Planejando o currículo em tempos de Enem

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Agora que o ano letivo está terminando, pilhas de provas rabiscadas com caneta vermelha, a última coisa que passa pela cabeça do professor é pensar em mais trabalho. Mas aí vai uma pequena dica: anote rapidamente tudo isso que passa pela sua cabeça agora, antes que as férias limpem tudo. Coisas que deram certo, que não deram, ideias para novas aulas, atividades, parcerias, materiais didáticos, tudo que pode fazer seu próximo ano ser melhor do que esse. Estou falando de planejamento curricular. Pode não parecer uma boa hora, mas acredite: o final de um período é o melhor momento para se esboçar planos para o próximo. Aproveitando a deixa, vou contar um pouco do que aprendi sobre currículo e sobre o ENEM, tentando articular um pouco os dois.

Primeiros passos

Lembro de quando planejei pela primeira vez o curso de Biologia que, depois de 10 anos, se tornaria uma espécie de obra pessoal, como se fosse uma obra de arte, só que de uma arte cuja beleza não é fácil de ser vista. Olhando agora para o curso que montei no Colégio Equipe, sinto grande felicidade, mas lembro também de como foi árduo o trabalho para criá-lo. Especialmente nos primeiros anos lembro de ter muitas dúvidas, passar por crises profundas depois de "brigas" com uma classe, de ter poucas referências nas quais confiar.

Ah como eu queria um "currículo completo" naquela época, algo feito por especialistas confiáveis e que me mostrasse o caminho das pedras. Pena que... bom, isso não existe. Hoje não acho que haja um único e imutável caminho das pedras na educação e, mais especificamente, no currículo escolar. É preciso aprender a encontrá-lo sempre que necessário, mas também é preciso saber nadar, porque nem sempre há um atalho entre dois pontos.

Foram muitas tentativas, algumas não deram certo, outras surpreenderam, o curso evoluiu numa espécie de seleção natural, mantendo aquilo que funcionava e mudando, ou excluindo, o que não dava certo. Depois de alguns anos, com a experiência na sala de aula, com os retornos nas provas e trabalhos, foi ficando mais claro pra mim o que valia a pena ensinar, quando ensinar, como ensinar – especialmente porque permaneci na mesma escola durante todo esse tempo, e então pude me adaptar ao seu modo particular de ser e de ensinar.
Conto um pouco dessa minha trajetória porque para quem não tem alguns anos de sala de aula as questões de currículo podem parecer impossíveis de se resolver, seja por parecerem muito complexas ou, no outro extremo, por uma simplificação exagerada, que só leva em conta um ponto de vista. Não é à toa que um dos grandes interessados num currículo bem definido é justamente o professor menos experiente, que não se sente muito seguro de estar fazendo bem o seu trabalho.

Buscando referências

Lembro, nos meus primeiros anos de docência, que gostei de ler os Parâmetros Curriculares Nacionais, mas depois senti necessidade de uma referência mais específica para planejar, aula a aula, um curso de três anos. Buscava algo além do já havia no colégio, buscava uma referência mais "oficial", nacional. E, felizmente, me foi dado todo o apoio para fazê-lo, tanto pelo antigo professor de Biologia quanto pelo diretor.

Olhei então, com calma, o livro didático de Biologia mais utilizado nas escolas que conhecia e achei que havia muita coisa ali – como em todos os livros de Biologia, aliás – para que ele pudesse ser considerado a principal referência curricular do curso. Afinal, qualquer currículo precisa de um núcleo central, seja qual for o nome que você dê a isso. E ele não pode incluir "tudo que for importante". Até porque hoje em dia sabemos (coletivamente) muitas coisas importantes, simplesmente não cabe isso tudo em um indivíduo, não é mecanicamente possível na maquinaria cerebral.

Por fim, acabei lendo os conteúdos de Biologia requisitados nos exames vestibulares – inicialmente a FUVEST e COMVEST, e depois também o ENEM. Lá encontrei referências mais específicas e esclarecedoras, embora ainda excessivas na minha opinião. E ainda havia a vantagem adicional de que estas referências curriculares seriam "úteis aos alunos", pois o vestibular tem uma importância real e prática, ele pode inclusive definir a carreira profissional.

