Comenius - Didática Magna - livro completo

Imprimir

Para quem quiser ter contato mais direto com as raízes da escola moderna, este livro é uma boa pedida. Diz o wikipedia sobre o autor:

"Jan Amos Komenský (em latim, Comenius; em português, Comênio) (28 de março de 1592 - 15 de novembro de 1670) foi um professor, cientista e escritor checo, considerado o fundador da Didáctica Moderna.

Propôs um sistema articulado de ensino, reconhecendo o igual direito de todos os homens ao saber. O maior educador e pedagogo do século XVII produziu obra fecunda e sistemática, cujo principal livro é a DIDÁTICA MAGNA. São suas propostas:

  • >> A educação realista e permanente;
  • >> Método pedagógico rápido, económico e sem fadiga;
  • >> Ensinamento a partir de experiências quotidianas;
  • >> Conhecimento de todas as ciências e de todas as artes;
  • >> Ensino unificado."

Didactica Magna (1621-1657)
Iohannis Amos Comenius (1592-1670)

orbis-comenius

ÍNDICE

DIDÁTICA MAGNA

SAUDAÇÃO AOS LEITORES

UTILIDADE DA ARTE DIDÁTICA

ASSUNTOS DOS CAPÍTULOS

Nota do Editor

Notas do Tradutor

Nota de Copyright

COMENIUS

DIDÁTICA MAGNA

Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos


Processo seguro e excelente de instituir, em todas as comunidades de qualquer Reino cristão, cidades e aldeias, escolas tais que toda a juventude de um e de outro sexo, sem excetuar ninguém em siveiarte alguma, possa ser formada nos estudos, educada nos bons costumes, impregnada de piedade, e, desta maneira, possa ser, nos anos da puberdade, instruída em tudo o que diz respeito à vida presente e à futura, com economia de tempo e de fadiga, com agrado e com solidez.

Onde os fundamentos de todas as coisas que se aconselham são tirados da própria natureza das coisas; a sua verdade é demonstrada com exemplos paralelos das artes mecânicas; o curso dos estudos é distribuído por anos, meses, dias e horas; e, enfim, é indicado um caminho fácil e seguro de pôr estas coisas em prática com bom resultado.

A proa e a popa da nossa Didática será investigar e descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais; nas escolas, haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho inútil, e, ao contrário, haja mais recolhimento, mais atrativo e mais sólido progresso; na Cristandade, haja menos trevas, menos confusão, menos dissídios, e mais luz, mais ordem, mais paz e mais tranqüilidade.

Que Deus tenha piedade de nós e nos abençoe! Faça brilhar sobre nós a luz da sua face e tenha piedade de nós! Para que sobre esta terra possamos conhecer o teu caminho, ó Senhor, e a tua ajuda salutar a todas as gentes (Salmo 66, 1-2).

SAUDAÇÃO AOS LEITORES

1. Didática significa arte de ensinar. Acerca desta arte, desde há pouco tempo, alguns homens eminentes, tocados de piedade pelos alunos condenados a rebolar o rochedo de Sísifo, puseram-se a fazer investigações, com resultados diferentes.

2. Alguns esforçaram-se por arranjar compêndios apenas para ensinar mais facilmente, esta ou aquela língua. Outros procuraram encontrar os métodos mais breves para ensinar, mais rapidamente, esta ou aquela ciência ou arte. Outros fizeram outras tentativas. Quase todos por meio de algumas observações externas recolhidas com o método mais fácil, ou seja, com o método prático, isto é, a posteriori, como lhe chamam.

3. Nós ousamos prometer uma Didática Magna, isto é, um método universal de ensinar tudo a todos. E de ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados. E de ensinar rapidamente, ou seja, sem nenhum enfado e sem nenhum aborrecimento para os alunos e para os professores, mas antes com sumo prazer para uns e para outros. E de ensinar solidamente, não superficialmente e apenas com palavras, mas encaminhando os alunos para uma verdadeira instrução, para os bons costumes e para a piedade sincera. Enfim, demonstraremos todas estas coisas a priori, isto é, derivando-as da própria natureza imutável das coisas, como de uma fonte viva que produz eternos arroios que vão, de novo, reunir-se num único rio; assim estabelecemos um método universal de fundar escolas universais.

4. Na verdade, a promessa que fazemos é enorme e corresponde a um desejo muito vivo, mas podemos facilmente imaginar que haverá pessoas que nela verão mais um sonho que um propósito fundado na realidade. No entanto, quem quer que tu sejas, leitor, suspende o teu juízo, até que tenhas conhecido a substância das coisas; então terás a liberdade, não somente de julgar, mas também de te pronunciares. Com efeito, eu não desejo, para não dizer que não ambiciono, arrastar ninguém, com os artifícios da persuasão, a dar o seu assentimento a uma coisa que não oferece qualquer certeza. Mas, com toda a alma, advirto, exorto e suplico, a quem quer que olhe o nosso trabalho, que nele fixe o seu próprio olhar e que o fixe com toda a sua penetração, pois é o único meio de se não deixar perturbar pelas opiniões fascinantes de outrem.

5. O assunto é realmente da mais séria importância e, assim como todos devem augurar que ele se concretize, assim também todos devem examiná-lo com bom senso, e todos, unindo as suas próprias forças, o devem impulsionar, pois dele depende a salvação de todo o gênero humano. Que presente mais belo e maior podemos nós oferecer à Pátria que o de instruir e educar a juventude, principalmente quando, pelos costumes e pelas condições dos tempos atuais, a juventude, como diz Cícero[1], entrou num tal caminho que, com os esforços de todos, deve ser travada e refreada? Filipe Mclanchton, com efeito, escreveu que a educação perfeita da juventude é coisa um pouco mais difícil que a tomada de Tróia[2]. E S. Gregório Nazianzeno pensa da mesma maneira quando diz:

<grego>

isto é, a arte das artes está em formar o homem, o qual é o mais versátil e o mais complexo de todos os animais[3].

6. Ensinar a arte das artes é, portanto, um trabalho sério e exige perspicácia de juizo, e não apenas de um só homem, mas de muitos, pois um só homem não pode estar tão atento que lhe não passem desapercebidas muitíssimas coisas.

7. É por isso que, com razão, peço aos meus leitores, mais ainda, em nome da salvação do gênero humano, suplico a todos aqueles que tiverem ocasião de lançar um olhar sobre a minha obra: primeiro, que não imputem à presunção o fato de ter havido alguém que, não apenas tenha tentado, mas ousado prometer levar a bom termo tão grande empresa, pois esta foi empreendida com um objetivo salutar. Segundo, que não desesperem se a experiência não resultar logo ao primeiro ensaio, e não der completamente os resultados desejados. É necessário, com efeito, que primeiro germinem as sementes das coisas; estas virão a seguir, gradualmente, segundo a sua natureza. Por mais imperfeita que seja a minha tentativa e não chegue a atingir o objetivo que eu me havia proposto, o meu exemplo trará, todavia, ao menos, a prova de que foi percorrida uma longa etapa que jamais havia sido percorrida e que o cume a escalar está mais próximo que até aqui. Enfim, peço aos meus leitores que prestem atenção, sejam corajosos e julguem com liberdade e perspicácia, como convém nas coisas da máxima importância. Dito isto, é meu dever, por um lado, indicar em poucas palavras aquilo que me proporcionou a ocasião de empreender este trabalho, e, por outro lado, resumir as principais características das novidades que ele contém, antes de o entregar, com inteira confiança, à boa fé e às ulteriores investigações de todos aqueles que julgam com sensatez.

8. Esta arte de ensinar e de aprender, levada ao ponto de perfeição que parece agora esforçar-se por atingir, foi, em boa parte, desconhecida nos séculos passados e, por esse fato, os estudos e as escolas curvavam ao peso de fadigas e de caprichos, de hesitações e de ilusões, de erros e de faltas, de tal maneira que apenas podiam adquirir, à força de lutar, uma instrução sólida, aqueles que tinham a felicidade de possuir uma inteligência divina.

9. Mas, desde há algum tempo, Deus começou a propiciar-se do século nascente, verdadeiramente novo, direi quase uma aurora, e suscitou, na Alemanha, alguns homens de bem que, desgostosos com a confusão dos métodos utilizados nas escolas, se puseram a investigar um método mais curto e mais fácil para ensinar as línguas e as artes; depois dos primeiros vieram outros, e precisamente por isso alguns obtiveram sucesso maior que outros, como se revela evidente pelos livros e ensaios didáticos por eles publicados.

10. Quero referir-me a Ratke[4], Lubin[5], Helwig[6], Ritter[7], Bodin[8], Glaum[9], Vogel[10], Wolfstirn[11] e àquele que deveria ser nomeado entre os primeiros, João Valentim Andrea[12] (o qual, assim como pôs a claro os males da Igreja e do Estado, assim também, aqui e além, nos seus escritos puros como ouro, mostrou os males das escolas e, em vários lugares, indicou os remédios), e a outros, se os há, os quais nos são ainda desconhecidos. A própria França começou a rebolar esse rochedo, quando Jean-Cécile Frey[13] publicou, em Paris, em 1629, uma excelente didática, sob o título Novo e rapidíssimo método que conduz às ciências divinas, às artes, às línguas e aos discursos improvisados.

11. Tendo-se-me apresentado a ocasião de toda a parte, pus-me a ler os livros desses escritores; e se dissesse quanto prazer experimentei e como foram grandementc aliviadas as dores em mim provocadas pela ruína da minha pátria e pelo triste estado de toda a Germânia, ninguém me acreditaria. Comecei, na verdade, a esperar que a Providência divina não fazia coincidir em vão todos esses infortúnios, uma vez que, à ruína das velhas escolas correspondia, ao mesmo tempo, a eclosão de escolas novas no quadro de projetos novos. Com efeito, quem projeta construir um novo edifício começa habitualmente por aplanar o terreno, indo até à demolição do velho edifício, pouco cômodo e a ameaçar ruína.

12. Este pensamento despertava em mim uma bela esperança acompanhada de um doce prazer; mas, a seguir, apercebi-me de que, pouco a pouco, a esperança se diluía, uma vez que, querendo desentulhar o terreno completamente, de baixo até cima, julgava não ser capaz de tão grande empresa.

13. Por isso, desejando possuir informações mais completas sobre certos pontos e dar a minha opinião sobre alguns outros, escrevi a um, a um outro e depois a um terceiro dos autores atrás citados, mas em vão, pois, por um lado, quase todos guardaram ciosamente segredo a respeito das suas descobertas e, por outro lado, as minhas cartas foram-me devolvidas sem resposta, porque os destinatários eram desconhecidos no endereço indicado.

14. Só um deles, o eminente J. V. Andrea, me respondeu, dizendo que, de bom grado, me daria quaisquer esclarecimentos, e encorajando a ousadia do meu empreendimento. Foi assim que, picado, por assim dizer, pela espora, me pus de novo a pensar mais freqüentemente neste trabalho e que, finalmente, um ardente amor do bem público me obrigou a tentar a empresa, começando pelos fundamentos.

15. Postas, portanto, de lado as descobertas, as opiniões, as observações e as advertências dos outros, decidi-me a refazer tudo por mim mesmo e a examinar o assunto e a procurar as causas, os métodos, os processos e os fins daquilo que, com Tertuliano[14], chamamos, se isso nos é licito, aprendizagem (discentia).

16. Dai nasceu este meu tratado, onde o tema é, assim o espero, desenvolvido mais longamente e mais claramente do que nunca o foi até ao presente. Escrito inicialmente em vernáculo, para uso do meu povo, sai agora, a conselho de alguns homens eminentes, vertido em latim, para que, se possível, aproveite a todos.

17. Com efeito, a caridade manda que o que Deus manifestou para salvação do gênero humano (assim fala o eminente Lubin da sua Didática[15], se não esconda dos mortais, mas se manifeste a todo o mundo. Efetivamente, é da natureza de todos os bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados a todos; e quanto mais é a riqueza e se põe em comum, tanto melhor é e tanto mais cabe a todos.

18. É também uma lei de humanidade que, se se conhece qualquer meio de ir em auxilio do próximo para o tirar das suas dificuldades, não se deve hesitar; sobretudo quando se trata, não de um homem só, mas de muitos, e não apenas de muitos homens, mas de muitas cidades, províncias e reinos e, digo até, do gênero humano inteiro, como é o caso presente.

19. Se, todavia, houver algum espírito tão impertinente que pense que é coisa estranha à vocação de um teólogo estudar os problemas escolares, saiba que esse escrúpulo pesou tão fortemente sobre o meu coração a ponto de o fazer sangrar. Apercebi-me, porém, de que não poderia libertar-me dele de outra maneira senão prestando homenagem a Deus e pedindo publicamente conselho a todos acerca de tudo aquilo que uma intuição divina me sugeriu.

20. Deixai-me, ó almas cristãs, falar-vos com toda a confiança! Quem me conhece muito de perto sabe muito bem que sou homem de fraca inteligência e quase de nenhuma instrução; e sabe também que choro os infortúnios da nossa época e desejo vivamente suprir, se isso é possível, quer com as minhas invenções, quer com as dos outros (todas as invenções derivam, de resto, do nosso bom Deus), a tudo o que nos falta de mais importante.

21. Se, portanto, encontrei agora alguma boa idéia, ela não deve ser minha, mas d’Aquele que costuma obter louvores da boca das crianças[16], e que, para se mostrar de fato fiel, veraz e benigno, dá a quem pede, abre a quem bate e oferece a quem procura (Luc., II, 9), porque até nós cumulamos de dons aqueles por quem deles fomos também cumulados. O meu Cristo sabe que tenho um coração tão simples que não há para mim diferença alguma entre ensinar e ser ensinado, advertir e ser advertido, entre ser mestre dos mestres (se me é lícito falar assim) e discípulo dos discípulos (se acaso posso esperar algum progresso).

22. Por isso, as observações que o Senhor me concedeu fazer, eis que as ponho em público e em comum com todos.

23. Se alguém encontrar melhor, faça o mesmo, para não ser acusado pelo Senhor de colocar os seus dinheiros no cofre e de os esconder, pois o Senhor quer que os seus servos negoceiem, para que os dinheiros de cada um deles, postos no banco, rendam outros dinheiros (Luc., 19).

É lícito, foi lícito e sempre será lícito procurar as coisas grandes. E nunca será em vão o trabalho começado em nome do Senhor.

A TODOS AQUELES
QUE PRESIDEM ÀS COISAS HUMANAS,
AOS MINISTROS DE ESTADO,
AOS PASTORES DAS IGREJAS,
AOS DIRETORES DAS ESCOLAS,
AOS PAIS E AOS TUTORES,
SEJA DADA A GRAÇA E A PAZ DE DEUS,
PAI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO,
NO ESPÍRITO SANTO

As duas mais excelentes obras da criação: o paraíso e o homem.

1. Deus, no princípio do mundo, criou o homem, plasmando-o com a terra, e colocou-o num paraíso de delícias, por Ele plantado no Oriente, não só para que o guardasse e cultivasse (Gênesis, 2, 15), mas também para que ele próprio fosse para o seu Deus um jardim de delícias.

Comparação entre o homem e o paraíso.

2. Na verdade, assim como o paraíso era a parte mais amena do mundo, assim o homem era a mais amada das criaturas. O paraíso foi plantado a Oriente; o homem, à imagem d’Aquele que teve origem desde o princípio, desde os dias da eternidade. No paraíso, cresceram todas as plantas belas para serem vistas, e deliciosas para serem comidas, escolhidas entre todas aquelas que estavam espa1hadas, aqui e além, por toda a terra; no homem, foram acumulados, por assim dizer, como num só monte, todos os elementos do mundo, todas as formas e todos os graus das formas, para que manifestasse toda a arte da divina sabedoria. O paraíso tinha a árvore da ciência do bem e do mal; o homem tem a mente para distinguir e a vontade para escolher o que existe de bem ou de mal. No paraíso, existia a árvore de vida; no homem, existe também a árvore da imortalidade, ou seja, a sabedoria de Deus, a qual colocou no homem raízes eternas (Eclesiástico, I, 16). Desse lugar de delícias, saía um rio, que regava o paraíso e depois se dividia em quatro ramos principais (Gênesis, 2, 10); no coração do homem, confluem vários dons do Espírito Santo, que vão irrigá-lo, e depois, do seu seio, brotam rios de água viva (S. João, 7, 38), isto é, no homem e por obra do homem, difunde-se, de vários modos, a sabedoria de Deus, como rios que se derramam em todas as direções. Isto é atestado também pelo Apóstolo, quando afirma que, por meio da Igreja, se torna manifesta aos principados e às potestades dos céus a multiforme sabedoria de Deus (Efésios, 3, 10).

3. Verdadeiramente, portanto, cada homem é para o seu Deus um paraíso de delícias, se se mantém no lugar que lhe foi marcado. De modo semelhante, também a Igreja, que é a comunidade de todos os homens consagrados a Deus, é, muitas vezes, comparada, na Sagrada Escritura, ao paraíso, ao jardim e à vinha de Deus.

Perda de ambos os paraísos

4. Mas que desventura foi a nossa! Estávamos no paraíso das delícias corporais, e perdemo-lo; e, ao mesmo tempo, perdemos o paraíso das delícias espirituais, que éramos nós mesmos. Fomos expulsos para as solidões da terra, e tornamo-nos nós próprios uma solidão e um autêntico deserto escuro e esquálido. Com efeito, fomos ingratos para com aqueles bens, dos quais, no paraíso, Deus nos havia cumulado com abundância relativamente à alma e ao corpo; merecidamente, portanto, fomos despojados de uns e de outros, e a nossa alma e o nosso corpo tornaram-se o alvo das desgraças.

Deus lamenta-se disso.

5. Acerca destes fatos, ouçamos um profeta, que fala alegoricamente a um rei de Tiro, soberbo e condenado a ser punido pela sua soberba: «Tu vivias no meio das delícias do paraíso de Deus; e o teu vestido estava ornado de toda a casta de pedras preciosas: o sárdio, o topázio, o jaspe, o crisólito, a cornelina, o berilo, a safira, o carbúnculo, a esmeralda, juntamente com objetos de ouro. Tímpanos e gaitas de foles foram preparados, no dia em que foste feito rei, para tocarem em tua honra. Tu eras um querubim e por isso te ungi como protetor (senhor das outras criaturas); por isso te fiz chefe; vivias no monte santo de Deus e caminhavas no meio de pedras preciosas incessantemente flamejantes. Andando pelos teus caminhos, eras perfeito desde o dia da tua assunção ao reino, até que foi encontrada em ti a iniquidade! Na multidão das tuas traficâncias, as tuas vísceras encheram-se de iniquidade e cometeste pecados. Por isso te expulsei do monte de Deus, te entreguei à ruína, etc. Quando o teu coração se encheu de soberba com a tua magnificência, tu perdeste a sabedoria, e eu lancei-te por terra, etc.» (Ezequiel, 28, 12 e ss.). Num momento da sua justa indignação, lançou-nos por terra e expulsounos, e assim, embora fôssemos como um jardim do Éden, doravante tornamo-nos como uma solidão do deserto.

Reconquista do nosso paraíso por meio da graça de Deus.

6. Seja glorificado e louvado e honrado e bendito para sempre o nosso misericordioso Deus que, embora nos tenha abandonado por um certo tempo, todavia, não nos deixou na solidão eternamente; pelo contrário, manifestando a sua sabedoria, mediante a qual delineou o céu e a terra e todas as outras coisas, com a sua misericórdia fortificou, de novo, o seu abandonado paraíso, ou seja, o gênero humano; e assim, com o machado e a serra e a foice da sua lei, cortadas pelo pé e podadas as árvores meio mortas e secas do nosso coração, aí plantou novos rebentos escolhidos no paraíso celeste; e para que estes pudessem pegar e crescer, irrigou-os com o seu próprio sangue, e nunca mais deixou de os regar com vários dons do seu Espírito Santo, que são como que arroios de água viva; e mandou também os seus operários, jardineiros espirituais, a tratar com cuidado fiel a nova plantação de Deus. Efetivamente, assim fala Deus a Isaías e, na pessoa dele, a outros: «Pus as minhas palavras na tua boca e protegi-te com a sombra da minha mão, para que plantes os céus e fundes a terra e digas a Sião: o meu povo és tu» (Isaías, 51, 16).

A Igreja reverdece o paraíso.

7. Verdeja, portanto, outra vez, o jardim da Igreja, delícia do coração divino, como de novo diz Isaías (51, 3): «O Senhor consolará, pois, Sião, e consolará todas as suas ruínas; e transformará o seu deserto num lugar de delícias e a sua solidão num jardim do Senhor. Ai haverá gozo e alegria, ação de graças e vozes de louvor». E em Salomão: «Jardim completamente fechado, irmã minha, minha esposa; jardim completamente fechado, fonte selada. As tuas plantas formam um jardim de delícias cheio de toda a qualidade de romãs, de frutos de cipre e de nardo, etc.» (Cântico dos Cânticos, 4, 12-13). Responde-lhe a esposa, a Igreja: «Tu, a fonte dos jardins, o poço das águas vivas, que com ímpeto correm do Líbano! Levanta-te, aquilão, e vem tu, vento do meio-dia, assopra de todos os lados no meu jardim, e espalhem-se os seus aromas. Que o meu amado venha para o jardim e coma as suas frutas preciosas» (Ibid., 15, 16 e 17).

Com o andar do tempo, porém, as plantas murcham.

8. Mas, verdadeiramente, esta nova plantação teve um sucesso correspondente às esperanças nela depositadas? Todos os rebentos crescem bem? Todas as árvores as plantas da nova plantação produzem nardo e açafrão, ou mirra, ou aromas, ou frutos preciosos?[1]. Ouçamos a voz de Deus, que fala à sua Igreja: «Eu plantei-te, ó vinha, com sarmentos todos de boa qualidade. Como, pois, degeneraste para mim, convertendo-te em vinha bastarda?» (Jeremias, 2, 21). Eis Deus que se lamenta, dizendo que também esta nova plantação se abastardou!

Queixas de Deus e dos homens sábios acerca deste assunto.

9. A Sagrada Escritura está cheia de queixas semelhantes: estão cheios de todo o gênero de confusão os olhos de todos aqueles que alguma vez se dispuseram a examinar as condições humanas e também as da Igreja. O mais sábio dos homens, Salomão, refletindo profundamente em tudo o que acontece sob o sol, mesmo nas coisas por ele mesmo pensadas, ditas e feitas, começou a deplorar que «nunca se lhe apresentasse à mente outra coisa senão vaidade e desordem; que as perversidades se não pudessem corrigir e os defeitos enumerar» (Eclesiastes, I, 15). De tal maneira que até «a verdadeira sabedoria é uma aflição do espírito e multiplica a indignação e a desgraça» (Ibid., 8).

Porque é que o povo não se cura destas coisas.

10. Com efeito, assim como quem ignora que tem uma doença, não a cura; quem não sente dores, não se lamenta; quem não se apercebe do perigo, não se arrepia, mesmo que esteja sobre um abismo ou sobre um precipício; assim também não é de admirar que as desordens, que corroem o gênero humano e a Igreja, não façam impressão a quem as não considera. Mas quem se vê a si mesmo, e os outros, cobertos de infinitas manchas, e sente já que as suas úlceras e as dos outros supuram cada vez mais, e tem o nariz cheio do terrível odor que delas sai; quem se vê a si e aos outros estar no meio de pericolusíssimas voragens e despenhadeiros, e girar entre laços tensos; mais ainda, quem se vê conduzido por precipícios ininterruptos, e que este e aquele se precipitaram já, é difícil que não se arrepie, que não se sinta aterrado, que não morra de dor.

Demostra-se por indução que tudo o que nos pertence está pervertido e depravado.

11. Na verdade, do que existe em nós ou do que a nós pertence, haverá algo que esteja no seu devido lugar ou no seu estado? Nada, em parte alguma. Invertido e estragado, tudo está destruído ou arruinado. No lugar da inteligência, pela qual deveremos igualar os anjos, está, na maior parte de nós, uma estupidez tão grande que, precisamente como os animais brutos, ignoramos até as coisas que mais necessidade temos de saber. No lugar da prudência, pela qual, sendo nós destinados à eternidade, deveremos preparar-nos para a eternidade, está um tão grande esquecimento, não só da eternidade, mas até da morte, que a maior parte dos homens são presa de coisas terrenas e passageiras e até de iminentíssima morte. No lugar da sabedoria celeste, pela qual nos fora concedido reconhecer e venerar os aspectos ótimos das coisas ótimas e saborear, por isso, os seus frutos dulcíssimos, está uma repugnantíssima aversão àquele Deus que nos dá a vida, o movimento e o ser[2], e uma estultíssima irritação contra a sua divina potência. No lugar do amor mútuo e da mansidão, estão ódios recíprocos, inimizades, guerras e carnificinas. No lugar da justiça, está a iniquidade, a injustiça, as opressões, os furtos e as rapinas. No lugar da castidade, está a impureza e a obscenidade dos pensamentos, das palavras e das ações. No lugar da simplicidade e da veracidade, estão as mentiras, as fraudes e os enganos. No lugar da humildade, está o fausto e a soberba de uns para com os outros.

E nós estamos completamente perdidos.

12. Ai de ti, infeliz geração, que degeneraste tanto! «O Senhor olha do céu para os filhos dos homens, para ver se há quem tenha prudência e busque a Deus. Todos à uma se extraviaram e se perverteram; não há quem faça o bem, não há sequer um» (Salmo 13, 2-3). Mesmo aqueles que se apresentam como guias de outros seguem por caminhos maus e tortuosos; aqueles que deveriam ser portadores de luz, a maioria das vezes, difundem trevas. Efetivamente, se, aqui ou além, há um pouquinho de bem e de verdade, é mutilado, débil e disperso, não passando de uma sombra, de uma opinião, se se confronta com aquilo que verdadeiramente deveria ser. Se há alguém que se não aperceba disto, saiba que sofre de vertigens: os sábios, contemplando as coisas que lhes dizem respeito e as alheias, não com os óculos das opiniões comuns, mas com a luz clara da verdade, vêem aquilo que vêem.

Duplo conforto:
1 - O Paraíso eterno.

13. Resta, todavia, para nós um duplo conforto. Primeiro: Deus prepara para os seus eleitos o paraíso eterno, onde readquirirão a perfeição e até uma perfeição mais plena e mais sólida que aquela primeira perfeição, agora perdida. Nesse paraíso habita Cristo (Lucas, 23, 43), a ele foi arrebatado Paulo (Coríntios, II, 12, 4), e João pôde ver a sua glória (Apocalipse, 2, 7 e 21, 10).

Também aqui, de tempos a tempos, se pode renovar o paraíso da Igreja.

14. O segundo conforto vem do fato de que Deus, costuma renovar, de tempos a tempos, mesmo aqui na terra, a sua Igreja, e transformar os desertos num jardim de delícias, como o mostram precisamente as promessas divinas acima referidas. Sabemos que, destas transformações, algumas foram feitas de modo solene: depois da Queda; depois do Dilúvio; depois da entrada do povo hebreu na terra de Canaan; no tempo de David e no tempo de Salomão; depois do regresso da Babilônia e da reedificação de Jerusalém; depois da ascensão de Cristo ao céu e da pregação do Evangelho aos gentios; no tempo de Constantino e em outras ocasiões. Se, porventura, também agora, após os furores de guerras tão atrozes e após tão grandes devastações de nações, o Pai das misericórdias se prepara para nos olhar com uma face mais benigna, somos obrigados a caminhar ao encontro de Deus e a concorrer também nós para o aperfeiçoamento da nossa vida, segundo os modos e os caminhos que nos mostrar o mesmo sapientíssimo Deus, o qual ordena tudo conforme os seus caminhos.

O modo mais eficaz desta renovação fornece-a uma reta formação da juventude.

15. Um dos primeiros ensinamentos, que a Sagrada Escritura nos dá, é este: sob o sol não há nenhum outro caminho mais eficaz para corrigir as corrupções humanas que a reta educação da juventude. Com efeito, Salomão, depois de ter percorrido todos os labirintos dos erros humanos e de se ter lamentado porque se não podiam corrigir as perversidades e enumerar os defeitos dos homens, volta-se finalmente para os jovens, suplicando-lhes «que se lembrem do seu Criador nos dias da juventude e O temam e observem os mandamentos, porque isto é o essencial para o homem» (Eclesiastes, 12, 13). E noutro lugar diz: «Instrui o jovem no caminho que deve seguir, e ele não se afastará dele, mesmo quando for velho» (Provérbios, 22, 6). E por isso David diz: «Vinde filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor de Deus» (Salmo 33, 11). Mas também o próprio David celeste e o autêntico Salomão, o Filho eterno de Deus, enviado do céu para regenerar a humanidade, nos ensinou, como que levantando o dedo, o mesmo caminho, quando disse: «Deixai vir a mim as criancinhas, e não as afasteis de mim, porque é delas o reino dos céus» (Marcos, 10,14). E a nós disse: «Se não vos converterdes e vos não tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus» (Mateus, 18,3).

As crianças não são apenas o objeto, mas também o exemplar da verdadeira regeneração

16. Mas que palavras são estas?! Ouvi-as bem e examinai-as atentamente todos, para ver que coisa queria dizer o Mestre e Senhor de todos. Como proclama que só as crianeinhas são merecedoras do reino de Deus, admitindo a participar na herança apenas os homens que se tenham tornado semelhantes às criancinhas! Oxalá vós, diletas criancinhas, possais entender este vosso celeste privilégio! Eis no que ele consiste: é vosso o resto de dignidade que ficou ainda no gênero humano, ou seja, o direito que ele tem ainda á pátria celeste! (Cristo é vosso, vossa é a santificação do Espírito, vossa a graça de Deus, vossa a herança da vida futura; sim, tudo isto é vosso, pertence-vos a vós particularmente e infalivelmente, pertence mesmo só a vós, a não ser que qualquer outro, convertendo-se, se torne como vós. Eis que nós, adultos, que julgamos que só nós somos homens e vós sois macaquinhos, só nós sábios e vós doidinhos, só nós faladores inteligentes e vós ainda não aptos para falar, eis que, enfim, somos obrigados a vir à vossa escola! Vós fostes-nos dados como mestres, e as vossas obras são dadas às nossas como espelho e exemplo!

