A origem do homem político (mito de Platão)

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Me deparei com o texto abaixo numa aula da USP sobre Platão, Sócrates e as bases do conhecimento. Fiquei maravilhado com as ideias, a escrita e a simplicidade – típicas dos gregos antigos. É um mito narrado por Platão, com linguagem metafórica clara e cristalina, sobre uma questão bem cabeluda.

Será que a virtude pode ser ensinada? É bom lembrar que, para os gregos, a virtude não tem nada de cristão. Virtude é excelência - a palavra grega ARETÉ. E sendo o homem um ser social, um homem excelente deve ter certas qualidades, como o senso de justiça. Mas será que todos os homens conseguem perceber a justiça? Diferenciar o justo do injusto?

Hoje em dia a questão é muitas vezes tratada de forma “perspectivista”, dado que as diferentes culturas veem a justiça de forma distinta. Mas a pergunta continua, só que agora fazendo sentido dentro de cada cultura. Será que todas as pessoas desta cultura podem aprender seu senso de justiça específico? Ou algumas pessoas não podem aprender a ser justas, assim como algumas se esforçam mas não desenvolvem habilidades musicais, matemáticas, comerciais, etc? Será a injustiça um defeito inato? Uma incontornável falta de talento de algumas pessoas?

Porque, se for, aí os próprios fundamentos da democracia estarão abalados. Afinal, por que obrigar todas as pessoas a votar, se algumas não aprendem a diferenciar o justo do injusto? A questão da democracia grega é que move Platão a escrever este diálogo. Se é que podemos dizer este tipo de coisa, claro.

É uma boa leitura para professores, alunos, todo mundo. Pode ser aproveitado em aulas de filosofia, história, geografia... No caso dos biólogos, dá até para começar uma aula sobre a diversidade dos seres vivos, as diferentes formas de adaptação, a multiplicidade de nichos ecológicos, o equilíbrio da natureza...

Situando o diálogo

Sócrates havia perguntado ao sábio sofista Protágoras se a virtude poderia ser ensinada – já que este se propunha a ensiná-la aos jovens, e inclusive cobrando bem por isso. Será que todos os homens poderiam aprender a ser justos e virtuosos, ou o senso de justiça seria como a música, a matemática ou a retórica – habilidades que requerem não apenas estudo, mas também talento?

A virtude pode ser ensinada?

Protágoras conta, então, uma estória para responder à pergunta de Sócrates.

 


“Houve um tempo em que só havia deuses, sem que ainda existissem criaturas mortais. Quando chegou o momento determinado pelo Destino, para que estas fossem criadas, os deuses as plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de uma mistura de ferro e de fogo, acrescida dos elementos que ao fogo e à terra se associam. Ao chegar o tempo certo de tirá-los para a luz, incumbiram Prometeu e Epimeteu de provê-los do necessário e de conferir-lhes as qualidades adequadas a cada um. Epimeteu, porém, pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição. Depois de concluída, disse ele, farás a revisão final. Tendo alcançado o seu assentimento, passou a executar o plano.

Nessa tarefa, a alguns ele atribuiu força sem velocidade, dotando de velocidade os mais fracos; a outros deu armas; para os que deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação; os que vestiu com pequeno corpo, dotou de asas, para fugirem, ou os proveu de algum refúgio subterrâneo; os corpulentos encontravam salvação nas próprias dimensões. Destarte agiu com todos, aplicando sempre o critério de compensação. Tomou essas precauções, para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer.

Depois de haver providenciado para que não se destruíssem reciprocamente, excogitou os meios de protegê-los contra as estações de Zeus, dotando-os de pelos abundantes e pele grossa, suficientes para defendê-los do frio ou adequados para tornar mais suportável o calos, ao mesmo tempo que servissem a cada um de cama natural, quando sentissem necessidade de deitar-se. Alguns dotou de cascos nos pés; outros, de garras, e outros, ainda, de peles calosas e desprovidas de sangue. De seguida, determinou para todos eles alimentos variados, de acordo com a constituição de cada um; a estes, erva do solo; a outros, frutos das árvores; a terceiros, raízes, e a alguns, ainda, até mesmo outros animais como alimento, limitando, porém, a capacidade de reprodução daqueles, ao mesmo tempo que deixava prolíficas suas vítimas, para assegurar a conservação da espécie.

