O que é vida? Trechos selecionados de Schrödinger

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Erwin Schrödinger fez muita coisa na vida. Inventou uma equação que lhe garantiu papel central na mecânica quântica, ganhou o prêmio Nobel, botou um gato dentro de uma caixa que até hoje ninguém sabe se morreu ou não. E nas horas vagas fez algumas conferências e palestras que acabaram virando textos muito interessantes.

Vejamos dois deles: “O que é vida? O aspecto físico da célula viva” (1944) e “Mente e Matéria” (1956). Selecionei abaixo alguns trechos que podem nos ajudar a entender um pouco melhor a natureza da vida (segundo “os físicos”).

 

O que é vida? (1944)

A proposta do livro

Como podem eventos no espaço e no tempo, que ocorrem dentro dos limites espaciais de um organismo vivo, ser abordados pela física e pela química? A resposta preliminar que este pequeno livro se esforçará por expor e estabelecer pode ser resumida como:

A óbvia incapacidade da física e química atuais para lidar com esses assuntos não é, de forma alguma, razão para duvidar de que eles possam ser abordados por essas ciências.” pg 18

 

A vida poderá desvendar novas leis da física

A partir da imagem geral de Delbrück acerca da substância hereditária, temos que a matéria viva, embora não escape às “leis da física” tal como hoje se encontram estabelecidas, parece envolver “outras leis da física” até aqui desconhecidas, as quais, no entanto, uma vez reveladas, virão a formar parte integral dessa ciência, assim como as anteriores o formam.” Pg.80

 

A diferença entre o vivo e o não-vivo

“Qual a característica particular da vida? Quando se pode dizer que uma porção de matéria está viva? Quando ela “faz alguma coisa”, como mover-se, trocar material com o meio etc., e isso por um período muito mais longo do que esperaríamos que uma porção de matéria inanimada o fizesse nas mesmas circunstâncias. Quando um sistema não-vivo é isolado ou colocado em um ambiente uniforme, usualmente todo o movimento cessa depressa, como resultado de vários tipo de fricção; diferenças de potencial químico ou elétrico são equalizadas, substâncias que tendem a formar compostos químicos o fazem e a temperatura se torna uniforme por condução térmica. Depois disso, todo o sistema míngua para um bloco inerte e morto de matéria. É atingido um estado permanente, no qual não ocorre nenhum evento observável. O físico dá a esse estado o nome de equilíbrio termodinâmico ou estado de “entropia máxima”.

Na prática, um estado desse tipo é atingido muito rapidamente. Na teoria, muito frequentemente não se trata de equilíbrio absoluto nem verdadeiramente de entropia máxima. Mas, a partir de então, a aproximação até o estado de equilíbrio é muito lenta. Pode-se levar qualquer coisa como horas, anos ou séculos...

(...)

É por evitar o rápido decaimento no estado inerte de “equilíbrio” que um organismo parece tão enigmático. Assim é que, desde os mais remotos tempos do pensamento humano, afirma-se que uma força especial não-física ou sobrenatural (vis vivs, enteléquia) opera no organismo, e, em alguns recantos, ainda se afirma isso.”pg 81-82

 

Do que nos alimentamos?

Como um organismo vivo evita o decaimento? A resposta óbvia é: comendo, bebendo, respirando e (no caso das plantas) assimilando. O termo técnico é metabolismo. A palavra grega (metábole) quer dizer troca ou câmbio. Câmbio de quê? Originalmente, a idéia básica era, sem dúvida, troca de material. (...) É absurdo que a troca de material seja o essencial. Qualquer átomo de nitrogênio, oxigênio, enxofre etc. É tão bom quanto qualquer outro de seu tipo. O que se ganharia em trocá-los? Por algum tempo, no passado, nossa curiosidade foi silenciada por nos dizerem que nos alimentávamos de energia. (...) Desnecessário dizer que, tomado ao pé da letra, isso é um absurdo. Para um organismo adulto, o conteúdo de energia é tão estacionário quanto o conteúdo material. Já que, por certo, uma caloria é tão boa quanto qualquer outra, não se consegue ver qual o interesse de uma troca pura e simples.

O que é então esse algo tão precioso contido em nosso alimento, e que nos livra da morte? (...) tudo o que acontece na Natureza significa um aumento da entropia da parte do mundo onde acontece. Assim, um organismo vivo aumenta continuamente sua entropia – ou, como se poderia dizer, produz entropia positiva – e, assim, tende a se aproximar do perigoso estado de entropia máxima, que é a morte. Só posso me manter distante disso, isto é, vivo, através de um processo contínuo de extrair entropia negativa do ambiente, o que é algo muito positivo, como já veremos. Um organismo se alimenta, na verdade, de entropia negativa. Ou, exprimindo o mesmo de modo menos paradoxal, o essencial no metabolismo é que o organismo tenha sucesso em se livrar de toda a entropia que ele não pode deixar de produzir por estar vivo.” pg 82-83

 

Mutação demonstra a extrema ordem microscópica gerando a ordem macroscópica

O desdobramento de eventos no ciclo de vida de um organismo exibe uma admirável regularidade e ordem, sem comparação com qualquer coisa que encontramos na matéria inanimada. Descobrimos que esse ciclo é controlado por um grupo de átomos supremamente bem ordenado, que representa apenas uma fração muito pequena da soma total de átomos em toda a célula. Além disso, do ponto de vista que formulamos acerca do mecanismo de mutação, concluímos que basta o deslocamento de uns poucos átomos apenas dentro de grupo de “átomos dirigentes” da célula germinativa para fazer aparecer uma alteração bem definida nas características de larga escala do organismo.