Porque é que Deus tem em tanta consideração as criancinhas.

17. Se alguém quiser saber porque é que Deus tem em tão grande consideração as criancinhas e as aprecia tanto, por mais que reflita, não encontrará uma razão mais forte que esta: as criancinhas têm todas as faculdades mais simples e mais aptas para receber os remédios que a misericórdia divina oferece para a cura das coisas humanas, em estado tão deplorável. Com efeito, embora a corrupção, produzida pela queda de Adão, tenha invadido toda a substância do nosso ser, todavia, uma vez que Cristo, segundo Adão, enxertou de novo em si mesmo, árvore da vida, a natureza humana, e não é excluído senão quem se exclui a si mesmo pela sua própria incredulidade (Marcos, 16, 16) (a qual não pode ainda verificar-se nas criancinhas), resulta que as criancinhas, não estando ainda novamente manchadas, nem pelos pecados nem pela incredulidade, são proclamadas herdeiras da herança patrimonial do reino de Deus, desde que saibam conservar a graça de Deus já recebida e manter-se limpas do mundo. Além disso, estas coisas podem ensinar-se mais facilmente às crianças que aos outros, pois não estão ainda dominadas pelos maus hábitos.

Porque nos obriga a nós, adultos, a ir junto das crianças.

18. Cristo ordena que nós, adultos, nos convertamos para que nos façamos como criancinhas, isto é, para que desaprendamos os males que havíamos contraído com uma má educação e aprendido com os maus exemplos do mundo, e regressemos ao primitivo estado de simplicidade, de mansidão, de humildade, de castidade, de obediência, etc. E, na verdade, uma vez que não há coisa mais difícil que desabituar-se daquilo a que se estava habituado (com efeito, o hábito é uma segunda natureza, e a natureza, ainda que se expulse com a forca, volta sempre a aparecer[3]), daí resulta que não há coisa mais difícil que voltar a educar bem um homem que foi mal educado. Na verdade, uma árvore, tal como cresce, alta ou baixa, com os ramos bem direitos ou tortos, assim permanece depois de adulta e não se deixa transformar. Os pedaços de madeira, curvados para fazer as rodas, endurecidos ali no seu posto, quebram de preferência a tornarem-se direitos, como a experiência o mostra de modo evidente. Acerca dos homens habituados a fazer o mal, Deus afirma o mesmo: «Acaso um Etíope pode mudar a cor da sua pele e um leopardo as suas malhas? Acaso podeis fazer o bem, vós que não aprendestes senão a fazer o mal?» (Jeremias, 13, 23).

É necessário que a reforma da Igreja comece pelas criancinhas.

19. Daqui se infere esta conclusão necessária: se se devem aplicar remédios às corruptelas do gênero humano, importa fazê-lo de modo especial por meio de uma educação sensata e prudente da juventude. Importa fazer precisamente como quem quer renovar um pomar, o qual tem necessariamente de plantar novas arvorezinhas e de as tratar com muito cuidado, para que cresçam belas e grandes; com efeito, para transplantar árvores velhas e nelas infundir fecundidade, não basta a força da arte. Portanto, as mentes simples e não ainda ocupadas e estragadas por vãos preconceitos e costumes mundanos, são as mais aptas para amar a Deus.

Testemunho de Deus.

20. Deus mostra isto pela boca do profeta, quando, ao lamentar-se da corrupção universal, afirma que «já não há a quem Ele possa ensinar a sabedoria, a quem possa fazer entender a sua doutrina, a não ser aos meninos acabados de desquitar, aos que acabam de ser desmamados» (Isaías, 28, 9).

Ação sintomática realizada por Cristo.

21. E parece que o Senhor tenha querido mostrar esta mesma verdade alegoricamente quando, no momento de partir para Jerusalém, ordenou que lhe fossem buscar uma jumenta e o jumentinho, filho da jumenta; todavia, não montou a jumenta, mas o jumentinho. E o evangelista acrescenta que o Senhor «enviou dois dos seus discípulos, dizendo: Ide a essa aldeia, que está fronteira; entrando nela, encontrareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma» (Lucas, 19, 30). Será que tudo isto foi feito e consagrado no Evangelho para nada? Nem pensar nisso. Todas as coisas, as de mínima e as de máxima importância, ditas e feitas por Cristo, assim como também todas as vírgulas da Sagrada Escritura, contêm um mistério para nossa instrução. Por isso, tenha-se por certo que, embora Cristo chame a si os velhos e os jovens e acabe por receber uns e outros, para os conduzir à Jerusalém celeste, todavia, os mais jovens, não ainda subjugados pelo mundo, estão mais aptos para se habituarem ao jugo de Cristo que aqueles a quem o mundo já estragou e viciou, mantendo-os sob os seus graves tributos. A equidade exige, portanto, que a nossa infância seja conduzida a Cristo; e Cristo tem prazer em colocar a infância sob o seu doce jugo e sob si mesmo (Mateus, II, 30).

Que significa educar a juventude providamente.

22. Educar, pois, providamente a juventude é providenciar para que os espíritos dos jovens sejam preservados das corruptelas do mundo e para que as sementes de honestidade neles lançadas sejam, por meio de admoestações e exemplos castos e contínuos, estimuladas para que germinem felizmente, e, por fim, providenciar para que as suas mentes sejam imbuídas de um verdadeiro conhecimento de Deus, de si mesmas e da multiplicidade das coisas; para que se habituem a ver a luz à luz de Deus[4], e a amar e a venerar, acima de tudo, o Pai das luzes.

E que fruto se tira daí.

23. Se se fizesse assim, revelar-se-ia claro que é realmente verdadeiro aquilo que canta o Salmista: «Da boca das crianças e meninos de peito, Deus fez sair um louvor perfeito contra os seus adversários, para reprimir o inimigo e o agressor» (Salmo 8, 2), isto é, para confundir Satanás, que, para se vingar da sua condenação, quer destruir as arvorezinhas de Deus, ou seja, a juventude, ferindo-as de vários modos com as suas fraudulentíssimas maquinações, e com o veneno infernal (dos exemplos de vária impiedade e dos maus instintos) quer infectá-las até às raízes, para que sequem de todo e caiam, ou, ao menos, murchem, definhem e se tornem inúteis.

De que modo provê Deus à juventude.

24. Precisamente por esta razão, Deus deu às criancinhas os anjos custódios (Mateus, 18, 10) e constituiu os pais em educadores, ordenando-lhes que educassem os filhos com ensinamentos e correções conformes à doutrina do Senhor (Efésios, 6, 4), e admoestou seriamente todos os outros a que não escandalizassem nem corrompessem a juventude com maus exemplos, anunciando, para quem procedesse de modo diverso, castigos eternos (Mateus, 18, 6 e 7).

Qual é a nossa obrigação; o exemplo dos patriarcas.

25. Mas de que modo poderemos fazer isso, neste imenso dilúvio de confusão mundial? No tempo dos Patriarcas, como esses santos homens habitavam separadamente, segregados do resto do mundo, e, nas suas famílias, eram, não só chefes de família, mas também sacerdotes, mestres e professores, as coisas corriam muito mais facilmente. Com efeito, afastados os seus filhos da companhia dos maus, e iluminando-os com o bom exemplo de pessoas virtuosas, com doces advertências, exortações e, se necessário, com repreensões, conduziam-nos consigo. Que Abraão fazia assim, é o próprio Deus que o testemunha, quando diz: «Eu sei que há-de ordenar a seus filhos, e à sua casa depois dele, que guardem os caminhos do Senhor, e que pratiquem a equidade e a justiça.» (Gênesis, 18, 19).

Agora as más companhias lançam a juventude na perdição.

26. Mas agora habitamos promiscuamente, os bons misturados com os maus, e o número dos maus é infinitamente maior que o dos bons. E a juventude é de tal maneira arrastada pelos seus exemplos, que os preceitos dados como antídoto do mal, acerca do modo de cultivar a virtude, são de pouca ou nenhuma eficácia.

E os pais não se preocupam ou não sabem opor-se aos males.

27. Mas qual é a razão por que os preceitos acerca da virtude se ministram tão raramente? Dos pais, poucos são aqueles que podem ensinar aos filhos qualquer coisa de bom, quer porque eles próprios nunca aprenderam nada de bom, quer porque, devendo ocupar-se de outras coisas, descuram este seu dever.

E nem todos os mestres.

28. E, dos mestres, poucos são aqueles que sabem instilar bem no ânimo da juventude coisas boas; e, se por vezes aparece um, logo qualquer sátrapa o chama para prestar os seus serviços em privado, em proveito dos seus; mas o povo não pode dar-se a este luxo.

Por isso tudo se torna selvagem e vai de mal em pior.

29. Daqui resulta que o resto da juventude cresce sem a devida cultura, como uma selva que ninguém planta, ninguém rega, ninguém poda e ninguém se esforça por fazer crescer direita. Por este motivo, costumes e hábitos grosseiros e depravados enchem o mundo, todas as cidades e praças fortes, todas as casas e todas as pessoas, cujos corpos e almas estão totalmente cheios de confusão. Se hoje voltassem a viver entre nós Diógenes, Sócrates, Sêneca e Salomão, não encontrariam senão o que era nos tempos passados. Se Deus nos falasse do céu, não diria coisa diferente daquilo que disse: «Todos estão corrompidos e tornaram-se abomináveis em todas as suas paixões» (Salmo 13, 2).

Todos à uma portanto, devemos pensar na salvação comum; ou então só nos resta esperar os castigos de Deus.

30. Por isso, se, em qualquer parte do mundo, há alguém que possa dar ou descobrir algum bom conselho, ou que possa, à força de gemidos, de suspiros, de prantos e de lamentações, obter de Deus a graça de ver qual a melhor maneira possível de conduzir a juventude, não deve estar calado, mas aconselhar, pensar e pedir. «Maldito aquele que faz um cego errar no caminho», disse Deus (Deuteronômio, 27, 18). Maldito, portanto, também aquele que, podendo reconduzir o cego ao bom caminho, o não reconduz. «Ai daquele que escandalizar um só destes pequeninos», disse Cristo (Mateus, 18, 6 e 7). Portanto, ai também daquele que, podendo afastar os escândalos, os não afasta. «Deus não quer que se abandone o jumento ou o boi que anda errante pelas selvas e pelos campos, ou que caiu debaixo da carga, mas quer que se socorra, ainda que se não saiba de quem é, ainda que se saiba que é de um inimigo nosso» (Êxodo, 2, 3, 4; Deuteronômio, 22, 1). E ser-lhe-á agradável que nós, vendo desviar-se, não um animal bruto, mas uma criatura racional, passemos à frente irrefletidamente, sem lhe estender a mão? Longe de nós semelhante pensamento!

É necessário empunhar a espada contra a Babilônia das confusões.

31. «Maldito aquele que faz a obra do Senhor com má fé; e maldito aquele que mantém afastada do sangue da Babilônia a sua espada» (Jeremias, 48, 10). E poderemos esperar estar sem culpa nós que, sem nos preocuparmos, toleramos a abominável confusão das nossas Babilônias? Ah! quem quer que tu sejas, desembainha a espada que tens à cinta, ou que sabes estar escondida em qualquer bainha, e para seres bendito por Jeová, contribui para o extermínio de Babilônia!

Que se espera dos magistrados políticos.

32. Fazei ir para a frente esta obra do Senhor, ó governantes, ministros do Deus altíssimo, e com a espada que o Senhor vos colocou à cinta, com a espada da justiça, exterminai as desordens, com as quais o mundo encheu a medida e despertou a ira de Deus.

E dos ministros da Igreja.

33. Fazei também ir para a frente esta obra, ó campeões da Igreja, ministros fiéis de Jesus Cristo, e com a espada de dois gumes que vos foi entregue, a espada da palavra, cortai todos os males![5]. Com efeito, fostes colocados nesse lugar para desenraizar, destruir, dissipar e exterminar o mal, e para exaltar e plantar o bem (Jeremias, I, l0; Salmo 101, 5; Romanos, 13, 14, etc.). E compreendestes já que, no gênero humano, não pode resistir-se aos males com maior eficácia, que resistindo-lhe na primeira idade da vida; que não pode plantar-se com maior eficácia arvorezinhas que duram até à eternidade, que plantando e fazendo desenvolver arvorezinhas novas; que se não pode, com maior eficácia, edificar Sion no lugar de Babilônia, que trabalhando desde cedo as pedras vivas de Deus, ou seja, a juventude, e desbastando-as e polindo-as e adaptando-as à construção celeste. Se, portanto, queremos Igrejas e Estados bem ordenados e florescentes e boas administrações, primeiro que tudo ordenemos as escolas e façamo-las florescer, a fim de que sejam verdadeiras e vivas oficinas de homens e viveiros eclesiásticos, políticos e econômicos. Assim facilmente antigiremos o nosso objetivo; doutro modo, nunca o atingiremos.

Agora importa expor e examinar o modo de obter tal efeito.

34. De que modo, pois, se deva abordar o assunto e conseguir o efeito desejado, eis que o patenteamos agora, porque o Senhor despertou o nosso espírito! Vós que recebestes de Deus olhos para ver, ouvidos para ouvir e mente para julgar, vede, ouvi e julgai.

Quer alguém veja algo de uma nova luz, quer não, que deve fazer-se?

35. Se a alguém surgir uma fúlgida luz, não advertida anteriormente, honre a Deus e não recuse à nova idade esse novo fulgor. Se, depois, nessa luz, notares qualquer falta de luz, ainda que mínima, completa-a tu, ou esclarece-a, ou adverte para que possa ser esclarecida: muitos olhos vêem mais que um.

As pessoas ativas devem esperar os prêmios merecidos.

36. Assim nos ajudaremos mutuamente a seguir, de bom acordo, as obras de Deus; assim fugiremos à maldição anunciada para aqueles que realizam as obras do Senhor de modo fraudulento, assim nos ocuparemos da melhor maneira das mais preciosas riquezas do mundo, isto é, da juventude; assim participaremos no fulgor prometido àqueles que educam os outros para a justiça (Daniel, 12, 3).

Deus tenha piedade de nós, para que, na sua luz, vejamos a luz[6]. Amen.


UTILIDADE DA ARTE DIDÁTICA

Que a Didática se baseie em retos princípios interessa:

1. Aos pais que, até agora, na maioria dos casos, ignoravam o que deveriam esperar de seus filhos. Contratavam preceptores, pediam-lhes, acarinhavam-nos com presentes e até os mudavam, quase sempre em vão e às vezes com algum fruto. Conduzido, porém, o método didático a uma certeza infalível, será impossível, com a ajuda de Deus, não obter sempre o efeito esperado.

2. Aos professores, a maior parte dos quais ignorava completamente a arte de ensinar; e por isso, querendo cumprir o seu dever, gastavam-se e, à força de trabalhar diligentemente, esgotavam as forças; ou então mudavam de método, tentando, ora com este ora com aquele, obter um bom sucesso, não sem um enfadonho dispêndio de tempo e de fadiga.

3. Aos estudantes, porque poderão, sem dificuldade, sem tédio, sem gritos e sem pancadas, como que divertindo-se e jogando, ser conduzidos para os altos cumes do saber.

4. Às escolas, porque, corrigido o método, poderão, não só conservar-se sempre prósperas, mas ser aumentadas até ao infinito. Com efeito, serão verdadeiramente um divertimento, casas de delícias e de atrações. E quando (pela infalibilidade do método), de qualquer aluno se fizer um professor (do ensino superior ou do primário), nunca será possível que faltem pessoas aptas para dirigir as escolas e que os estudos não estejam prósperos.

5. Aos Estados, segundo o testemunho de Cicero[1], atrás citado. Com o qual concorda o seguinte passo (referido por Stobeo) de Diógenes, discípulo de Pitágoras: «Qual é o fundamento de todo o Estado? A educação dos jovens. Com efeito, as videiras que não são bem cultivadas nunca produzem bom fruto»[2].

6. À Igreja, pois somente a reta organização das escolas pode ter como resultado que às igrejas não faltem professores instruídos, e aos professores instruídos não faltem alunos apropriados.

7. Finalmente, interessa ao Céu que as escolas sejam reformadas de modo a ministrarem aos espíritos uma cultura exata e universal, não sendo assim de admirar que, com o fulgor da luz divina, mais facilmente sejam libertados das trevas aqueles a quem o som da trombeta divina não consegue acordar. Efetivamente, embora se pregue o Evangelho aqui e além, e oxalá seja pregado até ao fim do mundo, todavia, como em qualquer reunião pública, nas feiras, nas pensões ou em qualquer outro tumultuoso ajuntamento da gente, costuma acontecer que não se faz ouvir somente ou principalmente quem pronuncia ótimos discursos, mas, conforme alguém se encontra com outro ou lhe está vizinho, de pé ou sentado, assim o ocupa ou detém com as suas ninharias; de igual modo acontece no mundo. Cumpram os ministros da palavra o seu dever com todo o zelo possível: falem, exortem, supliquem; todavia, não serão ouvidos pela parte mais importante da população. Muitos, na verdade, não freqüentam as reuniões sacras, a não ser num ou noutro caso; outros vão, mas com os olhos e os ouvidos fechados, porque, a maioria das vezes, interiormente ocupados em outras coisas, estão pouco atentos ao que ali se faz. Mas admitamos também que estejam atentos e que consigam ver o objetivo das sagradas admoestações; é certo, todavia, que não recebem nem uma impressão nem uma comoção tão forte como seria conveniente, porque o costumado torpor da alma e o já contraído hábito do vício engrossam, fascinam e endurecem de tal modo as suas mentes, que não podem libertar-se daquela espécie de letargo. Permanecem, portanto, na costumada cegueira e nos seus pecados, como que amarrados a grilhões, de tal maneira que, ninguém, exceto apenas Deus, os pode libertar dos males inveterados e ruinosos; como disse um dos Santos Padres, é quase um milagre que um pecador inveterado se resolva a fazer penitência. Mas porque, por outro lado, onde Deus fornece abundantes meios, pretender milagres é tentar Deus[3], impõe-se aceitar que, também no nosso caso, o problema não se põe de modo diverso. Cremos, portanto, que é nosso dever pensar nos meios pelos quais toda a juventude cristã seja mais fervidamente impelida para o vigor da mente e para o amor das coisas Celestes. E se conseguirmos obter este efeito, veremos que o reino dos céus nos infundirá a sua força, como nos tempos passados.

Ninguém, portanto, distraia os seus pensamentos, os seus desejos, as suas energias e as suas forças deste santíssimo propósito. Quem nos concedeu a boa vontade, conceder-nos-á também a realização do fim; mas convém suplicar à misericórdia divina, pedir-lho todos sem exceção, e confiar que a nossa esperança se realize. Trata-se aqui, com efeito, da salvação dos homens e da glória do Altíssimo.

João Valentim Andrea.

Desesperar do bom êxito é inglório;
Desdenhar dos conselhos alheios é injurioso
[4].


ASSUNTOS DOS CAPÍTULOS

I. O homem é a mais alta, a mais absoluta e a mais excelente das criaturas.

II. O fim último do homem está fora desta vida.

III. Esta vida não é senão uma preparação para a vida eterna.

IV. Os graus da preparação para a eternidade são três: conhecermo-nos a nós mesmos (e conosco todas as coisas), governarmo-nos e dirigirmo-nos para Deus.

V. As sementes destas três coisas (da instrução, da moral e da religião) são postas dentro de nós pela natureza.

VI. O homem tem necessidade de ser formado para que se torne homem.

VII. A formação do homem faz-se com muita facilidade na primeira idade, e chego a dizer que não pode fazer-se senão nessa idade.

VIII. É necessário, ao mesmo tempo, formar a juventude e abrir escolas.

IX. Toda a juventude de ambos os sexos deve ser enviada às escolas.

X. Nas escolas, a formação deve ser universal.

XI. Até agora, não tem havido escolas que correspondam perfeitamente ao seu fim.

XII. As escolas podem ser reformadas.

XIII. O fundamento das reformas escolares é a ordem em tudo.

XIV. A ordem perfeita da escola deve ir buscar-se à natureza.

XV. Fundamentos para prolongar a vida.

XVI. Requisitos para ensinar e para aprender, isto é, como se deve ensinar e aprender para que seja impossível não obter bons resultados.

XVII. Fundamentos para ensinar e aprender com facilidade.

XVIII. Fundamentos para ensinar e aprender solidamente.

XIX. Fundamentos para ensinar com vantajosa rapidez.

XX. Método para ensinar as Ciências em geral.

XXI. Método para ensinar as Artes.

XXII. Método para ensinar as Línguas.

XXIII. Método para ensinar a Moral.

XXIV. Método para incutir a Devoção ou Piedade.

XXV. Se realmente queremos escolas reformadas segundo as verdadeiras normas do autêntico Cristianismo, os livros dos pagãos, ou devem ser afastados das escolas, ou ao menos devem ser utilizados com mais cautela que até aqui.

XXVI. Da disciplina escolar.

XXVII. As instituições escolares devem ser de quatro graus, em conformidade com a idade e com o aproveitamento.

XXVIII. Plano da escola materna.

XXIX. Plano da escola de língua nacional.

XXX. Plano da escola latina.

XXXI. Da Academia, das viagens e da associação didática.

XXXII. Da organização universal e perfeita das escolas.

XXXIII. Dos requisitos necessários para começar a pôr em prática este método universal.


Capítulo 1

O HOMEM
É A MAIS ALTA,
A MAIS ABSOLUTA
E A MAIS EXCELENTE
DAS CRIATURAS

Supunha-se que o conhece-te a ti mesmo tivesse vindo do céu.

1. Quando Pítaco[1] pronunciou o seu «conhece-te a ti mesmo» <grego> os sábios acolheram esta máxima com tão grandes aplausos que, para a recomendarem ao povo, afirmaram que ela viera do céu, e tiveram o cuidado de a fazer inscrever, em letras de ouro, no templo de Apolo, em Delfos, onde o povo afluia em grande número. Este foi um ato de sabedoria e de piedade; aquela foi, de fato, uma ficção, mas absolutamente conforme à verdade, como para nós é evidente mais que para eles.

Veio verdadeiramente do céu.

2. Efetivamente, a voz que, vindo do céu, ressoa nas Sagradas Escrituras, que outra coisa quer dizer senão: «ó homem, que tu me conheças, que tu te conheças?» Eu, fonte de eternidade, de sabedoria e de beatitude; tu, criatura, imagem e delícia minha.

Sublimidade da natureza humana.

3. Com efeito, destinei-te a compartilhar comigo da eternidade; para teu uso, preparei o céu, a terra e tudo o que neles está contido; só em ti juntei, ao mesmo tempo, todas as prerrogativas, das quais as outras criaturas apenas têm uma: o ser, a vida, os sentidos e a razão. Fiz-te soberano das obras das minhas mãos, e coloquei tudo a teus pés, as ovelhas, os bois e os outros animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar, e desta maneira coroei-te de glória e de honra (Salmo 8, 6-9). A ti, finalmente, para que nada te faltasse, dei-me eu próprio, mediante a união hipostática, ligando para sempre a minha natureza com a tua, sorte que não coube a nenhuma das outras criaturas visíveis e invisíveis. Com efeito, qual das outras criaturas, no céu ou na terra, se pode gloriar de que Deus se revelasse na sua própria carne e apresentado pelos anjos? (Timóteo, I, 3, i6), ou seja, não apenas para que vejam e se admirem a ver quem desejavam ver (Pedro, I, 1, 12), mas ainda para que adorem a Deus que se revelou vestido de carne, ou seja, Filho de Deus e do homem (Hebreus, I, 6; João, I, 51; Mateus, 4, 11). Deves, portanto, compreender que és o protótipo, o admirável compêndio das minhas obras, o representante de Deus no meio delas, a coroa da minha glória.

É necessário colocar esta verdade debaixo dos olhos de todos os homens.

4. Oxalá todas estas verdades sejam esculpidas, não nas portas dos templos, não nos frontispícios dos livros, não, enfim, nas línguas, nos ouvidos e nos olhos de todos os homens, mas nos seus corações. Deve procurar-se, na verdade, que todos aqueles a quem cabe a missão de formar homens façam com que todos vivam conscientes desta dignidade e excelência, e empreguem todos os meios para atingir o objetivo desta sublimidade.


Capítulo II

O FIM
ÚLTIMO DO HOMEM
ESTÁ
FORA DESTA VIDA

A mais excelente das criaturas deve necessariamente ter a finalidade mais excelente.

1. A própria razão nos diz que uma criatura tão excelente é destinada a um fim mais excelente que o de todas as outras criaturas, isto é, sem dúvida, a gozar, juntamente com Deus, que é o cume da perfeição, da glória e da beatitude, para sempre, a mais absoluta glória e beatitude.

O que é evidente.

2. Mas embora isto se infira claramente da Sagrada Escritura e nós acreditemos firmemente que é de fato assim, todavia, não será tempo perdido ver de quantos modos, nesta vida, Deus nos tenha figurado o Além («Plus ultra») ou de quantos modos a ele possamos chegar.

1. Da história da criação.

3. Em primeiro lugar, no próprio momento da criação. Com efeito, não ordenou ao homem simplesmente, como aos outros seres, que viesse ao mundo; mas, após uma solene deliberação, formou-lhe o corpo como que com os seus próprios dedos e insuflou-lhe por alma uma parte de si mesmo.

2. Da constituição do nosso ser.

4. A constituição do nosso ser mostra que não nos bastam as coisas que possuimos nesta vida. Com efeito, temos aqui três espécies de vida: vegetativa, animal, e intelectual ou espiritual — a primeira das quais nunca se manifesta fora do corpo; a segunda, mediante as operações dos sentidos e do movimento, põe-nos em relação com os objetos exteriores; a terceira pode existir também separadamente, como se verifica nos anjos. Ora, uma vez que é evidente que este grau supremo da vida é fortemente obscurecido e perturbado em nós pelos outros dois, segue-se necessariamente que o será também no lugar onde ela for conduzida ao mais elevado grau de perfeição <grego>.

3. De tudo o que fazemos e sofremos nesta vida.

5. Tudo o que fazemos e sofremos nesta vida mostra que não atingimos aqui o nosso fim último, mas que tudo o que é nosso, e bem assim nós próprios, tende para outro lugar. Com efeito, tudo o que somos, fazemos, pensamos, falamos, imaginamos, adquirimos e possuímos não é senão uma espécie de escada, na qual, subindo cada vez mais acima, é certo que subimos sempre degraus mais altos, mas nunca chegamos ao último. A princípio, com efeito, o homem nada é, como nada era ab aeterno; começa a desenvolver-se somente no útero materno, a partir de uma gota de sangue paterno. Que é, portanto, o homem no princípio? Matéria informe e bruta. A seguir, assume os traços de um pequeno corpo, mas ainda sem sentidos nem movimentos. Depois, começa a mover-se e, por força da natureza, vem à luz; e, pouco a pouco, começam a abrir-se os olhos, os ouvidos e os restantes sentidos. Após um certo lapso de tempo, revela-se o sentido interno, quando sente que vê, que ouve e que sente. Depois, notando as diferenças entre as coisas, manifesta-se o intelecto; finalmente, a vontade, aplicando-se a certos objetos e fugindo de outros, assume o papel de diretora.

Em todas estas coisas há uma gradação, mas sem termo.

6. Mas em cada uma daquelas coisas há uma mera gradação. De fato, pouco a pouco, aparece a inteligência, como a luz radiante da aurora, e começa a emergir da profunda escuridão da noite; e, durante todo o tempo que dura a vida, cresce sempre mais a luz intelectual (a não ser que se trate de um débil), até ao momento da morte. De igual modo, as nossas ações são, a princípio, tênues, débeis, rudes e muito confusas; depois, a pouco e pouco, juntamente com as forças do corpo, também as potencialidades da alma se desenvolvem, de tal maneira que, durante todo o tempo da vida (exceto quem é tomado de um extremo torpor, sendo como que um morto vivo), há sempre qualquer coisa a fazer, a propor e a tentar; todas aquelas faculdades, numa alma generosa, tendem sempre mais para cima, sem um termo. Com efeito, nesta vida, nunca se consegue encontrar o fim, nem dos nossos desejos nem das nossas tentativas.

Tudo isto é demonstrado pela experiência.

7. Para qualquer parte que alguém se volte, conhecerá esta verdade por experiência. Se alguém ama o poder e as riquezas, não encontrará onde saciar a sua fome, ainda que chegue a possuir todo o mundo, o que é evidente pelo exemplo de Alexandre. Se alguém arde com sede de honras, não poderá ter paz ainda que seja adorado por todo o mundo. Se alguém se entrega aos prazeres, embora todos os seus sentidos nadem num mar de delícias, todas as coisas lhe parecem gastas e o seu apetite corre de um objeto para outro. Se alguém aplica a mente ao estudo da sabedoria, nunca encontra o fim, pois, quanto mais coisas uma pessoa sabe, tanto melhor compreende que lhe restam mais para saber. Efetivamente, com toda a razão, Salomão disse: «Os olhos não se saciam de ver e os ouvidos têm sempre desejo de escutar» (Eclesiastes, 1, 8).

Nem mesmo a morte põe fim às nossas aspirações.

8. Os exemplos dos moribundos provam que nem a morte marca o último termo das nossas aspirações. Com efeito, à hora da morte aqueles que passaram honestamente a vida exultam ao pensar que é para entrar numa vida melhor; ao contrário, aqueles que mergulharam no amor da vida presente, apercebendo-se de que a vão abandonar e de que deverão emigrar para outro sítio, começam a tremer, e se, de um modo ou de outro, ainda o podem fazer, reconciliam-se com Deus e com os homens. E embora o corpo, enfraquecido pelas dores, se debilite, os sentidos se ofusquem e a própria vida expire, todavia, a mente, com mais vivacidade que nunca, realiza as suas funções, tomando com devoção, gravidade e circunspecção as necessárias disposições acerca de si mesmo, da família, da herança, do Estado, etc.; de tal maneira que, quem vê morrer um homem piedoso e sábio parece ver um pedaço de terra que se esboroa, e quem o ouve falar, parece ouvir um anjo; e tem necessariamente que confessar que não se trata senão de um hóspede que se prepara para abandonar um pequeno tugúrio prestes a cair em ruínas. Os próprios pagãos compreenderam esta verdade; e por isso os romanos, como se lê em Festo[1], chamaram à morte partida, («ecabitio»), e os gregos usam, muitas vezes, a palavra <grego> que significa ir-se embora, em vez de perecer ou de morrer. Porquê, senão porque se compreende que, pela morte, se passa para um outro lugar?

