Será possível um Brasil com 100% de leitores praticantes? Os projetos Expedição Vaga Lume e Mudando a História

Sex, 14 de Novembro de 2008 14:06 Tamas I. AGardi Utopia e cotidiano: buscando práticas idealistas
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Alunos:
Olivia Lui
Tamas Agardi
Julia Pereira

Introdução

A proposta deste trabalho consiste na elaboração de uma idealização de outro mundo. Mas como podemos pensar em outra perspectiva possível em uma sociedade humana tão desigual e predatória no qual vivemos? A resposta que tentamos dar é que ainda é possível transformar, e existem práticas subversivas e políticas que estão realmente fazendo a diferença para muitas pessoas. Os pessimistas de plantão respondem de praxe que esses ativistas estão longe, que no Brasil a mentalidade se resume ao futebol e ao carnaval, mas o que não sabem (ou não procuram saber) é que há centenas, ou milhares de práticas sociais de sucesso ocorrendo bem aqui, debaixo de nossos narizes.

Esta nossa utopia, especificamente,se relaciona a dois projetos sociais brasileiros: O Projeto Mudando a História (PMH) e o Projeto Expedição Vaga Lume, que lidam com a mediação de leitura e o acesso ao livro para pessoas com pouco ou nenhum contato com ele, como forma de transformação cultural e social. A partir destes projetos (sem desmerecer os prováveis outros que lidam com mediação de leitura), elaboramos a pergunta: "será possível um Brasil com 100% de leitores praticantes?", e a partir dela embasaremos nosso trabalho.

O nosso país provavelmente teria um percentual muito mais alto de leitores praticantes se estes fossem introduzidos à literatura de uma maneira prazerosa, descompromissada, estimulante e acolhedora, desde a primeira infância, onde todos os estímulos positivos que recebemos são refletidos ao longo de toda a vida. O que seria logicamente uma obrigação do Estado, que tem se mostrado ineficiente, acaba ficando nas mãos de projetos sociais e ONGs, que apesar de alcançarem uma pequena parcela em âmbito nacional, estão transformando a vida de muitas pessoas. E é a partir dessa relação que acreditamos que os dois projetos, Mudando a História e Vaga Lume, se aproximam da nossa utopia.

 

Desenvolvimento

O Brasil é o país com a segunda pior distribuição de renda no mundo, só perdendo para o Haiti, que se encontra em constante guerra civil. A partir dessa realidade, não é espantoso o fato de o país possuir um índice de 13 % de total analfabetismo, e provavelmente outro muito maior do denominado analfabetismo funcional, ou seja, pessoas que sabem escrever o nome, ou ler placas de ônibus, mas não estão inseridas no mundo escrito, e não têm habilidade para escrever frases ou textos mais complexos.

Além de ser um país de analfabetos, onde os jovens saem das escolas públicas sem ler e escrever bem, o incentivo a leitura no Brasil é muito baixo, já que foi estabelecido um forte vínculo com a televisão (poucos brasileiros lêem jornal, a maioria assiste a telejornais) e o acesso ao livro e a boa literatura é muito restrito a centros econômicos e a uma certa camada social, agravados pelos altos custos e falta de bibliotecas públicas.

Mas afinal, qual é a importância da leitura? Por que damos tanto valor a um livro ou a literatura em geral?

O livro é mais do que um objeto transformador, é um instrumento político. Basta procurar ao longo da história quantos livros foram queimados ou proibidos em eras ditatoriais ou de autoritarismo (como por exemplo, o índex, relação de livros proibidos durante a Idade Média, a biblioteca de Alexandria, destruída, ou os livros queimados no nazismo). A literatura provoca reações únicas de leitor para leitor, desperta os demônios, os vícios e virtudes, a possibilidade de outras realidades, a narrativa particular, os anseios e prazeres particulares. Além desses fatores, o livro é um dos únicos objetos antigos que tem a forma semelhante até hoje, e nele permanece uma memória, um conteúdo que é fixo, sempre estará igual quando você retornar a ele, só sendo mutável a sua interpretação, diferentemente da narrativa oral.

 

O Projeto Expedição Vaga Lume

Desde 2001 a Expedição Vaga Lume, uma entidade civil sem fins lucrativos, desenvolve projetos de educação e cultura em mais de vinte municípios localizados na região da Amazônia, e tem como objetivo tornar-se referência nacional na implantação de bibliotecas comunitárias, contribuindo com o desenvolvimento das áreas de atuação.

O projeto foi idealizado dois anos antes, na Ilha do Marajó, por um pequeno grupo de pessoas cujo sonho em comum era participar de alguma maneira da rotina da população amazônica, e conseqüentemente, contribuir com a preservação amazônica. O público alvo do projeto é o alunato do ensino fundamental de comunidades de difícil acesso, "espalhando as luzes da literatura infantil por cantinhos da Amazônia¹". A implantação de bibliotecas, segundo o próprio projeto, é um patrimônio coletivo e traz o mundo da literatura para os jovens, também auxiliando professores para elevar o ensino em áreas afastadas. Em 2002, o projeto percorreu quase cem cidades da região da Amazônia brasileira, e capacitaram 550 jovens mediadores de leitura.

