Educação

Segundo a LDB, "a educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho."



Pra que serve a educação?

Uma pergunta que pode ser óbvia, vazia, desagradável, estimulante ou esclarecedora, dependendo da pessoa. Como professor, não consigo prosseguir meus dias sem pensar nela de vez em quando. E tem sido cada vez mais estimulante e esclarecedor, embora sempre um pouco desagradável.

Há muitas maneiras de responder esta pergunta. Se buscarmos na internet, será dificil encontrar algo de realmente esclarecedor. Claro que deve ter muita coisa boa - o difícil é filtrar a grande quantidade de "pseudo-informações".

Quando lemos os objetivos educacionais/pedagógicos de uma escola qualquer , encontramos sempre mesma coisa. Frases de efeito. Tal como na LDB (veja o texto do prof. José Sergio). Frases que não estão erradas, são até muito bonitas. Mas que de tão vagas, acabam não ajudando muito nas questões e contradições da prática escolar cotidiana.

Mesmo o Instituto DNA Brasil, que reúne bons profissionais e produz publicações interessantes (eu, pelo menos, gostei do livro “DNA Educação”), não consegue sair das frases de efeito. Como no trecho abaixo, proveniente de um debate em torno da questão “pra que serve a educação”:

Não existe ensinar. O aluno deve aprender a aprender, e sozinho, porque é isso que ele fará o resto da vida (...)

a educação deve ser responsável pela formação de um pensamento crítico, e todos concordaram que ela deve ser responsável pela formação pessoal e humanista dos futuros cidadãos do país.

Como fica o professor frente a estas afirmações? Que significado dará às suas ações diárias? A forma com que cada um imagina a finalidade da educação é o que dá sentido à prática escolar cotidiana. Afinal, pra que serve a educação? Eis uma questão difícil. Vejamos uma outra abordagem possível. Para que a educação não serve? O que não queremos que a educação produza? Esta questão já foi feita por muitos grandes pensadores. Destaco aqui, para finalizar, um belíssimo texto de Adorno, retirando dele alguns trechos para tornar mais fácil a digestão. Se você gostar destes trechos, aproveite para ler o texto todo aqui.

 

 

EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ

Theodor Adorno
Tradução:
Wolfgang Leo Maar

A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la.”

Quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes.”

Penso até que a desbarbarização do campo constitui um dos objetivos educacionais mais importantes. Evidentemente ela pressupõe um estudo da consciência e do inconsciente da respectiva população. Sobretudo é preciso atentar ao impacto dos modernos meios de comunicação de massa sobre um estado de consciência que ainda não atingiu o nível do liberalismo cultural burguês do século XIX.

Para mudar essa situação, o sistema normal de escolarização, freqüentemente bastante problemático no campo, seria insuficiente. Penso numa série de possibilidades. ”

Mas aquilo que gera Auschwitz, os tipos característicos ao mundo de Auschwitz, constituem presumivelmente algo de novo. Por um lado, eles representam a identificação cega com o coletivo. Por outro, são talhados para manipular massas, coletivos, tais como os Himmler, Höss, Eichmann.”

Finalmente, o centro de toda educação política deveria ser que Auschwitz não se repita. Isto só será possível na medida em que ela se ocupe da mais importante das questões sem receio de contrariar quaisquer potências. Para isto teria de se transformar em sociologia, informando acerca do jogo de forças localizado por trás da superfície das formas políticas. Seria preciso tratar criticamente um conceito tão respeitável como o da razão de Estado, para citar apenas um modelo: na medida em que colocamos o direito do Estado acima do de seus integrantes, o terror já passa a estar potencialmente presente. ”

Eis um importante objetivo da educação: evitar a barbárie. Não ajudar a produzir as causas da violência extrema entre seres humanos. Isto já nos dá o que pensar.

Alguns trechos merecem um pouco mais atenção, como a questão do "nível de consciência".

Mas por enquanto, creio que já seja suficiente. Como diria o mestre Maurício Mugilnik, vamos dormir com estas questões e ver como acordamos amanhã. Se você tiver alguma resposta a questão “pra que serve a educação?”, aproveite para deixar seu comentário abaixo.

 

 

Educação pode ser mais complexa do que Estatística - crítica a artigo da Folha de São Paulo

Escrevi o texto abaixo numa noite dessas qualquer, motivado pela frase de Tom Zé “Veja que beleza, a burrice está na mesa”. Mandei por email para todo mundo que eu achava que deveria receber. Para minha surpresa e felicidade, ele acabou sendo publicado numa das instituições mais sérias da mídia brasileira – o Observatório da Imprensa. Coloco abaixo a edição feita por eles.

 

Educação pode ser mais complexa do que estatística

5/6/2007

A capa do caderno "Cotidiano" da Folha de S. Paulo (28/5/2007) deixa um pobre professor inquieto. Ele gosta de dar aulas, de aprender, duvida muitas vezes de seu ofício, de seu bolso, das instituições, mas ao menos uma certeza o move durante seu cotidiano quixotesco. Estudar é bom.

