Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Por uma sociedade que supere a mercadoria

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Alunas:
Bianca Borgianni e
Gabriela Barcellos Bugelli

INTRODUÇÃO

Prática Escolhida: IPEMA (Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica). O IPEMA tem o objetivo de fomentar e difundir a permacultura para a criação de assentamentos humanos sustentáveis.

Utopia: a nossa utopia é uma sociedade que supere a forma mercadoria e na qual o valor de um produto seja atribuído pelo seu valor de uso sensível. Uma sociedade que não se organize para a produção de excedentes e lucro. Para explicá-la nos utilizaremos da teoria de Kurz. Em sua tese, Kurz apresenta-nos que tanto na sociedade capitalista quanto na socialista, o trabalho é tido como um pressuposto fundamental com finalidade em si mesmo. Embora se apresente como essência supra-histórica, só existe na forma de exploração econômica abstrata na modernidade, o que o desqualifica como alicerce social inerente à natureza humana. A positivação do trabalho abstrato, na verdade, só se difere quanto à sua forma, pois enquanto no capitalismo o mito do trabalho, proveniente da ética protestante, prega a acumulação de capital individualista, no socialismo este fim é ainda mais abstrato, e se justifica pela dignificação de uma riqueza nacional, alienando-se completamente das necessidades humanas e transfigurando-se também em religião.

A inquestionabilidade da incorporação do trabalho na sociedade como conceito ontológico nas sociedades modernas atribui-lhe um aspecto de necessidade de primeira natureza, na medida em que é considerado intrínseco a vida humana. Neste caso, visaria produzir e reproduzir as condições materiais de existência, e não estaria vinculado as necessidades de acumulação de capital dissociadas das necessidades humanas, no que constituem exatamente as chamadas necessidades de segunda natureza. Porém, o que acontece é exatamente o oposto, a lógica das necessidades se inverte, e quando as forças produtivas rompem com a coação exercida pelas necessidades de primeira natureza, passam a ser coagidas pelas de segunda natureza. Isso porque o trabalho nas sociedades pré-capitalistas se dava de maneira concreta, por meio da apropriação de qualidades sensíveis do objeto. A partir da premissa da forma mercadoria, a qual supõem as necessidades de segunda natureza, o produto é privado de suas qualidades sensíveis e seu valor abstrato gera um automovimento de capital independente da mediação social. Essa desvinculação do produto de seu próprio valor de uso gera uma fetichização da mercadoria, que se apresenta meramente como um trabalho social passado.

Eis então a diferença entre o trabalho abstrato com finalidade em si mesmo, característica das sociedades modernas, e o trabalho com finalidade de suprir necessidades do homem, presente nas sociedades pré-modernas.

Portanto, nossa utopia consiste fundamentalmente na superação da forma mercadoria por meio do fim do trabalho abstrato. Propomos uma sociedade que, diferentemente da capitalista e da socialista, não se estruture sobre os pilares da exploração do homem pelo homem num modelo de produção industrial, e tampouco negue a modernidade e o avanço tecnológico promovendo uma regressão às sociedades pré-capitalistas.

O avanço tecnológico não deve ser suprimido, porém é necessário que seja transformada sua finalidade. Ao invés de ser destinado à produção insustentável de mercadorias com pouca durabilidade, e ao fortalecimento da indústria de produtos obsoletos, deve ser justificado pela própria produção de conhecimento, não sendo este último justificado pela agregação de valor abstrato a mercadoria.

O primeiro passo para a concretização de nossa utopia seria uma reestruturação do sistema de ensino, eliminando definitivamente a privatização, de modo a oferecer educação de alto nível, objetivada em desenvolver a capacidade crítica de todos os estudantes, sendo estes pertencentes a todas as camadas sociais numa primeira instância (numa segunda instância de nossa utopia a sociedade de classes já teria sido abolida), pois acreditamos que a mudança só se torne possível quando toda a sociedade civil estiver apta a uma reflexão acerca da própria situação O que implica na superação também do presentismo, experiência empírica que não se pauta na memória histórica, como instrumento de reconhecimento da própria inserção no sistema.