O exemplo do Cristo-Homem ensina que os homens são destinados à eternidade.

9. Mas, a nós cristãos, esta verdade parece mais clara depois que Cristo, Filho de Deus vivo, enviado do céu a reproduzir a imagem de Deus desaparecida de nós, mostrou a mesma coisa com o seu exemplo. Efetivamente, concebido e dado à luz mediante o nascimento, andou entre os homens; depois de morto, ressuscitou e subiu aos céus, e a morte já O não tem sob o seu domínio. Ora Ele é chamado, e é de fato, o nosso precursor (Hebreus, 6, 20), o primogênito dos irmãos (Romanos, 8,29), a cabeça dos seus membros (Efésios, 1, 22 e 23), o arquétipo de todos aqueles que devem ser reformados à imagem de Deus (Romanos, 8, 29). Portanto, assim como Ele não veio para continuar a viver neste mundo, mas para passar, terminado o curso da vida, às habitações eternas, assim também nós, uma vez que nos cabe a mesma sorte que a Ele, não devemos permanecer aqui, mas emigrar para outro lugar.

O Homem tem três espécies de morada.

10. Para cada um de nós, portanto, estão estabelecidas três espécies de vida e três espécies de morada: o útero materno, a terra e o céu. Da primeira, entra-se para a segunda, mediante o nascimento; da segunda, para a terceira, mediante a morte e a ressurreição; da terceira, nunca mais se sai, eternamente. Na primeira, recebemos apenas a vida, juntamente com um movimento e sentidos incipientes; na segunda, a vida, o movimento e os sentidos com os primórdios da inteligência; na terceira, a plenitude perfeita de todas as coisas.

E três espécies de vida.

11. A primeira vida de que falei é uma preparação para a segunda; a segunda para a terceira; a terceira, de sua própria natureza, nunca termina. A passagem da primeira para a segunda e da segunda para a terceira é estreita e acompanhada de dores, e num e noutro caso se devem depor os despojos ou invólucros (ou seja, no primeiro caso, a placenta, e, no segundo, o próprio organismo do corpo), como faz o pintainho, quando, quebrada a casca, sai para fora. A primeira e a segunda morada, portanto, são como duas oficinas: naquela forma-se o corpo para uso da vida seguinte; nesta, forma-se a alma racional para uso da vida eterna; a terceira morada produz a verdadeira perfeição e prazer de ambos.

Os israelitas são símbolo disto.

12. Assim, os israelitas (seja-nos lícito adaptar este símbolo ao nosso caso) foram gerados no Egito e de lá, pelos estreitos caminhos dos montes e do Mar Vermelho, transferidos para o deserto, aí acamparam em tendas, aprenderam a lei, lutaram com vários inimigos; finalmente, atravessado pela força o Jordão, foram constituídos herdeiros da terra de Canaan, onde corriam rios de leite e de mel.


Capítulo III

ESTA VIDA
NÃO É
SENÃO UMA PREPARAÇÃO
PARA A VIDA ETERNA

Testemunhos desta verdade

1. Que esta vida, uma vez que tende para outra, não é vida (falando com rigor), mas um proêmio da vida verdadeira e que durará para sempre, tornar-se-á evidente, primeiro, pelo testemunho de nós mesmos; segundo, pelo testemunho do mundo; e, finalmente, pelo testemunho da Sagrada Escritura.

1. Pelo testemunho de nós mesmos.

2. Se lançarmos um olhar introspectivo sobre nós mesmos, veremos que todas as coisas da nossa vida procedem de tal modo gradualmente, que a antecedente prepara o caminho para a seguinte. Por exemplo: a nossa primeira vida desenvolve-se nas vísceras maternas. Mas em proveito de quem? Acaso em proveito de si mesma? De modo algum. Trata-se apenas de formar convenientemente um pequenino corpo para servir de habitação e de instrumento à alma, para comodidade e uso da vida seguinte, a qual vivemos à luz do sol. E apenas aquele pequenino corpo está perfeito, somos dados à luz, pois já não há nenhuma razão para que continui naquelas trevas. Do mesmo modo, portanto, esta vida que vivemos à luz do sol não é senão uma preparação para a vida eterna, de tal maneira que não é de admirar que a alma se sirva do corpo para conseguir aquelas coisas que lhe serão úteis para a vida futura. Apenas feitos estes preparativos, emigramos daqui, porque nada mais temos aqui a fazer. É verdade que alguns, antes que tenham feito esses preparativos, são arrebatados, ou antes, lançados no seio da morte, do mesmo modo que, nos casos de aborto, o feto é lançado fora do útero, não para o seio da vida, mas para o seio da morte; em ambos os casos, porém, isso acontece, é certo que com a permissão de Deus, mas contudo, por culpa dos homens.

2. O mundo visível foi criado somente para servir de sementeira, de alimentador e de escola aos homens.

3. Também o mundo visível, de qualquer parte que se olhe, atesta que não foi criado para outro fim senão para servir para a multiplicação, para a alimentação e para a educação do gênero humano.

Com efeito, uma vez que a Deus não aprouve criar os homens todos juntos, no mesmo momento, como fez com os anjos, mas produziu apenas um macho e uma fêmea, dando-lhes, a fim de que, por via de geração, se multiplicassem, as forças necessárias e a sua benção, foi preciso conceder um espaço de tempo necessário para esta sucessiva multiplicação, pelo que foram concedidos alguns milhares de anos. E para que esse tempo não fosse um tempo de confusão, de surdez e de cegueira, fez a extensão dos céus, guarnecidos com o sol, a lua e as estrelas, e ordenou que estes astros, com as suas revoluções, servissem para medir as horas, os dias, os meses e os anos. A seguir, uma vez que o homem seria uma criatura corpórea, com necessidade de um lugar para habitar, de um espaço para respirar e para se mover, de alimento para crescer e de vestidos para se adornar, fez (na parte mais baixa do mundo) um pavimento sólido, a terra: e circundou-a de ar e banhou-a com as águas, e ordenou-lhe que produzisse plantas e animais multiformes, não apenas para satisfazer as necessidades do homem, mas também para seu deleite. E, uma vez que formara o homem à sua imagem, dotado de inteligência, para que também não faltasse à inteligência o seu alimento, derivou de cada uma das criaturas muitas e várias espécies, para que este mundo visível aparecesse como um lucidíssimo espelho da infinita potência, sabedoria e bondade de Deus, na contemplação do qual o homem fosse arrebatado por um sentimento de admiração pelo Criador e impelido a conhecê-lo e movido a amá-lo. Efetivamente, a solidez, a beleza e a doçura do Criador permanece invisível e escondida no abismo da eternidade, mas por toda a parte brilha por meio das coisas visíveis e presta-se a ser apalpada, observada e saboreada. Portanto, este mundo nada mais é que a nossa sementeira, o nosso alimentador e a nossa escola. Deve, por isso, existir um mais além («Plus ultra»), onde, uma vez saídos das aulas desta escola, nos matricularemos na Academia Eterna. Pela razão, portanto, consta que as coisas se passam assim; mas é ainda mais evidente pelas Sagradas Escrituras.

3. O próprio Deus o atesta com as suas palavras.

4. O próprio Deus afirma, pela boca de Oséias, que os céus existem por causa da terra, a terra por causa do trigo, do vinho e do azeite, e tudo isto por causa dos homens (Oseias, 2,22). Tudo, portanto, existe por causa do homem, até o próprio tempo. Com efeito, não será concedida ao mundo uma duração mais longa que a necessária para completar o número dos eleitos (Apocalipse, 6, 11). Apenas este número esteja completo, os céus e a terra desaparecerão e não se encontrará mais lugar para eles (Apocalipse, 20,7), pois surgirá um novo céu e uma nova terra, onde habitará a justiça (Apocalipse, 21,1 e 2; Pedro, II, 3, 18). Finalmente, até os nomes que as Sagradas Escrituras dão a esta vida dão a entender que esta não é senão uma preparação para outra. Com efeito, dão-lhe o nome de via, viagem, porta, espera; e a nós, o nome de peregrinos, forasteiros, inquilinos, aspirantes a uma outra cidadania, a qual será verdadeiramente permanente (Gênesis, 47,9; Salmo 29, 13; Job, 7, 12; Lucas, 12, 36).

A experiência.

5. Todas estas coisas são demonstradas pelos próprios fatos e pela condição de todos os homens, o que é colocado sob os olhos de todos nós. Com efeito, quem de todos os que nasceram, depois que apareceu no mundo, não desapareceu de novo? Precisamente porque somos destinados à eternidade. Porque, portanto, pertencemos à eternidade, é necessário que esta vida seja apenas uma passagem. Por isso Cristo disse: «Estai preparados, porque não sabeis em que hora virá o Filho do homem» (Mateus, 24, 44). E é esta a razão (sabemo-lo também pela Escritura) por que Deus chama deste mundo alguns ainda na primeira idade da vida: chama-os certamente quando os vê preparados como Enoc (Gênesis, 4, 24; Sabedoria, 4, 14). Porque é que, ao contrário, usa de longanimidade para com os maus? Sem dúvida, porque não quer surpreender ninguém não preparado, mas que todos se convertam (Pedro II, 3, 9). Se, todavia, algum continua a abusar da paciência de Deus, este ordena que seja arrebatado pela morte.

Conclusão.

6. Portanto, assim como é certo que a estadia no útero materno é uma preparação para viver no corpo, assim também é certo que a estadia no corpo é uma preparação para aquela vida que será uma continuação da vida presente e durará eternamente. Feliz aquele que sai do útero materno com os membros bem formados! Mil vezes mais feliz aquele que sair desta vida com a alma bem limpa!


Capítulo IV

OS GRAUS
DA PREPARAÇÃO
PARA A ETERNIDADE
SÃO TRÊS:
CONHECER-SE A SI MESMO
(E CONSIGO TODAS AS COISAS),
GOVERNAR-SE
E DIRIGIR-SE PARA DEUS

De onde se adquire o conhecimento dos fins secundários do homem, subordinados ao fim supremo (a eternidade)?

1. É evidente, portanto, que o fim último do homem é a beatitude eterna com Deus. Quais sejam os fim subordinados àquele e conformes a esta vida transitória, torna-se evidente pelas palavras com que Deus manifestou a resolução de criar o homem: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e presida aos peixes do mar, e às aves do céu, e aos animais selváticos, e a toda a terra, e a todos os répteis que se movem sobre a terra» (Gênesis, 1, 26).

São três:

1. que conheça todas as coisas;
2. que seja rei de si mesmo;
3. que seja delícia de Deus.

2. Ora, desta passagem, torna-se evidente que foi colocado entre as criaturas visíveis para que seja:

I. Criatura racional.
II. Criatura senhora das outras criaturas
III. Criatura imagem e delícia do seu Criador

Estas três coisas estão de tal modo ligadas que não pode admitir-se nenhum divórcio entre elas, porque sobre elas se funda a base da vida presente e da futura.

Que significa que é criatura racional?

3. Que é criatura racional quer dizer que observa, dá o nome e se apercebe de todas as coisas, isto é, que pode conhecer e dar um nome a todas as coisas deste mundo e entendê-las, como é evidente (Gênesis, 2, 19). Ou então, segundo a enumeração de Salomão (Sabedoria, 7, 17 e ss.): conhecer a constituição do mundo e a força dos elementos, o princípio e o fim e o meio das estações, as mudanças dos solstícios e a variabilidade do tempo, a duração do ano e a posição das estrelas, a natureza dos animais e a alma dos brutos, as forças dos espíritos e os pensamentos dos homens, as diferenças das plantas e a potência das suas raízes: numa palavra, todas as coisas ocultas ou manifestas, etc. Nisto está compreendido também a ciência dos artífices e a arte da palavra; de tal maneira que (como diz o Eclesiástico) em nenhuma coisa, pequena ou grande, haja algo de desconhecido (Eclesiástico, 5, 18). Somente assim, com efeito, poderá de fato conservar o título de animal racional, isto é, se conhecer os fundamentos de todas as coisas.

Que significa que é senhor das outras criaturas?

4. Que é o senhor das outras criaturas quer dizer que, ordenando tudo para fins legítimos, faz reverter tudo utilmente em seu proveito; quer dizer que, portando-se por toda a parte, no meio das criaturas, como um rei, isto é, grave e santamente (ou seja, adorando apenas o Criador acima de si mesmo; os anjos de Deus, seus companheiros, como a si mesmo, e todas as outras coisas menos que a si mesmo) defende a dignidade que lhe é concedida; que não está sujeito a nenhuma criatura, nem mesmo à própria carne e que aproveita de tudo e de tudo se serve livremente; que não ignora onde, quando, como e até que ponto deve obedecer ao corpo, e onde, quando, como e até que ponto deve servir o próximo. Numa palavra, que pode regular prudentemente os movimentos e as ações, externas e internas, de si mesmo e dos outros.

Que significa que é imagem de Deus?

5. Finalmente, que é imagem de Deus, quer dizer que representa ao vivo a perfeição do seu arquétipo, como diz o próprio Arquétipo: «Sede santos, porque Eu, o vosso Deus, sou santo» (Levítico, 19, 2).

Os referidos três atributos reduzem-se:
1. à instrução;
2. à virtude;
3. à piedade.

6. Daqui se segue que os autênticos requisitos do homem são: 1. que tenha conhecimento de todas as coisas; 2. que seja capaz de dominar as coisas e a si mesmo; 3. que se dirija a si e todas as coisas para Deus, fonte de tudo. Estas três coisas, se as quisermos exprimir por três palavras vulgarmente conhecidas, serão:

I. Instrução,
II. Virtude, ou seja, honestidade de costumes,
III. Religião, ou seja, piedade;

entendendo-se por instrução, o conhecimento pleno das coisas, das artes e das línguas; por costumes, não apenas a urbanidade exterior, mas a plena formação interior e exterior dos movimentos da alma; e por religião, a veneração interior, pela qual a alma humana se liga e se prende ao Ser supremo.

Estas três coisas são o essencial do homem nesta vida; todas as outras são acessórias <grego>.

7. Nestas três coisas reside toda a excelência do homem, porque só estas são o fundamento da vida presente e da futura; as outras (a saúde, a força, a beleza, o poder, a dignidade, a amizade, o sucesso, a longevidade) não são senão acréscimos e ornamentos externos da vida, se acaso Deus os junta a ela, ou vaidades supérfluas, pesos inúteis e estorvos nocivos, se alguém, desejando-os apaixonadamente, os vai procurar, e, descuradas as coisas mais importantes, deles se ocupa e neles se mergulha.

Ilustra-se isto com o exemplo:
1. do relógio.

8. Ilustro a minha afirmação com exemplos. O relógio (solar ou mecânico) é um instrumento elegante e muito necessário para medir o tempo, cuja substância ou essência é constituída por uma correspondência perfeita de todas as suas partes. Os estojos em que se coloca, as esculturas, as pinturas e os dourados são coisas acessórias que acrescentam qualquer coisa à sua beleza, mas nada à sua bondade. Se alguém quiser um instrumento destes de preferência belo a bom, será escarnecida a sua puerilidade, pois não repara onde está sobretudo a utilidade.

2. do cavalo.

Do mesmo modo, o valor de um cavalo está na sua força junta com a magnanimidade ou agilidade e a prontidão do voltear; a cauda solta ou atada, a crina penteada e ereta, os freios dourados, a gualdrapa com bordados de ouro, e os colares, sejam de que espécie forem, é verdade que acrescentam ornamento, mas, se víssemos alguém medir por estas coisas a excelência do cavalo, chamar-lhe-íamos estúpido.

3. da saúde

Finalmente, o bom estado da nossa saúde depende de uma digestão regular e de uma boa disposição interior. Deitar-se em leitos moles, trazer vestidos luxuosos e comer alimentos saborosos, não só não favorece a saúde, mas até a prejudica; por isso, quem procura coisas deleitáveis de preferência a coisas sãs, é um insensato. E é um insensato infinitamente mais prejudicial aquele que, desejando ser homem, se preocupa mais com os ornamentos que com a essência do homem. Por isso, o Sábio chama ímpio e estulto «a quem julga que a nossa vida é coisa de burla e um mercado lucrativo» e diz e repete que «a aprovação e a benção de Deus está muito longe de semelhante homem» (Sabedoria, 15, 12 e 19).

Conclusão.

9. Fique, portanto, assente isto: quanto maior é a atividade que, nesta vida se despende por amor da instrução, da virtude e da piedade, tanto mais nos aproximamos do fim último. Por isso, sejam estas três coisas a obra essencial da nossa vida <grego>; tudo o resto é acessório, empecilho, aparência enganosa.


Capítulo V

AS SEMENTES
DAQUELAS TRÊS COISAS
(DA INSTRUÇÃO, DA MORAL E DA RELIGIÃO)
SÃO POSTAS
DENTRO DE NÓS
PELA NATUREZA

A primitiva natureza do homem era boa: a ela (libertando-nos da corrupção) devemos regressar.

1. Neste lugar, por natureza, entendemos, não a corrupção que, depois da queda, a todos atingiu (e por causa da qual somos chamados, por natureza, filhos da ira[1], incapazes, por nós próprios, de pensar seja o que for de bom), mas o nosso estado primitivo e fundamental, ao qual devemos regressar como nosso princípio. Neste sentido, Luís de Vives disse: «Que outra coisa é o cristão senão o homem regressado à sua natureza e restituído, por assim dizer, à sua origem, de onde o demônio o havia afastado?» (Da Concórdia e da Discórdia, livro I)[2]. Neste sentido também pode tomar-se aquilo que Sêneca escreveu: «A sabedoria está em regressar à natureza e em voltar àquele lugar de onde o erro público (ou seja, o erro cometido pelo gênero humano através dos primeiros pais)[3] nos expulsou». E diz ainda: «O homem não é bom, mas, lembrando-se da sua origem, transforma-se em bom, para que tenda a igualar Deus. Desonestamente, ninguém consegue subir ao lugar de onde descera» (Carta 93)[4].

A força proveniente da providência eterna impele para o estado primitivo.

2. Entendemos também pela palavra natureza a providência universal de Deus, ou seja, o influxo incessante da bondade divina para operar tudo em todos, ou seja, em cada criatura aquilo para que a destinou. Na verdade, o objetivo da sabedoria divina foi nada fazer em vão, isto é, nem sem qualquer finalidade, nem sem os meios adequados para conseguir esse fim. Por conseqüência, tudo o que existe, existe para qualquer fim, e para que o possa atingir foi dotado dos necessários orgãos e auxílios; mais ainda, foi dotado também de uma verdadeira tendência, a fim de que nunca seja impelido para o seu fim contra a sua vontade e com relutância, mas antes com prontidão e com prazer pelo instinto da própria natureza, de modo que, se disso é mantido afastado, advenha o sofrimento e a morte. É certo, por isso, que também o homem foi feito, por natureza, apto para a inteligência das coisas, para a harmonia dos costumes e para o amor a Deus sobre todas as coisas (vimos já, com efeito, que foi destinado para estas coisas), e é tão certo que as raízes daquelas três coisas se encontram nele, quanto é certo que a cada planta foram dadas as raízes sob a terra.

A sabedoria colocou no homem raízes eternas.

3. Para que se torne mais evidente o que pretende dizer o Eclesiástico quando proclama que a sabedoria colocou fundamentos eternos nos homens (Eclesiástico, 1, 14), vejamos que fundamentos de Sabedoria, de Virtude e de Religião foram postos em nós, para que nos apercebamos quão maravilhoso organismo de sabedoria é o homem.

I. Tornando-o apto para adquirir conhecimento das coisas. O que é evidente, porque o fez:
1. sua imagem

4. É evidente que todo o homem nasce apto para adquirir conhecimento das coisas: primeiro, porque é imagem de Deus. Com efeito, a imagem, se é perfeita, apresenta necessariamente os traços do seu arquétipo, ou então não será uma imagem. Ora, uma vez que, entre os atributos de Deus, se destaca a omnisciência, necessariamente brilhará no homem algo de semelhante a ela. E porque não? Sem dúvida que o homem está no meio das obras de Deus, tendo uma mente lúcida, como um espelho esférico, suspenso na parede de uma sala, o qual recebe a imagem de todas as coisas, digo, de todas as coisas que o rodeiam. Efetivamente, a nossa mente não apreende somente as coisas vizinhas, mas também aproxima de si as que estão afastadas (quer quanto ao lugar, quer quanto ao tempo), ergue-se às que estão elevadas, investiga as ocultas, desvela as veladas e esforça-se por perscrutar até as imperscrutáveis, de tal maneira é algo de infinito e de indeterminável. Se fossem concedidos ao homem mil anos de vida, durante os quais aprendesse constantemente qualquer coisa, deduzindo uma coisa de outra, todavia, teria sempre onde receber outras coisas que se lhe apresentassem, a tal ponto a mente do homem é de capacidade inesgotável que, no conhecimento, se apresenta como um abismo.

O nosso pequeno corpo está encerrado num círculo estreito; a nossa voz vai um pouco mais além; a vista apenas chega à cúpula celeste; mas à nossa mente não pode fixar-se um limite, nem no céu nem fora do céu: tanto se eleva acima dos céus dos céus, como desce abaixo do abismo do abismo; e mesmo que estes espaços fossem milhões de vezes mais vastos do que são, ela aí penetraria, todavia, com incrível rapidez. E havemos então de negar que todas as coisas lhe são acessíveis, que ela é capaz de tudo?

2. Resumo do universo.

5. O homem é chamado pelos filósofos <grego>, resumo do universo, compreendendo, de modo obscuro, todas as coisas que se vêem por toda a parte amplamente espalhadas pelo universo (macro-cosmos). Que assim é, demonstrar-se-á noutro lugar[5]. Em conseqüência disso, a mente do homem que entra no mundo compara-se com muita razão a uma semente ou a um caroço, no qual, embora não exista ainda em ato a figura da erva ou da árvore, todavia, nele existe já de fato a erva ou a planta, como se torna evidente quando a semente, metida debaixo da terra, lança para baixo as raízes e para cima os rebentos, os quais, pouco depois, por uma força ingênita, se alongam em ramos e em ramagens, se cobrem de folhas e se adornam de flores e de frutos.

N.B.

Não é necessário, portanto, introduzir nada no homem a partir do exterior, mas apenas fazer germinar e desenvolver as coisas das quais ele contém o gérmen em si mesmo e fazer-lhe ver qual a sua natureza. Por isso, aceitamos que Pitágoras costumava dizer que era tão natural ao homem saber tudo que, se um menino de sete anos fosse prudentemente interrogado acerca de todas as questões de toda a filosofia, com certeza que poderia responder a todas, precisamente porque a luz da razão é a forma e a norma suficiente de todas as coisas. Simplesmente agora, após a queda, que o obscurece e confunde, é incapaz de se libertar pelos seus próprios meios; e aqueles que deveriam ajudá-lo não contribuem senão para aumentar o embaraço em que se encontra.

3. Dotado de sentidos

6. Além disso, à alma racional que habita em nós, foram acrescentados órgãos e como que emissários e observadores, com a ajuda dos quais, ou seja, da vista, do ouvido, do olfato, do gosto e do tato, ela procura chegar a tudo aquilo que se encontra fora dela, de tal maneira que, de todas as coisas criadas, nada pode permanecer-lhe escondido. Uma vez que, portanto, no mundo visível, nada há que se não possa ver, ou ouvir, ou apalpar, e, por isso, que se não possa saber o que é e de que natureza é, daí se segue que nada existe no mundo que o homem, dotado de sentidos e de razão, não consiga apreender.

4. Estimulado pelo desejo de saber.

7. Está implantado também no homem o desejo de saber; e não apenas a aceitação resignada, mas até o apetite do trabalho[6]. Surge logo na primeira idade infantil e acompanha-nos durante toda a vida. Com efeito, quem não experimenta a impaciência de ouvir, de ver ou de apalpar sempre algo de novo? Quem não sente prazer em comparecer todos os dias em qualquer lugar, ou em conversar com alguém, em perguntar qualquer coisa? Em resumo, eis o que se passa: os olhos, os ouvidos, o tato e também a mente, procurando sempre o seu alimento, lançam-se sempre para fora de si mesmos, nada havendo, para uma natureza viva, tão intolerável como o ócio e o torpor. E uma vez que até os idiotas admiram os homens doutos, que significa isto senão que também os idiotas experimentam pelo saber os atrativos de um desejo natural, nos quais eles próprios gostariam de participar, se achassem que isso era possível?; mas porque vêem que isso não é possível, suspiram e olham com reverência aqueles que vêem de inteligência mais elevada.

De onde resulta que muitos, tomando-se a si mesmos por guia, conseguem penetrar no conhecimento das coisas.

8. Os exemplos dos autodidatas mostram, de maneira evidente, que o homem, conduzido pela natureza, pode aprender todas as coisas. Com efeito, alguns foram mais adiante que os seus próprios mestres, ou (como diz S. Bernardo)[7], ensinados pelos carvalhos e pelas faias (ou seja, passeando e meditando nas florestas) fizeram mais progressos que outros, instruídos na escola de diligentes professores. Acaso não nos mostra isto que, dentro do homem, estão, de fato, todas as coisas, isto é, o facho e o candieiro, o azeite e a torcida, e tudo o necessário? Basta-lhe saber riscar o fósforo, fazer tomar fogo à acendalha, e acender as luzes para que veja, tanto em si mesmo como no vasto mundo (observando como todas as coisas foram ordenadas com número, medida e peso[8]), os maravilhosos tesouros da sabedoria de Deus, num espetáculo cheio de beleza. Se, porém, a sua luz interior não está acesa, mas apenas se faz girar do exterior, à volta dele, as lâmpadas das opiniões alheias, não pode acontecer diversamente do que acontece; é como se se fizesse girar archotes à volta de uma prisão obscura e fechada, dos quais entrariam pelos respiradouros somente alguns raios, mas não a plena luz. É precisamente como disse Sêneca: «As sementes de todas as artes estão colocadas dentro de nós, e Deus, nosso mestre, de uma maneira oculta, produz os gênios»[9].

A nossa mente é comparada:
1. à terra;
2. a um jardim;
3. a uma tábua rasa.

9. O mesmo nos ensinam as coisas a que se compara a nossa mente. Com efeito, a terra (à qual, muitas vezes, a Sagrada Escritura compara o nosso coração)[10] não recebe acaso sementes de toda a espécie? E acaso um só e o mesmo jardim não permite que nele se plantem ervas, flores e plantas aromáticas de toda a espécie? Com certeza, se ao jardineiro não falta prudência e zelo. E quanto maior for a variedade, tanto mais belo será o espetáculo para os olhos, tanto mais suave é o prazer para o nariz e tanto mais forte é o conforto para o coração.

Aristóteles comparou a alma humana a uma tábua rasa, onde nada está escrito e onde se pode escrever tudo[11]. Portanto, da mesma maneira que, numa tábua, onde não há nada, o escritor pode escrever, e o pintor pintar aquilo que quer, desde que saiba da sua arte, assim também na mente humana, com a mesma facilidade, quem não ignora a arte de ensinar pode gravar a efígie de todas as coisas. E se isto não acontece, com toda a certeza que não é por culpa da tábua (exceto, uma ou outra vez, quando ela é demasiado rugosa), mas por ignorância do escrivão ou do pintor. Há, porém, uma diferença: na tábua, não é possível traçar linhas senão até ao limite em que as margens o permitem, ao passo que, na mente, por mais que se escreva ou esculpa, nunca se encontra um sinal que indique o termo, pois (como atrás se observou), ela não tem termo.

4. à cera, onde podem imprimir-se infinitos selos.

10. Compara-se também, com razão, o nosso cérebro, oficina dos pensamentos, à cera, onde, ou se imprime um selo, ou de que se fazem estatuetas. Com efeito, da mesma maneira que a cera, adaptando-se a receber qualquer forma, se submete como se quer a tomar e a mudar de figura, assim também o cérebro, prestando-se a receber as imagens de todas as coisas, recebe em si tudo o que o universo contém. Com este exemplo, mostra-se, ao mesmo tempo, de uma maneira elegante, o que é o nosso pensamento e o que é a nossa ciência. Tudo o que me impressiona a vista, o ouvido, o olfato, o gosto e o tato é para mim como um selo, pelo qual a imagem de uma coisa se imprime no cérebro; e nele o imprime de tal maneira que, mesmo que a coisa se afaste dos olhos, dos ouvidos, do nariz e das mãos, permanece sempre a sua imagem; e não é possível que ela não permaneça, a não ser quando uma atenção negligente formou uma impressão débil. Por exemplo: se fixo um homem ou lhe falo; se, viajando, contemplo uma montanha, um rio, um campo, uma floresta, uma cidade, etc.; se, por vezes, ouço trovões, música e discursos; se leio atentamente algumas linhas num livro, etc.; todas estas coisas se imprimem no meu cérebro, de tal maneira que, todas as vezes que a sua recordação se me renova, é o mesmo que se me estivessem diante dos olhos, me ressoassem aos ouvidos e as saboreasse ou apalpasse neste momento. E embora um cérebro, ou receba estas impressões de modo mais distinto, ou as represente com maior clareza, ou as retenha com maior fidelidade que outro, no entanto, cada um deles as recebe, representa e retém, de qualquer maneira.

A capacidade da nossa mente é um milagre de Deus.