Mas então lê o subtítulo da capa:

"Estudo de economista da USP mostra que criança que sempre recebe ajuda dos pais nos estudos tem desempenho inferior".

Isto lhe soa estranho. Imagine uma mãe adicionando mais uma tarefa em seu atribulado cotidiano: fazer a lição de casa para o filho. Será que ela não sabe que estudar é bom? Ou será que deseja o mal ao sangue do seu sangue? Talvez seja uma questão de ignorância, de falta de educação... São muitas as possibilidades...

O economista é Naércio Menezes Filho, que fez o estudo, a pedido da Folha, com "regressões econométricas a partir do Saeb". As regressões são instrumentos matemáticos que nos permitem encontrar correlações sutis entre variáveis. Elas são úteis quando tentamos observar e quantificar coisas muito complicadas como ecossistemas ou relações humanas.

Uma estranha equação

Uma correlação, por sua vez, é algo do tipo "sempre que A muda, B tende a mudar também". Dito desta forma, parece que a mudança de A causou algo em B. Mas a idéia de correlação não diferencia A de B, a causa da conseqüência. Ou seja, pode ser que B tenha causado A. Ou que ambos sejam conseqüência de C etc. As correlações entre os fatos podem ser interpretadas de diversas formas...

Voltemos, então, à reportagem de Antonio Gois sobre as conclusões de Menezes:

"...o auxílio dos pais nem sempre é benéfico, pois alunos que sempre recebem essa ajuda têm médias menores que os demais".

Neste exemplo, quais seriam as duas variáveis correlacionadas?

A: ajuda dos pais

B: médias nos boletins

Assim, quando A aumenta, B diminui, ou seja:

Frase 1: quando os pais ajudam mais, as médias diminuem.

É realmente uma estranha equação. Para Menezes, ainda segundo a reportagem, "esses dados podem estar mostrando que os pais, em vez de orientar, estão fazendo a lição de casa pelo filho".

Esta é uma interpretação. Haveria outras dignas de menção?

Significados alternativos

Vamos, então inverter A e B, já que se trata de uma correlação.

A frase 2 seria: quando as médias diminuem, os pais ajudam mais.

Não sei para vocês, mas para mim soou bem melhor ao cérebro.

Parece algo mais próximo do que se entende por uma relação entre pais e filhos. Alguns poderiam contra-argumentar dizendo que nas condições precárias do Brasil as relações familiares estão desta ou daquela forma destruídas etc. Mas, segundo a reportagem, Menezes encontrou esta correlação mais intensa nas escolas particulares. É ali que os pais, mais escolarizados, estariam supostamente estudando para os filhos e, com isto, piorando suas médias...

São muitas as interpretações possíveis de um mesmo grupo de fatos. É preciso apontar os significados alternativos nos estudos estatísticos, visto que são tomados como algo "verdadeiro", "provado cientificamente".

O que pensaria uma mãe, afinal, ao ler o subtítulo daquela reportagem?

Informações limitadas

Um professor talvez se sentisse triste. Talvez chegasse a estas mesmas conclusões descritas acima. Ou, quem sabe, perceberia que as questões não são desse economista, desse jornal, ou daquele professor. Elas envolvem a todos nós. E ele escreveria alguma coisa aos seus amigos.

Observações metodológicas:

1. A análise feita aqui é simples como pareceu, e está sujeita a "detalhes da vida"... por isto, foram enviadas cópias a Menezes e à Folha.

2. Uma forma de detectar causa e efeito é inserir o tempo na equação. Talvez isto tenha sido feito. Seria o caso de perguntar a Menezes, então, o grau de consistência dos dados amostrais do Inep, para que pudessem ser decompostos em "fatias" ao longo do ano.

3. Chegamos, com isto, ao terceiro ponto. Os questionários distribuídos para os alunos no Saeb são realmente bastante detalhados, enfocando diversos aspectos familiares relacionados à educação. São questões de múltipla escolha, é bom lembrar. Não sabemos também, ao certo, como foram passados aos alunos.

Segundo o Inep, é recomendada a aplicação dirigida, até porque o analfabetismo funcional é grande:

"Os baixos níveis de desempenho em leitura revelados pelo levantamento anterior apontaram para a necessidade de se adotar a aplicação dirigida dos questionários."

Quanto poderíamos confiar nesses questionários? Ainda no site do INEP encontramos um texto que diz, no último parágrafo:

"Algumas informações sobre o núcleo familiar dos alunos são coletadas nos questionários por eles respondidos, e isso limita a qualidade e a quantidade das informações obtidas."

Aqui parece haver um curioso pressuposto:

Dados provenientes unicamente de questionários respondidos por alunos apresentam informações limitadas em qualidade e quantidade. Isto nos levaria a entender que os dados utilizados por Menezes são limitados. O grau deste limite permanece incerto, ao menos para leigos.

 


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