Custo ambiental - a ecologia na economia

Dom, 04 de Maio de 2008 22:46 Rodrigo Travitzki
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desenho de Dorfo Gomes, BocAberta n.15

Quanto custa a natureza? Depende da época. No início da humanidade, tudo foi sempre de graça. No paraíso das delícias, os frutos eram oferecidos gratuitamente pela benevolência divina. Ou na versão materialista, o homem sempre explorou a natureza de graça. Só depois que as pessoas começaram a vender pedaços da natureza para si mesmas é que a coisa começou a mudar.

Afinal, se é da natureza, é de deus. E deus não cobra suas dívidas - ao menos em dinheiro. Mas se é de alguém, já passa a custar alguma coisa.

Tudo bem. A humanidade ficou um bom tempo pensando assim, e só assim. Mas eis que somos pegos pela lei mais fundamental da economia: quanto menos se tem, mais caro fica. Se a natureza fosse infinita, não haveria problema. Mas as coisas vão acabando se você usar demais. Os ciclos naturais de reposição das coisas têm seu tempo para acontecer.

Assim, como a ecologia entra na economia?

Seja como for, quando entrar de verdade haverá, creio eu, uma verdadeira revolução na economia. Não sei. Posso ser otimista. E como tal, o máximo que consigo afirmar é: antes de melhorar, vai piorar um pouquinho.

Em São Paulo, tivemos uma "taxa do lixo" durante alguns anos. Isso é um pequeno exemplo da coisa. Que coisa?

O custo ambiental.

Você já pensou nestas duas palavras juntas? Nesta página do yahoo, alguém diz que "O custo ambiental, é toda a despesa gerada, pelo desenvolvimento econômico do nosso planeta, e que veio a agravar os problemas de proteção ambiental". Não sei, este me parece um uso muito genérico para custo. Custo do desenvolvimento humano? Como calcular isso?

Pensemos, então, no custo de um produto, um sapato, por exemplo. Seu custo ambiental seria calculado, de alguma maneira, com o seguinte critério: quanto custa para ajudarmos o planeta a repor o que perdeu com a existência deste sapato? Isto inclui os recursos naturais necessários para a produção, distribuição, consumo, coleta de lixo, manutenção de aterros, etc... Hoje, na prática, o custo ambiental, quando existe, é relativo a gastos com "controle de qualidade ambiental", tipo filtros de poluição, manutenção de pequenas áreas de reflorestamento, esse tipo de coisa.

Não parece nada agradável para nós - compradores e vendedores de sapatos - pensar em mais um custo para as coisas. É verdade. Mas, infalizmente, entre a realidade e o prazer, neste caso, parece que seremos obrigados a encarar a realidade.

O conceito de pegada ecológica é bem interessante para se ter uma noção do custo ambiental dos produtos que compramos. Vá ao portal e calcule sua pegada ecológica. Veja quantos planetas precisaríamos se todos fossem iguais a você.

Um artigo na folha diz que o curto ambiental dos chips de computador é bem alto:

"Segundo estudo publicado pelo "Journal of Environmental Science and Technology", um típico microchip de dois gramas consome em sua fabricação 1,6 quilos de combustível fóssil, 72 gramas de produtos químicos e 32 quilos de água."

Como fica o sonho do futuro computadorizado perante fatos tão concretos?

Bem, pra terminar esta introdução da questão, procurei alguma definição boa de "custo ambiental", mas parece que isso ainda não está bem resolvido. Veja este trecho de uma dissertação da Universidade Federal de Santa Catarina:

"O termo custo ambiental é um termo, ainda hoje, de difícil conceituação, pois a literatura não apresenta uma definição clara e objetiva do que se considera como um custo ambiental. A primeira dificuldade que se encontra ao se trabalhar com os custos ambientais é o próprio fato de serem estes, em sua maioria, custos intangíveis.

A maioria dos autores que vem trabalhando com o termo custo ambiental trata este custo como uma externalidade. São exemplos Benakouche, Motta, Margulis, Pearce, entre outros.

Motta (1991) considera "externalidade"6 como sendo um custo externo, ou seja, aquele custo que muito possivelmente não é incorporado aos custos do produto. Haddad (1991, p. 13) acrescenta, ainda, que as externalidades existem "quando as relações de produção ou de utilidade de uma empresa ou indivíduo incluem algumas variáveis, cujos valores são escolhidos por outros, sem levar em conta o bem-estar do afetado e, além disso, os causadores dos efeitos não pagam nem recebem nada pela sua atividade".

Pois é. A questão do custo ambiental, que mal começou, está longe de terminar. Se quiser, deixe seu comentário ou leia mais sobre o consumo ético.

 


Fonte: Rodrigo Travitzki - topicostropicais.net


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Última atualização em Qua, 02 de Setembro de 2009 00:17