11. A este propósito, devemos admirar o espelho da sabedoria de Deus, a qual providenciou de modo que a massa do cérebro, que não é grande sob aspecto nenhum, fosse capaz de receber milhares e milhões de imagens. Com efeito, tudo aquilo que cada um de nós (principalmente as pessoas instruídas), durante tantos anos, viu, ouviu, saboreou, leu e adquiriu com a experiência e com o raciocínio, e de que, segundo as suas forças, se pode recordar, é evidente que tudo isso se conserva ordenado no cérebro, ou seja, as imagens das coisas uma vez vistas, ouvidas, lidas, etc., embora existam por milhões e se multipliquem até ao infinito, com o fato de ver, de ouvir e de ler, quase cada dia, qualquer coisa de novo, todavia, estão contidas no cérebro. Que coisa é esta imperscrutável sabedoria da omnipotência de Deus? Salomão maravilha-se que todos os rios desaguem no oceano e, todavia, não encham o mar (Eclesiastes, 1, 7); e quem não há-de admirar-se com este abismo da nossa memória que tudo recebe e tudo restitui, sem jamais se encher e sem jamais se esvasiar? Assim, a nossa mente é verdadeiramente maior que o mundo, do mesmo modo que o continente é necessariamente maior que o conteúdo.

A nossa mente é um espelho.

12. Finalmente, o olho ou o espelho simboliza muito bem a nossa mente, pois de tudo o que se lhe apresenta, de qualquer forma ou cor que seja, imediatamente mostrará em si uma imagem parecidíssima, a não ser que se lhe apresente um objeto às escuras, ou da parte detrás, ou demasiado longe, por causa da distância maior que o devido, ou que se impeça de receber a impressão, ou esta seja baralhada por um movimento contínuo; nestes casos, temos de confessá-lo, não se obtém êxito. Falo, porém, daquilo que costuma acontecer naturalmente, quando há luz e o objeto é apresentado como convém. Da mesma maneira que, portanto, não é necessário forçar os olhos a abrirem-se e a fixarem os objetos, porque (tal como aquele que naturalmente tem sede de luz) eles experimentam prazer em olhar espontaneamente, e são capazes de olhar todas as coisas (desde que os não perturbem, apresentando-lhes ao mesmo tempo demasiados objetos) e nunca podem saciar-se de olhar; assim também a nossa mente é sequiosa das coisas, está sempre atenta, toma, ou melhor, agarra todas as coisas, sem nunca se cansar, desde que não seja ofuscada com uma multidão de objetos e que, com a devida ordem, se lhe dê a observar uma coisa após outra.

II. No homem, a raiz da honestidade é a harmonia.

13. Os próprios pagãos viram que é natural ao homem a harmonia dos costumes, embora, ignorando outra luz divinamente acrescentada e o guia mais seguro que nos foi dado para chegar à vida eterna, temham considerado (tentativa vã) aquelas centelhas, verdadeiros faróis. Com efeito, assim fala Cícero: «Nas nossas faculdades espirituais estão inatos os gérmens da virtude, os quais, se pudessem desenvolver-se e crescer, seriam suficientes, por natureza, para nos conduzirem à beatitude (isto é exagerado!). Porém, apenas somos dados à luz e começamos a ser educados, rebolamo-nos continuamente em toda a espécie de imundícies, de tal maneira que parece que, juntamente com o leite da ama, bebemos os erros» (Tusculanae, III)[12]. Que é verdadeiro que certos gérmens de virtude nascem juntamente com o homem, infere-se destes dois argumentos: primeiro, todo o homem sente prazer com a harmonia; segundo, ele próprio não é senão harmonia, interior e exteriormente.

1. Com a qual se deleita em toda a parte: em todas as coisas visíveis,

14. Que o homem se deleita com a harmonia e procura ardentemente chegar a ela, é evidente. Efetivamente, a quem se não deleitaria ao ver um homem formoso, um cavalo elegante, uma estátua bela e uma pintura linda? De onde nasce esse prazer senão do fato de que a perfeita proporção das partes e das cores produz o agrado? Essa proporção é o prazer mais natural para os olhos.

nas coisas audíveis,

Pergunto igualmente: a quem não agrada a música? E porquê? Sem dúvida porque a harmonia das vozes produz um som agradável.

nas coisas que se saboreiam,

A quem não agradam os alimentos bem temperados? Sem dúvida porque a temperatura dos sabores deleita agradavelmente o paladar.

nas coisas palpáveis,

Cada um goza com um calor bem proporcionado, com uma frescura bem repartida, com uma posição justa e um movimento equilibrado dos membros. Porquê? Precisamente porque todas as coisas temperadas são amigas e salutares para a natureza e todas as coisas desmesuradas são suas inimigas e prejudiciais.

e até nas próprias virtudes.

Se nós amamos até as virtudes uns nos outros (de fato, mesmo quem é privado de virtude admira as virtudes dos outros, mesmo que os não imite, uma vez que considera impossível vencer os seus maus hábitos), porque é que, portanto, cada um não há-de amar a virtude em si mesmo? Cegos de nós, se não reconhecemos que estão em nós as raízes de toda a harmonia!

2. A qual se encontra também no homem: tanto relativamente ao corpo

15. Mas também o próprio homem não é senão harmonia, tanto relativamente ao corpo, como relativamente à alma. Com efeito, assim como o grande mundo é parecido com um enorme relógio, de tal modo fabricado segundo as regras da arte, com muitíssimas rodas e maquinismos, que para produzir movimentos contínuos e perfeitamente ordenados, uma parte os comunica à outra, através de todo o relógio, assim também o homem.

Com efeito, quanto ao corpo, construído com arte admirável, em primeiro lugar está o coração, que é móvel, fonte de vida e de atividade; dele os outros membros recebem o movimento e a medida do movimento. Mas o peso, ou seja, a verdadeira força motriz, é o cérebro, o qual, servindo-se dos nervos, como de cordas, faz andar as outras rodas (os membros) para diante e para trás. Na verdade, a variedade das operações interiores e exteriores corresponde à exata e perfeita correspondência dos movimentos do relógio.

como no que diz respeito à alma

16. Assim, nos movimentos da alma, a principal roda é a vontade; os pesos que a fazem mover são os desejos e as paixões que inclinam a vontade para esta ou para aquela parte. A válvula, que abre e fecha o movimento, é a razão, a qual mede e determina que coisa, onde e até que ponto se deve abraçar ou afastar. Os outros movimentos da alma são como que as rodas menores, que seguem a principal. Por isso, se aos desejos e às paixões se não atribui um peso demasiado grande, e a válvula, ou seja, a razão, abre e fecha convenientemente, é impossível não se seguir uma ordem e um acordo perfeito de virtudes, isto é, um perfeito equilíbrio das ações e das paixões.

A harmonia perturbada pode remediar-se.

17. Eis, portanto, que realmente o homem em si mesmo não é senão harmonia. Por isso, assim como acerca de um relógio ou de um instrumento musical, feito pelas mãos de um artífice perito, se acaso se estraga ou se torna desafinado, não dizemos imediatamente que já não serve para nada (pode, com efeito, consertar-se e tornar a afinar-se), assim também acerca do homem, embora corrompido pelo pecado, deve afirmar-se que, com determinados meios, é possível saná-lo, por graça da virtude de Deus.

III. Que no homem estão as raízes da religião argumenta-se:
1. pela natureza da sua imagem,

18. Que as raízes da religião estão no homem, por natureza, demonstra-se pelo fato de que ele é a imagem de Deus. Com efeito, a imagem implica semelhança: e que todo o semelhante se congratula com o seu semelhante é lei imutável de todas as coisas (Eclesiástico, 13, 19). O homem, portanto, uma vez que nada tem de igual a si, a não ser Aquele à imagem do qual foi feito, é natural que não seja conduzido pelos seus desejos senão para a fonte de onde derivou, contanto que a conheça com suficiente clareza.

2. pela reverência inata em todos para com a divindade,

19. Isto é evidente também pelo exemplo dos pagãos, os quais, não sendo ajudados por nenhuma palavra de Deus, apenas pelo oculto instinto da natureza chegaram, não só a conhecer Deus, mas também a venerá-lo e a desejá-lo, embora errassem quanto ao número dos deuses e à forma do culto. «Todos os homens têm a noção dos deuses e todos atribuem o lugar supremo a qualquer potência divina», escreve Aristóteles no livro I Do Céu, cap. 3[13]. E Sêneca: «Em primeiro lugar, o culto divino consiste em acreditar nos deuses; depois, em atribuir-lhes a majestade devida e em atribuir-lhes a bondade, sem a qual não há qualquer majestade; em saber que são eles que governam o mundo, que regulam todas as suas coisas e que providenciam pela conservação do gênero humano» (Carta 96)[14]. Acaso esta opinião difere muito da do Apóstolo? «Porquanto é necessário que o que se aproxima de Deus acredite que Ele existe e que é remunerador dos que O buscam» (Hebreus, II, 6).

3. pelo desejo natural do Sumo Bem (que é Deus),

20. Platão diz: «Deus é o sumo bem, superior a toda a substância e a toda a natureza, o qual é naturalmente desejado por todas as criaturas» (Timeu)[15]. E isto (que Deus é o sumo bem, naturalmente desejado por todas as criaturas) é de tal modo verdadeiro que Cícero diz: «A primeira mestra da piedade é a natureza» (Da natureza dos deuses, I)[16]. E isto “porque (como escreve Lactâncio, no livro 4, cap. 28) fomos gerados com a condição de prestarmos a Deus, que nos criou, as justas e devidas homenagens e de apenas reconhecermos a Ele como Deus e de O seguirmos. Com este vínculo da piedade somos atados e ligados a Deus; de onde a própria religião recebe o seu nome»[17].

que nem sequer pela queda do gênero humano foi extinto.

21. Deve, todavia, confessar-se que este desejo natural de Deus, como sumo bem, foi corrompido com a queda do pecado e degenerou numa espécie de vertigem, que não é capaz de regressar à retidão com as suas próprias forças; naqueles, porém, que Deus de novo ilumina com o seu Verbo e com o seu Espírito, ele volta a aguçar-se de tal modo que David, voltado para Deus, clama: «Quem tenho eu, lá no céu, exceto tu? E, fora de ti, nada me deleita sobre a terra. Desfalece a minha carne e o meu coração, e o rochedo do meu coração e a minha herança é Deus para sempre» (Salmo 72, 24 e 25).

É, portanto, impiamente que se procuram pretextos contra o exercício da piedade.

22. Que ninguém, portanto, enquanto se procuram remédios para corrupção, nos oponha a corrupção, porque Deus, por obra do seu Espírito e com a intervenção de meios adequados, prepara-se para a fazer desaparecer. De fato, assim como a Nabucodonosor, quando foi privado do sentido humano e provido de um coração bestial, lhe foi deixada, todavia, a esperança de poder readquirir a mente humana, e até mesmo também a dignidade real, logo que reconhecesse que o poder vem do céu (Daniel, 4, 23); assim também, a nós, plantas excluídas do paraíso de Deus, foram deixadas as raízes, as quais, sobrevindo a chuva e o sol da graça de Deus, podem de novo germinar.

Porventura o nosso Deus, logo a seguir à queda e à proclamação da nossa ruína (a pena de morte) não plantou imediatamente (com a promessa da semente bendita), de novo, nos nossos corações, rebentos de nova graça? Acaso não nos enviou o seu Filho, pelo qual nos seriam restituídos os bens perdidos?

E não deve sublevar-se o velho Adão contra o novo.

23. É coisa torpe e nefanda e sinal evidente de ingratidão estar sempre a apelar para a corrupção e dissimular a redenção. Correr atrás daquilo que o velho Adão em nós deixou e não procurar aquilo que Cristo, novo Adão, nos proporcionou! Muito acertadamente, o Apóstolo, em seu nome e no de todos os regenerados, diz: «Tudo posso naquele que me conforta, Cristo» (Filipenses, 4, 13). Se é possível que um garfo de árvore doméstica, enxertado num salgueiro, num espinheiro ou em qualquer árvore brava, germine e frutifique, porque não há-de acontecer o mesmo se for enxertado bem sobre a própria raiz? Veja-se a argumentação do Apóstolo (Romanos, 11, 24). Além disso, se Deus, de pedras, pode fazer nascer filhos de Abraão (Mateus, 3, 9), porque não há-de despertar os homens, feitos já filhos de Deus desde a criação, adotados de novo por Cristo e regenerados pelo Espírito da graça, para toda a espécie de boas obras?

A graça de Deus não se deve coarctar, mas reconhecer com gratidão.

24. Abstinhamo-nos de coarctar a graça de Deus, pois Ele está pronto a infundi-la em nós liberalíssimamente. Com efeito, se nós, enxertados em Cristo por meio da fé e dados a Ele por meio do Espírito de adoção, se nós, digo, com a nossa geração, não somos aptos para as coisas do Reino de Deus, como é que então Cristo, falando das criancinhas, afirmou que «é delas o reino de Deus»?[18] Ou como é que no-las apresenta como modelo, ordenando a todos que «se convertam e se façam como crianças, se querem entrar no reino dos céus?» (Mateus, 18, 3). Como é que o Apóstolo proclama santos e nega que sejam impuros os filhos dos cristãos (mesmo quando só um deles pertence ao número dos fiéis)? (Coríntios, I, 7, 14). Pelo contrário, até daqueles que já mergulharam na prática de vícios gravíssimos, o Apóstolo ousa afirmar: «E tais éreis alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Espírito do nosso Deus» (Coríntios, I, 6, 11). Precisamente por isto, quando dizemos que os filhos dos cristãos (não a geração do velho Adão, mas a geração regenerada pelo novo Adão, isto é, os filhos de Deus, os irmãos e as irmãs de Cristo) pedem para serem formados e estão aptos a receber as sementes da eternidade, a quem pode parecer que isto seja impossível? A ninguém, pois não procuramos obter frutos de uma oliveira brava, mas ajudamos os rebentos da árvore da vida, novamente plantados, para que produzam frutos.

Conclusão.

25. Fique, portanto, assente que é mais natural e, pela graça do Espírito Santo, mas fácil, que o homem se torne sábio, honesto e santo, do que a perversidade adventícia poder impedir o progresso. Com efeito, qualquer coisa regressa facilmente à sua natureza. E é esta a advertência que nos faz a Escritura: «A sabedoria facilmente se deixa ver por aqueles que a amam; ela corre mesmo atrás de quem a pede, antes de ser conhecida, e por aqueles que a esperam faz-se encontrar, sem fadiga, sentada à sua porta» (Sabedoria, 6, 13 e ss.). E é conhecida a sentença do poeta venusino: Ninguém é tão selvagem que, prestando paciente ouvido à cultura, não possa ser domesticado[19].


Capítulo VI

O HOMEM
TEM NECESSIDADE
DE SER FORMADO,
PARA QUE SE TORNE
HOMEM

As sementes não são ainda frutos.

1. Como vimos, a natureza dá as sementes do saber da honestidade e da religião, mas náo dá propriamene o saber, a virtude e a religião; estas adquirem-se orando, aprendendo, agindo. Por isso, e não sem razão, alguém definiu o homem um «animal educável», pois não pode tornar-se homem a não ser que se eduque.

É inata no homem a aptidão para saber, mas não o próprio saber.

2. Efetivamente, se consideramos a ciência das coisas, é próprio de Deus saber tudo, sem princípio, sem progresso, sem fim, mediante um só e simples ato de intuição; mas nem ao homem nem ao anjo pode dar este saber, pois não lhe podia dar a infinitude e a eternidade, isto é, a divindade. Aos homens e aos anjos basta aquele grau de excelência de haverem recebido a agudeza de inteligência, com a qual podem indagar as obras de Deus e assim acumular para si um tesouro intelectual. Precisamente por isso, consta, acerca dos anjos, que eles, contemplando, aprendem (Pedro, I, 1, 12; Efésios, 3, 10; Reis, I, 22, 20; Job, 1, 6); e, por isso, o conhecimento deles, de igual modo que o nosso, é experimental.

Que o homem deve ser formado «ad humanitatem», mostra-se:
1. com o exemplo das outras criaturas.

3. Ninguém acredite, portanto, que o homem pode verdadeiramente ser homem, a não ser aquele que aprendeu a agir como homem, isto é, aquele que foi formado naquelas virtudes que fazem o homem. Isto é evidente pelos exemplos de todas as criaturas, as quais se não tornam úteis ao homem, embora a isso destinadas, a não ser depois de adaptadas pela nossa mão. Por exemplo: as pedras foram-nos dadas para servirem para construir casas, torres, muros, colunas, etc.; mas, de fato, não servem para isso, a não ser depois de talhadas, desbastadas e esquadriadas pelas nossas mãos. Do mesmo modo, as pérolas e as gemas, destinadas a servirem de ornamentos humanos, devem ser cortadas, raspadas e polidas pelos homens; os metais, produzidos para usos notáveis da nossa vida, devem ser cavados, liquefeitos, depurados, fundidos e trabalhados a martelo de vários modos; sem tudo isso, são para nós menos úteis que a lama. Das plantas, extraímos alimentos, bebidas e remédios, com a condição, porém, de que é necessário semear, sachar, ceifar, debulhar, moer e pisar os cereais e as ervas; as árvores é necessário plantá-las, podá-las e estrumá-las; os frutos colhê-los, secá-los, etc.; e, muito mais, se qualquer destas coisas deve servir para remédio ou para construir, pois nesse caso é necessário prepará-las de muitíssimos outros modos. Os animais, uma vez que dotados de vida e de movimento, parece que se bastem a si mesmos; todavia, se alguém se quer servir deles para o uso para que foram concedidos, é necessário que primeiro os submeta a exercícios. Eis, com efeito, um cavalo de batalha, um boi para carretos, um burro de carga, um cão de guarda ou de caça, um falcão e um gavião de caça, etc., cada um tem inata a aptidão para esse serviço determinado; todavia, valem bem pouco, se não são treinados para o exercício da sua função.

2. Com o exemplo do próprio homem, quanto às ações corpóreas.

4. O homem, enquanto tem um corpo, é feito para trabalhar; vemos, todavia, que de inato ele não tem senão a simples aptidão; pouco a pouco, é necessário ensinar-lhe a estar sentado e a estar de pé, a caminhar e a mover as mãos, a fim de que aprenda a fazer qualquer coisa. Como pode, portanto, a nossa mente, sem uma preparação prévia, ter a prerrogativa de se mostrar perfeita em si e por si? Não é possível, porque é lei de todas as coisas criadas o começar do nada e elevar-se gradualmente, tanto no que diz respeito à essência como no que diz respeito às ações. Com efeito, até acerca dos anjos, muito vizinhos de Deus em perfeição, consta que não sabem tudo, mas progridem gradualmente no conhecimento da admirável sabedoria de Deus, como notámos pouco atrás.

3. E porque já antes da queda, era necessário exercitar o homem, muito mais é necessário agora, depois da corrupção.

5. É evidente também que, já antes da queda, havia sido aberta, para o homem, no paraíso terrestre, uma escola, na qual ele ia, pouco a pouco, fazendo progressos. Com efeito, embora às duas primeiras criaturas, apenas criadas, não faltasse nem o movimento, nem a palavra, nem o raciocínio, todavia, do colóquio de Eva com a serpente, torna-se evidente que não tinham conhecimento das coisas, o qual vem da experiência; pois se aquela desventurada fosse dotada de uma experiência mais rica, não teria admitido com tanta simplicidade quanto a serpente lhe disse, pois teria então a certeza de que aquela criatura não podia ser dotada da capacidade de discorrer, e que, por isso, devia estar a ser vítima de um engano. Com maior razão, portanto, se poderá sustentar que agora, no estado de corrupção, se se quer saber alguma coisa, é necessário aprendê-la, porque realmente vimos ao mundo com a mente nua como uma tábua rasa, sem saber fazer nada, sem saber falar, nem entender; mas é necessário edificar tudo a partir dos fundamentos. E, na verdade, isto consegue-se mais dificilmente do que se conseguiria no estado de perfeição, porque as coisas são para nós obscuras e as línguas confusas (de tal modo que, em vez de uma só, se devem agora aprender várias, se alguém, para se instruir, quer falar em várias línguas, vivas e mortas); além disso, porque as línguas vernáculas se tornaram mais complicadas, e, quando nascemos, nada conhecemos delas.

E porque os exemplos mostram que o homem sem instrução não se torna mais que um bruto.

6. Temos exemplos de alguns que, raptados na infância pelas feras e crescidos no meio delas[1], nada mais sabiam que os brutos; mais ainda, com a língua, com as mãos e com os pés, não eram capazes de fazer nada de diverso daquilo que fazem os animais, a não ser que, de novo, tenham sido conservados, durante algum tempo, entre os homens. Aduzirei dois exemplos: por 1540, numa aldeia de Hessen, situada no meio de florestas, aconteceu que um menino de três anos, por incúria dos pais, se perdeu. Alguns anos depois, os camponeses viram correr, juntamente com os lobos, um animal de forma diferente, quadrúpede, mas com face semelhante à do homem; como, à força de se falar no caso, a novidade se espalhou, o chefe daquela aldeia ordenou-lhes que vissem se havia maneira de o prender vivo. Em conformidade com esta ordem, foi apanhado e conduzido ao chefe da aldeia, e finalmente enviado ao príncipe de Kassel. Introduzido na sala do príncipe, pôs-se a correr, fugiu, e foi esconder-se debaixo de um banco, olhando com ar ameaçador e lançando terríveis uivos. O príncipe fê-lo alimentar entre homens, e assim a fera começou, a pouco e pouco, a tornar-se mansa, depois a manter-se direita sobre os pés e a caminhar como os bípedes, finalmente a falar com inteligência e a agir como homem. E então, quanto podia recordar-se, contou que tinha sido raptado e alimentado pelos lobos, tendo-se depois habituado a andar à caça com eles. M. Dresser escreve esta história no livro De nova et antiqua disciplina[2] e recorda-a também Camerário nas suas Horas (t. I, Cap. 7)[3], acrescentando outra história parecida. Goularte, nas Maravilhas do nosso século, escreve que em França, em 1563, aconteceu que alguns nobres, andando à caça, e depois de haverem matado doze lobos, acabaram por apanhar, com um laço, um rapaz, de cerca de sete anos, nu, de pele amarelada e de cabeleira encrespada. Tinha as unhas aduncas como uma águia; não falava nenhuma língua, mas emitia uma espécie de mugido grosseiro. Conduzido a uma fortaleza, conseguiu-se com grande dificuldade metê-lo a ferros, de tal modo se tornara feroz; mas, submetido, durante alguns dias, às austeridades da fome, começou a amansar, e, dentro de sete meses, a falar. Levaram-no de cidade em cidade, para o apresentar como espetáculo, o que era fonte de grandes receitas para os seus proprietários. Finalmente, uma pobre mulher reconheceu-o como sendo seu filho[4]. Deste modo, vemos que é verdadeiro aquilo que Platão deixou escrito (Leis, livro 6): o homem é um animal cheio de mansidão e de essência divina, se é tornado manso por meio de uma verdadeira, educação; se, pelo contrário, não recebe nenhuma ou a recebe falsa, torna-se o mais feroz de todos os animais que a terra produz[5].

Têm necessidade de ensino:
1. os estúpidos e os inteligentes,

7. Estes fatos demonstram em geral, que a cultura é necessária a todos. Se agora lançarmos um olhar às diversas condições dos homens, verificamos o mesmo. Com efeito, quem poderá pôr em dúvida que os estúpidos tenham necessidade de instrução, para se libertarem da sua estupidez natural? Mas, na realidade, os inteligentes têm muito mais necessidade de instrução, porque a mente sutil, se não for ocupada em coisas úteis, ocupar-se-á ela mesma em coisas inúteis, frívolas e perniciosas. Com efeito, assim como um campo, quanto mais fértil é, tanto mais produz espinhos e cardos, assim também o engenho perspicaz está sempre cheio de pensamentos frívolos, a não ser que nele se semeiem as sementes da sabedoria e da virtude. E assim como, se à mó que gira não é fornecido o grão, de que é feita a farinha, ela se gasta a si mesma e inutilmente se enche de poeira, produzindo pó, com estrépito e fragor e ainda com o esfarelamento e a ruptura das partes, assim também o espírito ágil, se permanece privado de trabalhos sérios, mergulha inteiramente em coisas vãs, frívolas e nocivas, e será a causa da sua própria ruína.

2. os ricos e os pobres,

8. Que são os ricos sem sabedoria senão porcos engordados com farelo? Que são os pobres sem compreensão das coisas senão burros condenados a transportar a carga? Um homem formoso privado de cultura, que é senão um papagaio de plumagem brilhante ou, como disse alguém, uma baínha de ouro com uma espada de chumbo?[6]

3. aqueles que deverão ser postos à cabeça dos outros e aqueles que deverão ser súditos.

9. Aqueles que, alguma vez, deverão ser postos à cabeça dos outros, como os reis, os príncipes, os magistrados, os párocos e os doutores da Igreja devem embeber-se de sabedoria tão necessariamente como o guia dos viajantes deve ter olhos, o intérprete deve ter língua, a trombeta, som e a espada, gume. De modo semelhante, também os súditos devem ser esclarecidos, para que saibam obedecer prudentemente àqueles que governam sabiamente: não coagidamente, com uma sujeição asinina, mas voluntariamente, por amor da ordem. Com efeito, a criatura racional não deve ser conduzida por meio de gritos, de prisões e de bastonadas, mas pela razão. Se se procede de modo diverso, a ofensa redunda contra Deus que também neles depôs a sua imagem; e as coisas humanas estarão cheias, como de fato estão, de violências e de inquietação.

Todos, portanto, sem nenhuma exceção.

10. Fique, portanto, assente que a todos aqueles que nasceram homens é necessária a educação, porque é necessário que sejam homens, não animais ferozes, nem animais brutos, nem troncos inertes. Daí se segue também que, quanto mais alguém é educado, mais se eleva acima dos outros. Seja, portanto, o Sábio a concluir este capítulo: «Aquele que não faz caso nenhum da sabedoria e do ensino é um infeliz, as suas esperanças são vãs (ou seja, espera em vão conseguir o seu fim), infrutuosas as suas fadigas e inúteis as suas obras» (Sabedoria, 3, 11).


Capítulo VII

A FORMAÇÃO DO HOMEM
FAZ-SE COM MUITA FACILIDADE
NA PRIMEIRA IDADE,
E NÃO PODE FAZER-SE
SENÃO NESSA IDADE

O modo de desenvolver-se do homem é semelhante ao da planta.

1. Do que foi dito, é evidente que é semelhante a condição do homem e a da árvore. Efetivamente, da mesma maneira que uma árvore de fruto (uma macieira, uma pereira, uma figueira, uma videira) pode crescer por si e por sua própria virtude, mas, sendo brava, produz frutos bravos, e para dar frutos bons e doces tem necessariamente que ser plantada, regada e podada por um agricultor perito, assim também o homem, por virtude própria, cresce com feições humanas (como também qualquer animal bruto cresce com as suas feições próprias), mas não pode crescer animal racional, sábio, honesto e piedoso, se primeiramente nele se não plantam os gérmens da sabedoria, da honestidade e da piedade. Agora importa demonstrar que esta plantação deve ser feita enquanto as plantas são novas.

A formação do homem deve começar com a primeira idade:
1. por causa da incerteza da vida presente.

2. Quanto aos homens, as razões fundamentais desta necessidade são seis. Em primeiro lugar, a incerteza da vida presente, da qual é certo que se tem de sair, mas é incerto onde e quando. O perigo de alguém ser surpreendido impreparado é tão grave que não se pode afastar. Com efeito, o tempo presente foi concedido para que, durante ele, o homem ganhe ou perca para sempre a graça de Deus. Efetivamente, assim como no útero da mãe o corpo do homem se forma, de tal maneira que, se algum de lá sai com qualquer membro a menos, necessariamente ficará sem ele durante toda a vida, assim também a alma, enquanto vivemos no corpo, de tal maneira se forma para o conhecimento e para a participação de Deus, que, se algum não consegue adquiri-la neste mundo, uma vez saído do corpo, já lhe não resta nem lugar nem tempo para fazer tal aquisição. Uma vez que, portanto, se trata aqui de um negócio de tão grande importância, convém fazê-lo o mais depressa possível, para que se não seja surpreendido pela morte, antes de o haver conduzido ao fim.

2. para que seja instruído naquilo que deve fazer nesta vida, antes de começar a fazê-lo.

3. Mas, mesmo que a morte não esteja iminente e se esteja seguro de uma vida muito longa, deve, todavia, começar-se a formação muito cedo, pois não deve passar-se a vida a aprender, mas a fazer. Convém, portanto, instruir-se, o mais cedo possível, naquilo que deve fazer-se nesta vida, a fim de não sermos obrigados a partir, antes de termos aprendido o que devemos fazer. Mesmo que fosse do agrado de alguém passar toda a vida a aprender, é infinita a multidão das coisas que o Criador das mesmas coisas fez objeto de especulação agradável, de tal maneira que se a alguém fosse concedida uma vida tão longa como a Nestor, teria sempre em que a empregar de modo muito útil, investigando os tesouros da sabedoria divina espalhados por toda a parte, e adquirindo com eles apoios para a vida eterna. Deve, portanto, desde cedo, abrir-se os sentidos do homem para a observação das coisas, pois, durante toda a sua vida, ele deve conhecer, experimentar e executar muitas coisas.

3. todas as coisas formam-se muito mais facilmente, enquanto são tenras.

4. É uma propriedade de todas as coisas que nascem o fato de, enquanto são tenras, se poderem facilmente dobrar e formar, mas, uma vez endurecidas, já não obedecem. A cera mole deixa-se amassar e modelar, mas, endurecida, quebra mais facilmente. Uma arvorezinha deixa-se plantar, transplantar, podar, dobrar para aqui ou para ali, mas uma árvore já crescida de modo algum. Assim, quem quer fazer um vencelho, deve tomar um ramo verde e novo, pois não pode ser torcido um que seja velho, seco e nodoso. De ovos frescos, chocados, nascem no devido tempo os pintainhos, os quais, em vão se esperariam, de ovos ressessos. O carroceiro ensina o cavalo, o lavrador o boi, o caçador o cão e o falcão a trabalhar (assim como o homem de circo ensina o urso a bailar, e a bruxa ensina a pega, o corvo, e o papagaio a falar), mas escolhem aqueles que são muito novos, pois, se tomam os que são já velhos, perdem o tempo.

