A felicidade de hoje é a tristeza de amanha? A polêmica entre Malthus e Condorcet

Imprimir

Todos queremos felicidade. Mas será que é possível ter felicidade para todos? Quando tentamos imaginar um mundo melhor, ou mesmo um ideal, uma utopia, nos deparamos com diversos obstáculos reais. Um deles, apelidado de "armadilha malthusiana", pode ser traduzido da seguinte forma: será que todos os seres humanos podem ser felizes de maneira duradoura e sustentável?

Vejamos o argumento todo. O homem é um ser vivo e tem necessidades básicas. A felicidade depende da satisfação das necessidades básicas. Um ser vivo satisfeito tende a viver mais e ter mais filhos. Sendo assim, a próxima geração será mais numerosa. Com o tempo, faltará comida para todos, levando à desnutrição e à infelicidade. Assim, a conclusão lógica e inescapável seria, poeticamente dizendo, a felicidade de hoje é a tristeza de amanhã.

Este princípio ecológico/econômico ficou famoso com os estudos de Malthus. Será que ele nos impede de buscar um mundo onde todos possam ser felizes? Ao que parece, não da forma imaginada por Malthus. Mas esta lógica continua existindo hoje dia em formas mais complexas.

 

 

Neste momento pretendo apenas ajudar a aprofundar a discussão trazendo trechos retirados de dois artigos (grifo meu).

Artigo 1: Quando o homem deixou de ser um animal?

Fernando Reinach

"Quando o homem deixou de ser um animal? Quando descobrimos o fogo ou ao perceber que éramos mortais? As respostas variam, mas, em um livro recém-publicado, Gregory Clark argumenta que o homem deixou de viver como um animal somente quando se livrou da "armadilha Malthusiana", o que teria ocorrido por volta de 1800.

É um conceito bem conhecido em Biologia. Malthus foi o primeiro a compreender a dinâmica das populações e sua interação com o ambiente. Suas idéias influenciaram Marx e Darwin. Para Malthus, cada espécie se reproduz o mais rápido possível, limitada por fatores ambientais, como falta de alimento ou predadores. Leões e gazelas são prisioneiros dessa armadilha. Se as gazelas aumentam em número, fica mais fácil para o leão caçar e a população de leões aumenta. O leão nunca gasta menos tempo caçando por existirem mais gazelas ou por ter descoberto um outro método de caça. Quando isso ocorre, o período de vacas gordas dura pouco tempo, pois rapidamente essa nova vantagem se transforma em um aumento da população de leões.

No caso dos seres humanos, novas tecnologias, como o fogo e a agricultura, poderiam ter tornado a vida mais fácil. O que Clark demonstra é que, até 1800, cada tecnologia descoberta pela humanidade foi imediatamente convertida em aumento da população e não em melhora na qualidade de vida. Em outras palavras, até 1800, o homem vivia preso à "armadilha Malthusiana" do mesmo modo que qualquer outro ser vivo."

O Estado de São Paulo, 13 setembro 2007
A propósito do livro de Gregory Clark: A Farewell to Alms
retirado do post "Escapando da prisão malthusiana"
http://praresenhas.blogspot.com/2007/09/142-escapando-da-priso-malthusiana.html

Artigo 2: A polêmica Malthus versus Condorcet reavaliada à luz da transição demográfica.

José Eustáquio Diniz Alves

"A humanidade tem futuro? O ser humano vai encontrar a prosperidade e a felicidade? É possível acabar com a pobreza e a ignorância? A escalada humana será marcada pela vitória e o sucesso ou pela derrota e o fracasso? As epidemias, a miséria e as guerras fazem parte de um destino inexorável ou serão, algum dia, apenas fatos relegados aos livros de história? A sociedade avança rumo ao progresso indefinido ou, ao invés, se distancia dos valores essenciais da natureza humana? As ciências e as artes contribuem para apurar ou corromper os costumes? O mundo caminha para o aperfeiçoamento da civilização ou para o retrocesso da barbárie? O bem-estar geral e a sociedade afluente são quimeras utópicas ou possibilidades reais no horizonte próximo dos habitantes do planeta Terra?