Os recursos materiais, no caso livros e estantes, foram fornecidos através de capitação de verba proveniente de patrocinadores, e os recursos humanos são os próprios mediadores de leitura, professores e membros da comunidade, capacitados pelos próprios membros do projeto.

Os números chegam a 20 mil crianças beneficiadas diretamente com o projeto, um acervo de 65 mil livros, 154 multiplicadores e 1646 mediadores de leitura. O projeto atualmente ocorre em 127 bibliotecas instaladas pelos membros do projeto, e tem como responsáveis Maria Teresa Meinberg, Laís Fleury e Silvia Guimarães. O telefone de contato é: (11) 3032 6032

 

O Projeto Mudando a História

O outro projeto que se aproxima da nossa utopia é o Mudando a História, nascido em 1997 com o nome de Biblioteca Viva, e patrocinado pelo banco Citibank. No início, o Biblioteca Viva (o primeiro projeto social do Colégio Equipe) tinha o objetivo de levar a literatura para crianças das periferias de São Paulo, tendo como foco do trabalho o desenvolvimento sociocultural da criança. O projeto, a partir do ano 2001, passou a fazer parte da Fundação Abrinq², e foi rebatizado para Mudando a História. Assim como o nome, o projeto sofreu algumas alterações, por entrar no programa Make a Connection (uma iniciativa desenvolvida pela Nokia e International Young Fundation para promover o desenvolvimento juvenil), e passou a focar na participação do jovem na sociedade, como protagonista em uma ação social.

O PMH tem como objetivos gerais formar grupos de jovens mediadores de leitura, que são os responsáveis pela "ponte" entre o livro e a criança (ou outro receptor da mediação), por sua vez capacitados por jovens multiplicadores, que também atuam como mediadores e tem o tempo mínimo de 40 horas de mediação. O público alvo do projeto são jovens entre 13 e 25 anos, estudantes ou não, de preferência da rede pública.

Até agora, foram formados cerca de 700 multiplicadores e 6500 mediadores, que atuam em Manaus (AM), Paraty (RJ), Mogi-Mirim (SP) e Grande São Paulo, e mais de 80% dos jovens são de baixa renda, muitos das periferias dessas cidades. Os recursos materiais do projeto, quando ocorrem as mediações, são apenas os livros, fornecidos pela Fundação Cor da Letra, parceira da Fundação Abrinq, que é responsável pelo controle e distribuição do acervo. Os recursos humanos são os próprios jovens, ou os integrantes da Abrinq durante as capacitações de multiplicadores.

A duração de cada sessão de mediação varia entre 30 minutos e 2 horas, e é realizada principalmente em creches ou escolas públicas. A formação para se tornar mediador dura entre 6 e 16 horas (geralmente distribuídos entre vários dias) e a capacitação de multiplicadores dura cerca de 30 horas, realizadas desde 2001 em um acampamento no município de São Roque.

Os responsáveis pelo projeto hoje são Márcia Weda e Leandro Montalvão, e o telefone de contato é (11) 3848 8799.

 

Discussão

Ambos os projetos, segundo experiência própria e relatos, possibilitaram a muitos jovens uma mudança radical na rotina, uma nova percepção de cidadania, prática social, assim como contato com muitos outros jovens "compatriotas de projeto", vindos de outras realidades sociais, culturais e até geográficas, que compartilham os mesmos ideais e tem muito o que ensinar e aprender. O Projeto Mudando a História se preocupa com a integração dos jovens participantes do projeto, promovendo encontros entre mediadores, ou mediadores e multiplicadores, e supervisões bimestrais de multiplicadores, que compartilham dificuldades, aprendizagens, dinâmicas, problemas e conquistas.

Porém, a mudança mais sensível nesses jovens é o gosto pela leitura: muitos, ao entrar nos projetos, não gostavam de ler ou liam muito pouco, vendo o livro como um aparato meramente didático, e depois da experiência passaram a adotar o livro como um modo de vida, e criaram vínculos muito fortes com os projetos.

A principal dificuldade do Projeto Mudando a História atualmente é conseguir a renovação de patrocínio com a Nokia, que pretende deixar o projeto ano que vem. Sem o patrocínio, o projeto estará parcialmente imobilizado: é preciso de verba para obtenção de acervo, capacitação de multiplicadores, encontros e reuniões. Outro problema particular do Mudando a História é a queda no número de participantes, e muitos que participam dão preferência as dinâmicas (jogos em brincadeiras cujo interesse é promover a coletividade, superação e integração) na rotina, e pouco ou nada lêem durante as sessões de mediação.

Os pontos positivos dos dois projetos são diversos. A começar pelos jovens multiplicadores e mediadores, a prática dos projetos sociais propicia um encontro com o outro, uma sensação imensa de satisfação, de integração, de protagonismo juvenil. Os jovens, como já mencionado, passam a gostar dos livros, aprender muito mais, criam métodos de mediação, se tornam mais sociáveis e organizados. Quem participa de um projeto social, de um modo ou de outro está sendo subversivo, está contradizendo a lógica do jovem vagabundo ou "aborrecente", e está transformando de fato a sua e a vida de muitos outros, sem assistencialismo ou uma atividade meramente lúdica.

