Polêmicas
Seja pela admiração ao pensamento crítico, pela repulsa ao consenso burro ou simplesmente pela paixão de contrariar o aparentemente óbvio, dedicamos uma sessão a questões mal resolvidas (ou mal formuladas) e que não nos deixarão tão cedo.


Lamarck também estava certo?

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Recebi o texto "Do que os genes se lembram" (Philip Hunter), via lista de emails, do prof. Dr. J.C. Voltolini. Hunter trata de estudos recentes que sugerem uma influência direta do ambiente na expressão gênica das gerações seguintes. Foram 31 genes (relacionados ao cérebro) cujo conteúdo (sequência de bases) não foi alterado - o que mudou foi a expressão, ou seja, a quantidade de proteínas produzidas. E esta mudança foi altamente correlacionada a condições estressantes na vida dos pais.

Se este fato for confirmado, muito poderemos aprender sobre a evolução das espécies - principalmente, creio eu, das espécies mais complexas.

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:39 Leia mais...
 

Custo ambiental - a ecologia na economia

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desenho de Dorfo Gomes, BocAberta n.15

Quanto custa a natureza? Depende da época. No início da humanidade, tudo foi sempre de graça. No paraíso das delícias, os frutos eram oferecidos gratuitamente pela benevolência divina. Ou na versão materialista, o homem sempre explorou a natureza de graça. Só depois que as pessoas começaram a vender pedaços da natureza para si mesmas é que a coisa começou a mudar.

Afinal, se é da natureza, é de deus. E deus não cobra suas dívidas - ao menos em dinheiro. Mas se é de alguém, já passa a custar alguma coisa.

Tudo bem. A humanidade ficou um bom tempo pensando assim, e só assim. Mas eis que somos pegos pela lei mais fundamental da economia: quanto menos se tem, mais caro fica. Se a natureza fosse infinita, não haveria problema. Mas as coisas vão acabando se você usar demais. Os ciclos naturais de reposição das coisas têm seu tempo para acontecer.

Assim, como a ecologia entra na economia?

Seja como for, quando entrar de verdade haverá, creio eu, uma verdadeira revolução na economia. Não sei. Posso ser otimista. E como tal, o máximo que consigo afirmar é: antes de melhorar, vai piorar um pouquinho.

Em São Paulo, tivemos uma "taxa do lixo" durante alguns anos. Isso é um pequeno exemplo da coisa. Que coisa?

O custo ambiental.

Você já pensou nestas duas palavras juntas? Nesta página do yahoo, alguém diz que "O custo ambiental, é toda a despesa gerada, pelo desenvolvimento econômico do nosso planeta, e que veio a agravar os problemas de proteção ambiental". Não sei, este me parece um uso muito genérico para custo. Custo do desenvolvimento humano? Como calcular isso?

Pensemos, então, no custo de um produto, um sapato, por exemplo. Seu custo ambiental seria calculado, de alguma maneira, com o seguinte critério: quanto custa para ajudarmos o planeta a repor o que perdeu com a existência deste sapato? Isto inclui os recursos naturais necessários para a produção, distribuição, consumo, coleta de lixo, manutenção de aterros, etc... Hoje, na prática, o custo ambiental, quando existe, é relativo a gastos com "controle de qualidade ambiental", tipo filtros de poluição, manutenção de pequenas áreas de reflorestamento, esse tipo de coisa.

Não parece nada agradável para nós - compradores e vendedores de sapatos - pensar em mais um custo para as coisas. É verdade. Mas, infalizmente, entre a realidade e o prazer, neste caso, parece que seremos obrigados a encarar a realidade.

O conceito de pegada ecológica é bem interessante para se ter uma noção do custo ambiental dos produtos que compramos. Vá ao portal e calcule sua pegada ecológica. Veja quantos planetas precisaríamos se todos fossem iguais a você.

Um artigo na folha diz que o curto ambiental dos chips de computador é bem alto:

"Segundo estudo publicado pelo "Journal of Environmental Science and Technology", um típico microchip de dois gramas consome em sua fabricação 1,6 quilos de combustível fóssil, 72 gramas de produtos químicos e 32 quilos de água."

Como fica o sonho do futuro computadorizado perante fatos tão concretos?

Bem, pra terminar esta introdução da questão, procurei alguma definição boa de "custo ambiental", mas parece que isso ainda não está bem resolvido. Veja este trecho de uma dissertação da Universidade Federal de Santa Catarina:

"O termo custo ambiental é um termo, ainda hoje, de difícil conceituação, pois a literatura não apresenta uma definição clara e objetiva do que se considera como um custo ambiental. A primeira dificuldade que se encontra ao se trabalhar com os custos ambientais é o próprio fato de serem estes, em sua maioria, custos intangíveis.