Também o homem.

5. Evidentemente, estes resultados obtêm-se, da mesma maneira, no homem cujo cerebro (que, como atras dissemos, é semelhante à cera, recebendo as imagens das coisas que lhe são transmitidas pelos sentidos), na idade infantil, é inteiramente húmido e mole e apto a receber todas as figuras que se lhe apresentam; mas depois, pouco a pouco, seca e endurece, de tal modo que nele mais dificilmente se imprimem ou esculpem as coisas, como a experiência demonstra. Daqui, a seguinte afirmação de Cícero: «as crianças apreendem rapidamente inúmeras coisas»[1]. Assim também as nossas mãos e os nossos outros membros não podem exercitar-se nas artes e nos ofícios senão nos anos da infância, em que os nervos estão tenros. Se alguém quer vir a ser bom escrivão, pintor, alfaiate, ferreiro, músico, etc., deve aplicar-se ao seu ofício desde os primeiros anos, enquanto a imaginação é ágil e os dedos flexíveis; de outro modo, nunca fará nada de bom. De modo semelhante, portanto, se se quer que a piedade lance raízes no coração de alguém, importa plantá-la nos primeiros anos; se se deseja que alguém se torne um modelo de apurada moralidade, é necessário habituá-lo aos bons costumes desde tenra idade; a quem deve fazer grandes progressos no estudo da sabedoria, importa abrir-lhe os sentidos para todas as coisas, nos primeiros anos, enquanto o seu ardor é vivo, o engenho rápido e a memória tenaz. «É coisa torpe e ridícula um velho sentado nos bancos da escola primária: ao jovem compete preparar-se; ao velho realizar-se», escreve Sêneca, na Carta, 36[2].

4. Ao homem foi dado um longo espaço de tempo para se formar, o qual não deve ser gasto noutras coisas.

6. Para que o homem pudesse formar-se «ad humanitatem», Deus concedeu-lhe os anos da juventude, durante os quais, sendo inábil para outras coisas, fosse apto apenas para a sua formação. É certo, com efeito, que o cavalo, o boi, o elefante e todos os outros animais, de qualquer tamanho, em um ano ou dois, atingem uma estatura perfeita; o homem, porém, só o consegue em vinte ou trinta anos. Se algum, porém, julgar ter chegado a essa estatura perfeita por um mero acaso ou devido a quaisquer causas segundas, certamente despertará admiração. A todas as outras coisas, Deus fixou uma medida; só ao homem, senhor das coisas, permitiu passar o seu tempo ao acaso? Ou pensaremos que, relativamente ao homem, Deus tenha concedido à natureza a graça de proceder a passo lento, a fim de que mais facilmente possa realizar a sua formação? Ora, sem nenhuma fadiga, em alguns meses, ela forma corpos maiores. Não resta, portanto, nenhuma outra hipótese senão que o nosso Criador, com ânimo deliberado, se dignou conceder-nos a graça de retardar o nosso desenvolvimento, para que fosse mais longo o espaço de tempo para nos dedicarmos ao estudo; e tornar-nos, durante tanto tempo, inábeis para os negócios econômicos e políticos, para que, durante o restante tempo da vida (e também na eternidade), nos tornássemos mais hábeis nesses assuntos.

5. Permanece firme somente aquilo de que se embebe a primeira idade.

7. No homem, só é firme e estável aquilo de que se embebe a primeira idade; o que é evidente pelos mesmos exemplos. Um vaso de barro conserva, até que se quebre, o odor daquilo com que foi enchido quando era novo[3]. Uma árvore, da maneira como, ainda tenrinha, estendeu os ramos para cima ou para baixo, para este ou para aquele lado, assim os mantém durante cem anos, enquanto a não cortarem. A lã conserva tão tenazmente a primeira cor de que se embebeu que não há perigo de que desbote. Os arcos de uma roda, depois de endurecidos, fazem-se mais facilmente em mil pedaços do que voltam a ficar direitos. Do mesmo modo, no homem, as primeiras impressões estampam-se de tal maneira que é um autêntico milagre fazê-las tomar nova forma; por isso, é de aconselhar que elas sejam modeladas logo nos primeiros anos da vida, segundo as verdadeiras normas da sabedoria.

6. Não educar bem é uma coisa sumamente perigosa.

8. Finalmente, é uma coisa sumamente perigosa não embeber o homem, logo desde os primeiros anos, dos preceitos salutares à vida. Com efeito, porque a alma humana, apenas os sentidos externos começam a desempenhar o seu papel, de modo algum pode estar quieta, também já não pode abster-se, se não está já ocupada em coisas úteis, de se ocupar em coisas vãs de toda a espécie, e até (dados os maus exemplos do nosso século corrupto) também em coisas prejudiciais, que depois é impossível ou muito difícil desaprender, como advertimos já. Por isso, o mundo está cheio de enormidades, para fazer cessar as quais não bastam nem os magistrados políticos nem os ministros da Igreja, enquanto se não trabalhar seriamente para estancar as primeiras fontes do mal.

Conclusão.

9. Portanto, na medida em que a cada um interessa a salvação dos seus próprios filhos, e àqueles que presidem às coisas humanas, no governo político e eclesiástico, interessa a salvação do gênero humano, apressem-se a providenciar para que, desde cedo, as plantazinhas do céu comecem a ser plantadas, podadas e regadas, e a ser prudentemente formadas, para alcançarem eficazes progressos nos estudos, nos costumes e na piedade.


Capítulo VIII

É NECESSÁRIO,
AO MESMO TEMPO,
FORMAR A JUVENTUDE
E ABRIR ESCOLAS

O cuidado dos filhos diz respeito propriamente aos pais.

1. Demonstrado que as plantazinhas do paraíso, ou seja, a juventude cristã, não podem crescer à maneira de uma selva, mas precisam de cuidados, vejamos agora a quem incumbe esses cuidados. Naturalíssimamente, isso compete aos pais, de tal maneira que, assim como foram os autores da vida, sejam também os autores de uma vida racional, honesta e santa. Que para Abraão isso fosse uma obrigação solene, atesta-o Deus: «Porque eu sei que há-de ordenar a seus filhos e à sua casa, depois dele, que guardem os caminhos do Senhor, e que pratiquem a equidade e a justiça» (Gênesis, 18, 19). A mesma coisa exige Deus dos pais, em geral, ao ordenar: «Esforçar-te-ás por ensinar aos teus filhos as minhas palavras e falar-lhes-ás delas quando estiveres sentado em tua casa e quando andares pelos caminhos, quando fores para a cama e quando te levantares» (Deuteronômio, 6, 7). E pela boca do Apóstolo: «Vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos, mas educai-os na disciplina e nas instruções do Senhor» (Efésios, 6, 4).

São-lhes dados, todavia, como auxiliares, os professores das escolas.

2. Todavia, porque, tendo-se multiplicado tanto os homens como os afazeres humanos, são raros os pais que, ou saibam, ou possam, ou pelas muitas ocupações, tenham tempo suficiente para se dedicarem a educação de seus filhos, desde há muito, por salutar conselho[1], se introduziu o costume de muitos, em conjunto, conconfiarem a educação de seus filhos a pessoas escolhidas, notáveis pela sua inteligência e pela pureza dos seus costumes. A esses formadores da juventude, é costume dar o nome de preceptores, mestres, mestres-escola e professores; os locais destinados a esses exercícios comuns recebem o nome de escolas, institutos, auditórios, colégios, ginásios, academias, etc.

Origem e desenvolvimento das escolas.

3. José atesta[2] que o primeiro a abrir escola, imediatamente a seguir ao Dilúvio, foi o patriarca Sem, a qual depois foi chamada escola judaica. E quem não sabe que na Caldéia, principalmente na Babilônia, havia numerosas escolas, onde se cultivavam tanto outras ciências e artes como a astronomia? É sabido, com efeito, que, depois (no tempo de Nabucodonosor), nessa sabedoria dos Caldeus foram instruídos Daniel e os seus companheiros (Daniel, 1, 20). Havia-as também no Egito, onde foi educado Moisés (Atos dos Apóstolos, 7, 22). No povo de Israel, por ordem de Deus, em todas as cidades foram construídas escolas, chamadas sinagogas, onde os levitas ensinavam a Lei, as quais duraram até ao tempo de Cristo, tornando-se célebres pela pregação d’Ele e dos Apóstolos. Dos egípcios, os gregos, e destes, os romanos receberam o costume de fundar escolas; a partir dos romanos, espalhou-se o louvável costume de abrir escolas por todo o Império, principalmente, após a propagação da religião de Cristo, pela solicitude fiel de príncipes e bispos piedosos. Acerca de Carlos Magno, atesta a história que, à medida que ia submetendo cada povo pagão, logo lhe enviava bispos e professores, e erigia templos e escolas. Seguiram o seu exemplo outros imperadores cristãos, reis, príncipes e governadores de cidades; e de tal modo aumentaram o número das escolas que estas se tornaram inumeráveis.

Explica-se que, finalmente, devem ser abertas escolas por toda a parte.

4. Que este santo costume se deve, não apenas manter, mas até aumentar, interessa a toda a Cristandade, a fim de que em toda e qualquer comunidade de homens bem ordenada (quer seja cidade, ou vila ou aldeia), se construa uma escola para a educação comum da juventude. Exige-o, com efeito:

1. o decoro da ordem que deve ser observada por toda a parte,

5. A ordem louvável das coisas. Com efeito, se um pai de família não tem disponibilidade para fazer tudo o que a administração dos negócios domésticos exige, mas se serve de vários empregados, porque não há-de fazer o mesmo no nosso caso? Na verdade, quando ele tem necessidade de farinha, dirige-se ao moleiro; quando tem necessidade de carne, ao carniceiro; quando tem necessidade de bebidas, ao taberneiro; quando tem necessidade de um fato, ao alfaiate; quando tem necessidade de calçado, ao sapateiro; quando tem necessidade de uma casa, de uma relha do arado, de um prego, etc., dirige-se ao marceneiro, ao pedreiro, ao ferreiro, etc. Uma vez que, para instruir os adultos na religião, temos os templos; para discutir as causas em litígio, e para convocar o povo e para o informar acerca das coisas necessárias, temos os tribunais e os parlamentos, porque não havemos de ter escolas para a juventude? Além disso, nem sequer os camponeses apascentam, cada um por si, os seus porcos e as suas vacas, mas contratam pastores assalariados que servem ao mesmo tempo a todos, dedicando-se eles, entretanto, com menos distrações, aos seus outros negócios. Na verdade, há uma grande economia de fadiga e de tempo, quando uma só pessoa faz uma só coisa, sem ser distraída por outras coisas; deste modo, com efeito, uma só pessoa pode servir utilmente a muitas, e muitas podem servir a uma só.

2. a necessidade,

6. Em segundo lugar, a necessidade. Porque, com efeito, raramente os pais estão preparados para educar bem os filhos, ou raramente dispõem de tempo para isso, daí se segue como conseqüência que deve haver pessoas que façam apenas isso como profissão e desse modo sirvam a toda a comunidade.

3. a utilidade,

7. E mesmo que não faltassem pais a quem fosse possível dedicar-se inteiramente à educação dos seus filhos, seria, todavia, muito melhor educar a juventude em conjunto, num grupo maior, porque, sem dúvida, o fruto e o prazer do trabalho é maior, quando uns recebem exemplo e incitamento de outros. Com efeito, é naturalíssimo fazer o que fazem os outros, ir onde vemos ir os outros, seguir os que vão à frente e ir à frente dos que vêm atrás.

Aberto o curral, tanto melhor corre o forte cavalo, quanto tem a quem passar à frente e a quem seguir[3].

Além disso, a idade infantil conduz-se e governa-se muito melhor com exemplos que com regras. Se se lhe ordena alguma coisa, pouco se interessará; se se lhe mostra os outros a fazer alguma coisa, imitá-los-á, mesmo que lho não ordenem.

4. os exemplos constantes da natureza

8. Finalmente, a natureza dá-nos, por toda a parte, o exemplo de que aquelas coisas que devem crescer abundantemente devem ser criadas em um só lugar. Assim, as árvores nas florestas, as ervas nos campos, os peixes nas águas, os metais nas profundidades da terra, etc., nascem em grupos. E isso de tal maneira que, em geral, a floresta que produz pinheiros ou cedros ou carvalhos, produ-los abundantemente, enquanto que as outras espécies de árvores nela se não desenvolvem igualmente bem; a terra que produz ouro, não produz, com a mesma abundância, os outros metais. Todavia, aquilo que queremos dizer encontra-se ainda mais bem expresso no nosso corpo, onde é necessário que cada membro receba uma parte do alimento que se toma, e todavia não se dá a cada um a sua porção ainda crua para que a prepare e adapte a si, mas há determinados membros, que são como que oficinas destinadas a esse trabalho, os quais, para utilidade de todo o corpo, recebem os alimentos, fazem-nos fermentar, digerem-nos e, finalmente, distribuem o alimento assim preparado pelos outros membros. Assim, o estômago forma o quilo, o fígado o sangue, o coração o espírito vital, e o cérebro o espírito animal, os quais, já preparados, difundem-se facilmente por todos os membros e conservam agradavelmente a vida em todo o corpo. Porque é que, portanto, não se há-de crer que, do mesmo modo que as oficinas reforçam e regulam os trabalhos, os templos a piedade, os tribunais a justiça, assim também as escolas produzem, depuram e multiplicam a luz da sabedoria e a distribuem a todo o corpo da comunidade humana?

5. e da arte

9. Finalmente, nas coisas artificiais, todas as vezes que se procede racionalmente, observamos o mesmo. É certo que o sivicultor, girando pelas florestas e pelos pinhais, não planta os mergulhões por toda a parte onde os encontra próprios para a plantação, mas arranca-os e transporta-os para um viveiro e trata-os juntamente com centenas de outros. Do mesmo modo, quem se ocupa em multiplicar os peixes para uso da cozinha, constrói um viveiro, onde os faz multiplicar, todos juntos, aos milhares. E quanto maior é a plantação, tanto melhor costumam crescer as plantas; e quanto maior é o viveiro, tanto maiores se tornam os peixes. Ora, assim como se devem fazer viveiros para os peixes e plantações para as plantas, assim se devem construir escolas para a juventude.


Capítulo IX

TODA
A JUVENTUDE
DE AMBOS OS SEXOS
DEVE SER ENVIADA
ÀS ESCOLAS

As escolas devem ser asilos comuns da juventude.

1. Que devem ser enviados às escolas não apenas os filhos dos ricos ou dos cidadãos principais, mas todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, rapazes e raparigas, em todas as cidades, aldeias e casais isolados, demonstram-no as razões seguintes:

1. Por que todos devem ser reformados à imagem de Deus.

2. Em primeiro lugar, todos aqueles que nasceram homens, nasceram para o mesmo fim principal, para serem homens, ou seja, criatura racional, senhora das outras criaturas, imagem verdadeira do seu Criador. Todos, por isso, devem ser encaminhados de modo que, embebidos seriamente do saber, da virtude e da religião, passem utilmente a vida presente e se preparem dignamente para a futura. Que, perante Deus, não há pessoas privilegiadas, Ele próprio o afirma constantemente[1]. Portanto, se nós admitimos à cultura do espírito apenas alguns, excluíndo os outros, fazemos injúria, não só aos que participam conosco da mesma natureza, mas também ao próprio Deus, que quer ser conhecido, amado e louvado por todos aqueles em quem imprimiu a sua imagem. E isso será feito com tanto mais fervor, quanto mais acesa estiver a luz do conhecimento: ou seja, amamos tanto mais, quanto mais conhecemos[2].

2. Todos se devem preparar para os ofícios da sua futura vocacão.

3. Em segundo lugar, porque não nos é evidente para que coisa nos destinou a divina providência. É certo, porém, que, por vezes, de pessoas paupérrimas, de condição baixíssima e obscurantíssima, Deus constitui órgãos excelentes da sua glória. Imitemos, por isso, o sol celeste, que ilumina, aquece e vivifica toda a terra, para que tudo o que pode viver, verdejar, florir e frutificar, viva, verdeje, floresça e frutifique.

3. Alguns sobretudo (os estúpidos e os débeis por natureza) devem ser muito ajudados.

4. Não deve fazer-nos obstáculo o fato de vermos que alguns são rudes e estúpidos por natureza, pois isso ainda mais recomenda e torna mais urgente esta universal cultura dos espíritos. Com efeito, quanto mais alguém é de natureza lenta ou rude, tanto mais tem necessidade de ser ajudado, para que, quanto possível, se liberte da sua debilidade e da sua estupidez brutal. Não é possível encontrar um espírito tão infeliz, a que a cultura não possa trazer alguma melhoria. Certamente, da mesma maneira que um vaso esburacado, muitas vezes lavado, embora não conserve nenhuma gota de água, todavia, torna-se mais liso e mais limpo, assim também os débeis e os estúpidos, mesmo que nos estudos não façam nenhum progresso, tornam-se, todavia, mais brandos nos costumes, de modo a saberem obedecer às autoridades políticas e aos ministros da Igreja. Consta, de resto, pela experiência, que certos indivíduos, por natureza muito lentos, depois de terem seguido o curso dos estudos, passaram à frente de outros mais bem dotados. E isto é tão verdadeiro que um poeta afirmou: «O trabalho obstinado vence tudo»[3]. Além disso, da mesma maneira que alguém, na infância, é belo e forte de corpo, e depois se torna enfermiço e emagrece, e um outro, ao contrário, em jovem, é de constituição doentia, e depois adquire força e cresce robusto, assim também se verifica com as inteligências, de tal maneira que algumas são precoces, mas depressa se esgotam e acabam por se tornar obtusas, e outras a princípio são rudes, mas depois tornam-se finas e muito penetrantes. Além disso, gostamos de ter nos pomares, não apenas árvores que produzem frutos precoces, mas também árvores que produzem frutos de meia estação, e frutos serôdios, porque cada coisa é boa no seu tempo (como diz algures o Eclesiástico)[4] e, embora tarde, acaba por mostrar, em determinada altura, que não existia em vão. Porque é que, então, no jardim das letras, apenas queremos tolerar as inteligências de uma só espécie, ou seja, as precoces e ágeis? Ninguém, por conseguinte, seja excluído, a não ser a quem Deus negou a sensibilidade e a inteligência.

Deve admitir-se nos estudos também o sexo frágil? Sim.

5. Não pode aduzir-se nem sequer um motivo válido pelo qual o sexo fraco (para que acerca deste assunto diga particularmente alguma coisa) deva ser excluído dos estudos (quer estes se ministrem em latim, quer se ministrem na língua maternal. Com efeito, as mulheres são igualmente imagens de Deus, igualmente participantes da graça e do reino dos céus, igualmente dotadas de uma mente ágil e capaz de aprender a sabedoria (muitas vezes até mais que o nosso sexo), igualmente para elas está aberto o caminho dos ofícios elevados; uma vez que, freqüentemente, são chamadas pelo próprio Deus para o governo dos povos, para dar salutares conselhos a reis e a príncipes, para exercer a medicina e outras artes salutares ao gênero humano, para pronunciar profecias e exprobar sacerdotes e bispos. Porque é que, então, as havíamos de admitir ao abc e depois as havíamos de afastar do estudo dos livros? Temos medo que cometam temeridades? Mas quanto mais lhes tivermos ocupado o pensamento, tanto menor lugar encontrará a temeridade, a qual, normalmente, é originada pela desocupação da mente.

Todavia, com que precaução?

6. Todavia, de tal maneira que lhes não seja dado como alimento toda a espécie de livros (do mesmo modo que à juventude de outro sexo; sendo deplorável que, até aqui, este mal não tenha sido evitado com maior precaução), mas livros nos quais possam haurir constantemente, com o verdadeiro conhecimento de Deus e das suas obras, verdadeiras virtudes e a verdadeira piedade.

Rebate-se uma objeção.

7. Ninguém, portanto, me objete com as palavras do Apóstolo: «Não permito à mulher que ensine» (Timóteo, I, 2, 12), ou com as de Juvenal, na Sátira 6:

Que a mulher que se deita juntamente contigo não tenha a mania de falar ou de enrolar frases para construir entimemas, nem saiba todas as histórias[5].

ou com aquilo que, em Euripedes, diz Hipólito:

Odeio a mulher erudita, para que em minha casa nunca se encontre uma que saiba mais do que convém saber a uma mulher. Com efeito, Vênus inspira maior astúcia às mulheres eruditas[6].

Estas afirmações, repito, nada obstam ao nosso conselho, pois é nossa opinião que as mulheres sejam instruídas, não para a curiosidade, mas para a honestidade e para a beatitude. Sobretudo naquelas coisas que a elas importa saber e que podem contribuir quer para administrar dignamente a vida familiar, quer para promover a sua própria salvação, a do marido, dos filhos e de toda a família.

Outra objeção.

8. Se alguém disser: onde iremos nós parar, se os operários, os agricultores, os moços de fretes e finalmente até as mulheres se entregarem aos estudos? Respondo: acontecerá que, se esta educação universal da juventude for devidamente continuada, a ninguém faltará, daí em diante, matéria de bons pensamentos, de bons desejos, de boas inspirações e também de boas obras. E todos saberão para onde devem dirigir todos os atos e desejos da vida, por que caminhos devem andar e de que modo cada um há-de ocupar o seu lugar. Além disso, todos se deleitarão, mesmo no meio dos trabalhos e das fadigas, meditando nas palavras e nas obras de Deus, e evitarão o ócio, causa de pecados carnais e de delitos de sangue, lendo freqüentemente a Bíblia e outros bons livros (e estes prazeres, muito doces, atraiem quem já os saboreou). E, para que diga tudo de uma só vez, aprenderão a ver Deus por toda a parte, a louvá-lo por toda a parte, a aproximar-se dele por toda a parte; e, deste modo, aprenderão a passar com maior alegria esta vida de misérias e a esperar, com maior desejo e maior esperança, a vida eterna. Acaso não é verdade que semelhante estado da Igreja representaria para nós o paraíso, tal como é possível tê-lo na terra?


Capítulo X

NAS ESCOLAS,
A FORMAÇÃO
DEVE SER UNIVERSAL

Que se entende por aquele «tudo» que, nas escolas, se deve ensinar e aprender?

1. Importa agora demonstrar que, nas escolas, se deve ensinar tudo a todos. Isto não quer dizer, todavia, que exijamos a todos o conhecimento de todas as ciências e de todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exato e profundo). Com efeito, isso, nem, de sua natureza, é útil, nem, pela brevidade da nossa vida, é possível a qualquer dos homens. Vemos, com efeito, que cada ciência se alarga tão amplamente e tão sutilmente (pense-se, por exemplo, nas ciências físicas e naturais, na matemática, na geometria, na astronomia, etc. e ainda na agricultura ou na sivicultura, etc.) que pode preencher toda a vida, mesmo de inteligências grandemente dotadas que acaso queiram dedicar-se à teoria e à prática, como aconteceu com Pitágoras na matemática[1], com Arquimedes na mecânica, com Agrícola na mineralogia[2], com Longólio na retórica (o qual se ocupou de uma só coisa, para que viesse a ser um perfeito ciceroniano)[3]. Pretendemos apenas que se ensine a todos a conhecer os fundamentos, as razões e os objetivos de todas as coisas principais, das que existem na natureza como das que se fabricam, pois somos colocados no mundo, não somente para que façamos de espectadores, mas também de atores. Deve, portanto, providenciar-se e fazer-se um esforço para que a ninguém, enquanto está neste mundo, surja qualquer coisa que lhe seja de tal modo desconhecida que sobre ela não possa dar modestamente o seu juízo e dela, se não possa servir prudentemente para um determinado uso, sem cair em erros nocivos.

Ou seja, aquelas coisas que dizem respeito à cultura do homem todo.

2. Deve, portanto, tender-se inteiramente e sem exceção para que, nas escolas, e, conseqüentemente, pelo benéfico efeito das escolas, durante toda a vida: I. se cultivem as inteligências com as ciências e com as artes; II. se aperfeiçoem as línguas; III. se formem os costumes para toda a espécie de honestidade; IV. se preste sinceramente culto a Deus.

Ciência, prudência, piedade.

3. Efetivamente, disse uma palavra de sábio aquele que afirmou que as escolas são oficinas de humanidade[4], contribuindo, em verdade, para que os homens se tornem verdadeiramente homens, isto é (tendo em vista os objetivos atrás estabelecidos): I. criatura racional; II. criatura senhora das outras criaturas (e também de si mesma); III. criatura delícia do seu Criador. O que acontecerá se as escolas se esforçarem por produzir homens sábios na mente, prudentes nas ações e piedosos no coração.

Que estas coisas se não devem separar, prova-se:

4. Por conseguinte, estas três coisas deverão ser implantadas em todas as escolas para benefício de toda a juventude. O que demonstrarei, indo buscar o fundamento de meu raciocinio: I. às coisas que neste mundo nos rodeiam; II. a nós mesmos; III. a Cristo, Homem-Deus <grego>, modelo perfeitíssimo da nossa perfeição.

1. a partir da coerência das próprias coisas.

5. As próprias coisas, enquanto nos dizem respeito, não podem ser divididas senão em três espécies. Na verdade: algumas são apenas objeto de observação, como o céu e a terra e as coisas que neles existem; outras são objeto de imitação, como a ordem admirável espalhada por toda a parte, a qual o homem tem obrigação de exprimir também nas suas obras; outras, enfim, são objeto de fruição, como o favor da divindade e a sua multíplice benção, neste mundo e para sempre. Se o homem deve ser semelhante a estas coisas, importa necessariamente que se prepare, tanto para conhecer as coisas, que, neste maravilhoso anfiteatro, se oferecem à sua observação, como para fazer aquelas coisas que se lhe ordena que faça, como, finalmente, para gozar daquelas que, com mão liberal, o benigníssimo Criador lhe oferece (como a um hóspede que esteja em sua casa) para sua fruição.

2. a partir da essência da nossa alma.

6. Se nos observarmos a nós mesmos, depreendemos igualmente que a todos, por igual, convém a instrução, a moralidade e a piedade, quer observemos a essência da nossa alma, quer a finalidade para que fomos criados e postos no mundo.

7. A essência da alma é constituída por três faculdades (as quais refletem a Trindade incriada): inteligência, vontade e memória. A inteligência alarga-se a observar as diferenças das coisas (até às mais pequenas minúcias); a vontade dirige-se à escolha das coisas, ou seja, a escolher as que são boas e a rejeitar as que são prejudiciais; a memória, por sua vez, retém, para uso futuro, as coisas de que, alguma vez, se ocuparam a inteligência e a vontade, e lembra à alma a sua origem (deriva de Deus) e a sua missão; sob este aspecto, chama-se também consciência. Ora, para que estas três faculdades possam cumprir bem a sua missão, é necessário instruí-las perfeitamente em coisas que iluminem a inteligência, dirijam a vontade e estimulem a consciência, de modo que a inteligência penetre profundamente, a vontade escolha sem erro, e a consciência refira tudo avidamente a Deus. Ora, assim como aquelas três faculdades (a inteligência, a vontade e a consciência), uma vez que constituem uma mesma alma, não podem separar-se, assim também aqueles três ornamentos da alma, a instrução, a virtude e a piedade, não devem separar-se.

E a partir do fim da nossa missão no mundo.

8. Se agora considerarmos porque é que fomos colocados no mundo, de novo se tornará evidente que as finalidades são três: para servir a Deus, às criaturas e a nós mesmos; e para gozar o prazer emanante de Deus, das criaturas e de nós mesmos.

1. Para que sirvamos a Deus, ao próximo e a nós mesmos.

9. Se queremos servir a Deus, ao próximo e a nós mesmos, é necessário que tenhamos, em relação a Deus, piedade; em relação ao próximo, honestidade; e em relação a nós mesmos, ciência. Estas coisas estão, porém, de tal maneira ligadas que, do mesmo modo que o homem deve ser, para consigo mesmo, não só prudente, mas também morigerado e piedoso, assim também não só os nossos costumes, mas também o nosso saber e a nossa piedade devem servir para utilidade do próximo; e não somente a nossa piedade, mas também o nosso saber e os nossos costumes devem servir para louvor de Deus.

3. Para que gozemos um tríplice prazer permanente:

10. Se consideramos o prazer, vemos que Deus afirmou na criação que o homem é destinado a gozá-lo, uma vez que o introduziu num mundo já dotado de toda a espécie de bens, e, além disso, em atenção a ele, criou um paraíso de delícias; e, finalmente, resolveu torná-lo participante da sua eterna beatitude.

11. Deve, todavia, entender-se por prazer, não o do corpo (embora também este, uma vez que não é senão o vigor da saúde, e o agrado do alimento e do sono, não possa derivar senão da virtude da temperança), mas o da alma, o qual resulta, ou das coisas que nos cercam, ou de nós mesmos, ou então de Deus.

a) das próprias coisas,

12. O prazer que brota das próprias coisas é aquela alegria que o homem sábio experimenta nas suas observações. Com efeito, seja o que for que ele faça, para qualquer lado que se volte, em qualquer coisa que fixe a sua atenção, em tudo e por tudo permanece preso de tamanha alegria, que, muitas vezes, como que arrebatado fora de si, se esquece de si mesmo. É precisamente o que afirma o livro da sabedoria: «Conservar a sabedoria não produz amargura e conviver com ela não produz tédio, mas alegria e contentamento» (Sabedoria, 8, 16). E um sábio pagão escreveu:

<grego>:

«Na vida, nada há mais doce que o filosofar»[5].

b) de nós mesmos,

13. O prazer que cada um goza em si mesmo é aquele dulcíssimo deleite que o homem, entregue à virtude, goza pela sua boa disposição interior, sentindo-se pronto para tudo o que a ordem da justiça requer. Esta alegria é muito maior que aquela de que, há pouco, falámos, segundo esta máxima: A boa consciência é um banquete perene[6].

c) de Deus.