Como, porém, Epimeteu carecia de reflexão, despendeu, sem o perceber, todas as qualidades de que dispunha, e, tendo ficado sem ser beneficiada a geração dos homens, viu-se, por fim, sem saber o que fazer com ela. Encontrando-se nessa perplexidade, chegou Prometeu para inspecionar a divisão e verificou que os animais se achavam regularmente providos de tudo; somente o homem se encontrava nu, sem calçados, nem coberturas, nem armas, e isso quando estava iminente o dia determinado para que o homem fosse levado da terra para a luz.

Não sabendo Prometeu que meio excogitasse para assegurar ao homem a salvação, roubou de Hefesto e de Atenas a sabedoria das artes juntamente com o fogo – pois, sem o fogo, além de inúteis as artes, seria impossível o seu aprendizado – e os deu ao homem. Assim, foi dotado o homem com o conhecimento necessário para a vida; mas ficou sem possuir a sabedoria política; esta se encontrava com Zeus, e a Prometeu não era permitido penetrar na acrópole, a morada de Zeus, além de serem por demais terríveis as sentinelas de Zeus. Assim, a ocultas penetrou no compartimento comum em que Atena e Hefesto amavam exercitar suas artes, e roubou de Hefesto a arte de trabalhar com o fogo, e de Atena a que lhe é própria, e as deu aos homens. Desse modo, alcançou o homem condições favoráveis para viver. Quanto a Prometeu, consta que foi posteriormente castigado por esse furto, levado a cabo por culpa de Epimeteu.

XII:

Uma vez de posse desse lote divino, foi o homem, em virtude de sua afinidade com os deuses, o único dentre os animais a crer na existência deles, tendo logo passado a levantar altares e a fabricar imagens dos deuses. Não demorou, e começaram a coordenar os sons e as palavras, a engenhar casas, vestes, calçados e leitos, e a procurar na terra os alimentos. Providos desse modo, a princípio viviam os homens dispersos. Não havia cidades. Por isso, eram dizimados pelos animais selvagens, dada sua inferioridade em relação a estes. As artes mecânicas chegavam para assegurar-lhes os meios de subsistência, porém eram inoperantes na luta contra os animais, visto carecerem eles, ainda, da arte da política, da qual faz parte a arte militar.

À vista disso, experimentaram reunir-se, fundando cidades, para poderem sobreviver. Mas, quando se juntavam, justamente por carecerem da arte política, causavam-se danos recíprocos, com o que voltavam a dispersa-se e a serem destruídos como antes. Preocupado Zeus com o futuro de nossa geração, não viesse ela a desaparecer de todo, mandou que Hermes levasse aos homens o pudor e a justiça, como princípio ordenador das cidades e laço de aproximação entre os homens.

Hermes, então, perguntou a Zeus de que modo deveria dar aos homens pudor e justiça;

- Distribuí-los-ei como foram distribuídas as artes? Estas foram distribuídas da seguinte maneira: um só homem com o conhecimento da medicina basta para muito que a ignoram, verificando-se a mesma coisa com todas as outras artes. Devo proceder desse modo com o pudor e a justiça, ou reparti-los entre todos os homens igualmente?

- Entre todos, disse-lhe Zeus, para que todos participem deles, pois as cidades não poderão subsistir, se o pudor e a justiça forem privilégio de poucos, como se dá com as demais artes.”


 

Transcrito por Rodrigo Travitzki de:

PLATÃO. Diálogos: Protágoras. Trad. Carlos Alberto Nunes. De 320-d até 322-d. Universidade Federal do Pará, 1980.


Última atualização em Qua, 02 de Dezembro de 2009 20:57  


Estudar filosofia é importante para ser um cidadão?
 

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