A maioria dos autores que vem trabalhando com o termo custo ambiental trata este custo como uma externalidade. São exemplos Benakouche, Motta, Margulis, Pearce, entre outros.

Motta (1991) considera "externalidade"6 como sendo um custo externo, ou seja, aquele custo que muito possivelmente não é incorporado aos custos do produto. Haddad (1991, p. 13) acrescenta, ainda, que as externalidades existem "quando as relações de produção ou de utilidade de uma empresa ou indivíduo incluem algumas variáveis, cujos valores são escolhidos por outros, sem levar em conta o bem-estar do afetado e, além disso, os causadores dos efeitos não pagam nem recebem nada pela sua atividade".

Pois é. A questão do custo ambiental, que mal começou, está longe de terminar. Se quiser, deixe seu comentário ou leia mais sobre o consumo ético.

 


Fonte: Rodrigo Travitzki - topicostropicais.net


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Última atualização em Qua, 02 de Setembro de 2009 00:17
 

Aquecimento global e complexidade

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Mais uma lenha na fogueira do aquecimento global. Embora estejam todos tratando a questão como resolvida, especialistas alemães discordam, segundo a BBC.

"A temperatura da Terra deve se manter estável na próxima década devido à aproximação de ciclos climáticos mais frios, segundo previsões feitas por especialistas alemães

De acordo com a pesquisa, publicada pela revista Nature, a justificativa para esta conclusão, que contraria previsões de que o planeta teria entrado num processo irreversível de aquecimento, se encontra no ciclo natural das temperaturas do oceano Atlântico Norte.

Conhecido como Oscilação Multidecadal do Atlântico, o fenômeno altera as temperaturas da superfície do mar, influenciando as correntes marítimas que levam calor dos trópicos à Europa.

Segundo os especialistas, o fenômeno, que ocorre num intervalo de 5 a 8 décadas poderia explicar por que as temperaturas elevaram-se no início do século passado voltando a se resfriar nos anos 40."

E agora?

A Terra vai esquentar ou não? Em qual especialista devemos acreditar? Os cientistas não deveriam saber as respostas e chegar num consenso? O IPCC não é o infalível oráculo de Delfos? E o coelhinho da páscoa, como vai?

Pois é. Essa é a lição que a complexidade tem pra dar à ciência. Modelos matemáticos são apenas modelos matemáticos. A realidade tem sempre a última palavra.

E nos sistemas complexos há feedbacks e não linearidades que dificultam a previsão.

Ou seja: a questão do aquecimento global, longe de estar resolvida, continua sendo uma questão.

Última atualização em Qua, 02 de Setembro de 2009 00:30
 

A internacionalização da Amazônia

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No mundo dos emails, ressurge de tempos em tempos a polêmica: a Amazônia será o próximo alvo geopolítico americano? Será que os gringos querem o pouco que resta de tropical em nosso país?

Abaixo há uma destas mensagens:

"Há os que dizem que é mentira, mas já está comprovadíssimo este absurdo. O próximo Iraque é aqui."

amazonia-livrodidatico.png

 

O que voce acha desta imagem?

Forte, não? Ela veio acompanha de um texto e uma apresentação de powerpoint para os que desconhecem inglês.

Um internauta incauto poderá simplesmente acreditar nesta estória e ganhar mais um assunto para "conversas anti-americanas".

Se pesquisar um pouquinho, o internauta poderá perceber que trata-se de uma farsa, seja por que ninguém encontrou o tal livro, seja por erros gramaticais incompatíveis com livros didáticos. Veja alguns argumentos aqui, e outros falsos documentos sobre a internacionalização da Amazônia aqui.

Para cuidar com carinho do conhecimento, é preciso paciência. A pessoa que mandou este email com tanta certeza precisaria se lembrar disso...

Por outro lado, se o email e falso na origem, nem por isso é falso na mensagem. A questão do "dono" da maior floresta tropical do mundo é antiga. Segundo este site, "Já nos tempos de Dom Pedro 2º, o chefe do Observatório Naval de Washington defendeu a tese da livre navegação internacional do rio Amazonas, por causa do seu volume de água “oceânico”. Mais recentemente, há o caso do "presidente da França, François Mitterrand, que, em 1991, disse que "o Brasil precisa aceitar a soberania relativa sobre a Amazônia"

Bem, o Lula garantiu que a Amazônia é nossa, e que nós cuidaremos dela. Estranho é isso ter acontecido junto com a saída da ministra Marina Silva e a entrada do Minc no ministério do Meio Ambiente. Se quiser leia mais sobre esta questão.

Para terminar, o trecho final de um discurso de Cristovam Buarque que também circula nos emails há alguns anos:

"Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa."

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:19
 


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