Um currículo atrás das grades?

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Saiu na Folha (23/12/2008) uma matéria de Tharsila Prates intitulada Educação de São Paulo volta atrás e mantém aulas de história. Diz que em 2009 as aulas de história mudariam de 8 para 5 por semana. Em todas as escolas estaduais de São Paulo.

Por que? Devido à uma nova lei federal que determina a inclusão de filosofia e sociologia como matérias obrigatórias no ensino médio. Convenhamos, isto não é uma explicação tão precisa quanto o número de aulas obrigatório estipulado. Mas vá lá, isoladamente não quer dizer nada.

Mas não é que o governo voltou atrás no dia 22 de dezembro de 2008? Explicações? Poucas.

Por que são 8 pra todo mundo? Que equilíbrio universal é esse? Por que mudar pra cinco? E por que mudar de volta?

Segundo a matéria, há também confusão em relação a modificações nas aulas de educação física da 3a série do Ensino Médio, que teriam sido publicadas no diário oficial (a primeira em 26/11, que precisou ser complementada por outra em 12/12/2008). Confusão não apenas pela necessidade de se mudar a decisão em apenas duas semanas, mas também porque a própria Secretaria de Educação não confirmou nenhuma das duas mudanças nas aulas de educação física - afirmando que a grade curricular que saiu no diário oficial "não é valida". Até porque, ainda segundo Prates, uma lei estadual de 2003 impõe a matéria como obrigatória para todas as séries. De qualquer forma, ficamos novamente sem saber por que a prática de esportes na escola deixaria de ser importante (caso acreditássemos no diário oficial) para alunos na faixa dos 15, 16, 17 anos.

As decisões tomadas na secretaria de educação do estado de São Paulo não podem apresentar este grau de incerteza, principalmente quando têm tamanha influência. E não deve ser falta de habilidade dos profissionais envolvidos, tampouco má fé... talvez seja um princípio equivocado, algo que desvia o foco. A idéia pouco sensata de que a regulação legal do currículo escolar deve se parecer com uma grade. Com uma idéia geométrica fixa, perfeita e universal.

Grade nos dois sentidos: uma tabela e uma prisão. Talvez a grade seja prisão justamente por ser tabela.

Um exercício mental

Pense bem. Imagine uma sala com os melhores professores e políticos sentados discutindo a grade curricular do estado de São Paulo. Pode ser na reitoria, no gabinete de alguém, um jardim, um restaurante, tanto faz. São todos bem intencionados e competentes. Aí o secretário pergunta "quanto devemos ter de cada matéria no ensino médio das escolas paulistas?"

Se você imaginou a cena com certa dedicação, deve escutado uma confusão na cabeça logo após a pergunta do secretário. Só alguém que nunca presenciou uma discussão entre especialistas imaginaria que todos se entenderiam apenas por sua competência técnica e ética. Muito pelo contrário, este é apenas o começo de uma boa discussão. Que pode ou não terminar em consenso - dependendo do tempo disponível e da complexidade do problema.

Se o problema fosse relativo a apenas uma escola, não ao estado todo, e se os especialistas fossem os professores desta escola, então maravilha. Até dá para imaginar os professores, depois de muito esforço coletivo, criando alguns consensos como, por exemplo, a formulação ou reformulação de uma grade curricular. Ou simplesmente grade de horários. Porque as horas do relógio a gente consegue prender em grades, mas os saberes não. Eles se movem e se misturam muito.

Entre grades

Agora dê uma olhadinha na Grade curricular do Estado de São Paulo - 2009.

Devemos realmente partir do pressuposto de que todas as escolas do estado de São Paulo devem dedicar exatamente o mesmo tempo para todas as matérias? É isto que quer dizer "escola igual para todos"? Ou será que os "iguais", quando tratamos de seres humanos, têm diferenças importantes entre si?

Por um lado, a ausência de um currículo básico pode ser um grande entrave num país com pouca cultura escolar. Na inglaterra isso não parece ser problema. Não que o modelo inglês seja o "caminho natural" dos países desenvolvidos. A França, no pólo oposto, determina com considerável precisão o conteúdo mínimo das escolas. Ou seja, o Brasil precisa encontrar sua solução, porque ainda não chegamos lá.

Por outro lado, determinar uma grade curricular inflexível para todas as escolas de um estado tão heterogêneo não parece ser a solução mais adequada para o problema.

A Grade Curricular estadual prende as pessoas dentro de idéias pré-concebidas. Parece uma ruína que resistiu a tempestades como Kant e Nietzsche, um culto antiquado a um deus morto: a razão pura.

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:24  


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