O "sistema anti-chute" do novo ENEM funciona mesmo?

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Quando escutei que o novo ENEM teria um sistema anti-chutes, achei ótimo. Sempre achei estas provas de múltipla escolha um tanto rudimentares. Meus alunos, diferentemente, não gostaram da mudança. Não porque sejam afeitos ao ato de chutar, mas por serem os principais envolvidos num jogo com regras mutantes. E porque será inevitável dar uma leve chutadinha na maratona ENEM 2009 (haja neurônio e chocolate). Mas afinal, chutar ou não chutar no novo ENEM? Será melhor deixar em branco ou jogar a moeda? Resolvi, então, ler mais um pouco sobre o assunto.


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Questões não esclarecidas sobre o "sistema anti-chute" do novo enem
Estudantes desaprovam "sistema anti-chute"
Como funciona o "sistema anti-chute"?

Para os alunos que estão se torturando no dilema "chutar ou não chutar", bastam as palavras de Rafael Targino:

"O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Reynaldo Fernandes, recomendou nesta quarta-feira (29) que os alunos não deixem questões em branco na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e "chutem" caso não saibam a resposta. Segundo ele, o computador vai ler como "errada" qualquer pergunta deixada sem resposta" Leia tudo no G1 (29/07/09)

Ou seja, o sistema anti-chutes do novo ENEM não deve ser levado tão a sério. Ao aluno bem aplicado, que sempre evita chutar, cabe ignorá-lo por completo.

No final colei um vídeo com a opinião de alguns alunos e uma explicação simples de como funciona o tal sistema. Depois de algumas leituras e conversas, sobraram muitas perguntas sobre o sistema anti-chute do enem.

Questões não esclarecidas sobre o "sistema anti-chute" do novo enem

Para possibilitar o sistema "anti-chute", a análise estatística identificará as questões fáceis e difíceis de um mesmo "assunto". Parte do pressuposto de que não é comum acertar uma questão difícil quando se errou uma questão fácil. Isso até pode fazer sentido dentro de um mesmo "assunto", dependendo do significado desta palavra. Pois bem, vamos às perguntas.

1- Que "assunto" é esse? As competências ou habilidades? (NOTA: vi agora na Revista Educação que são as habilidades) Estar em um mesmo "assunto" quer dizer pressupor os mesmos conhecimentos em graus diferentes? Não existe multiplicidade dentro de um "assunto"?

2- Também haverá diferença entre as alternativas fáceis e as difíceis de uma mesma questão? (Ninguém falou sobre isso, então provavelmente não terá. Este é um ponto a ser esclarecido.)

3- O cálculo da nota tem algum parâmetro do tipo "grau de chute do aluno", ou o "sistema antichute" atua apenas sobre cada questão isoladamente? (Nada foi dito, então supomos a segunda opção.)

4- Se evitar chutes é um objetivo importante, por que não radicalizá-lo? Seria o caso, por exemplo, de considerar que uma resposta errada anula uma certa. Assim, o aluno responderia apenas as perguntas que sabe responder. Avaliaríamos aquele que sabe o que sabe. Parece bom. Mas aposto que muitos são contra, e provavelmente por bons motivos. Vale uma reflexão mais aprofundada. Há provas que seguem este modelo, como o vestibular da UnB (Universidade de Brasília) e o concurso da Petrobrás.

5- Por que o novo ENEM está tão grande? Será para agradar às necessidades da nova estatística? Se for, estamos confundindo prioridades.

6- É coerente aumentar o esforço físico maratônico do ENEM e, ao mesmo tempo, dizer para os alunos não chutarem?

7- A prova do ENEM será tão bem feita quanto necessita a nova estatística?

8- É justo dizer para uma pessoa que ela foi avaliada segundo um cálculo que não pode entender completamente? Afinal, a soma (e subtração, no caso da UnB) pode ser tosca, mas pelo menos é transparente, democrática. Mas com a nova TRI, a educação vai ficando mais científica, ao mesmo tempo em que as pessoas envolvidas, professores e alunos, vão ficando mais ignorantes do assunto, mais alienadas de sua tarefa. A relação entre inovação científica e alienação não é nada nova, precisamos usar a sabedoria que a história nos permite ter.

 

Vale a pena ler a matéria sobre a nova estatística do ENEM que saiu agora na Revista Educação, "Difícil compreensão"

 

Estudantes desaprovam "sistema anti-chute"

Como funciona o "sistema anti-chute"?

"Nível
As questões do Enem serão divididas de acordo com o nível de dificuldade. A prova terá 25% de questões fáceis, 50% intermediárias e 25% difíceis

TRI
A metodologia utilizada na elaboração do exame é a Teoria de Resposta ao Item (TRI), que garante a comparabilidade das notas a partir da calibração do grau de dificuldade das questões. Ou seja, a nota do aluno não será calculada de acordo com o número de acertos, mas de acordo com a pontuação obtida em cada questão

Chute
A TRI permite identificar o perfil do aluno que acerta mais as respostas fáceis, as intermediárias e as difíceis. O sistema antichute consiste em detectar respostas fora do padrão. Dentro desse método, quem erra as questões simples não conseguirá acertar as complexas. Se o aluno foge desse padrão de respostas, é porque está "chutando"

Coerência
Os acertos do aluno, portanto, deverão ter coerência. A melhor saída será conseguir um índice de acertos equilibrados e que estejam de acordo com o padrão de respostas do aluno

Menos pontos
O peso atribuído ao acerto no chute será inferior à pontuação de quem responder a questão de modo correto por dominar o assunto"

Fonte: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2009/06/518240-enem+vai+usar+metodo+para+identificar+chutes+na+prova.html

 

Veja também a entrevista com Heliton Tavares, diretor de Avaliação da Educação Básica do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC que aplica o exame,

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/cpmod.php?id=38957

Última atualização em Sex, 18 de Abril de 2014 22:39  


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