 

CONHECENDO A PROPOSTA

IPEMA: se localiza numa reserva florestal no município de Ubatuba e atua nesta região desde 1999. O conceito de permacultura foi criado nos anos 70 por Bill Mollinson e David Holmgren (australianos) e significa uma cultura permanente, ou seja, que se caracteriza por projetos que fazem a utilização de métodos ecologicamente saudáveis e economicamente viáveis, que respondam às necessidades básicas sem explorar ou poluir o meio ambiente. O precursor desta idéia no Brasil foi o próprio fundador do IPEMA, mas que, no momento, não é morador da vila. A prática se iniciou pela vontade de criar uma comunidade o mais sustentável possível e que se tornasse auto-suficiente em longo prazo. Ela busca a integração de sistemas atualmente considerados isolados formando assim um sistema intrinsecamente relacionado, onde o déficit de uma parte seja compensado por outra, gerando assim um equilíbrio ecológico. Mas o que nos chamou a atenção nesta prática foi a busca da auto-suficiência, ou seja, a dependência mínima de recursos externos para a sobrevivência. O grupo é constituído de, no máximo, 15 pessoas com diferentes formações e vindos de diferentes lugares e classes sociais. O caráter real é de um intercâmbio, pois as pessoas entram, fazem um "estágio" /formação e saem conforme atingido o objetivo. A comunidade ainda não é auto-suficiente, portanto ainda necessita de capital para comprar alguns produtos que não conseguem produzir ou receber por doação, e este capital provém de palestras, cursos e visitas que eles realizam periodicamente e doações.

A comunidade é bem integrada com as outras comunidades do local. Todas as decisões são tomadas por consenso e a discussão ocorre no mínimo uma vez por semana. A vila possui grande suficiência, tendo que gastar com o que ela não produz apenas 36 reais por mês. As dificuldades são encontradas na aceitação e difusão da prática, na própria busca pela auto-suficiência e no destino que darão a certos tipos de lixo, já que têm a política do lixo zero.

 

DISCUSSÃO

A prática escolhida foi considerada uma maneira de nos aproximarmos de nossa utopia pois lá não se produz excedentes destinados ao mercado. Os alimentos são valorizados pelo seu real valor de uso, sem obrigações de mais valia e lucro. O conhecimento não é voltado exclusivamente para a produção e sim para a subsistência do grupo, já que a produção só apresenta este objetivo. Também pela realização de palestras, cursos e visitas que têm como o objetivo difundir este conhecimento e criar uma reflexão acerca da própria condição do indivíduo no meio em que ele vive.

Vemos nesta prática uma série de aspectos positivos que convergem para certas perspectivas em comum com nossa utopia como a democratização do acesso ao conhecimento; a produção com fim à supressão das necessidades humanas e produtos com valor se uso sensível, com benefícios ambientais decorrentes da produção em menor escala; um governo pelo consenso com a extinção da sociedade de classes e a produção de tecnologias acessíveis a todos. Porém, por outro lado, este modelo apresenta sérias limitações como a viabilidade do projeto em escala global e a conquista de hegemonia tanto na sociedade política quanto na civil devido à competição com a ideologia liberal burguesa.

Os conhecimentos que mais utilizamos para a realização deste trabalho foram os aprendidos em História Geral, especificamente Robert Kurz, o principal teórico em que se baseia o nosso trabalho, e também os conceitos primordiais de análise social marxista que temos conhecimento desde o primeiro ano e outros teóricos apresentados em todas as matérias. Os valores foram em grande medida adquiridos nas aulas de filosofia, nas quais pudemos ter consciência de nossa própria condição dentre os meios em que vivemos e também nos trabalhos de campo.

Acreditamos que um outro mundo só é possível se partir de todos; quando todos, por meio da educação, se conscientizarem de sua posição, atitude e condição perante o mundo e sua própria vida. Daí sim poderão agir para transformar ou revolucionar.

 

 

REFERÊNCIAS:

- Visita ao IPEMA no trabalho de campo do temático "Sustentabilidade e Tecnologia" realizado no primeiro semestre do ano de 2009

- http://www.ipemabrasil.org.br/

- Trecho do texto de Robert Kurz: "Lógica e ethos da sociedade de trabalho" da apostila de História Geral de 2009

 

Última atualização em Dom, 09 de Maio de 2010 09:26  


Para que serve a educação?
 

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