Democracia e instituições, um pouco de Deleuze

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Para refletir sobre o papel da escola e da rede pública de ensino, um caminho é começar do começo. Qual é o papel das instituições?

No texto Instintos e instituições [1955], Deleuze faz algumas considerações que podem ser interessantes para aqueles que querem pensar a escola brasileira:

"Ora reagindo por natureza a estímulos externos (...). Ora instituindo um mundo original entre suas tendências e o mundo exterior, o sujeito elabora meios de satisfação artificiais, que liberam o organismo da natureza submetendo-o a outra coisa, e que transformam a tendência propriamente dita introduzindo-a num meio novo; é verdade que o dinheiro livra da fome, com a condição de possuímo-lo, e que o casamento poupa a busca de um parceiro, submetendo a outras tarefas. É dizer que toda a experiência individual supõe, como um a priori, a preexistência de um meio no qual é conduzida a experiência, meio específico ou meio institucional. O instinto e a instituição são as duas formas organizadas de uma satisfação possível"

"... a tirania é um regime onde há muitas leis e poucas instituições, a democracia, um regime onde há muitas instituições, pouquíssimas leis. A opressão se mostra quando as leis incidem diretamente sobre os homens, e não sobre instituições prévias que garantam os homens."

"... o instinto se acha na encruzilhada de uma dupla causalidade, aquela dos fatores fisiológicos individuais e aquela da espécie propriamente dita (...). <<A quem é útil?>> (...) A água que eu bebo, com efeito, não assemelha-se aos hidratos dos quais meu organismo carece."

Aqui Deleuze está chamando atenção que o instinto é não "individualista", ele satisfaz não só ao organismo como à espécie. E, ainda segundo ele, os instintos bem sucedidos, pertencentes a toda a espécie, são "irredutíveis", ou seja, não conseguimos compreendê-los a partir de outras coisas que conhecemos: eles são singulares. Aqui temos um interessante paralelo entre instinto e instituição. O autor termina destacando a importância de resgatarmos a dimensão coletiva da inteligência.

"É preciso decerto reencontrar a idéia de que a inteligência é coisa social mais que individual, e que ela acha no social o meio intermediário, o terceiro meio que a torna possível. (...) Não há tendência sociais, mas somente meios sociais de satisfazer as tendências, meios que são originais porque são sociais."

São belos trechos, não? Selecionei apenas alguns para facilitar a compreensão, há muito mais no texto original, aproveite para ler. E uma questão pode ficar para reflexão.

Que tipo de inteligência estamos estimulando em nossas instituições escolares? Como esta dimensão coletiva da inteligência é tratada em nossas escolas? Estará restrita a eventuais e desconexos projetos "transdisciplinares" sobre "cidadania"? Não deveria esse ser um objetivo central da escola pública?

Última atualização em Ter, 01 de Setembro de 2009 22:54  

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