adaptação dos organismos? Dependendo do tempo e das intenções, claro, pois este seria um enfoque mais filosófico ou histórico da teoria da evolução. Pode-se aprender muito sobre ciência comparando explicações científicas com explicações religiosas, entendendo a diferença entre hipótese e dogma, entre razão e mito.

Mais à frente a reportagem explica com maior precisão a idéia:

"[O ensino do criacionismo como ciência] é uma posição que consideramos incoerente com o ambiente de uma escola em que se busca o conhecimento científico e se incentiva a pesquisa", afirmou Pilar."

Pois bem, aqui aparece a diferença entre "criacionismo na aula de ciência" e "criacionismo como ciência". O que aparentemente resolve a situação. Mas vem então a polêmica:

"O presidente da Associação Brasileira de Pesquisa da Criação, Christiano da Silva Neto, tem entendimento diferente.

Para ele, como não há consenso sobre qual teoria está correta, "a maneira mais justa e honesta de lidar com a questão é apresentar ambos os modelos nas aulas de ciências, dando-se destaque aos pontos fortes e fracos de cada um".

Pois bem. Está posta a questão. O que é mais justo e democrático? O estado é laico, por certo, o que proíbe o ensino de uma religião.

Por outro lado, quando a ciência tenta entender coisas que aconteceram há muito tempo atrás, o método empírico não se aplica diretamente, dificultando a destruição de mitos e dogmas. É o caso da origem do universo ou da origem da vida. Mas também é perigoso confundir um livro religioso com um livro científico, pois um requer interpretação metafórica, enquanto o outro é literal, objetivo, sem ambiguidades.

O que é realmente laico e científico neste caso?

Difícil responder. Eu, particularmente, ensino a história da evolução de maneira "progressiva", até um pouco "positivista", mostrando como a cultura científica foi do fixismo ao evolucionismo de Lamarck, depois Darwin, depois o neodarwinismo. Também é importante mostrar limitações deste último, como a criatividade e a complexidade irredutível, que inclusive já havia sido respondida por Darwin a um francês (bem antes de Behe e seu suposto neocriacionismo). Alguns dizem que o próprio neodarwinismo vem se enriquecendo ao incorporar novos conceitos da ecologia, genética, bioquímica, quântica. Há diversas polêmicas a respeito disto, e vou dando aos alunos posições diferentes na medida em que podem entendê-las minimamente. Mas é igualmente importante que o professor de ciências (eu, no caso, biologia no ensino médio) mostre aos alunos a cultura científica atual, diferenciando os paradigmas amplamente aceitos de hipóteses pouco prováveis ou pouco produtivas.

ciencia-vs-criacionismo

Pensando no caso das escolas religiosas num estado laico, talvez o ideal fosse que, ao ensinar uma explicação religiosa para certos problemas empíricos, o professor de ciências se visse obrigado a citar também outras religiões como explicações alternativas. Aí seria radical. Mas enfim, garantiria melhor a palavrinha "laico" que existe em nossa constituição.

Mas como professor não gosto desta limitação. Já há muitas outras. Prefiro isso apenas como uma diretriz, comprometendo-me mais fundamentalmente a ensinar a ciência oficial não como verdade única e absoluta, mas como ciência. Da mesma forma, é importante mostrar que as explicações religiosas apresentam lógicas e evidências muito interessantes, e que a interpretação literal da Bíblia é uma atitude cientificamente inadequada (pois se deus é metafísico não pode ser objeto da ciência). Ou mesmo um desrespeito ao próprio formato pelo qual o texto foi escrito, que é metafórico.

Enfim, a polêmica está aí, dada por uma resolução do MEC que, na prática, não tem como ser garantida. O que torna a questão ainda mais problemática.

Última atualização em Qui, 29 de Setembro de 2016 17:30  


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