14. O prazer que nos vem de Deus é o mais alto grau de alegria que se pode experimentar nesta vida, uma vez que o homem, sentindo que Deus lhe é eternamente propício, exulta de tal maneira no seu paternal e imutável favor, que o coração se lhe consome no amor de Deus; e já não sabe nem fazer nem desejar outra coisa senão, imergindo-se todo na misericórdia de Deus, viver uma doce tranqüilidade e saborear, já neste mundo, a alegria da vida eterna. «Esta é a paz que Deus nos concede e que está acima de todo o entendimento humano» (Filipenses, 4, 7), não sendo possível desejar nem pensar coisa mais sublime. Portanto, aquelas três coisas, a instrução, a virtude e a piedade, são as três fontes, das quais brotam todos os arroios dos mais perfeitos prazeres.

3. Pelo exemplo de Cristo, nosso modelo.

15. Por último, que estas três coisas devem existir em todos e em cada um, ensinou-o com o seu exemplo aquele que se manifestou na carne (para mostrar em si a forma e a norma de todas as coisas), Deus. Com efeito, o evangelista afirma que ele, enquanto crescia em idade, crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e dos homens (Lucas, 2, 52). Eis onde se encontram aquelas três bases dos nossos ornamentos! Efetivamente, que é a sabedoria senão o conhecimento de todas as coisas como são na realidade? Que é que produz a graça diante dos homens, senão a amabilidade dos costumes? E que é que nos grangeia a graça diante de Deus, senão o temor do Senhor, ou seja, a íntima, séria e fervorosa piedade? Sintamos, portanto, em nós aquilo que se encontra em Cristo Jesus, o qual é o protótipo perfeitíssimo de toda a perfeição, com o qual nos devemos conformar.

16. Precisamente por isso, com efeito, Ele disse: «Aprendei de mim» (Mateus, 11, 29). E porque o próprio Cristo foi dado ao gênero humano como mestre sapientíssimo, sacerdote santíssimo e rei potentíssimo, é evidente que os cristãos devem ser formados segundo o modelo de Cristo, e tornar-se sábios na mente, santos na pureza de consciência e fortes (cada um segundo a sua vocação) nas obras. Portanto, as nossas escolas virão a ser, finalmente, verdadeiras escolas cristãs, se nos fazem o mais semelhantes possível a Cristo.

Infeliz divórcio.

17. Verifica-se, portanto, um infeliz divórcio, em todos os casos em que estas três coisas não estão unidas por um ligame adamantino. Infeliz a instrução que se não converte em moralidade e em piedade! Com efeito, que é a ciência sem a moral? Quem progride na ciência e regride na moral (é máxima antiga), anda mais para trás que para a frente[7]. Por isso, aquilo que Salomão disse da mulher formosa, mas inimiga da sabedoria, pode dizer-se também de um homem douto, mas de maus costumes: «A instrução infundida num homem inimigo da virtude é um colar de ouro colocado no focinho de um porco» (Provérbios, 11, 22). Da mesma maneira que as pedras preciosas se não encastoam no chumbo, mas no ouro, para que em conjunto irradiem um brilho mais esplendoroso, assim também a ciência não deve juntar-se à libertinagem, mas à virtude, para que uma aumente o brilho da outra. E quando a uma e outra se junta uma piedade verdadeira, então a perfeição ficará completa. De fato, o temor de Deus, da mesma maneira que é o princípio e o fim da sabedoria, é também o cume e a coroa da ciência, porque a plenitude da sabedoria consiste em temer o Senhor. (Provérbios, 1, 7; Eclesiástico, 1, 14 e noutros lugares)[8].

Conclusão.

18. Em resumo, uma vez que dos anos da infância e da educação depende todo o resto da vida, se os espíritos de todos não forem preparados desde então para todas as coisas de toda a vida, está tudo perdido. Portanto, assim como no útero materno se formam os mesmos membros para todo o ser que há-de tornar-se homem, e para cada um se formam todos, as mãos, os pés, a língua, etc., embora nem todos venham a ser artesãos, corredores, escrivães e oradores, assim também, na escola, deve ensinar-se a todos todas aquelas coisas que dizem respeito ao homem, embora, mais tarde, umas venham a ser mais úteis a uns e outras a outros.


Capítulo XI

ATÉ AGORA
NÃO TEM HAVIDO ESCOLAS
QUE CORRESPONDAM
PERFEITAMENTE AO SEU FIM

Que é uma escola que corresponda exatamente ao seu fim?

1. Parecerei excessivamente presunçoso com esta afirmação ousada. Mas vou abordar o assunto de frente, constituindo o leitor como juiz e não representando eu próprio senão o papel de ator. Chamo escola perfeitamente correspondente ao seu fim aquela que é uma verdadeira oficina de homens, isto é, onde as mentes dos alunos sejam mergulhadas no fulgor da sabedoria, para que penetrem prontamente em todas as coisas manifestas e ocultas (como diz o Livro da Sabedoria, 7, 21), as almas e as inclinaçõcs da alma sejam dirigidas para a harmonia universal das virtudes, e os corações sejam trespassados e inebriados de amores divinos, de tal maneira que, já na terra, se habituem a viver uma vida celeste todos aqueles que, para se embeberem de verdadeira sabedoria, são enviados às escolas cristãs. Numa palavra: onde absolutamente tudo seja ensinado absolutamente a todos («ubi Omnes, Omnia, Omnino, doceantur»).

Que as escolas devem ser assim, mas que, de fato, o não são, demonstra-se:

2. Mas qual é a escola que, até hoje, se propôs este grau de perfeição? Não falemos sequer em alguma que o tenha atingido. Mas para que não pareça que acalentamos ideias platônicas e sonhamos com uma perfeição que não existe em parte alguma, nem talvez possa esperar-se nesta vida, mostraremos, com outro argumento, que as escolas devem ser como disse, e que, todavia, até agora, não têm sido assim.

1. Com o voto de Lutero

3. Lutero, na sua exortação às cidades do Império, para que constituíssem escolas (em 1525), entre outras coisas, emitiu estes dois votos: Primeiro, «que, em todas as cidades, vilas e aldeias, sejam fundadas escolas, para educar toda a juventude de ambos os sexos (precisamente como, no capítulo IX, mostrámos dever fazer-se), de tal maneira que, mesmo aqueles que se dedicam à agricultura e às profissões manuais, freqüentando a escola, ao menos duas horas por dia, sejam instruídos nas letras, na moral e na religião». Segundo: «que sejam instruídos com um método muito fácil, não só para que se não afastem dos estudos, mas até para que para eles sejam atraídos como para verdadeiros deleites», e, como ele diz, «para que as crianças experimentem nos estudos um prazer não menor que quando passam dias inteiros a brincar com pedrinhas, com a bola, e às corridas». Assim falava Lutero[1].

2. Com o testemunho das próprias coisas. Com efeito:

4. Conselho verdadeiramente sábio e digno de tão grande homem. Mas quem não vê que, até agora, permaneceu um simples voto? Onde estão, com efeito, essas escolas universais? Onde está esse método atraente?

1) Ainda não foram fundadas escolas por toda a parte.

5. Vemos precisamente o contrário: nas aldeias e nos pequenos povoados, não foram ainda fundadas escolas.

2) E não se pensa em que, onde existem, sejam para todos.

6. E, onde existem, não são indistintamente para todos, mas apenas para alguns, ou seja, para os ricos, porque, sendo dispendiosas, nelas não são admitidos os mais pobres, salvo casos raros, ou seja, quando alguém faz uma obra de misericórdia. No entanto, é provável que, de entre os pobres, inteligências muitas vezes excelentes passem a vida e morram sem poder instruir-se, com grave dano para a Igreja e para o Estado.

3) Não são escolas, mas padarias.

7. Além disso, na educação da juventude, usou-se quase sempre um método tão duro que as escolas são consideradas como os espantalhos das crianças, ou as câmaras de tortura das inteligências. Por isso, a maior e a melhor parte dos alunos, aborrecidos com as ciências e com os livros, preferem encaminhar-se para as oficinas dos artesãos, ou para qualquer outro gênero de vida.

4. Em lugar algum se ensina tudo, e nem sequer as coisas principais.

8. Àqueles que ficam na escola (ou constrangidos pela vontade dos pais e dos benfeitores, ou aliciados pela esperança de, com os estudos, conseguirem um dia um pouco de autoridade, ou impelidos por uma força espontânea da natureza para uma educação liberal), a esses, ministra-se uma cultura, é certo, mas sem a seriedade e a prudência necessárias, anacrônica e má sob todos os aspectos. Efetivamente, aquilo que sobretudo se devia implantar na alma dos jovens, isto é, a piedade e a moralidade, descura-se de modo particular. E afirmo que estas duas coisas, em todas as escolas (mesmo nas Universidades, que deviam ser o ponto mais alto da cultura humana), têm sido as mais descuradas, e, em conseqüência disso, a maioria das vezes, saiem de lá, em vez de cordeiros mansos, ferozes burros selvagens e mulos indômitos e petulantes; e, em vez de uma índole modelada pela virtude, trazem de lá um conjunto de boas maneiras que de moral têm apenas o verniz, e os olhos, as mãos e os pés adestrados para as vaidades mundanas. Na verdade, a quantos destes homúnculos, polidos durante tanto tempo com o estudo das línguas e das artes, virá à mente ser, para todos os outros homens, exemplo de temperança, de castidade, de humildade, de humanidade, de gravidade, de paciência, de continência, etc.? E de onde nasce o mal senão do fato de que se não exige às escolas que ensinem a viver honestamente? Isto é testemunhado pela disciplina dissoluta de quase todas as escolas, pelos costumes relaxados de todas as classes sociais e pelos infinitos lamentos, suspiros e lágrimas de muitas pessoas piedosas. E há ainda alguém que possa defender o estado das escolas? A doença hereditária, descida até nós a partir das duas primeiras criaturas, domina-nos de tal modo que, posta de parte a árvore da vida, voltamos desordenadamente os nossos apetites só para a árvore da ciência. E as escolas, secundando estes apetites desordenados, até agora não têm procurado senão a ciência.

5) Não com um método atraente, mas violento.

9. E, mesmo isto, com que método e com que resultado? De modo a reter os estudantes durante cinco, dez, ou mais anos, em coisas que a mente humana é capaz de aprender em um ano. O que se poderia inculcar e infundir suavemente nos espíritos, é neles impresso violentamente, ou melhor, é neles enterrado e ensacado. O que poderia ser posto diante dos olhos de modo claro e distinto, é apresentado de modo obscuro, confuso e intrincado, como que por meio de enigmas.

6. É ministrada uma instrução mais verbal que real.

10. Deixo de lado que, nas presentes circunstâncias, quase nunca os espíritos são alimentados com coisas verdadeiramente substanciosas, mas, na maior parte dos casos, são atulhados com palavras ocas (palavras de vento e linguagem de papagaio) e com opiniões que pesam tanto como a palha e o fumo.

O ensino da língua latina é prolixo e confuso.

11. O próprio estudo da língua latina (abordo-o de passagem, apenas para citar um exemplo), ó bom Deus, como é intrincado, como é penoso, como é longo! Quaisquer serventes, criados ou moços de recados, entregues aos trabalhos da cozinha, aos serviços militares ou a outros serviços vis, aprendem mais depressa uma língua qualquer, ou até duas ou três, embora diferente da sua língua materna, que os alunos das escolas aprendem só o latim, embora tenham todo o tempo livre e se entreguem ao estudo com todas as suas forças. E como é desigual o resultado! Os primeiros, após alguns meses, falam correntemente em língua estrangeira; os segundos, mesmo depois de quinze ou vinte anos, na maior parte dos casos não são capazes de dizer senão certas coisas em latim, a não ser que se socorram de gramáticas e de dicionários como os coxos de muletas; e, mesmo essas coisas, não sem hesitar e titubear. De onde pode vir este deplorável dispêndio de tempo e de esforço, senão de um método defeituoso?

Lamento de Lubin acerca disto.

12. A respeito deste método, escreveu, com razão, o eminente Eilhard Lubin, doutor em Teologia e professor na Universidade de Rostock: «O método corrente de educar as crianças nas escolas parece-me inteiramente como algo que alguém, empregando todo o seu esforço e toda a sua capacidade, fosse encarregado de pensar a maneira ou o método com o qual os professores conduzissem e os alunos fossem conduzidos ao conhecimento da língua latina apenas com imensas fadigas, com enorme tédio e com infinitas penas, e apenas após um longuíssimo espaço de tempo.

Quanto mais penso neste erro, ruminando no meu espírito atormentado, tanto mais sinto o coração apertar-se e arrepios percorrerem os meus ossos».

E, logo a seguir, acrescenta: «Enquanto, comigo mesmo, penso freqüentemente nestas coisas, confesso que, mais de uma vez, fui levado a pensar e a crer firmemente que estas coisas foram introduzidas nas escolas por um gênio maligno e invejoso, inimigo do gênero humano»[2]. Assim fala este mestre. De entre muitos outros testemunhos de pessoas de valor, quis citar apenas este.

E do autor.

13. Mas, afinal, que necessidade há de procurar testemunhos? Quantos de nós, terminados os estudos, saimos das escolas e das academias, apenas com umas vagas tintas de uma verdadeira cultura! Eu próprio, mísero homúnculo, sou um desses muitos milhares que passaram e gastaram miseravelmente a ameníssima primavera da vida e os anos florescentes da juventude nas banalidades da escola. Ah! quantas vezes, mais tarde, quando comecei a ver as coisas um pouco melhor, a recordação do tempo perdido me arrancou suspiros do peito, lágrimas dos olhos e gritos de dor do coração. Ah! quantas vezes essa dor me levou a exclamar:

«oh! se Júpiter me voltasse a dar os anos passados[3].

Lamentos e votos para que as coisas mudem para melhor.

14. Mas estes desejos são vãos, pois o dia que passa não voltará mais. Nenhum de nós, que estamos já carregados de anos, voltará a rejuvenescer de modo a poder dar à vida uma nova direção e a preparar-se melhor para ela com a instrução. Para nós, já não há remédio. Resta-nos apenas uma coisa, uma só coisa é possível: que tudo aquilo que pudermos fazer em proveito dos nossos vindouros, o façamos, ou seja, demonstrado em que erros nos lançaram os nossos professores, lhes mostremos o caminho de evitar esses erros. E isto se fará no nome e sob a direção daquele «que é o único que pode enumerar os nossos defeitos e endireitar as nossas idéias tortas» (Eclesiastes, I, 15).


Capítulo XII

AS ESCOLAS
PODEM SER REFORMADAS

Devem aplicar-se remédios para tentar curar as doenças inveteradas?

1. É penoso e difícil, e considerado quase impossível, curar as doenças inveteradas. Todavia, se alguém encontra um remédio eficaz, acaso o doente rejeita-o? Ou não deseja antes aplicá-lo, o mais depressa possível, principalmente se sente que o médico é guiado, não por uma opinião temerária, mas por uma razão sólida? Eis-nos, por isso, chegados ao momento de, relativamente ao nosso ousado propósito, mostrar: primeiro, quais são as nossas promessas; segundo, em que se fundamentam.

Que propõe e promete agora o autor?

2. Prometemos uma organização das escolas, através da qual:

I. Toda a juventude (exceto a quem Deus negou a inteligência) seja formada.

II. Em todas aquelas coisas que podem tornar o homem sábio, probo e santo.

III. Que essa formação, enquanto preparação para a vida, esteja terminada antes da idade adulta.

IV. Que essa mesma formação se faça sem pancadas, sem violências e sem qualquer constrangimento, com a máxima delicadeza, com a máxima doçura e como que espontaneamente. (Da mesma maneira que um corpo vivo cresce em estatura, sem que tenha necessidade de mover os seus membros nem para um lado nem para o outro, pois basta que prudentemente seja alimentado, ajudado e exercitado, para que, por si, pouco a pouco, cresça em estatura e em robustez, quase sem se aperceber disso, do mesmo modo, se se alimenta, ajuda e exercita o espírito prudentemente, essa intervenção converte-se, por si mesma, em sabedoria, em virtude e em piedade).

V. Que todos se formem com uma instrução não aparente, mas verdadeira, não superficial mas sólida; ou seja, que o homem, enquanto animal racional, se habitue a deixar-se guiar, não pela razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler nos livros e a entender, ou ainda a reter e a recitar de cor as opiniões dos outros, mas a penetrar por si mesmo até ao âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos genuínos e utilidade. Quanto à solidez da moral e da piedade, deve dizer-se o mesmo.

VI. Que essa formação não seja penosa, mas facílima, isto é, não consagrando senão quatro horas por dia aos exercícios públicos e de tal maneira que um só professor seja suficiente para instruir, ao mesmo tempo, centenas de alunos, com um esforço dez vezes menor que aquele que atualmente costuma dispender-se para ensinar cada um dos alunos.

Ilustra-se a atitude dos homens a respeito das novas invenções com o exemplo da máquina de Arquimedes,

3. Mas quem careditará nestas coisas antes de as ver? É bem sabido que, antes de qualquer invenção, todos os homens têm tendência para se admirar, pensando como essa invenção possa ser possível; e, depois que foi inventada, admiram-se pensando como é que já o não fora há mais tempo. Quando Arquimedes prometeu ao rei Hierão lançar ao mar, com uma só mão, um navio tão grande que cem homens não podiam remover, foi recebido com um sorriso; mas, depois, viram com admiração[1].

e do novo mundo.

4. Nenhum rei, exceto o de Castela[2], quis dar ouvidos ou a menor ajuda a Colombo, que esperava descobrir novas ilhas a ocidente, para que tentasse a prova. A história recorda que os próprios companheiros de navegação, tomados de indignação e de desespero, estiveram prestes a lançar Colombo ao mar e a regressar sem haver realizado a empresa. No entanto, foi descoberto aquele tão vasto novo mundo, e agora todos se admiram como foi possível que tivesse permanecido desconhecido durante tanto tempo. Mas vem também a propósito a seguinte brincadeira feita pelo próprio Colombo: os espanhóis, invejosos da glória adquirida por um italiano com a sua grande descoberta, bombardearam-no, durante um banquete, com sarcasmos, e, entre outras coisas, disseram, em voz alta, para que ele ouvisse, que a descoberta daquele hemisfério tinha sido o resultado de um acaso, e não de um ato de bravura, e podia ter sido feita por qualquer outro. Então, Colombo propôs este interessante problema: Como é que um ovo de galinha pode manter-se sobre uma das extremidades sem qualquer apoio? Depois de todos os outros o terem tentado em vão, ele, batendo levemente com o ovo no prato e quebrando um pouco a extremidade, conseguiu que o ovo se mantivesse direito. Todos se puseram então a rir e a gritar, dizendo que, assim, também eles eram capazes. Colombo respondeu: Com certeza, porque o viste fazer; mas porque é que nenhum o fez antes de mim?

e da arte tipográfica,

5. Creio que teria acontecido o mesmo se João Fausto, inventor da arte tipográfica[3], tivesse começado a divulgar que tinha descoberto a maneira de um só homem, em oito dias, escrever mais livros do que habitualmente escreveriam dez copistas bem treinados, durante um ano inteiro; e que esses livros seriam escritos de uma maneira elegante e que todos os exemplares teriam exatamente a mesma forma até à última vírgula, e que todos seriam corretíssimos, desde que um só deles fosse correto, etc. Quem acreditaria nele? A quem não teriam parecido enigmas estas afirmações? Ou, ao menos, uma gabarolice vã e inútil? E eis, todavia, que agora até as crianças sabem que isso era verdade.

e da arte de bombardear,

6. Se Berthold Schwarz, inventor dos canhões de bronze[4], se voltasse para os frecheiros e lhes dissesse: «Os vossos arcos, as vossas balistas, as vossas fundas valem pouco. Eu vos darei um engenho que, sem recorrer à força dos braços, apenas pela ação do fogo, não só atirará pedras e pedaços de ferro, mas lançá-los-á mais longe e atingirá o alvo com maior certeza e o destruirá e abaterá mais depressa». Quem o não teria acolhido com uma grande risada? De tal modo é costume tomar as coisas novas e inusitadas por coisas miraculosas e incríveis!

e da arte de escrever.

7. É certo que os índios da América não poderiam imaginar que era possível um homem poder comunicar a outro homem os sentimentos da sua alma, sem falar, sem enviar um mensageiro, mas apenas com a expedição de um pedacinho de papel; enquanto que, entre nós, até os mais estúpidos o entendem. Por isso, por toda a parte e em todos os casos, se pode dizer: «as empresas outrora consideradas impossíveis farão rir os séculos futuros».

Também a invenção de um método perfeito está sujeita a críticas.

8. Que não vai acontecer de maneira diferente com este nosso novo invento, diz-no-lo uma voz interior. Mais ainda, sofremos já, em parte, o assalto da crítica. Todos se admirarão e se indignarão de que haja pessoas que ousem lançar em rosto às escolas, aos livros e aos métodos, aceites pelo uso, a sua imperfeição, e propor um não sei quê de insólito e superior a toda a crença.

Como se deve obviar a estas críticas.

9. Ser-me-ia, na verdade, fácil afirmar que os resultados futuros provarão que a minha afirmação é absolutamente verdadeira (assim confio em Deus); mas, como não escrevo estas coisas para o vulgo ignorante mas para pessoas instruídas, devo demonstrar que é possível que toda a juventude seja introduzida nas letras, na moral e na piedade, sem todo aquele enfado e dificuldade que, com o método correntemente em uso, experimentam, por toda a parte, tanto os professores como os alunos.

Fundamentos da demonstração científica.

10. O fundamento único, mas mais que suficiente, desta demonstração, está no seguinte princípio: qualquer coisa, para onde se inclina por natureza, não somente se deixa facilmente conduzir, mas até para lá se dirige espontaneamente com verdadeira satisfação, de tal modo que sente mesmo dor, se disso é impedida.

Explicação

11. É certo, com efeito, que, para que uma ave se habitue a voar, um peixe a nadar, uma fera a caminhar não é necessário constrangê-los; fazem-no logo que sentem que os membros destinados a esses movimentos estão suficientemente desenvolvidos. Também não é necessário constranger a água para que corra pelas encostas, ou o fogo para que queime, desde que haja combustível e ar, ou uma pedra redonda para que role para baixo, ou uma pedra quadrada para que se mantenha no seu lugar, ou os olhos ou o espelho, para que, havendo luz, recebam os objetos, ou a semente para que, ajudada pela humidade e pelo calor, germine. Todo o ser tem possibilidade de fazer espontaneamente aquelas coisas para que foi destinado; ajudado, ainda que pouquíssimo, fá-las.

e aplicação.

12. Ora, uma vez que (como vimos no capítulo V), em todos os homens (excetuamos os monstros de homens), existem, por natureza, as sementes da ciência, da moral e da piedade, daí se segue necessariamente que eles não precisam senão de um ligeiríssimo estímulo e de uma direção inteligente.

Primeira objeção.

13. Mas objeta-se: não se faz um Mercúrio com qualquer madeira[5]. Respondo: mas de qualquer homem faz-se um homem, se a corrupção se mantém afastada.

Segunda objeção

14. É, todavia, verdadeiro (replica outro) que as nossas capacidades interiores foram enfraquecidas com a primeira queda. Respondo: mas não foram extintas. Também, na verdade, as forças do corpo estão muito enfraquecidas; todavia, sabemos reconduzi-las ao seu vigor natural com passeios, corridas e com os exercício das profissões manuais. Efetivamente, embora as duas primeiras criaturas, imediatamente após terem sido criadas, pudessem andar, falar e raciocinar, e nós, se primeiro não aprendemos pela prática, não possamos nem andar, nem raciocinar, dai não se segue, todavia, que essas coisas não possam aprender-se senão de modo confuso e penoso, e por caminhos incertos. Com efeito, se aprendemos sem grandes dificuldades a fazer aquilo que é próprio do corpo, a comer, a beber, a caminhar, a saltar e a exercer profissões manuais, porque não havemos de aprender também as coisas que são próprias da mente, desde que não falte a necessária instrução? Que hei-de acrescentar mais? Em alguns meses, o domador de cavalos ensina um cavalo a trotar, a saltar, a voltear e a regular o movimento em conformidade com os sinais do chicote. Um vulgar charlatão ensina um urso a fazer pantominas, uma lebre a tocar tambor, um cão a conduzir o arado, a lutar, a adivinhar, etc. Uma bruxa frívola ensina um papagaio, uma pega, um corvo, a imitar a voz humana ou certas melodias, etc.; e tudo isto, embora não seja conforme à natureza, em pouco tempo. E não poderá o homem ser facilmente educado naquelas coisas para as quais a natureza, não apenas o chama e conduz, mas até o atrai e arrasta? Tenhamos vergonha de o afirmar, para que até mesmo os domesticadores de animais se não riam sarcasticamente na nossa cara.

Terceira objeção.

15. Mas, replica-se ainda, a dificuldade intrínseca das coisas é tal que nem todos as entendem. Respondo: Que dificuldade é essa? Porventura haverá na natureza um objeto de cor tão sombria que não possa refletir-se num espelho, desde que seja devidamente colocado diante dele quando há luz? Porventura haverá alguma coisa que não possa ser pintada numa tela, desde que a pinte quem conheça a arte da pintura? Porventura haverá alguma semente ou raiz que a terra não receba no seu seio e, com o seu calor, não faça germinar, desde que haja quem saiba onde, quando e como cada coisa deve ser plantada e semeada? Acrescentarei ainda isto: não há no mundo um penhasco ou uma torre tão alta que não possa ser escalada por quem quer que tenha pés, desde que a ela se encostem as escadas necessárias, ou então, talhando as rochas no lugar e com a ordem apropriada, nela se façam degraus, e, do lado dos precipícios perigosos, se ponham defesas. Portanto, se tão poucos chegam à sumidade do saber, embora muitos para lá se encaminhem com ânimo ardente e valoroso, e, se aqueles que chegam até certo ponto, o não conseguem senão à custa de fadiga, de angústia, de cansaço e de vertigens, tropeçando e caindo muitas vezes, isso não quer dizer que para a inteligência humana haja qualquer cume inacessível, mas que os degraus não estão bem dispostos e que são curtos, gastos e arruinados, ou seja, que o método é confuso. Subindo por degraus devidamente dispostos, nivelados, sólidos e seguros, quemquer pode ser conduzido a qualquer altura.

Quarta objeção.

16. Objetar-se-á ainda: há inteligências tão embotadas que é impossível fazer penetrar nelas seja o que for. Respondo: dificilmente se encontra um espelho tão sujo que, de qualquer modo, não reflita as imagens; dificilmente se encontra uma tábua tão grosseira na qual, de qualquer modo, se não possa escrever, qualquer coisa. Mas, se o espelho está enodoado ou coberto de poeira, antes de tudo, é necessário limpá-lo; se a tábua é grosseira, é necessário poli-la. Então não recusarão o seu serviço. Da mesma maneira, se os jovens forem aguçados e polidos, estimular-se-ão e limar-se-ão uns aos outros, de modo que todos acabem por entender tudo.

Insisto firmemente na minha asserção, porque é bem firme o seu fundamento. Notar-se-á apenas esta diferença: os de inteligência mais lenta, quaisquer que sejam os conhecimentos que tenham adquirido, terão a impressão de haver atingido o seu pleno grau de desenvolvimento, ao passo que os mais bem dotados, estendendo o seu apetite de um objeto a outro, penetrarão cada vez mais fundo nas coisas e farão tesouro de novas e utilissimas observações acerca das coisas. Finalmente, embora haja alguns espíritos completamente inaptos para a cultura, como um pedaço de madeira absolutamente impróprio para esculpir, todavia, a nossa asserção será sempre verdadeira acerca das inteligências médias, de que, por graça de Deus, há sempre uma produção riquíssima. É fácil de ver, com efeito, que os débeis mentais são tão raros como aqueles que, por natureza, são defeituosos do corpo. Efetivamente, é certo que a cegueira, a surdez, o ser coxo e a debilidade de saúde raramente são congênitas ao homem, mas contraem-se por culpa nossa; o mesmo acontece com a fraqueza intelectual.

Quinta objeção.

17. Faz-se ainda esta objeção: a alguns não falta a aptidão para os estudos, mas a vontade; e obrigá-los a estudar contra a vontade é, ao mesmo tempo, enfadonho e inútil. Respondo: precisamente por isso, se conta que um filósofo, tendo dois alunos, um estúpido e outro insolente, os mandou ambos embora, porque um, embora quisesse, não podia aproveitar, e o outro, embora pudesse, não queria[6]. E se se demonstrar que a causa do desgosto pelo estudo são os próprios professores? Aristóteles afirmou que o desejo de saber é inato no homem[7] e, que assim é, vimo-lo no capítulo quinto e, ainda há pouco, no capítulo décimo primeiro[8]. Mas porque, por vezes, a excessiva indulgência dos pais deprava nos filhos o apetite natural, porque, por vezes, a petulância dos companheiros os atrai para a parte fróvola das coisas, porque, outras vezes, as próprias crianças, por causa das ocupações cívicas ou áulicas, ou ainda pela visão de quaisquer coisas externas, são afastadas das atrações inatas do espírito; daqui resulta que nenhum desejo têm de conhecer o desconhecido[9], nem possam recolher-se facilmente. (Com efeito, da mesma maneira que a língua, embebida por um sabor, não aprecia bem outro, assim também a mente, ocupada de um lado, não atende suficientemente ao que lhe é oferecido do outro lado). Portanto, em primeiro lugar, é necessário expulsar desses jovens aquele torpor adventício, e reconduzir a natureza ao seu vigor próprio; regressará, então, com certeza, o apetite de saber. Mas quantos daqueles que assumem o encargo de formar a juventude pensam em torná-la primeiro apta para receber essa formação? Efetivamente, assim como o torneiro, antes de tornear um pedaço de madeira, o desbasta com o machado; e o ferreiro, antes de bater o ferro, o aquece; e o fabricante de tecidos, antes de fiar, urdir e tecer a lã, purga-a, lava-a e carda-a; e o sapateiro, antes de coser os sapatos, trabalha o couro, estica-o e pole-o muito bem; assim também o professor, antes de se pôr a instruir o aluno à força de regras, deve primeiro torná-lo ávido de cultura, mais ainda, apto para a cultura e, conseqüentemente, pronto a entregar-se a ela com entusiasmo. Mas quem alguma vez pensou nisso? Quase sempre, o professor toma o aluno tal qual o encontra, e começa logo a torneá-lo, a batê-lo, a cardá-lo, a tecê-lo, a modelá-lo a seu modo, pretendendo que ele se torne imediatamente uma beleza, uma jóia; e, se o não consegue logo (e como seria possível consegui-lo?), enche-se de ira, indigna-se, enfurece-se. E havemos de admirar-nos que haja quem critique e fuja de semelhante método de educação? Devemos antes admirar-nos que haja ainda quem se entregue a tais educadores.

