A terceirização da educação nos tempos de Rousseau

Qua, 10 de Março de 2010 11:39 Rodrigo Travitzki Princípios filosóficos
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Enquanto lia o famoso "Emílio", de Rousseau, me deparei com o trecho abaixo, e logo pensei na questão da terceirização da educação. O filósofo está comentando o hábito, entre as famílias européias de sua época, de enfaixar os bebês, enrolando-os em panos para que fiquem mais protegidos. É bem interessante a forma como ele tece seu raciocínio, fundamentado na experiência, valorizando os processos naturais e criticando o excesso de artificialidade. Para mim, este trecho é uma excelente metáfora da terceirização da educação como um todo, embora se trate apenas da questão do enfaixamento das crianças.

Uma observação:  o texto foi escrito em 1762, muito antes da chamada "revolução feminina", então é esperado que tenha certo caráter, como chamamos hoje, "machista".


"De onde vem esse hábito insensato? De um costume anti-natural. Desde que as mães, desprezando seu principal dever, não mais quiseram amamentar os filhos, foi preciso confiá-los a mulheres mercenárias que, vendo-se assim mães de filhos estranhos e não sentindo o apelo da natureza, não se preocuparam senão com poupar trabalho. Fora necessário vigiar sem cessar uma criança em liberdade, mas estando ela bem amarrada basta jogá-la num canto sem se incomodar com os gritos. Desde que não haja provas da negligência da ama, desde que o bebê não quebre o braço ou a perna, que importa afinal que morra aleijado para o resto da vida? Conserva-se seus membros a expensas de seu corpo e a ama é desculpada, aconteça o que acontecer.

Essas ternas mães que, livres de seus filhos, se entregam alegremente aos divertimentos da cidade, sabem porventura que tratamento recebe a criança em suas faixas na aldeia? Ante o menor aborrecimento que venha a ocorrer suspendem-na a um prego como um trapo; e enquanto, sem se apressar, a ama trata de seus afazeres, a infeliz fica crucificada. Todas as que foram encontradas nessa posição tinham a cara roxa. Com o peito fortemente comprimido, que impedia a circulação, o sangue subia à cabeça. E acreditava-se estivesse a paciente mui tranquila porque em verdade não tinha forças para gritar. (...)

Supõe-se que as crianças em liberdade podem colocar-se em más posições e efetuar movimentos suscetíveis de prejudicar a boa conformação de seus membros. Trata-se de um desses raciocínios gratuitos de nossa falsa sabedoria e que jamais uma experiência confirmou. Na multidão de crianças que, entre os povos mais sensatos do que nós, são criadas com inteira liberdade de seus membros, não se vê uma só que se fira ou se estropie. Não poderiam dar a seus movimentos a força que os tornariam perigosos. E quando se colocam numa posição errada, logo a dor as adverte de que devem mudar."

Retirado de:

ROUSSEAU, J.J. 1762. Emílio ou da Educação. Ed. Difel, Rio de Janeiro, 1979, pg. 18-19.

 

Última atualização em Qua, 10 de Março de 2010 12:03