Esses fatos são, por certo, o que de mais interessante a ciência revelou em nossos dias.” pg 88

 

O corpo é um relógio complicado? Mecanismo e organismo

Analisemos cuidadosamente o movimento de um relógio de verdade. Não se trata, absolutamente, de um fenômeno puramente mecânico. Um relógio puramente mecânico não precisaria de mola nem de corda. Uma vez posto em movimento, continuaria assim para sempre.

(...)

Depende inteiramente de nossa atitude o fato de o movimento de um relógio ser atribuído a eventos sujeitos a leis de tipo estatístico ou dinâmico.

(...)

Mecanismos são capazes de funcionar “dinamicamente” porque são constituídos de sólidos, que são mantidos em sua forma pelas forças de London-Heitler, fortes o suficiente para evitar a tendência à desordem do movimento térmico à temperatura normal. (...)

(o ponto de semelhança entre mecanismos e organismos) se assenta, simplesmente, no fato de que o último também se vale de um sólido – o cristal aperiódico constituinte da substância hereditária (o cromossomo), o qual muito se afasta da desordem

(...) a singular engrenagem (o cromossomo) não é de grosseira manufatura humana, mas a mais requintada obra-prima já conseguida pelas leis da mecânica quântica do Senhor.” pg 92-95

 

Determinismo e livre arbítrio

vejamos se não somos capazes de extrair a conclusão correta, não-contraditória, das duas premissas seguintes:

(i) Meu corpo funciona como um puro mecanismo, de acordo com as Leis da Natureza.

(ii) Ainda assim, sei, por experiência direta incontestável, que comando seus movimentos, dos quais prevejo os efeitos, que podem ser decisivos e extremamente importantes, em cujo caso sinto e assumo por eles total responsabilidade.

A única inferência possível a partir destes dois fatos, imagino, é que eu – eu no sentido mais amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que jamais disse ou sentiu “eu” - sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla “o movimento dos átomos”, de acordo com as Leis da Natureza. (...) Em si, a idéia não é nova (...) Desde os primitivos grandes Upanixades, no pensamento indiano, a identificação de ATHMAN=BRAHMAN (o eu pessoal iguala-se ao eu eterno, e onipresente e onisciente), longe de constituir uma blasfêmia, representava a quintessência da mais profunda intuição quanto aos acontecimentos do mundo.” pg 98

 

Mente e matéria (1956)

“...que propriedades particulares distinguem estes processos cerebrais e lhe permitem produzir a evidência (a consciência)? Poderíamos adivinhar quais processos materiais teriam este poder e quais não o teriam? Ou, mais simplesmente, que espécie de processo material está diretamente associado à consciência?” pg 107

De acordo com Espinosa, toda coisa ou ser particular é uma modificação da substância infinita, isto é, de Deus. Expressa-se por meio de cada um dos atributos de Deus, em particular o da extensão e o do pensamento. (...) Mas, para Espinosa, qualquer coisa corpórea inanimada é ao mesmo tempo também “um pensamento de Deus”, isto é, persiste também no segundo atributo. Encontramos aqui o audaz pensamento da animação universal, embora não pela primeira vez, nem sequer mesmo na filosofia ocidental. Há dois mil anos, os filósofos jônicos ganharam, por causa disso, o epíteto de hilozoístas. Depois de Espinosa, o genio de Gustav Theodor Fechner não teve medo de atribuir uma alma a uma planta, à Terra como corpo celeste, ao sistema planetário etc. (...) Não concordo com essas fantasias...” pg. 108

Para mim, a chave deverá ser encontrada nos seguintes fatos bem conhecidos. Qualquer sucessão de eventos nos quais tomemos parte por meio de sensações, percepções e , possivelmente, de ações, gradualmente cairá fora do domínio da consciência quando a mesma seqquência de eventos se repetir, da mesma maneira e com elevada frequência. Mas será imediatamente elevada à região consciente se, em tal repetição, a ocasião ou as condições ambientais encontradas em sua busca diferirem daquelas que existiram em todas as incidências anteriores. (...)

os diferenciais, variantes de resposta, bifurcações etc, empilham-se uns sobre os outros, em insondável abundância, mas somente os mais recentes permanecem no domínio da consciência, somente aqueles em relação aos quais a substância viva ainda se encontra no estáfio de aprendizado ou prática. Poder-se-ia dizer, metaforicamente, que a consciência é o tutor que supervisiona a educação da substância viva, mas deixa seu aluno sozinho para que lide com todas aquelas tarefas para as quais já esteja suficientemente adestrado.” pg 111

Galeno nos preservou um fragmento (Diels, fragmento 125), no qual Demócrito introduz o intelecto em plena discussão com os sentidos acerca do que é “real”. O primeiro diz: “Existe ostensivamente cor, existe ostensivamente doçura, ostensivamente amargor, e na verdade apenas átomos no vácuo”, ao que os sentidos respondem: “pobre intelecto, esperas derrotar-nos ao mesmo tempo que tomas de nós tua evidência? Tua vitória é tua derrota.

Neste capítulo, tente, através de exemplos simples, tomados da mais humilde das ciências, a saber, a física, contrastar dois fatos geniais: (a) que todo conhecimento científico está baseado na percepção sensorial, e (b) que, apesar disso, a visão científica assim formada dos processos naturais carece de todas as qualidades sensoriais e portanto não pode dar conta das mesmas.” pg.174

Fonte:

Schrödinger, Erwin. O que é Vida? O Aspecto Físico da Célula Viva - seguido de Mente e Matéria. São Paulo, UNESP, 1997

 

Última atualização em Qui, 03 de Setembro de 2009 10:56  


Na sua escola, o currículo de biologia é muito "pesado" e "cheio de palavras"?
 

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