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Utopia Médica

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Relato da entrevista com a médica Angélica Binotto

por Beatriz Demasi Araújo

Angélica Binotto é médica do InCor, especialista em cardiopatias congênitas pediátricas. Formou-se na USP há 30 anos e trabalha no Instituto há 20. Depois da graduação, fez dois anos de residência em cardiologia, dois em pediatria e dois em especialização. Além de médica, ela também é professora de internos e residentes no Instituto.

Sua rotina diária consiste em supervisionar os atendimentos no PS, atender os pacientes nas enfermarias, dar aulas e participar das discussões dos médicos sobre diagnósticos, condutas etc. Ela também é responsável por uma série de atribuições burocráticas, já que faz parte do comitê de ética.

Angélica diz que gosta muito de ensinar e dar assistência aos pacientes. Ela relata perceber nos seus alunos mais novos um interesse em qualidade de vida e ganhar bastante dinheiro, o que ela teme os afastar da rede pública, que segundo ela não oferece um salário excelente. Por esse motivo ela acredita haver hoje interesse pela área plástica, dermatologica de radiologia, atualmente as mais "rentáveis". Faltam médicos nas áreas de neurologia, pediatria e cardiologia, uma vez que essas exigem muito tempo de estudo antes de começar dar algum ganho monetário mais significativo. Essas áreas, segundo sua percepção, são a muito desvalorizadas, apesar de sua extrema necessidade.

Ela conta também que hoje muitos médicos acabam ficando escravos dos convênios, mas que não é fácil ter um consultório particular que se sustente. Há três anos ela dá aulas de especialização Lato Sensu, o que a fez conhecer a realidade médica do norte do país. Segundo ela, foi muito interessante observar a diferença entre os cenários da saúde: Angélica sempre trabalhou num polo de alta complexidade e estrutura com médicos super especializados, e pode conhecer uma realidade de médicos que nem residência fizeram e trabalham como médicos únicos de cidades de algumas dezenas de habitantes.

No estado do Pará inteiro há somente 2 vagas para residência em cardiologia, o que explica a vinda de muitos recém-formados para São Paulo. O problema é que uma vez aqui, construindo uma vida, poucos desejam voltar. O InCor é o maior centro de referência cardiológica da América Latina, conta com 34 leitos na enfermaria, 16 na UTI e 11 na UTI cirúrgica, realizando 1200 consultas e 80 cirurgias por mês. A médica acredita que a estrutura do complexo é boa, mas que por a demanda ser muito grande faltam leitos e operações.

Durante a entrevista, Angélica frisou o quanto ela e seus companheiros trabalham diariamente e amam o que fazem. Por se tratar de um hospital escola, há constantemente a questão do ensino e da troca. Sempre há essas reuniões nas quais médicos, residentes, enfermeiros e internos se reúnem para discutir casos, que são os mais complexos do país.

Por que uma utopia?

O trabalho médico dedicado inteiramente ao sistema público é realmente muito admirável. Considero utópico no sentido de que exige do médico – ou de qualquer outro envolvido desse grande sistema – muito trabalho, amor a profissão e competência.

Qualquer trabalho médico é em si um trabalho de generosidade e cuidado com o próximo, mas num contexto como o citado, pertencente ao SUS e de ensino, isso se faz muito evidente. A atividade é uma síntese desses valores de cuidado ao próximo, dedicação e estudo, e não só; percebe-se que há uma organização do grupo, que busca junto desenvolver soluções e sempre promover a troca de conhecimentos.

O complexo do HC é referencia internacional e é do SUS. Todo o funcionamento do SUS e os que trabalham para seu êxito representam para mim uma utopia inigualável de sociedade. Uma sociedade que comercializa a saúde de seus cidadãos tem valores já distorcidos, e nós estamos presenciando isso ocorrer na nossa realidade. É preciso que haja pessoas como essa médica, dispostas a ganhar menos e se dedicar inteiramente ao trabalho de ensino e cuidado públicos e universais. Esse ganhar menos, diga-se de passagem, nem é, segundo Angélica, tão menos assim, só não satisfaz uma ambição exacerbada de consumo que muitos possuem e pretendem alcançar através da Medicina.

Médicos como a Angélica, ou esses do Norte que buscam especializar-se para atender melhor uma população carente e com pouca assistência médica, representam a minha utopia sobre essa prática médica: focada não no sucesso econômico individual, mas no fortalecimento de uma estrutura sólida de saúde que cuida da população sem discriminação e presa pelo ensino, qualidade, estudo e trabalho.

Última atualização em Seg, 20 de Janeiro de 2014 10:54  


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