Escola forte pode gerar fragilidade emocional

Qua, 03 de Agosto de 2011 09:13 Rodrigo Travitzki Métodos de ensino
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Na revista Época dessa semana há uma interessante reportagem sobre as chamadas escolas "tradicionais", consideradas "fortes" em virtude de bons resultados em vestibulares e no ENEM. Não é raro observar, nas revistas semanais, artigos de opinião criticando as chamadas escolas "alternativas" ou enaltecendo as primeiras colocadas nos rankings nacionais.

É claro que os pais desejam uma carreira de sucesso para os filhos e, com base em tais informações, acabam procurando as instituições no topo do ranking. Nesse sentido, a escola vai deixando de ser um lugar para proporcionar o desenvolvimento pleno do ser humano, tornando-se cada vez mais um grande cursinho, uma longa preparação para testes. Não há trabalho em grupo nem discussão de valores éticos, não há tempo para reflexão, não há estímulo ao encontro e à amizade. A escola se justificaria apenas pelo ENEM e pelos vestibulares. Como no filme Harry Potter e a Ordem da Fênix, a escola deixa de ensinar os alunos a fazerem feitiços, pois sua finalidade é preparar para os exames finais.

Claro que este não é um tema simples, preto e branco, bom e mau. Não estou aqui defendendo a extinção das escolas tradicionais, muito pelo contrário. Como biólogo, sou mais favorável à diversidade do que à extinção. O que considero louvável nessa reportagem é justamente o contraponto, o aprofundamento da discussão, a recusa à simplificação excessiva (e mercadológica) da instituição escolar e seus efeitos nas crianças. Veja um trecho abaixo.

 


"Consideradas as melhores do país, quase sempre campeãs nas provas nacionais de avaliação, as escolas de ensino tradicional representam, na mente de muitos pais, uma esperança de sucesso para a vida dos filhos num mercado de trabalho competitivo. Apesar de seus resultados inquestionáveis e da procura crescente por escolas desse tipo, esse modelo agora começa a ser mais e mais questionado por seus efeitos colaterais.

O ensino tradicional surgiu na Europa do século XVIII como um modelo em que os alunos são ensinados e avaliados de forma padronizada. Ele se inspira na ideia de que a mente das crianças é uma tabula rasa, um espaço em branco sobre o qual os diversos conteúdos – gramática, matemática, ciências, história etc. – devem ser inscritos seguindo um método rigoroso de exposição e avaliação. Mais do que qualquer outra aptidão, valoriza o acúmulo de conhecimento: quanto mais fatos e fórmulas o aluno aprende, mais bem avaliado ele é.

Há, ainda, uma forte pressão por desempenho nas provas e um grande volume de conteúdo a estudar. As escolas tradicionais também costumam ser mais rígidas em regras de comportamento, como respeito ao horário, frequência às aulas, uso de uniforme e atitude no recreio. Apesar de ter incorporado conceitos pedagógicos mais modernos, a essência do modelo tradicional de ensino permanece a mesma – e a educação tradicional está em alta no mundo, com filas de espera para matrículas e salas abarrotadas de alunos."

 

Fonte:
O ponto fraco do ensino forte (Revista Época)
por Martha Mendonça e Margarida Telles

Última atualização em Qua, 03 de Agosto de 2011 10:02