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Rizoma

Das rizocárpicas à dinâmica intercultural

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Mais uma bela frase sobre os "rizomas vegetais" que pode ser fértil para a imaginação dos "rizomas metafóricos". O Brasil é o país do rizoma cultural...

Rizocárpica é o nome que se dá ao "vegetal cujas partes subterrâneas emitem anualmente brotos na superfície". Esta pode ser uma metáfora para representar as intenções do processo de cooperação científica que se começou a construir entre o Instituto de Etnologia e Antropologia Cultural da Universidade dos Estudos de Perúgia (Itália) e do Núcleo Mover do Centro de Educação da Universidade  Federal de Santa Catarina (Brasil), no sentido de contribuir para o desenvolvimento de práticas de educação intercultural.

Última atualização em Ter, 01 de Setembro de 2009 23:01 Leia mais...
 

Rizoma é um sistema aberto (Deleuze e Guattari)

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Afinal de contas, o que é um rizoma? Como um caule de planta pode nos ajudar a pensar o mundo moderno e a educação? Coloco abaixo mais um interessante trecho de Deleuze sobre este conceito, em entrevista publicada no jornal "Liberácion", em 23 de outubro de 1980:

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:10 Leia mais...
 

O conceito botânico de rizoma

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De onde Deleuze e Guattari tiraram a palavra rizoma? A origem botânica do conceito pode nos ajudar a entendê-lo melhor.

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"Rizoma é a extensão do caule que une sucessivos brotos. Nas epífitas é a parte rasteira que cresce horizontalmente no substrato. Ele pode ser bem extenso e semelhante a um arame ou bem curto, quase invisível. Dele partem o caule, pseudobulbos e raízes. Na espécie de Zygopetalum maxillare, quase sempre associada a uma samambaiaçu, o comprimento do rizoma entre os pseudobulbos pode variar. Elas produzem pequenos pseudobulbos seguidos por um longo trecho de rizomas e em seguida outro pequeno pseudobulbo, até alcançar a coroa da samambaiaçu na qual forma feixes e a floração aparece. Nas espécies terrestres o rizoma pode estar no subsolo ou na superfície do solo."

A grama é um exemplo bastante conhecido de planta rizomática, assim como o bambu e a cana de açucar - todos da família das gramíneas (Gramineae). A bananeira também tem rizomas, responsáveis por sua eficiente reprodução por "clonagem".

Neste outro site encontramos uma interessante explicação de como a grama "funciona":

"A grama é o nome comum da família de plantas Gramineae. Com mais de 9 mil espécies conhecidas, essa família é uma das maiores do planeta. As gramas têm uma estrutura muito simples. (...)

Há dois métodos principais de reprodução, nas gramas. Algumas têm hastes extras que crescem para os lados, abaixo do solo ou bem acima dele. As hastes que se arrastam pelo solo são chamadas de estolho e as hastes que crescem abaixo dele são chamadas de rizoma. As gramas usam estolhos e rizomas para se propagar e formar novos colmos. O estolho ou rizoma nutre a nova planta até que ela seja forte o bastante para sobreviver sozinha.

As gramas também têm flores"

E pra quê tudo isso? A grama tem alguma coisa de especial? Não produz frutos bonitos, flores cheirosas nem ervas medicinais! Por que toda esta apologia da relva? Vamos, então, um pouco mais a fundo na ontologia desta nobre monocotiledônia:

"Grama, o que é isso? São plantas modestas, muitas vezes desprezadas, raramente cheirosas, flores pouco vistosas, sem frutos atraentes. Com raras exceções, não apresenta porte alto e forte. Pisamos nela sem dó e só não as prejudicamentos se o pisoteio não for em excesso. Trafegamos nela com nossos veículos sem piedade. Existe outra planta que suporta tudo isso? E um detalhe importante: quando desejamos um gramado especialmente belo, cortamos a grama frequentemente, antes que as novas sementes amadureçam. Outras plantas logo desapareceriam com tratamento tão rude. A grama não, pelo contrário, brota da raiz formando um tapete verde de particular beleza.

Onde o clima permanece seco por um longo período, e outras plantas mal conseguem crescer, as gramíneas cobrem o solo densamente: nas estepes, nas savanas, nas pradarias e nos pampas. (...) é bom lembrar que as gramíneas são as principais plantas alimentícias não somente para nós, humanos. Os grandes mamíferos se alimentam predominantemente de gramíneas, sejam eles animais domésticos (...) ou sejvagens, como os búfalos, os antílospes, as gazelas..." (Reinhold Gabert, "O ser humano e os reinos da natureza". Ed. agroecológica)

>>Em síntese, por que o rizoma ajuda na sobrevivência da grama?

1- Permite sua reprodução (assexuada)

2- Permite ao organismo ocupar um território mais amplo e, em geral, mais heterogêneo

3- Muitos rizomas formam uma rede que confere maior resistência à grama, pois ela pode se nutrir de diferentes raízes (se uma estiver temporariamente sem água, há sempre outra)

4- O rizoma nutre os novos brotos até que possam formar suas próprias raízes

5-?

Isso tudo vale pra grama. E para as outras coisas? Será que podemos imaginar estas mesmas características se estivermos falando de "rizomas metafóricos"? Faça você mesmo este exercício, partindo das considerações acima.

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:18
 

Mil platôs: trechos selecionados do vol. 1 - rizoma

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O conceito de rizoma, inspirador deste portal, foi criado por Gilles Deleuze e Felix Guattari. Coloco abaixo alguns trechos do livro mil platôs, onde ambos desenvolvem esta interessante idéia.