Seis espécies de inteligências.

18. Eis que se nos oferece a ocasião para fazer algumas advertências acerca das diferenças das inteligências: umas são penetrantes e outras obtusas, umas são maleáveis e dóceis, e outras duras e obstinadas; umas são, de si mesmas, inclinadas para as letras, e outras deleitam-se em ocupações mecânicas. Destes três grupos de dois, resulta que há seis espécies de inteligências.

I

19. Ocupam o primeiro lugar as inteligências penetrantes, ávidas de saber e fáceis de dirigir, que são as mais aptas de todas para os estudos; não sendo senão necessário ministrar-lhes o alimento da sabedoria, desenvolvem-se por si, como plantas de boa qualidade. É necessário apenas usar de prudência, não se lhes permitindo que andem exageradamente depressa, para que não aconteça que definhem e se tornem prematuramente estéreis.

II

20. Outras são penetrantes mas lentas, sendo, todavia, dóceis. Estas precisam apenas de ser estimuladas.

III

21. Ocupam o terceiro lugar as inteligências penetrantes e ávidas de saber, mas indomáveis e obstinadas. Estas são geralmente detestadas nas escolas e consideradas como se nada houvesse a esperar delas. Todavia, costumam tornar-se homens de valor, se são bem orientadas. A história oferece-nos um exemplo em Temístocles, grande chefe dos Atenienses: em adolescente, era de caráter tão altivo que o seu mestre lhe disse: «Meu rapaz, não virás a ser nada de medíocre: ou serás um grande bem para a pátria, ou um grande mal»[10]. E quando, mais tarde, alguém mostrava estranheza pela transformação operada na sua maneira de ser, ele costumava dizer: «Os poldros selvagens tornam-se os melhores cavalos, se são devidamente disciplinados»[11]. O que, efetivamente, se verificou no Bucéfalo de Alexandre Magno. Vendo Alexandre que seu pai, Filipe, queria desfazer-se, como de coisa inútil, de um cavalo que, porque demasiado selvagem, não suportava que ninguém o montasse, exclamou: «Que cavalo perdem estes que, por imperícia, se não sabem servir dele!» E tratando o cavalo com arte admirável, sem lhe dar açoites, conseguiu, não só nessa altura, mas durante a vida, fazer-se transportar por ele, não sendo possível encontrar em todo o mundo um cavalo mais generoso que aquele e mais digno de tão grande herói. Plutarco, depois de contar esta história, arcescenta: «Aquele cavalo adverte-nos de que muitas inteligências, nascidas bem, definham por culpa dos educadores, que transformam cavalos em asnos, porque não sabem educar jovens ardorosos e livres»[12].

IV

22. Ocupam o quarto lugar as inteligências dóceis e, ao mesmo tempo, ávidas de saber, mas lentas e obtusas. Estas podem seguir as pegadas das que vão à frente, mas, para que o consigam, deve condescender-se com a sua fraqueza, nada lhes impondo violentamente, nada lhes exigindo severamente, mas antes, e em tudo, tolerando-as, ajudando-as, animando-as, estimulando-as, com benignidade, para que não desanimem. Embora estas cheguem à meta mais tarde, o resultado é, todavia, de mais longa duração, como costuma acontecer com os frutos serôdios. Assim como é mais difícil imprimir um selo no chumbo mas, uma vez impresso, dura mais tempo, assim também, muitas vezes, estas inteligências conservam os conhecimentos durante mais tempo que as outras, e as coisas por elas observadas, ainda que uma só vez, não se lhes escapam tão facilmente. Não devem, por isso, ser afastadas das escolas.

V

23. O quinto lugar é ocupado por alguns de inteligência obtusa e, além disso, lentos e preguiçosos. Estes, a não ser que uma invencível obstinação a isso se oponha, podem ainda corrigir-se, mas é necessário muita prudência e muita paciência.

VI

24. Ocupam o último lugar os de inteligência débil e, ao mesmo tempo, da natureza torcida e malígna; na sua maioria é gente perdida. Mas porque é certo que, para toda a espécie de males, se pode encontrar na natureza um antídoto[13], e que as árvores estéreis por natureza se podem tornar frutíferas por uma plantação conveniente, não deve desesperar-se de todo, mas ver se, ao menos a obstinação pode ser vencida e removida. Se isso não for possível, deverá então pôr-se de lado esse pedaço de madeira torcida e nodosa, com a qual em vão se esperará construir um Mercúrio. «Não convém cultivar nem regar a terra arenosa», disse Catão[14]. No entanto, destas inteligências tão degeneradas, apenas se encontrará uma em mil, o que é uma prova insígne da benignidade de Deus.

25. O resumo do que foi dito encontra-se na seguinte sentença de Plutarco: «Não está nas mãos de ninguém que os seus filhos nasçam com estas ou aquelas qualidades; mas, que se tornem bons por meio de uma boa educação, está em nosso poder»[15]. Eis o que ele diz: «está em nosso poder». Efetivamente, é certo que, de qualquer mergulhão, o agricultor consegue fazer uma árvore, utilizando a mesma arte em toda a plantação.

Que, todavia, todas as inteligências se podem tratar com a mesma arte e com o mesmo método, demonstra-se de quatro maneiras:

26. Que seja possível instruir, educar e formar todos os jovens, de índole tão diversa, com um só e o mesmo método, demonstram-no estas quatro razões:

I.

27. Primeira: todos os homens devem ser dirigidos para os mesmos fins — a sabedoria, a moral e a perfeição.

II.

28. Segunda: embora dotados de inteligências diversas, todos os homens têm a mesma natureza humana, dotada dos mesmos órgãos.

III.

29. Terceira: a diversidade das inteligências não é senão um excesso ou uma deficiência da harmonia natural, do mesmo modo que as doenças do corpo são devidas a um excesso de humidade ou de secura, de calor ou de frio. Por exemplo: que é a acuidade da inteligência senão a sutileza e a agilidade dos espíritos animais no cérebro, correndo rapidamente através dos nervos sensitivos e penetrando nas coisas? Se esta agilidade não for de qualquer modo coibida, pode acontecer que o espírito se disperse, ficando o cérebro enfraquecido ou embrutecido; por isso, vemos que muitas inteligências precoces, ou são surpreendidas por uma morte prematura ou se embotam. Ao contrário, que é a obtusidade da inteligência senão a viscosa gordura e obscuridade dos espíritos no cérebro, a qual é necessário dispersar e aclarar por uma agitação mais freqüente? Que é a petulância e a altivez senão uma excessiva firmeza do coração, jamais disposto a ceder? Esta deve ser tornada flexível por meio da disciplina. Finalmente, que é a preguiça senão uma excessiva moleza do coração que necessita de energia? Por isso, da mesma maneira que, para o corpo, o remédio mais eficaz não é aquele que junta contrários a contrários (pois assim provoca-se uma luta mais violenta), mas aquele que procura a harmonia dos contrários, de modo a suprimir toda a deficiência e todo o excesso; assim também, contra os defeitos da mente humana, o remédio mais adaptado é o método que, pondo em equilíbrio os excessos e as insuficiências das inteligências, reduz tudo a uma espécie de harmonia e de suave concerto. Segundo este critério, o nosso método encontra-se adaptado às inteligências médias (das quais há sempre muitíssimas), de tal maneira que nem faltem os freios para moderar as inteligências mais sutís (para que não enfraqueçam prematuramente), nem o acicate e o estimulo para incitar os mais lentos.

IV.

30. Por fim, digo que o melhor momento para remediar as deficiências e os excessos das inteligências, é quando elas são novas. Com efeito, assim como, no exército, os recrutas se misturam com os veteranos, os débeis com os robustos, os indolentes com os valorosos, e são levados a combater sob as mesmas bandeiras, e dirigidos pelos mesmos comandos durante todo o tempo que dura a batalha, mas, obtida finalmente a vitória, cada um persegue o inimigo enquanto quer e enquanto pode, pilhando à sua vontade; assim também, no exército escolar, convém proceder de modo que os mais lentos se misturem com os mais velozes, os mais estúpidos com os mais sagazes, os mais duros com os mais dóceis, e sejam guiados com as mesmas regras e com os mesmos exemplos, durante todo o tempo em que têm necessidade de ser guiados. Depois de terem deixado as escolas, cada um prosseguirá os estudos, com o ardor de que for capaz.

Qual a prudência de que deve usar-se ao misturar inteligências de capacidades diversas.

31. Entendo aquela «mistura», não apenas em relação ao lugar, mas, muito mais, em relação ao auxílio, de tal maneira que, quando o professor encontra um aluno mais inteligente, deve confiar-lhe dois ou três dos mais lentos para que os instrua, e quando descobre um outro de boa índole deve confiar-lhe outros de temperamento mais fraco, para que os vigie e dirija. Assim, aproveitarão uns e outros, sobretudo se o professor estiver atento a que tudo proceda segundo as normas da razão. Mas já é tempo de, finalmente, começarmos a explicar o nosso tema.


Capítulo XIII

O FUNDAMENTO
DA REFORMA DAS ESCOLAS
É A ORDEM EXATA
EM TUDO

A ordem é a alma das coisas.

1. Se procurarmos que é que conserva no seu ser o universo, juntamente com todas as coisas particulares, verificamos que não é senão a ordem, a qual é a disposição das coisas anteriores e posteriores, maiores e menores, semelhantes e dissemelhantes, consoante o lugar, o tempo, o número, as dimensões e o peso devido e conveniente a cada uma delas. Por isso, alguém disse, com elegância e verdade, que a ordem é a alma das coisas. Com efeito, tudo aquilo que é ordenado, durante todo o tempo em que conserva a ordem, conserva o seu estado e a sua integridade; se se afasta da ordem, debilita-se, vacila, cambaleia e cai. O que é evidente por toda a espécie de exemplos tirados de toda a natureza e da arte.

Ilustra-se esta verdade com exemplos tirados:
1. do mundo.

2. Efetivamente, que é que faz com que o mundo seja o mundo e se mantenha na sua plenitude? Sem dúvida, o fato de que cada criatura, segundo a prescrição da natureza, permanece escrupulosamente dentro dos seus próprios limites; esta manutenção da ordem particular conserva a ordem do universo.

2. do firmamento.

3. Que é que faz correr, de modo tão ordenado e sem qualquer confusão, de século em século, o tempo dividido, com tanta precisão, em anos, meses e dias? Unicamente a ordem imutável do firmamento.

3. de animaizinhos que trabalham com exatidão e precisão singular.

4. Que é que faz com que as abelhas, as formigas e as aranhas executem trabalhos tão exatos e precisos, que a inteligência do homem neles encontra matéria mais para admirar que para imitar? Nada mais que a sua habilidade inata para observar, em todos os seus atos, a ordem, o número e a medida.

4. do corpo humano.

5. Que é que faz com que o corpo humano seja um organismo tão maravilhoso, que pode realizar um número de ações quase infinito, embora não seja dotado de instrumentos infinitos? Ou seja, porque é que, com o número reduzido de membros que o compõem, pode realizar trabalhos de tão maravilhosa variedade, não tendo motivos para desejar outros nem para ser diferente do que é? Isso resulta, sem dúvida, da sábia proporção de todos os membros, tanto em si mesmos, como na relação de uns para com os outros.

5. da nossa mente.

6. Que é que faz com que um só espírito, infundido no corpo, baste para governar todo o corpo e, ao mesmo tempo, para realizar tantas ações? Nada mais que a ordem, em virtude da qual todos os membros estão unidos por vínculos perpétuos e se deixam mover em todas as direções a um sinal do primeiro movimento, que provém da mente.

6. de um reino sabiamente administrado.

7. Que é que faz com que um só homem, rei ou imperador, possa governar povos inteiros? De tal maneira que, embora as opiniões sejam tantas quantas as cabeças, todavia, todos seguem a vontade desse único homem, e, se esse homem faz andar bem a administração, necessariamente tudo anda bem? Nada mais que a ordem, em virtude da qual todos, ligados pelos vínculos da lei e da obediência, estão sujeitos a esse sumo moderador do Estado, dependendo alguns dele imediatamente, e outros de cada um destes, e assim sucessivamente uns dos outros, até ao último. Exatamente como os anéis de uma cadeia que, estando ligados uns aos outros, se se move o primeiro, movem-se todos e, se o primeiro está parado, estão todos parados.

7. da máquina de Arquimedes.

8. Que é que permitiu que Hierão, sozinho, pudesse lançar ao mar uma mole tão grande que tantas centenas de homens haviam tentado em vão mover?[1]/ Apenas uma pequena máquina, construída segundo as regras da arte e munida de numerosos cilindros, roldanas e cordas, combinadas de tal maneira que, uma peça ajudando a outra, as forças fossem multiplicadas.

8. dos canhões.

9. Os terríveis efeitos dos canhões, com os quais se destroiem muros, se abatem torres e se desbaratam exércitos, não provêm senão de uma ordem determinada dos maquinismos e da aplicação de substâncias ativas a substâncias passivas, ou seja, de uma dose exata de nitrato misturado com enxofre (uma substância muito fria com uma substância muito quente), da devida proporção da bomba, da suficiente quantidade de pólvora, da boa estrutura das balas e, finalmente, da boa direção dos tiros. Se falta uma só destas coisas, todo o aparelho se torna inútil.

9. da arte tipográfica.

10. Que é que torna tão perfeita a arte tipográfica, pela qual os livros são multiplicados rapidamente, elegantemente, corretamente? Sem dúvida, a ordem observada na boa fabricação, fundição e acabamento dos tipos metálicos das letras, na sua distribuição nos caixotins, na sua disposição em páginas, na sua colocação sob o prelo, etc., na preparação, corte e dobragem do papel, etc.

10. do carro.

11. E, para que aborde também o domínio das artes mecânicas, pergunto: que é que faz com que um carro, ou seja, a madeira e o ferro (efetivamente, ele é composto destas duas matérias) vá tão veloz atrás dos cavalos que correm à frente e sirva tão bem para transportar homens e coisas pesadas? Nada mais que a coordenação da madeira e do ferro, transformados, segundo as regras da arte, em rodas, eixos, timões, atrelagens, etc. Com efeito, se uma só destas peças se despedaça ou se quebra, a máquina já não serve para nada.

11. do navio.

12. Que é que faz com que os homens subam para um pedaço de madeira e, confiando-se ao mar furioso, se aventurem até aos antípodas, e regressem sãos e salvos? Nada mais que a coordenação da quilha, dos mastros, das antenas, das velas, dos remos, do leme, da âncora, da bússola e dos restantes instrumentos do navio. Se algum deles vier a perder-se, há perigo de balanços, de naufrágio e de morte.

12. do relógio.

13. Qual, enfim, a razão por que no relógio, instrumento que mede o tempo, o metal, trabalhado e ligado de várias maneiras, produz movimentos espontâneos e assim marca harmonicamente os minutos, as horas, os dias, os meses, e até talvez os anos, e não só nos permite ver, mas até nos permite ouvir, mesmo de longe e às escuras, que horas são? Qual a razão por que este instrumento desperta o homem à hora que ele quer e até acende a luz de tal maneira que, ao acordarmos, vemos imediatamente o quarto iluminado? Qual a razão por que o relógio nos permite ver sucessivamenta também o calendário político, religioso e doméstico, as fases da lua, o curso dos planetas e os eclipses? Que coisa haverá digna de admiração, se dela não é digno este relógio? Acaso o metal, substância, de sua natureza, inanimada, produz movimentos tão vivos, tão constantes, tão regulares? Antes de ser inventado, não teria sido considerado uma coisa tão impossível, como se alguém tivesse afirmado que as plantas e as pedras podiam caminhar? No entanto, os olhos atestam que ele é uma coisa real.

Todo o mistério do relógio consiste na ordem.

14. Mas que força oculta anima o relógio? Nenhuma outra senão a força da ordem que manifestamente reina em todas as suas partes, ou seja, a força proveniente da disposição de todas as suas peças, que concorrem com o seu número, as suas dimensões e a sua ordem para tornar aquela disposição tal que cada peça tem um papel determinado e meios para o desempenhar, ou seja, a proporção exata de cada peça com as outras, a harmonia de cada uma com as que lhe estão em relação e leis mútuas para comunicar reciprocamente a força umas às outras. Assim, tudo se passa exatamente como num corpo vivo, posto em movimento pelo próprio espírito. Se, todavia, qualquer peça se estilhaça, ou se parte, ou anda mal, ou começa a estar bamba, ou se torce, ainda que seja a rodinha mais pequena, o eixo mais pequeno, o parafuso mais pequeno, imediatamente todo o relógio pára ou anda mal. Deste modo se torna evidente que tudo depende apenas da ordem.

Espera encontrar-se uma forma de escolas semelhantes ao relógio.

15. A arte de ensinar nada mais exige, portanto, que uma habilidosa repartição do tempo, das matérias e do método. Se a conseguirmos estabelecer com exatidão, não será mais difícil ensinar tudo à juventude escolar, por mais numerosa que ela seja, que imprimir, com letra elegantíssima, em máquinas tipográficas, mil folhas por dia, ou remover, com a máquina de Arquimedes[2], casas, torres ou qualquer outra espécie de pesos, ou atravessar num navio o oceano e atingir o novo mundo. E tudo andará com não menor prontidão que um relógio posto em movimento regular pelos seus pesos. E tão suave e agradavelmente como é suave e agradável o andamento de um tal autômato. E, finalmente, com tanta certeza quanta pode obter-se de qualquer instrumento semelhante, construído segundo as regras da arte.

Conclusão.

16. Procuremos, portanto, em nome do Altíssimo, dar às escolas uma organização tal que corresponda, em todos os pontos, à de um relógio, construído segundo as regras da arte e elegantemente ornado de cinzeladuras variadas.


Capítulo XIV

A ORDEM
APRIMORADA DAS ESCOLAS
DEVE IR BUSCAR-SE
À NATUREZA
E SER TAL
QUE NENHUNS OBSTÁCULOS
A POSSAM ENTRAVAR

Os fundamentos da Arte devem ser procurados na natureza.

1. Comecemos, em nome de Deus, por sondar os fundamentos sobre os quais, como sobre uma rocha imóvel, possa edificar-se o método de ensinar e de aprender. Os remédios contra os defeitos da natureza não devem procurar-se senão na natureza; mas se este princípio é verdadeiro, como efetivamente é, a arte nada pode fazer, a não ser imitando a natureza[1].

A natureza fornece-nos modelos do que deve fazer-se:
1. do nadar

2. Torne-se claro este assunto por meio de exemplos. Vê-se um peixe nadar na água? Para o peixe, é uma coisa natural. Se o homem o quiser imitar, terá necessariamente que recorrer a instrumentos e a movimentos semelhantes, ou seja, em vez das barbatanas deve estender os braços, e em vez da cauda, os pés, e movê-los do mesmo modo que o peixe move as suas barbatanas. Até mesmo os navios não podem construir-se senão sobre este modelo: em vez das barbatanas, estão os remos ou as velas, e em vez da cauda, está o leme. Vê-se uma ave voar? Para ela, é uma coisa natural. Mas, quando Dédalo quis imitá-la, teve de munir-se de duas asas, capazes de sustentar um corpo tão pesado como o seu.

4. do produzir sons

3. O órgão com o qual os animais produzem o som é a traquéia, que é composta de anéis cartilaginosos, e tem no seu vértice a laringe, encarregada de fechar a boca, e, na base, é munida de um fole, o pulmão, que põe a respiração em movimento. À sua imitação, constroiem-se as trombetas, as gaitas de foles e todos os outros instrumentos de sopro.

5. do relampejar

4. Compreendeu-se que a substância que desencadeia das nuvens um fragor e arremessa fogo e pedras é nitrato inflamado e enxofre; por isso, à sua imitação, com enxofre e nitrato, fabrica-se a pólvora pírica que, inflamando-se e saindo para fora dos canhões, produz algo de semelhante aos trovões, aos relâmpagos e aos raios.

6. do conduzir a água para qualquer lugar.

5. Observou-se que a água tende a nivelar-se, mesmo em dois vasos comunicantes tão afastados um do outro lugar quanto se queira. Experimentou-se então fazer aquedutos com canos, e viu-se que a água, seja de que profundidade for, sobe a qualquer altura, desde que desça de um lado tanto como sobe do outro. Este fato é artificial, mas é também natural, pois, que aconteça desta ou daquela maneira, deve-se à arte, mas que aconteça deve-se à natureza.

7. do medir o tempo

6. Observou-se o firmamento e verificou-se que havia um movimento perpétuo e que as várias revoluções dos astros produziam a variedade das estações que convêm ao nosso universo. Em conseqüência disso, à sua imitação, inventou-se um instrumento capaz de reproduzir exatamente o movimento rotatório diário do firmamento e de medir as horas. E esse instrumento é composto de pequenas rodas, não somente para que uma seja arrastada pela outra, mas também para que o movimento possa continuar indefinidamente. Mas foi necessário compor este instrumento de peças móveis e de peças imóveis, precisamente como o mundo.

Análise do relógio para compreender bem toda a estrutura.

Na verdade, no nosso instrumento, no lugar da terra, primeiro corpo fixo do mundo, são postas bases imóveis, colunas, guarnições, e no lugar das esferas móveis, do céu, as várias rodinhas. Mas como não se podia dar a uma roda a tarefa de girar sobre si mesma e de fazer girar, juntamente consigo, as outras (como o Criador deu aos astros a força de se moverem a si mesmos e de fazerem mover outros, juntamente consigo), foi necessário tomar emprestada da natureza a força geradora do movimento, ou seja, o movimento gerado ou pela gravidade ou pela liberdade. Com efeito, ou se prende um peso ao eixo cilíndrico da roda mestra e, enquanto o peso puxa para baixo, o eixo cilíndrico gira e faz girar a sua roda, e esta faz girar, juntamente consigo, outras, e assim sucessivamente; ou se faz uma longa mola de aço que, constrangida a volver em redor de um eixo cilíndrico, enquanto se esforça por regressar à liberdade e por se estender, faz girar o eixo cilíndrico e a sua roda. E para que o movimento do relógio não seja excessivamente rápido, mas lento como o do céu, encaixam-se outras rodinhas de modo que a última, aquela que, movida apenas por dois dentinhos, vai para a frente e para trás e faz tic-tac, tic-tac, representa o revezar-se da luz, que vai e vem, ou seja, o revezar-se dos dias e das noites. Àquela parte, porém, que deve dar o sinal da hora, ou do quarto de hora, ligam-se aparelhos, feitos segundo as regras da arte, que servem para aumentar ou diminuir o movimento, consoante a necessidade, precisamente do mesmo modo que a natureza, mediante o movimento das esferas celestes, faz surgir ou desaparecer o inverno, a primavera, o verão e o outono, cada um deles dividido em meses.

Conclusão acerca da imitação dos fatos naturais na arte didática.

7. De tudo isto, é evidente que a ordem, que desejamos seja a regra universal perfeita na arte de tudo ensinar e de tudo aprender, não deve ser procurada e não pode ser encontrada senão na escola da natureza. Com base sólida neste princípio, as coisas artificiais procederão tão facilmente e tão espontaneamente como facilmente e espontaneamente fluem as coisas naturais. Com efeito, Cicero escreveu: «Se seguirmos a natureza por guia, nunca erraremos». E acrescenta: «Sob a direção da natureza, de modo algum pode errar-se»[2]. Temos precisamente essa esperança, e, por isso, pondo em ação os mesmos processos que a natureza põe em ação, ao realizar esta ou aquela tarefa, prosseguiremos de modo igual a ela.

Objeta-se com cinco obstáculos.

8. Poderia, no entanto, opor-se a esta nossa grande esperança o aforismo de Hipócrates:

<grego>

isto é, «A vida é breve e a arte é longa; os momentos oportunos passam depressa, as experiências não são muito seguras e o juízo acerca dos fatos é difícil»[3]. Neste aforismo, são indicados cinco obstáculos por causa dos quais poucos conseguem chegar à sumidade do saber: I. A brevidade da vida que faz com que, a maioria das vezes, sejamos tirados deste mundo precisamente quando nos preparamos para viver; II. A imensa multidão das coisas que devem ser objeto do nosso conhecimento, que faz com que, a querermos introduzir tudo dentro dos limites do nosso entendimento, não terminemos mais; III. A falta de tempo oportuno para aprender as artes e as ciências, e, se alguma vez surge, logo desaparece. (Efetivamente, os anos da juventude, que são os mais preciosos para a cultura do espírito, passam-se, a maioria das vezes, em divertimentos, e a idade que vem a seguir, dado como a vida está hoje organizada, freqüentemente fornece mais ocasião para coisas frívolas que para coisas sérias; e se, por vezes, se apresenta alguma ocasião favorável, passa antes que dela se aproveite)[4]. IV. A fraqueza do nosso engenho e a obscuridade do nosso juízo que fazem com que, muitas vezes, fiquemos na casca e não penetremos até ao âmago das coisas. V. Finalmente, se alguém, por meio de longas observações e de repetidas experiências, quer penetrar nas verdadeiras essências das coisas, vê-se perante um trabalho muito penoso e, ao mesmo tempo, de êxito mal seguro e incerto. (Com efeito, na multiplicidade tão intrincada das coisas, facilmente muitíssimos fatos podem escapar até à investigação de observador mais sutíl; se se comete ainda que seja um só erro, toda a observação fica envolta na incerteza).

Responde-se:
Que Deus, com sábio conselho, assim ordenou.

9. Se todas estas coisas são verdadeiras, como é que nós ousamos prometer um método de estudos tão universal, tão certo, tão fácil e tão seguro? Respondo: que estas coisas são absolutamente verdadeiras, mostra-o a experiência; mas que, para estas coisas, há remédios eficacíssimos, mostra-o também a experiência. Efetivamente, aqueles obstáculos foram criados pelo sapientíssimo árbitro das coisas, por Deus, mas para nosso bem; podem, portanto, prudentemente, converter-se em bem. Deus deu-nos, efetivamente, uma vida de breve duração, porque, na presente corrupção, já não sabemos fazer bom uso da vida. Com efeito, se, mesmo agora que morremos quase no instante em que nascemos, e o fim se anuncia desde o momento em que temos origem[5], nos perdemos atrás de frivolidades, que aconteceria se tivéssemos a certeza de viver centenas ou milhares de anos?

I

Deus quis, por isso, conceder-nos apenas o tempo que considerou suficiente para nos prepararmos para uma vida melhor. Para este efeito, portanto, a vida é suficientemente longa, se a soubermos utilizar.

II.

10. Deus quis que as coisas fossem muitas, também para utilidade nossa, isto é, para nos servirem de ocupação, de exercício e de instrução.

III.

11. Quis que as ocasiões fossem fugazes para que, apercebendo-nos disso, nos esforçássemos por agarrá-las, onde as pudéssemos agarrar.

IV.

12. Quis que as experiências fossem falazes, para que aprendêssemos a estar atentos e víssemos a necessidade de entrar bem a fundo nas coisas.

V.

13. Quis, enfim, que emitir juízo acerca das coisas fosse difícil, para que se trabalhasse com maior empenho e com mais forte espírito de iniciativa. E quis que assim fosse, para que a sabedoria de Deus, espalhada de maneira oculta por toda a parte, se tornasse mais manifesta com maior prazer nosso. «Efetivamente, diz Santo Agostinho, se se entendesse tudo facilmente, nem a verdade seria procurada com paixão, nem encontrada com doçura».

Estes obstáculos podem prudentemente ser afastados.

14. Importa, portanto, ver de que modo, com a ajuda de Deus, se podem afastar os obstáculos que a divina Providência nos opôs extrinsecamente, para aumentar a nossa aplicação. Nao poderão afastar-se senão:

I. Prolongado a vida, de modo que chegue para a carreira que nos foi destinada;

II. Abreviando os estudos, de modo que correspondam à duração da vida;

III. Aproveitando as ocasiões, de modo que não surjam inutilmente;

IV. Despertando os engenhos, de modo que facilmente penetrem no âmago das coisas;

V. Colocando no lugar das observações vagas um fundamento estável e seguro.

Ordem dos capítulos seguintes.

15. Comecemos, portanto, a tratar estas questões, para que, com a ajuda das indicações fornecidas pela natureza, descobramos os fundamentos:

— para prolongar a vida, a fim de que se aprenda tudo o que é necessário;

— para abreviar os estudos, a fim de que se aprenda mais rapidamente;

— para aproveitar as ocasiões, a fim de que se aprenda realmente;

— para despertar os engenhos, a fim de que se aprenda facilmente;

— para aguçar o juízo, a fim de que se aprenda solidamente.

Trataremos estas cinco questões em cinco capítulos, colocando, todavia, em último lugar, o modo de abreviar os estudos.


Capítulo XV

FUNDAMENTOS
PARA
PROLONGAR A VIDA

Ao homem é concedida uma vida suficientemente longa.

1. Aristóteles[1] e Hipócrates[2] lamentam-se da brevidade da vida e censuram a natureza por haver destinado uma duração tão curta à existência do homem, que é chamado a tão altos destinos, enquanto que concedeu maior longevidade aos veados, aos corvos e a outros animais. Mas Sêneca responde sabiamente: «Não recebemos uma vida breve, mas tornamo-la breve; nem temos menos que o necessário de vida, mas desperdiçamo-la. Se se souber fazer bom uso da vida ela é longa». E acrescenta: «Foi-nos concedida numa vida suficientemente longa e suficientemente ampla para conduzir a bom termo as coisas mais importantes, desde que seja toda ela bem empregue» (Da brevidade da vida, cap. I e II).

Mas é por nós abreviada.

