Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

A sociedade igualitário-coletivista e a escola da ponte

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"A escola funciona com a seguinte dinâmica: Os alunos formam grupos heterogêneos, que são por eles mesmos escolhidos e não tem restrições de turmas ou de ano de escolaridade (que na prática não existem). Mas os alunos se dividem em três núcleos: iniciação, consolidação e aprofundamento."

Maiores detalhes abaixo.

INTRODUÇÃO

Esse trabalho tem como idealizadores os alunos Pedro Micussi e Laura Bellotti, da terceira série do Ensino Médio do Colégio Equipe de São Paulo, e tem como principal objetivo discutir nosso ideal utópico.

O que entendemos sobre utopia? Qual deve ser realmente, o mundo com o qual mais nos identificaríamos? O mundo pleno que poderemos, enfim, descansar e dizer: é isso, tudo está perfeito! Obviamente, isso é impossível, caso o contrário não levaria o nome de utopia. Por ser impossível, porém, não significa que tal sociedade não seja almejada e que tentativas de a consegui-la não tenham sido feitas, ao contrário.

Em linhas gerais, nossa ideia de utopia caminha na noção de uma sociedade igualitária, de plena oportunidades e acesso, onde não haja a dominação de um homem sobre o outro, basicamente, esta deve ser a base para a construção de qualquer ordem social utópica, uma vez que são essas as condições básicas para a estruturação de qualquer sociedade sã.

Partindo da noção de sociedade igualitária, qual seria, porém, a atividade real que nos possibilitaria o caminho em direção a esta utopia? Um movimento revolucionário, que abale de fato a ordem vigente de desigualdade? Ou seriam suficientes movimentos de organização comunitária, que não firam a estrutura, mas criam este sentimento altruísta de igualdade e passam a criar micros centros de educação para uma vida socialista? Num processo de transição, de revolução, mas também de criação de uma nova hegemonia, ambos são importantes.

Este trabalho poderia ser então, sobre movimentos armados até revoluções com local e data marcados, afinal, todos tem o mesmo objetivo, certo? Errado, acontece que a história nos provou que a maneira como você pretende instaurar essa utopia interfere diretamente no resultado final, em uma palavra os fatores interferem no produto. Por isso a escolha de uma atividade com organização horizontal nos pareceu primordialmente necessária, uma vez que só assim, através de um processo baseado na igualdade, poderíamos conceber um mundo com tal valor.

O único meio de instaurar, por tanto, um regime utópico, é através da expansão da consciência de cada cidadão, pois se a utopia que propomos, significa a plena igualdade, não podemos impor a cima dos pensamentos dos outros cidadão, o que acreditamos ser utópico. Não podemos como disse Getulio Vargas, fazer um mal necessário para o bem. O homem contemporâneo, fruto de séculos de avanço e desenvolvimento do sistema capitalista, tem introgetado em si, princípios extremamente individualistas, e assim, não adiantaria apenas revolucionarmos as estruturas produtivas. Seria necessário também, a reeducação deste homem, para que esses princípios individualistas que compõe a índole do homem ocidental contemporâneo sejam transformados em princípios altruístas. Como escrevera o ideólogo alemão Karl Marx, é necessário o homem ideal para viver no sistema ideal.

A educação e a formação do homem começam com os ensinamentos dos pais e da escola, que já são por inércia, adaptados ao sistema atual. Um meio de caminhar em direção à utopia é a formação de escolas que tenham como princípio, formar um cidadão ético e responsável e com noções de igualdade, diferentemente da maioria das escolas atuais, que visam formar os alunos para que possam se inserir no mercado de trabalho.

CONHECENDO A PROPOSTA

Nesse sentido, uma escola que se diferencia das outras nesse quesito é a EBI/Aves São Tomé de Negrelos, conhecida como Escola da Ponte. É uma instituição pública de ensino, localizada na Vila das Aves, no distrito do Porto, em Portugal. A instituição surgiu na década de 1970 no desejo de se fazer uma escola que respeitasse as diferenças individuais dos alunos. Em 1976, houveram profundas mudanças na organização da escola, na relação entre ela, instituição, e os encarregados de educação dos alunose nas relações estabelecidas com diferentes parceiros locais. Até 1976 a Escola da Ponte era formada apenas pela escola primária e pelo jardim de infância, em 2001 a escola aumenta e passa a formar os alunos até o 9º ano, e em 2006 a Escola da Ponte passa a abranger também o colegial.

Embora a faixa etária dos alunos compreenda aproximadamente dos cinco aos dezesseis anos de idade a escola tem alguns alunos mais velhos. Atualmente conta com cerca de 175 alunos e de 29 professores.