Muitas pessoas buscaram respostas para essas questões. As alternativas variam num arco de 180 graus. Em todas as épocas e lugares, otimistas e pessimistas sempre travam uma batalha pelo coração e mente de seus contemporâneos. Em 1794, Condorcet publicou o livro "Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano" apresentando uma visão positiva do desenvolvimento econômico, cultural e demográfico da humanidade, no qual dava uma resposta afirmativa para os questionamentos citados anteriormente. Em 1798, Malthus publicou a primeira versão do "Ensaio sobre a população" contestando as teses de Condorcet e de outros autores. A polêmica entre o sombrio Malthus e o reluzente Condorcet é mais um capítulo da interminável discussão sobre a epopéia terrestre, mas que apresentou uma novidade: o crescimento populacional se tornou, pela primeira vez, o ponto central na avaliação das limitações e oportunidades do progresso da sociedade humana. Malthus argumentou que o rápido incremento da população seria um entrave ao alcance de uma qualidade de vida decente para os habitantes de todo o mundo.

O embate entre Malthus e Condorcet, ocorrido no final do século XVIII, se deu num cenário em que prevaleciam altas taxas de mortalidade e fecundidade. Segundo Condorcet (1993) essas altas taxas eram frutos da ignorância, do fatalismo e do preconceito e poderiam ser reduzidas com a aplicação das luzes da inteligência, da razão e do progresso material da sociedade. Para Malthus (1983), contudo, as altas taxas de mortalidade e de fecundidade eram elementos de uma sina inevitável, fora do alcance da intervenção humana. A espécie humana não poderia, por simples esforços racionais, reduzir essas taxas e escapar da fome e da pobreza. (...) As leis demográficas e os rendimentos decrescentes da agricultura seriam, segundo Malthus, os fatores responsáveis pela miséria e a depauperação dos povos.

(...)

Na origem da polêmica entre Malthus e Condorcet, está a discussão entre população e desenvolvimento. Mas o debate e os acontecimentos evoluíram ao longo dos anos. A redução das taxas de mortalidade e natalidade modificou os parâmetros da polêmica. Os fatos mostram que desenvolvimento econômico e a transição demográfica nasceram no mesmo momento histórico, porém apresentam dinâmicas distintas. São dois fenômenos gêmeos, mas não siameses. Resgatar essa discussão é uma oportunidade para se traçar um panorama histórico sobre as implicações econômicas, sociais e políticas da transição demográfica e suas relações com o processo de modernização ocorrido nos últimos duzentos anos. Permite, também, verificar em que sentido as transformações dos dois séculos passados lançam luz sobre as perspectivas do século XXI. Espera-se que a comparação histórica de longo prazo sirva para mostrar que, dadas certas condições, o sonho de Condorcet ainda pode se tornar realidade, apesar de a realidade estar distante do que foi sonhado."

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. R de Janeiro, 2002.
A POLÊMICA MALTHUS VERSUS CONDORCET REAVALIADA À LUZ DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA

 

Última atualização em Qui, 04 de Março de 2010 20:58  

Textos Recomendados

Educação após Auschwitz
Theodor Adorno

A crise na educação
Hannah Arendt

Proposta pedagógica e autonomia da escola
José Mário Pires Azanha

A cultura escolar brasileira...
José Mário Pires Azanha

Podem a ética e a cidadania ser ensinadas?
José Sérgio de Carvalho

Transversalidade e meio ambiente
Silvio Gallo

Aproveite para ler também...

O Narrador (versão em Espanhol)
Walter Benjamin

Carta Capital - Política


Estudar filosofia é importante para ser um cidadão?
 

Selecione uma palavra-chave

Artigos mais lidos desta categoria

Princípios da Democracia Grega

Em busca da democracia
Diretamente da aula do Zé Sergio (Filosofia da Educação, USP), seguem 3 conceitos fundamentais para a democracia grega, que são de grande valia para quem quer fazer educação de maneira respons...(56737)

O que é utopia?

Em busca da democracia
Há muitas definições por aí. "Lugar que não existe", "ideal", etc. Vamos chamar o "pai dos burros" para dar uma base mais sólida ao trabalho Utopia e cotidiano: buscando práticas idealistas ou...(42191)

87% da comunidade escolar tem preconceito contra homossexuais, diz pesquisa

Em busca da democracia
DEU NA AGÊNCIA BRASIL "Nas escolas públicas brasileiras, 87% da comunidade – sejam alunos, pais, professores ou servidores – têm algum grau de preconceito contra homossexuais. O dado faz part...(12248)

Três modelos de democracia - slideshow

Em busca da democracia
Esse encontrei no slideshare, uma bela ferramenta cibernética para os professores. Trata da democracia de massas, a representativa, e o modelo mais recente, fundado na opinião pública. Modelo...(12234)

O que é economia solidária?

Em busca da democracia
Dizer que o capitalismo cria desigualdades já virou frase sem efeito. É inviável, contraditório, injusto, tudo isso, mas no fundo, quem tem capital gosta do capitalismo. E mesmo quem não tem t...(11756)