A partir de todas essas referências, fui montando o currículo de acordo com as minhas capacidades e as respostas dos alunos. Imagino que a maioria dos planejadores de currículo (sejam os próprios professores ou outros profissionais) também busque referências nestas fontes. Com a implantação do SISU, do ranking de escolas, da certificação de Ensino Médio, o ENEM passou a ter uma importância ainda maior e, com isso, aumentou sua influência sobre o currículo. Influência que, evidentemente, tem seus aspectos positivos e negativos, sobre os quais vou tentar falar um pouco.

Quando o ENEM atrapalha?

Em que medida o ENEM pode atrapalhar? Em termos do sistema de ensino, os exames em larga escala podem empobrecer o currículo, caso se priorize demais as matérias que caem na prova, ou caso se priorize o "formato ENEM" de avaliação. Mas também pode ocorrer o inverso, esse "empobrecimento" pode se mostrar na verdade um "enxugamento" inteligente, ajudando a remodelar o complicado e gigantesco currículo brasileiro (tomando como referência os livros e vestibulares). Os "cientistas da educação" estão discutindo essas coisas, atualmente.

Para o professor, o ENEM pode atrapalhar, por exemplo, se for dada muita atenção às questões difíceis, numa tentativa de garantir um "curso de excelência". Isso porque o ENEM tem questões muito fáceis e também muito difíceis, afinal ele serve pra muitas coisas. Então o foco excessivo nas questões difíceis pode distorcer a proposta do ENEM, que é de avaliar competências gerais. É aí que deve ser o foco do professor quando for utilizar questões do ENEM.

O que se justifica até do ponto de vista da Teoria da Resposta ao Item (TRI, a moderna teoria dos testes), pois de pouco adiantará o aluno acertar uma questão difícil, caso erre muitas questões fáceis. A TRI poderá identificar este acerto como um "chute". Isso significa que o professor está ajudando o aluno a ter uma boa pontuação no ENEM quando concentra mais nas questões fáceis e médias, do que perdendo muito tempo nas questões difíceis em busca da excelência.

Quando o ENEM ajuda?

Pois bem, como o ENEM pode ajudar o professor a pensar no seu currículo? Acho que, conhecendo melhor o ENEM e, a partir disto, tomando-o como uma referência importante para o curso, o professor pode caminhar no sentido de uma boa educação. A questão da importância das questões médias e fáceis na Teoria da Resposta ao Item é um exemplo. Outro exemplo é o foco (da maioria) dos itens na resolução de problemas, na capacidade de mobilizar informações. São habilidades que fazem sentido de serem ensinadas em qualquer escola, podem ser adaptadas a diferentes conteúdos, e ainda liberam o professor da necessidade de ensinar "tudo que é importante". Não se trata aqui de "nivelar por baixo", mas sim de ensinar melhor ensinando menos.

Claro que há muito o que melhorar no ENEM, mas ele me parece um avanço em relação ao que se tinha antes. Aliás, com a partidarização de tudo – como tem sido costume nesse ano – ele pode ser utilizado contra ou favor qualquer um dos "lados". Começou em 1998, com o governo do PSDB, foi se transformando e se tornou uma espécie de "vestibular nacional" no governo do PT. Há diferenças de rumos nos diferentes períodos mas, no fundo, o ENEM surgiu e se desenvolveu aos moldes da educação americana e mundial, não é uma jabuticaba nem um bicho de sete cabeças. É uma política de Estado, afinal. O tamanho do exame certamente o distingue de outros, embora os chineses sejam sempre campeões em números absolutos. Talvez seja, aí sim, o único exame do mundo a possibilitar a um cidadão que nunca botou os pés na escola, frequentar uma universidade boa e gratuita.

Não é à toa que o ENEM não é moleza. Mas, até onde eu posso ver, o ENEM veio para ajudar o professor que souber utilizá-lo, desde que seja visto como um meio e não um fim em si mesmo.

Última atualização em Ter, 09 de Dezembro de 2014 09:04  


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