A escola funciona com a seguinte dinâmica: Os alunos formam grupos heterogêneos, que são por eles mesmos escolhidos e não tem restrições de turmas ou de ano de escolaridade (que na prática não existem). Mas os alunos se dividem em três núcleos: iniciação, consolidação e aprofundamento.

No espaço físico, a escola se encontra em uma área aberta onde não existem salas de aula, mas sim espaços de trabalho, onde os alunos não têm lugares fixos. A biblioteca não é um espaço isolado, pertence ao espaço comum, nessa área aberta.

Do mesmo modo, não há um professor encarregado de uma turma ou orientador de um grupo; em vez disso, todos os alunos trabalham com todos os orientadores educativos, que são divididos pelas áreas: artística, identitária, linguística, lógico-matemática e naturalista. Há também um "Professor Tutor" que acompanha uma grupo de 8 a 11 alunos e os monitora individualmente em reuniões que ocorrem uma vez por semana.

Há uma Assembleia onde democraticamente os alunos e professores decidem os direitos e deveres que consideram fundamentais para aquele ano. Nessa assembleia professores e alunos discutem e votam nas medidas de resolução dos problemas que ocorrem ao longo do ano, de forma solidária, respeitando as regras e visando o bem comum. É formada a "Comissão de Ajuda", composta por quatro alunos que se encarregam de resolver os problemas mais graves. Dois desses alunos são votados na assembleia pelos alunos, e os outros dois, pelos professores. Decisões dessa Comissão se guiam pelos direitos e deveres definidos na assembleia.

Diferente da maioria das assembleias, esta tem um caráter informal, e todos os dias em um período de trinta minutos ocorre um debate (com exceção do dia da Assembleia Geral) onde discutem o que foi feito no dia através de jogos de pergunta e resposta, e nessa ocasião vão preparando a Assembleia.

Existe uma lista chamada "Eu já sei", quando o aluno sente que se apropriou do conteúdo. Ele escreve o seu nome nessa lista desenvolvendo assim sua autonomia e informando que já considera que aprendeu e que está pronto para ser avaliado por um professor, e só então a avaliação se processa.

Existem na escola também, "Grupos de Responsabilidade", cada aluno e cada professor escolhem que grupo responsável por algum aspecto do funcionamento da escola(Assembleia e Comissão de Ajuda; Terrário Jardim; Clube dos Limpinhos; Refeitório; Arrumação e Material Comum; Direitos e Deveres; Biblioteca; Jornal; Correio e Visitas na Ponte; Jogos de Mesa; Computadores e Música; Desporto Escolar; Recreio Bom; Murais, Mapas de presença e Datas de Aniversário...).

DISCUSSÂO

Esse método de educação que a Escola da Ponte se apropria, traz aos alunos um senso de coletivo, onde a opinião de ninguém vale mais do que a de ninguém, nem mesmo a dos professores, estimulando assim, cada indivíduo a pensar e formar suas próprias ideias. Essa estrutura, onde todos têm voz, traz à escola características de uma sociedade igualitária. Talvez a ideia construtivista, da constante autocritica dos alunos, não seja benéfica se considerarmos que crianças muito pequenas a fazem, às vezes uma maior interferência do mestre pode ser extremamente necessária para o processo de aprendizado do aluno. Mas mesmo que não seja uma escola utópica, ela caminha em direção à um sistema de oportunidades e acessos iguais para todos, onde não há a dominação de um homem sobre o outro, uma vez que o processo de ensino-aprendizado se dá de forma extremamente horizontal.

Esse tipo de educação, transforma princípios individualistas em princípios coletivos, e aos poucos, de geração em geração, a escola caminhará em direção à nossa concepção de utopia, pois cada ser humano que for educado com base nesses princípios, terá dado um passo à frente nesse caminho, e futuramente, quando este for educar alguém, o aluno já partirá desse passo à frente e poderá dar o próximo passo. Logo, o caminho que nos levará à utopia, não será um evento qualitativo, mas sim, a soma de diversos eventos quantitativos.

Sem dúvida, nosso Colégio Equipe contribuiu imensamente para criarmos uma consciência holística e coletivista do todo, por meio de projetos, aulas e trabalhos, nesse ponto ele também caminha para nossa noção de utopia. Porém, acreditamos que os meios interferem diretamente no produto final, e talvez uma instituição hierarquizada não caminhe na direção de criação de um mundo mais coletivista e horizontal.

REFERÊNCIA

- http://educador.brasilescola.com/gestao-educacional/escola-ponte.htm

-http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-inicial/jose-pacheco-escola-ponte-479055.shtml

- http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2132&cd_materia=1123

- http://www.educacional.com.br/entrevistas/entrevista0043.asp

Última atualização em Seg, 12 de Agosto de 2013 16:19  


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