A educação na mira do conservadorismo

Dom, 29 de Março de 2015 14:12 Vinicius Siqueira Em busca da democracia
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Já foi tratado no Rizomas a tentativa de se estigmatizar Paulo Freire como um doutrinador. Conforme o texto de Rodrigo Travitzki, mesmo este provavelmente não ser o pensamento majoritario da manifestação do dia 15 de março, é interessante observar que é uma forma de se expressar possível e aprovável socialmente. Se não fosse, não seria expressada.

No entanto, para além da constataçõa óbvia de que a pedagogia de Paulo Freire não é uma doutrinação, vale entender o próprio discurso do marxismo cultural. Primeimramente, qual é o medo em relação a Paulo Freire? Ele é um pedagogo claramente e assumidamente do oprimido. O que isso significa? Que sua pedagogia não serve para os designios do grande capital, da iniciativa privada, do individualismo e dos valores morais conservadores.

A pedagogia de Paulo Freire é dita doutrinadora porque faz com que o trabalhador pobre não abaixe a cabeça para seu patrão. No entanto, sabemos que muitas coisas são inseridas sob o rótulo de marxismo cultural. Esse rótulo não me parece ser só uma maneira boba de se referir às coisas que a direita conservadora não gosta. Na realidade, parece ser algo regido por regras anônimas que direcionam esta temática. É um discurso, no sentido foucaultiano do termo.

É notável que há uma certa maneira de se levar o marxismo cultural enquanto um tema conservador, que movimenta poder para a manutenção de uma ordem que de pouco em pouco estava sendo deixada para trás. Não há um objeto em particular neste discurso, nem conceitos fixos, muito menos um modo próprio de enunciação,  mas existe uma temática própria, escolhas estratégicas que são particulares a ele. Os conceitos podem se unir, mas logo são contrariados (vide a briga interna entre Rodrigo Constantino e Olavo de Carvalho), da mesma forma, podem tentar escolher obejtos específicos, mas que logo são modificados e o estilo da enunciação também varia da descrição econômica, argumentação filosófica, mas se anulam quando enfretam a abstração do idealismo filosófico e a cientificidade da econômia.

Segundo Zygmunt Bauman, a pós-modernidade é caracterizada por uma certa individualidade que se realiza por meio do consumo. Esse consumo é a forma de satisfazer desejos e a satisfação desses desejos é a forma de conseguir alcançar a tão almeijada felicidade. Talvez seja certo dizer que a felicidade do sujeito pós-moderno é relacionada com a liberdade em conseguir guiar a vida individualmente sem impedimentos do outro. Talvez, essa seja a característica prática do discurso do marxismo cultural: impedir a coletividade de se organizar e manter o senso de individualidade comi primazia social.

As consequências serão funestas: o capital com certeza ganhará força e toda alternativa social irá se submeter aos seus objetivos. Pararemos de discutir como superar o capitalismo (como já estamos fazendo de pouco em pouco) e ficarem presos em pautas específicas que se resumem no direito do consumo, como o constante crescimento das brigas por uma fatia de consumo dentro do mercado ou no posicionamento do direito dos consumidores como mais importante e popular do que o direito dos trabalhadores. Resta fazermos nossas escolhas e as aplicarmos.

A direita está se apropriando da educação, como conseguir fazer da educação algo autônomo?

Última atualização em Dom, 29 de Março de 2015 15:11