Como valorizar o professor brasileiro?

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Esta é uma daquelas questões que pode não terminar nunca (para aqueles que gostam de uma boa discussão) ou nem sequer ser feita (pelos tipos mais "práticos" ou adoradores do "choque de gestão"). Pode também ser encarada como um ciclo vicioso: o professor é ruim porque não é valorizado, e não é valorizado porque é ruim. Este é o tipo de argumento para quem não quer discutir ou que não acredita na reflexão como forma de ajudar nas políticas de educação brasileiras. Não é nada contra o professor, o aluno, ou mesmo o político. O problema é estrutural, é cultura, é o Brasil, é o capital, etc e tal.

Pois bem. Esta não parece uma linha de conduta muito construtiva. Tampouco contrutivo é o clássico "otimismo ingênuo". No caminho do meio buscamos a verdade. Conhecer as limitações e as potencialidades a fundo, saber como usá-las, quando, e pra quê. Enfim, são só palavras, desejos...

Escrevi este artigo depois de ler uma reportagem, de Fábio Takahashi (Folha- 09/06/2008), que destaca uma importante limitação na busca pela valorização do professor brasileiro:

"O Brasil atrai para o magistério os profissionais que possuem mais dificuldades acadêmicas e sociais (...)

uma das constatações do levantamento é que apenas 5% dos melhores alunos que se formam no ensino médio desejam trabalhar como professores da educação básica, que abrange os antigos primário, ginásio e colegial. Os pesquisadores delimitaram o patamar de estudantes "top" naqueles que ficaram entre os 20% mais bem colocados no Enem 2005 (Exame Nacional do Ensino Médio, do governo federal).

Dentro do grupo dos melhores, 31% querem a área da saúde e 18%, engenharia, afirma o levantamento.

"Com base nos questionários do Enade (o antigo provão), o estudo identificou que os alunos de pedagogia (curso que forma professores para os primeiros anos do ensino fundamental) vêm de famílias de baixa renda e têm mães com pouca escolarização --condições que apontam maiores chances de dificuldades acadêmicas."

Esta alta escolha por "medicina" e engenharia reflete uma tradição bem antiga no Brasil. Se não me engano, hoje há excesso de médicos formados e faltam profissionais em diversas outras áreas, como informática e administração. A própria escolha dos alunos pelos cursos já não é feita de maneira muito inteligente do ponto de vista dos "interesses nacionais". Os estudantes não têm acesso a informações públicas sobre oferta e demanda de emprego (eu pelo menos nunca vi nada do gênero). Tem apenas reportagens esporádicas de uma imprensa nem sempre confiável e o senso comum, onde reside o velho pensamento "vá ser médico, advogado ou engenheiro e se dê bem na vida". Aliás, cadê os futuros mestres da lei?

A esta tradição antiga se une uma tradição mais recente, mas que fica parecendo tão antiga quanto a primeira: a desvalorização do professor. Os cidadãos mais velhos e ilustrados (de forma geral, os que mandam) lembram de seus antigos professores (públicos) com bucólica admiração. Os novatos no mundo educativo, por sua vez, a grande maioria da população, parecem não ter muitos motivos para admirar aquelas pessoas que seriam os guardiões da cultura. Talvez não admirem as pessoas, talvez não gostem da própria cultura. Talvez a escola não saiba que deva proteger a cultura, ou quem sabe esteja tentando despejar sobre estes novatos uma imitação barata de Oxford, Cambridge ou algo do gênero.

Enfim, como valorizar o professor brasileiro? Dinheiro, sem dúvida, é fundamental. Mas não trata-se apenas de aumentar sálário, e sim de tratar o dinheiro do professor com respeito. Já ouvi relatos confiáveis de professores que recebem os bonus (ou outros aditivos salariais) todos juntos num bolão, que é só para aumentar a porcentagem de juros que o governo come. Isto é um verdadeiro absurdo! E não se trata apenas de 50, 100, 500 que se perde, por que isto a gente até dá um jeito. Mas a dignidade é uma coisa bem mais difícil de se recuperar.

Precisamos recuperar a dignidade daqueles que tentam proteger a cultura num mundo que desvaloriza aquilo que dura muito - por que é pouco rentável. Enfim, palavras, frases de efeito.

Quando estamos diante de um ciclo vicioso, precisamos de princípios. Um ponto de partida que escolhemos com a nossa consciência. Eu, particularmente, acredito que devemos partir do pressuposto de que as pessoas são inteligentes. Sei que muitos ganham dinheiro partindo do princípio inverso, mas educação não é uma forma de comércio. Pelo menos a educação pública. Acredito que as pessoas são inteligentes e minimamente egoístas. Não que sejam sempre egoístas ou que o altruísmo consista numa ilusão ou evento raro. Muito pelo contrário, creio que a sociedade não seria viável se as pessoas não fossem, na maior parte do tempo, solidárias (muitas vezes inconscientemente). Mas para se elaborar políticas destinadas a todos, precisamos criar mecanismos que dificultem o chamado "egoísmo destrutivo".

Mas ai eu pergunto: em que medida as políticas atuais de educação partem do principio de que o professor é inteligente? Como queremos ter bons professores se criamos condições que restrinjam aquilo que mais deveríamos valorizar neste profisional?

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:23  


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