Fonte:
Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 1, São Paulo, Editora 34, 1995,
http://www.dossie_deleuze.blogger.com.br/

*

"Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo "ser", mas o rizoma tem como tecido a conjunção "e... e... e..." Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser.

Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio." (Capa do livro)

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"1o e 2o - Princípios de conexão e de heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem."

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"Não existe locutor-auditor ideal, como também não existe comunidade lingüística homogênea. A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, "uma realidade essencialmente heterogênea". Não existe uma língua-mãe, mas tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política. A língua se estabiliza em torno de uma paróquia, de um bispado, de uma capital. Ela faz bulbo. (...)

Uma língua não se fecha sobre si mesma senão em uma função de impotência."

*

"3º- Princípio de multiplicidade: é somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo (...). As multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescentes. (...) Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza (as leis de combinação crescem então com a multiplicidade). Os fios da marionete, considerados como rizoma ou multiplicidade, não remetem à vontade suposta una de um artista ou de um operador, mas à multiplicidade das fibras nervosas que formam por sua vez uma outra marionete seguindo outras dimensões conectadas às primeiras"

*

"Não existem pontos ou posições num rizoma como se encontra numa estrutura, numa árvore, numa raiz. Existem somente linhas. Quando Glenn Gould acelera a execução de uma passagem não age exclusivamente como virtuose; transforma os pontos musicais em linhas, faz proliferar o conjunto"

*

"4° - Princípio de ruptura a-significante: contra os cortes demasiado significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas. É impossível exterminar as formigas, porque elas formam um rizoma animal do qual a maior parte pode ser destruída sem que ele deixe de se reconstruir"

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"5o e 6o - Princípio de cartografia e de decalcomania: um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer idéia de eixo genético ou de estrutura profunda."

*

"A árvore ou a raiz inspiram uma triste imagem do pensamento que não pára de imitar o múltiplo a partir de uma unidade superior, de centro ou de segmento. (...)

A estes sistemas centrados, os autores opõem sistemas a-centrados, redes de autômatos finitos, nos quais a comunicação se faz de um vizinho a um vizinho qualquer, onde as hastes ou canais não preexistem, nos quais os indivíduos são todos intercambiáveis, se definem somente por um estado a tal momento, de tal maneira que as operações locais se coordenam e o resultado final global se sincroniza independente de uma instância central."

*

"É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnoseologia, a teologia, a ontologia, toda a filosofia...: o fundamento-raiz, Grund, roots e fundations. O Ocidente tem uma relação privilegiada com a floresta e com o desmatamento; os campos conquistados no lugar da floresta são povoados de plantas de grãos, objeto de uma cultura de linhagens, incidindo sobre a espécie e de tipo arborescente; a criação, por sua vez, desenvolvida em regime de alqueire, seleciona as linhagens que formam uma arborescência animal. O Oriente apresenta uma outra figura: a relação com a estepe e o jardim (em outros casos, o deserto e o oásis) em vez de uma relação com a floresta e o campo: uma cultura de tubérculos que procede por fragmentação do indivíduo; um afastamento, um pôr entre parênteses a criação confinada em espaços fechados ou relegada à estepe dos nômades.

Ocidente, agricultura de uma linhagem escolhida com muitos indivíduos variáveis; Oriente, horticultura de um pequeno número de indivíduos remetendo a uma grande gama de "clones". Não existiria no Oriente, notadamente na Oceania, algo como que um modelo rizomático que se opõe sob todos os aspectos ao modelo ocidental da árvore? Haudricourt vê aí uma razão da oposição entre as morais ou filosofias da transcendência, caras ao Ocidente, àquelas da imanência no Oriente: o Deus que semeia e que ceifa, por oposição ao Deus que pica e desenterra (picar contra semear15).

Transcendência, doença propriamente européia. E, de resto, não é a mesma música, a terra, não tem aí a mesma música. E também não é a mesma sexualidade: as plantas de grão, mesmo reunindo os dois sexos, submetem a sexualidade ao modelo da reprodução; o rizoma, ao contrário, é uma liberação da sexualidade, não somente em relação à reprodução, mas também em relação à genitalidade. No Ocidente a árvore plantou-se nos corpos, ela endureceu e estratificou até os sexos. Nós perdemos o rizoma ou a erva. Henry Miller: "A China é a erva daninha no canteiro de repolhos da humanidade (...). A erva daninha é a Nêmesis dos esforços humanos. Entre todas as existências imaginárias que nós atribuímos às plantas, aos animais e às estrelas, é talvez a erva daninha aquela que leva a vida mais sábia. É verdade que a erva não produz flores nem porta-aviões, nem Sermões sobre a montanha (...). Mas, afinal de contas, é sempre a erva quem diz a última palavra. Finalmente, tudo retorna ao estado de China. É isto que os historiadores chamam comumente de trevas da Idade Média. A única saída é a erva (...). A erva existe exclusivamente entre os grandes espaços não cultivados. Ela preenche os vazios. Ela cresce entre e no meio das outras coisas. A flor é bela, o repolho útil, a papoula enlouquece. Mas a erva é transbordamento, ela é uma lição de moral."

*

"Um impasse, tanto melhor. Se se trata de mostrar que os rizomas têm também seu próprio despotismo, sua própria hierarquia, mais duros ainda, muito bem, porque não existe dualismo, não existe dualismo ontológico aqui e ali, não existe dualismo axiológico do bom e do mau, nem mistura ou síntese americana."

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