Além dos adolescentes, as crianças (principalmente, já que são as mais beneficiadas tanto pelo Vaga Lume quanto pelo Mudando a História) que recebem mediação de leitura passam a brincar mais, aumentam a criatividade, se relacionam melhor, procuram e aprender (no caso das não alfabetizadas) a ler muito mais facilmente que as que não receberam mediação.

Ao refletirmos sobre os pontos negativos de práticas sociais como estas, concluímos que o problema não está nos projetos, pelo contrário, eles são enriquecedores e positivamente transformadores, mas na necessidade de existirem tantos projetos sociais e organizações não governamentais. Como dito na introdução, a prática e incentivo de leitura e a disponibilização de acervo para toda a população não passa de um dever do Estado, já que educação é sempre uma das prioridades presentes nos discursos políticos. A prática de projetos sociais desvincula, de certa forma, a obrigação dos governos. Porém, apenas com a pressão política não conseguiremos mudar o mundo, é preciso de prática.

 

¹- Como o próprio projeto escreve em página do site: http://www.expedicaovagalume.org.br/site/quem_historia.asp

²-A Fundação Abrinq pelos direitos da criança e do adolescente é uma instituição sem fins lucrativos, e tem o objetivo de preservar e estimular o direito das crianças e adolescentes, promovendo projetos socioculturais com enfoque no protagonismo juvenil.

 

Conclusão

O Brasil é um país que possui atualmente, 16 milhões de analfabetos, sendo que a maior concentração deste índice se encontra na região nordestina, seguida pela região norte do país. Um dos aspectos mais importantes na estruturação de um sistema de alfabetização é a abordagem feita frente à população que está recebendo o ensino. Atualmente a leitura é considerada um instrumento de expansão das probabilidades de um indivíduo vir a conseguir produzir uma carreira ascendente, tal discurso está permeado entre a população analfabeta. A leitura significa o sucesso.

Ao se enfrentar a leitura como um fator sistêmico de ser apenas um instrumento de ascensão, muitos indivíduos acabam não sendo atingidos, porém ao se implantar um leitura que se manifesta de maneira prazerosa, descompromissada, estimulante e acolhedora, o Brasil provavelmente possuiria cerca de 100% de leitores. Mesmo trabalhadores que possuem papéis sociais muitas vezes desgastantes e muito explorados.

Se os projetos hoje desenvolvidos no Brasil possuíssem uma maior projeção talvez esta utopia pudesse ser realizada, sendo que o alvo destes seriam os jovens, podendo assim em um espaço de tempo, torná-los adultos alfabetizados, corrigindo as taxas de analfabetismo brasileiras atuais, em que a maioria dos analfabetos possuem já idade avançada (acima de 50 anos, IBGE) e também diminuindo as taxas de analfabetos funcionais devido a maneira de se lançar a questão da alfabetização.

Os conceitos e valores adquiridos durante o ensino médio que se relacionam com a realização deste trabalho sobre utopia, principalmente se considerarmos o Colégio Equipe, são cooperação, subversão, política, Estado, ação social, projeto social. Mesmo que indiretamente, são valores que aprendemos na prática, ao estudar em um colégio que valoriza a prática social e se esforça para formar jovens críticos, capazes de reconhecer e transformar a sociedade. Eu, Olivia, tenho como experiência própria os valores adquiridos a partir do Mudando a História, projeto do qual participo como mediadora há três anos, e como multiplicadora há um e meio. O Colégio Equipe tem como prática diversos projetos sociais, projetos culturais e o grêmio, e são quase que sua marca registrada, pois a maioria dos seus alunos são altamente envolvidos nessas formas de atuação.

Depois desse breve trabalho, poderíamos dizer que sim, outro mundo é possível. Mas será que excesso de utopia é saudável?

Considerando a sociedade predatória e desigual que vivemos, e a apatia geral em que nos encontramos, ousamos dizer que um pouco de utopia é necessário, mas juntamente com ações cotidianas, sem megalomania, mas com um sentido e um resultado efetivo. Se a iniciativa pública e privada tomasse como exemplo as centenas de projetos sociais com efeitos positivos na sociedade brasileira, e se mobilizassem efetivamente, com coragem, talvez outro mundo fosse possível. Nós não deixamos de acreditar.

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Sites (acessados entre 11/11/08 e 13/11/08)

http://www.fundabrinq.org.br/portal/alias__abrinq/lang__en-US/tabID__104/DesktopDefault.aspx

http://www.expedicaovagalume.org.br/site/nosso_expedicao.asp

Apostila de textos da Capacitação de multiplicadores do Projeto Mudando a História (de junho de 2007)

Anotações do Encontro Internacional Literatura e Ação Cultural, realizado entre os dias 15 e 17 de julho de 2008, com participações da Fundação Abrinq e Projeto Vaga Lume.

Última atualização em Qua, 02 de Setembro de 2009 19:42