Nível socioeconômico determina ranking de escolas e estados no ENEM

Dom, 21 de Outubro de 2012 12:53 Rodrigo Travitzki Políticas públicas de educação
Imprimir

De acordo com os resultados que obtive até agora em meus estudos de doutorado, o ranking de escolas do ENEM informa mais sobre as condições familiares dos alunos do que sobre a eficácia das escolas. Isto não é uma exclusividade do ENEM, não é um "defeito" deste exame, pelo contrário, é a tendência geral quando se avalia escolas a partir de provas individuais. Segundo a literatura científica internacional, esta influência das condições socioeconômicas da familia é sempre alta, varia de 70% a 95%. Meus resultados indicam que no ENEM 2009 foi em torno de 80%.

O que isto significa? Aí já entramos num terreno mais controverso, pois há diversas formas de interpretar estes dados. O que dá pra dizer, com alguma certeza, é que precisamos tomar cuidado ao valorizar demais este tipo de ranking, precisamos ter cautela ao pautar nossas decisões privadas e públicas com base nestas informações, porque não sabemos muito bem o que está sendo informado.

Minha tese (sob orientação da profa. Carlota Boto, da Faculdade de Educação da USP e participação do prof. Jorge Calero, da Universidade de Barcelona) deve ficar pronta em março do ano que vem, antes disso seria imprudente adiantar dados muito detalhados. Mas o que fiz, no geral, foi uma análise estatística (chamada regressão multinível) com base nos microdados que estão no portal do INEP, onde procurei isolar o fator socioeconômico da nota da escola no ENEM. Depois disso recalculei as médias, e os resultados foram bastante diferentes. Em março devo publicar este novo ranking, junto com a tese.

Para quem quiser entender melhor como a coisa funciona, posso exemplificar trocando as escolas por estados. O raciocínio é o mesmo. Boa parte da média dos estados no ENEM também é determinada pelo fator socioeconômico. Ao isolar este fator e recalcular as médias, alguns estados que apresentam resultados excelentes podem se mostrar abaixo do esperado. Seria o caso, por exemplo, do Distrito Federal (ver figura). Ou seja, se todos os estados tivessem as mesmas condições socioeconômicas, o D.F. estaria abaixo da média. O estado do Ceará, por outro lado, teve um resultado inverso: abaixo da média "bruta" (sem isolar o fator socioeconômico) mas acima da média "líquida" (isolando este fator).

Mas é importante destacar que este "ranking de estados no ENEM 2009" não é um ranking de estados na educação. Não só porque a educação é muito mais do que ensinar a fazer provas, mas também porque o ENEM tem caráter voluntário, só faz quem quer, então não existe um critério para as amostras de cada estado. O mesmo vale para as escolas.

Abaixo a entrevista que dei recentemente na TV Univesp, com o Ederson Granetto.

Pra quem quiser saber um pouco mais, pode dar uma olhada na reportagem da Valéria Dias que saiu na agência USP de notícias. Desde já agredeço à Valéria pelo seu cuidado e profissionalismo.

Nível socioeconômico influencia nota de escola no Enem
http://www.usp.br/agen/?p=116163

Última atualização em Ter, 06 de Novembro de 2012 21:09