2. Se isto é verdade, como efetivamente é, então é por culpa nossa que a vida não chega nem sequer para esclarecer os assuntos da mais alta importância. E não devemos admirar-nos com isto, pois nós próprios a gastamos perdulariamente, em parte porque nos entregamos à violência, de modo que necessariamente a vida se extingue antes do seu termo natural; e em parte, porque gastamos os retalhos de tempo em coisas inúteis.

quer debilitando-lhe as forças,

3. Um escritor notável (Hipólito Guarino) escreve e demonstra com argumentos que, mesmo o homem de mais delicada constituição, se vem à luz sem defeitos, tem em si tanta força vital que lhe basta naturalmente até aos sessenta anos, e aquele que é de constituição fortíssima, até aos cento e vinte anos. Se alguns morrem antes destes limites (e quem ignora que muitos morrem na infância, na juventude e na idade viril?), é por culpa dos homens que, cometendo excessos vários ou não tendo em consideração as reservas da vida, arruinam tanto a sua própria saúde como a dos filhos, que acaso venham a gerar, e apressam a morte[3].

quer não a gastando toda em empreendimentos de valor, como fizeram: Alexandre Magno,

4. Além disso, que, num exíguo espaço de vida (por exemplo, 50, 40, 30 anos), é possível realizar coisas muito importantes, desde que se saiba fazer bom uso do tempo, prova-o o exemplo daqueles que, antes de terem atingido os anos da virilidade, chegaram onde outros nem sequer tentaram chegar, embora tivessem tido uma vida longuíssima. Alexandre Magno morreu aos trinta e três anos, e não só possuía uma cultura prodigiosa, mas tinha vencido todo o mundo, sujeitando-o, não tanto com a força das armas, como com a sabedoria dos seus planos e com a sua espantosa rapidez em executar as empresas <grego>

Pico de Mirandola,

João Pico de Mirandola não chegou sequer à idade de Alexandre[4], mas elevou-se de tal modo, no estudo da sabedoria, acima de tudo o que a inteligência humana pode atingir que foi considerado uma maravilha do seu século.

e até o próprio Cristo.

5. E, para não citar outros exemplos, o próprio Senhor Nosso Jesus Cristo, embora não tivesse vivido sobre a terra mais que 34 anos, realizou a grande obra da Redenção, querendo, sem dúvida, mostrar com o seu exemplo (uma vez que toda a sua vida é alegórica) que, qualquer que seja o número de anos que caiba viver ao homem, lhe bastam para se preparar para a eternidade.

Não devemos, portanto, queixar-nos da brevidade da vida.

6. Neste lugar, não posso deixar de referir as áureas palavras pronunciadas por Sêneca (Carta 94) a este propósito: «Tenho encontrado muitos a recalcitrar com razão contra os homens; contra Deus, ninguém. Exprobamos, todos os dias, o destino... Que mal há em sair cedo de um lugar de onde, mais cedo ou mais tarde, tens de sair? A vida é longa, se é plena. E atinge a sua plenitude, quando o espírito conseguiu o seu próprio bem e se tornou senhor de si mesmo». E acrescenta: «Suplico-te, meu caro Lucílio, façamos de modo que a vida, como uma pedra preciosa, não tenha uma grande dimensão, mas um grande valor. Meçamo-la pelas ações, e não pelo tempo». E logo a seguir: «Louvemos, portanto, e coloquemos no número dos felizes aquele que empregou bem o pouco de tempo que lhe foi concedido, porque viu a verdadeira luz e não foi um de tantos como há por aí, e viveu verdadeiramente e em pleno vigor». E de novo: «Assim como um homem pode ser perfeito, mesmo que seja de pequena estatura, assim também a vida pode ser perfeita, mesmo que seja de breve duração. A duração da vida é uma coisa externa. Queres saber durante quanto tempo, ao máximo, se deveria viver? Até ao momento em que se tenha adquirido a sabedoria. Aquele que aí chega, atinge, não a meta mais longínqua, mas a mais elevada»[5].

Dois remédios.

7. Contra os lamentos sobre a brevidade da vida, eis, para nós e para os nossos filhos (e também para as escolas), estes dois remédios: — esforçar-se tanto quanto possível por:

I. Defender o corpo das doenças e da morte;
II. Dispor a mente a fazer tudo com sensatez.

I. Porque devemos preservar o corpo das doenças? Porque ele é:
1. a habitação da alma,

8. Temos o dever de manter o corpo ao abrigo das doenças e das recaídas: primeiro, porque ele é a habitação, e a única habitação da alma; por isso, se o corpo se arruina, a alma é obrigada a emigrar imediatamente deste mundo; e mesmo que se arruine, pouco a pouco, por meio de rupturas que se abrem; ora de um lado, ora do outro, o seu hóspede, a alma, sente a habitação incômoda. Se, portanto, se quer estar o mais tempo possível e o melhor possível, no palácio do mundo, onde fomos colocados pela benignidade de Deus, é necessário ter atentos cuidados com este tabernáculo que é o corpo.

2. o órgão da alma.

Segundo: porque o corpo foi feito, não só para habitação da alma racional, mas também para seu órgão, e, sem ele, ela nada pode ouvir, nem ver, nem agir, nem sequer pensar. Efetivamente, porque nada pode ser objeto da inteligência que primeiro não tenha sido objeto dos sentidos, a mente recebe dos sentidos a matéria de todos os seus pensamentos e não pode desempenhar a função de pensar senão por meio da sensação interna, ou seja, contemplando as imagens abstraídas das coisas. Daqui resulta que, danificando o cérebro, danifica-se a faculdade imaginativa, e se os membros do corpo estão doentes, é afetada também a mente. Por isso, o poeta teve razão em dizer: «Deve pedir-se uma mente sã num corpo são»[6].

De que modo? Por meio de dieta. E a regra da dieta ensina-se com o exemplo de uma árvore que tem necessidade:
1. de um alimento moderado,

9. O nosso corpo mantém-se vigoroso por meio de uma dieta moderada. Mas, acerca deste assunto, só os médicos podem falar com autoridade. Por isso, faremos apenas algumas observações, servindo-nos do exemplo de uma árvore. Por natureza, a árvore tem necessidade de três coisas; 1. de humidade continua; 2. de transpiração freqüente; 3. de repouso alternado. Tem necessidade de humidade, porque sem ela definha e seca; mas importa que a humidade seja moderada, porque, se é excessiva, faz apodrecer as raízes. Do mesmo modo, o corpo tem necessidade de alimento, pois, sem ele, torna-se seco, e morre de fome e de sede; mas o alimento não deve ser excessivo, a fim de que as funções digestivas não fiquem sobrecarregadas e oprimidas. Com quanto mais moderação se ministrar os alimentos, tanto mais fácil e perfeita será a digestação. Como, em geral, não se toma isto em consideração, numerosos são aqueles que arruinam as forças e a vida por excesso de alimento. Efetivamente, a morte vem das doenças; as doenças, dos maus humores; os maus humores, da má digestão; a má digestão, do excesso de alimentação, porque o estômago fica tão cheio que não é capaz de digerir, e, por conseqüência, vê-se obrigado a espalhar pelos órgãos humores pouco ou nada digeridos, dos quais é impossível que não provenham doenças: «muitos morreram por voracidade, mas o homem sóbrio prolongará a vida» (Eclesiástico, 37, 34).

e simples,

10. Mas, para manter o vigor da saúde, não é necessário apenas tomar alimentos comedidos, mas também alimentos simples. O jardineiro não rega uma planta, por mais delicada que ela seja, com vinho ou com leite, mas com o líquido que convém a todos os vegetais, ou seja, com água. Importa, portanto, que os pais evitem habituar as crianças às substâncias excitantes, particularmente as que são destinadas a seguir os estudos, porque não foi escrito por mero acaso que Daniel e os seus companheiros, jovens de sangue real, consagrados aos estudos, embora se alimentassem com legumes e água, foram considerados mais ágeis e mais gordos e, o que é mais, mais inteligentes que os outros, que comiam as delícias da mesa do rei (Daniel, 1, 22 e ss.). Mas, acerca destas coisas, falarei mais pormenorizadamente noutro lugar[7].

2. da transpiração freqüente,

11. Uma árvore tem necessidade também de transpirar e de se robustecer freqüentemente mediante os ventos, as chuvas e o frio. Doutro modo, languesce e morre. Do mesmo modo, o corpo humano tem absoluta necessidade de movimento, de ginástica, de exercícios sérios ou de jogos.

3. de repouso alternado.

12. Finalmente, de tempos a tempos, a árvore tem necessidade de repouso. Naturalmente não é necessário que esteja sempre a produzir rebentos, flores e frutos, mas, de quando em quando, deve trabalhar também no seu interior, digerir os sucos, e, por este meio, renovar as suas forças. E Deus quer que ao verão suceda o inverno, precisamente para dar repouso a todos os seres que crescem sobre a terra, e também à própria terra: e para este efeito ordenou por meio de leis que, todos os sete anos, se desse repouso à terra (Levítico, 25, 3 e 4). De modo semelhante, criou a noite para os homens (e para os outros animais), para que, quer com o sono, quer ainda com a conservação dos membros em repouso, se recuperassem as forças perdidas com as ocupações do dia. Mas é necessário, por meio de intervalos, dar certo alívio, tanto ao corpo como à mente, com qualquer recreação menor, de uma hora, para evitar o perigo de que trabalhem constrangidos pela violência, a qual é inimiga da natureza. É, portanto, prudente interromper também os trabalhos diurnos para respirar um pouco e entregar-se a conversas, brincadeiras, jogos, música e outras coisas semelhantes, onde os sentidos externos e internos encontram repouso e prazer.

Destas três coisas (escupulosamente observadas) depende a conservação da vida.

13. Se alguém observa estas três coisas (alimentar-se sobriamente, exercitar o corpo e ajudar a natureza), é impossível que não conserve durante muitíssimo tempo a saúde e a vida, salvo caso de força maior. Uma grande parte, portanto, de uma boa organização escolar deverá ser procurada numa conveniente repartição do trabalho e do repouso, das férias e dos recreios.

II. Importa utilizar bem o tempo de trabalho.

14. Importa falar agora do modo de utilizar prudentemente o tempo que resta e que deve ser consagrado ao trabalho. Trinta anos? Parece coisa insignificante e fácil de dizer; mas trinta anos compreendem um bom número de meses, de dias e de horas. É certo que em tão grande espaço de tempo, pode fazer-se muitas coisas, desde que se ande, ainda que se ande muito devagarinho. É uma prova evidente disso o modo como crescem as árvores, as quais, nem mesmo com a vista mais perspicaz, podemos aperceber-nos que crescem, porque isso se faz, pouco a pouco e insensivelmente; mas vê-se que, todos os meses, crescem um pouco, e, após trinta anos, observa-se que cresceram tanto que são já árvores muito grandes. O nosso corpo, ao crescer em estatura, segue a mesma regra: não o vemos crescer, mas vemos que cresceu. E, que não é diversa a regra seguida pela mente que procura adquirir conhecimento das coisas, provam-no estes versos conhecidos:

Acrescenta a uma pequena quantidade mais um pouco e ainda um pouquito,

e, em pouco tempo, tens construída uma montanha.

A força do progresso é maravilhosa.

15. Quem não ignora a força do progresso, adverte-o facilmente. Com efeito, enquanto, em cada ano, de cada rebento desponta apenas um raminho, após trinta anos, uma árvore terá mil ramos, uns mais grossos e outros mais delgados, e folhas e flores e frutos inumeráveis. E há-de parecer impossível que, em vinte ou trinta anos, o esforço do homem chegue a qualquer altura e a qualquer distância? Examinemos um pouco este problema.

Repartição exata do tempo.

16. O dia natural tem 24 horas, as quais, divididas em três partes, segundo as necessidades da vida, dão: oito horas para o sono, oito horas para as ocupações externas (por exemplo, para tratar da saúde, para comer, para vestir, para recreações honestas, para conversar com os amigos, etc...) e oito horas para enfrentar as ocupações sérias, com ardor e com alegria. Todas as semanas, por isso (sendo o sétimo dia completamente dedicado ao repouso), temos 48 horas destinadas ao trabalho; em cada ano, 2495; e em dez, vinte, trinta anos?

A vida chega para juntar grandes tesouros de instrução.

17. Se, em cada hora, se aprender um só teorema de qualquer ciência, ou uma regra de uma arte prática, ou uma história interessante, ou uma máxima sábia (e é evidente que isto se pode fazer sem nenhuma fadiga), que tesouro de instrução se conseguirá adquirir?!

Conclusão.

18. Por isso, Sêneca disse com razão: «Se soubermos fazer bom uso da vida, ela é suficientemente longa, e chega para levar a bom termo as empresas mais importantes, se se emprega toda bem»[9]. Tudo está em saber empregá-la toda bem. É disso que vamos agora falar.


Capítulo XVI

REQUISITOS GERAIS
PARA ENSINAR E PARA APRENDER,
ISTO É,
COMO SE DEVE ENSINAR
E APRENDER COM SEGURANÇA,
DE MODO QUE SEJA IMPOSSÍVEL
NÃO OBTER BONS RESULTADOS

As coisas naturais crescem espontaneamente.

1. É bela aquela parábola de Nosso Senhor Jesus Cristo, referida pelo evangehsta: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra, e que dorme e se levante noite e dia, e a semente brota e cresce sem ele saber como. Porque a terra por si mesma produz primeiramente a erva, depois a espiga, e por último o trigo grado na espiga. E, quando o fruto está maduro, mete logo a foice, porque está chegado o tempo da ceifa» (Marcos, 4, 26 e ss.).

Como devem crescer também as coisas artificiais.

2. Nesta parábola, o Salvador mostra que Deus é que faz tudo em todas as coisas, e que ao homem deixa também apenas o cuidado de receber fielmente no coração as sementes daquilo que lhe ensina. Deus as fará germinar e crescer todas até ao seu pleno desenvolvimento, sem que o homem disso se aperceba. Por isso, aqueles que instruem e educam a juventude não têm outra obrigação além de semear habilmente na alma dos jovens as sementes daquilo que têm de ensinar, e de regar cuidadosamente as plantazinhas de Deus; o crescimento e o incremento virão por acréscimo.

A perícia de plantar está na arte.

3. Quem ignora que, para semear e plantar, se exige uma certa arte e uma certa habilidade? Na verdade, ao jardineiro, que ignora a arte de semear um jardim, morre a maior parte das plantazinhas, e, se algumas crescem bem, isso depende mais do acaso que da arte. Se, ao contrário, ele é prudente, trabalha com empenho, e sabe o que deve fazer e o que deve deixar de fazer, e onde e quando e como, com certeza que não há o perigo de ele fazer qualquer coisa inutilmente. O resultado pode, porém, uma ou outra vez, ser nulo mesmo para os peritos (porque é quase impossível ao homem fazer tudo com tanta lucidez que não seja, por vezes, de uma ou de outra maneira, induzido em erro). Neste momento, todavia, não falamos nem da prudência nem do acaso, mas da arte de prevenir os acasos com prudência.

O método de educar deve basear-se na arte.

4. Uma vez que, até hoje, o método de educar tem sido tão vago que dificilmente alguém ousaria dizer: «eu, em tantos anos, conduzirei este jovem até este ponto, e deixá-lo-ei instruído desta ou daquela maneira, etc.», importa ver se esta arte de plantar nos espíritos pode basear-se num fundamento tão sólido que conduza, com certeza e sem erro possível, ao progresso intelectual.

Vê-lo-emos fazendo um paralelo entre as coisas materiais e as coisas artificiais.

5. Mas, como este fundamento não pode consistir senão em conformar, com o máximo cuidado possível, as operações desta arte com as normas que regulam as operações da natureza (como vimos já, no capítulo XIV), perscrutemos os caminhos da natureza, servindo-nos do exemplo de uma ave que faz sair dos ovos os seus filhos; e, observando como os jardineiros, os pintores e os arquitetos seguem felizmente os vestígios da natureza, facilmente veremos como é que eles devem também ser imitados pelos formadores da juventude.

E porquê assim?

6. Se a alguém estas coisas parecerem demasiado vulgares, demasiado conhecidas e demasiado mastigadas, lembre-se que pretendemos precisamente deduzir de coisas correntes e comummente conhecidas, que se fazem com êxito no campo da natureza e da arte (fora das escolas), coisas menos conhecidas, que são o objetivo do nosso estudo. E se, de fato, as coisas que tomamos como exemplo, para delas deduzir as nossas regras, são conhecidas, esperamos que, precisamente por isso, também as nossas conclusões serão mais evidentes.

FUNDAMENTO I

Fundamento I da natureza:
Nada se faz fora do tempo.

7. A natureza espera o momento favorável.

Por exemplo: uma ave, para multiplicar a sua raça, não começa a trabalhar no inverno, quando tudo está frio e inteiriçado; nem no verão, quando tudo está quente e se estiola; nem no outono, quando a vitalidade de todas as coisas, juntamente com o sol, está em decrescimento, e o inverno, inimigo das coisas novinhas, está para surgir; mas na primavera, quando o sol volta a dar vida e vigor a todos os seres. Efetivamente, quando a temperatura está ainda muito fria, a ave concebe os ovos e conserva-os no corpo, onde estão resguardados do frio; quando o ar começa a aquecer, põe-nos no ninho, e, finalmente, na parte mais quente do ano, abre-os, a fim de que, a pouco e pouco, a sua criatura se habitue à luz e ao calor.

Nos jardins e em arquitetura é bem imitada a arte.

8. Também o jardineiro tem a preocupação de nada fazer fora de tempo. Não planta durante o inverno (porque, nessa altura, a seiva está de tal modo aderente às raízes que não pode subir para alimentar os ramos), nem no verão (porque a seiva está já dispersa pelos ramos), nem durante o outono (porque a seiva se retira para as raízes), mas durante a primavera, quando a seiva, a partir das raízes, começa a circular, e as partes superiores da planta começam a apresentar vegetação. Depois, é necessário fazer qualquer coisa à volta das plantas, pelo que deve conhecer-se o tempo oportuno de todos os trabalhos, ou seja, o tempo de estrumar, de podar, de mondar, etc., e ainda que a planta tem o seu tempo de abrolhar, de florir, de amadurecer os frutos, etc. O arquiteto faz o mesmo, pois, necessariamente, deve cortar a madeira, cozer os tijolos, abrir os alicerces, levantar os muros, rebocá-los, etc., quando o tempo lho permite.

Nas escolas verifica-se um duplo desvio relativamente a este modelo.

9. Nas escolas, peca-se, de dois modos, contra este fundamento:

I. Não aproveitando o momento favorável para exercitar as inteligências.
II. Não organizando cuidadosamente os exercícios de modo a que eles se desenrolem todos, pouco a pouco, segundo uma regra fixa.

Efetivamente, a criança, enquanto setá na primeira infância, não pode ser instruída, porque a raiz da inteligência está ainda profundamente apegada ao chão. Durante a velhice, é demasiado tarde para instruir o homem, porque a inteligência e a memória estão já em regressão. No meio da vida, é difícil, porque as forças da inteligência, dispersas pela variedade das coisas, só a muito custo podem concentrar-se. Importa, portanto, instruir na idade juvenil, quando o vigor da razão e da vida está em pleno crescimento; então, todas as faculdades crescem e lançam profundas raízes.

Tríplice correção.

10. Concluímos, portanto:

I. Que a formação do homem deve começar na primavera da vida, isto é, na puerícia. (Na verdade,a puerícia assemelha-se à primavera; a juventude, ao verão; a idade viril, ao outono; a velhice, ao inverno).

II. Que as horas da manhã são as mais favoráveis aos estudos (porque, também aqui, a manhã corresponde à primavera; o meio dia, ao verão; a tarde, ao outono; a noite, ao inverno).

III. Que tudo o que deve aprender-se deve dispor-se segundo a idade, de modo a não dar a aprender senão as coisas que os alunos sejam capazes de entender.

FUNDAMENTO II

Fundamento II: A matéria antes da forma.

11. A natureza prepara a matéria, antes de começar a introduzir-lhe uma forma.

Por exemplo: a ave que quer produzir uma criatura semelhante a si, primeiro concebe-a em estado de embrião a partir de uma gota do seu sangue; depois, faz o ninho, onde põe os ovos; finalmente, choca-os, e assim forma a sua criação e a faz sair da casca.

Imitação.

12. Da mesma maneira, o arquiteto prudente, antes de começar a construção de um edifício, leva para o local montes de madeira, de pedra, de cal, de ferro e de outras coisas necessárias, para que depois os trabalhos não sejam atrasados por falta de materiais ou para que a solidez da construção não fique prejudicada. De igual modo, o pintor, que quer pintar qualquer coisa, prepara a tela, estende-a na moldura, prepara o fundo do quadro, mistura as cores, põe os pincéis ao alcance da mão e, finalmente, pinta. Também o jardineiro, antes de começar a plantação, procura ter à mão os mergulhões, os rebentões e todos os utensílios, para não ter de procurar as coisas necessárias durante o trabalho, com perda de tempo.

Aberração.

13. Contra este fundamento, pecam as escolas: Primeiro, porque não se preocupam em ter sempre preparados todos os utensílios — livros, quadros, mapas, amostras, modelos, etc. — para deles se servirem quando for preciso, mas só quando esta ou aquela coisa é precisa, só então a procuram, a fazem, ou a ditam, ou a copiam, etc.; e todas as vezes que o professor inexperiente ou negligente (e a raça destes é sempre a mais numerosa) se encontra nestes casos, procede de um modo que é digno de dó, precisamente como um médico que, todas as vezes que tivesse de ministrar um remédio, corresse de cá para lá, através dos jardins e das florestas, à procura de ervas e de raízes, as cozesse, as distilasse, etc., quando era indispensável que tivesse à mão os remédios apropriados para cada caso.

14. Segundo, porque, mesmo nos livros que as escolas possuem, não é observada a ordem natural, de modo que venha primeiro a matéria e depois a forma. Quase por toda a parte, é o contrário que se faz: apresenta-se a ordem das coisas antes das próprias coisas, embora seja impossível ordenar, quando se não tem ainda o material para ordenar. É o que demonstrarei com a ajuda de quatro exemplos:

15. (1) As escolas ensinam a fazer um discurso antes de ensinar a conhecer as coisas sobre que deve versar o discurso, pois obrigam, durante anos, os alunos a aprender as regras da retórica, e, somente depois, não sei quando, os admitem ao estudo das ciências positivas (studia realia), da matemática, da física, etc. Mas, uma vez que as coisas são a substância e as palavras os acidentes; coisa o corpo, palavra o adorno; coisa a polpa, palavra a pele e a casca, deve ser ao mesmo tempo que estas coisas hão-de ser apresentadas à inteligência humana, mas tendo a preocupação de começar a partir das coisas, pois estas são objeto tanto da inteligência como do discurso.

16. (2) Também no estudo das línguas se procede erradamente, porque não se principia por qualquer autor ou por qualquer dicionário convenientemente ilustrado, mas pela gramática, embora os autores (e os dicionários também, a seu modo) forneçam a matéria do discurso, isto é, os vocábulos, e a gramática apenas acrescente a forma, ou seja, as leis para formar, ordenar e associar os vocábulos.

17. (3) No mundo das disciplinas, ou seja, nas enciclopédias, por toda a parte, as artes colocam-se em primeiro lugar e, só depois, a respeitosa distância, vêm as ciências e as aplicações, não obstante estas conduzirem a aprender as coisas, e aquelas o método das coisas.

18. (4) Enfim, ensinam-se primeiro regras em abstrato, e só depois se ilustram com exemplos, enquanto que a luz deve preceder a pessoa a quem se quer iluminar o caminho.

19. Resulta de tudo isto que, para corrigir radicalmente o método, é necessário:

I. Ter à mão os livros e todo o restante material escolar;

II. Formar a inteligência antes da língua;

III. Não aprender nenhuma língua a partir da gramática, mas a partir de autores apropriados.

IV. Colocar as disciplinas positivas (reales disciplinas) antes das disciplinas linguísticas e lógicas (organicis)[1].

V. Dar exemplos antes de ensinar as regras.

FUNDAMENTO III

Fundamento III: A matéria deve ser tornada apta para receber a forma.

20. A natureza toma um sujeito apto para as operações que ela quer realizar ou, ao menos, prepara-o para o tornar apto para isso.

Por exemplo: uma ave não põe no ninho uma coisa qualquer para chocar, mas um objeto tal que seja possível fazer sair dele uma avezinha, ou seja, põe lá um ovo. Se no ninho cai qualquer pequena pedra ou outro objeto qualquer, lança-o fora, como coisa inútil. Chocando a matéria contida no ovo, mantém-na quente, revira-a e forma-a até que esteja apta para sair do ovo.

Imitação

21. Do mesmo modo, o arquiteto, depois de cortada a melhor madeira que pode adquirir, fá-la secar, desbasta-a, serra-a; a seguir, aplaina o terreno, limpa-o, lança os fundamentos, ou então restaura e reforça aqueles que existiam já, de modo a poder utilizá-los.

22. Também o pintor, se não tem uma tela suficientemente boa ou se o fundo do quadro não é próprio para as cores, em primeiro lugar esforça-se por tornar melhor a tela e o fundo, raspando-os, alisando-os e preparando-os de qualquer modo para o uso desejado.

23. De igual modo, o jardineiro: 1. escolhe o mergulhão mais vigoroso que pode, e proveniente de uma planta frutífera; 2. transporta-o para o jardim e planta-o com todo o cuidado; 3. não o submete à delicada operação da enxertia, se primeiro não vê que lançou raízes; 4. e, antes de o enxertar, arranca-lhe os seus primeiros rebentos e corta-lhe parte do tronco, a fim de que nenhuma parte da seiva possa circular a não ser para tornar forte o garfo.

Aberração.

24. As escolas têm pecado contra este fundamento, não tanto porque recebem alunos imbecis e estúpidos (uma vez que, segundo a nossa intenção, devem receber toda a espécie de jovens), mas na medida em que:

I. Não transportam essas plantazinhas para as plantações, isto é, não as recebem todas nas escolas, de tal maneira que todos aqueles que devem ser formados para o ofício de homem não sejam despedidos da oficina antes da sua completa formação.

II. A maioria das vezes, têm tentado enxertar os garfos do saber, da moral e da piedade, antes que a planta a enxertar tivesse lançado as raízes, isto é, antes de haverem despertado o desejo de aprender naqueles que, por natureza, não estavam dele inflamados.

III. Não podaram as plantazinhas ou os mergulhões, antes de os plantar, isto é, não libertaram os espíritos das ocupações supérfluas, constrangendo-os a ocupar o seu lugar por meio da disciplina e obrigando-os a manter-se em ordem.

Correção.

25. Conseqüentemente, daqui para o futuro:

I. Todo aquele que for enviado à escola deverá ser assíduo.

II. Deverá dispor-se a inteligência dos alunos para o estudo de qualquer matéria que comecem a estudar. (Deste assunto trataremos mais amplamente no capítulo seguinte, Fundamento II).

III. Libertem-se os alunos de toda a espécie de impedimentos, porque, como diz Sêneca, «de nada serve fornecer regras, se primeiro se não suprime o que constitui obstáculo às regras»[2]. É uma verdade. Dela falaremos no capítulo seguinte.

FUNDAMENTO IV

Fundamento IV: Todas as coisas se formam distintamente e nenhuma confusamente.

26. A natureza não realiza as suas obras na confusão, mas procede distintamente.

Por exemplo: a natureza, enquanto forma uma avezinha, num dado momento põe em ordem os ossos, as veias e os nervos; noutro momento, robustece a carne; noutro momento, distende a pele; noutro momento, recobre-a de penas; e noutro ainda, ensina-a a voar, etc.

Imitação.

27. O arquiteto, quando faz os fundamentos, não constrói ao mesmo tempo as paredes; e, muito menos, põe o teto. Mas faz cada coisa no tempo e lugar devidos.

28. Também o pintor não pinta, ao mesmo tempo, vinte ou trinta retratos, mas trabalha com atenção em um só. Efetivamente, embora nos intervalos prepare o fundo de outros quadros, ou faça qualquer outra espécie de trabalho, todavia, o seu principal trabalho é sempre um só.

29. De modo semelhante, o jardineiro não faz vários enxertos ao mesmo tempo, mas fá-los um a seguir ao outro, para se não enganar ou para não estragar a operação da natureza.

Aberração.

30. Ora nas escolas reina a confusão, pelo fato de se querer meter na cabeça dos alunos muitas coisas ao mesmo tempo.

Por exemplo: gramática latina e gramática grega, retórica e talvez ainda poética, e sei lá mais o quê. Efetivamente, quem não sabe que, nas escolas clássicas, quase em cada hora do dia, varia a matéria das lições e dos exercícios? Mas, que é a confusão, se não é isto a confusão? É como se se metesse, na cabeça de um sapateiro, fazer, ao mesmo tempo, seis ou sete pares de sapatos, e ora pegasse neles todos, um após o outro, ora os pusesse de parte. Ou como se um padeiro, ora metesse no forno alguns pães, ora os tirasse de lá, de tal modo que fosse necessário que cada pão fosse metido e tirado do forno muitíssimas vezes. Mas quem, de entres eles, é tão louco como isso? O sapateiro, antes de ter terminado um par de sapatos, não começa outro. O padeiro, antes que os pães estejam cozidos, não mete no forno outra fornada.

Correção.

31. Imitemos, suplico-vos, estes exemplos e abstinhamo-nos de querer ensinar a dialética a quem estuda gramática; e, enquanto a dialética afina a mente, que esta não seja perturbada pela retórica; e, enquanto nos ocupamos da língua latina, não sejamos importunados pela língua grega, etc., para não cairmos, de uma maneira ou de outra, em embaraços, pois, quem pensa em muitas coisas ao mesmo tempo arrisca-se a não compreender seriamente nenhuma delas. Sabia-o bem o grande José Escalígero, o qual (talvez por recomendação de seu pai) nunca se ocupava senão de uma só matéria de cada vez e nela fazia incidir todas as forças da sua mente[3]. Daqui resultou que, uma após outra, se tornou perito em catorze línguas, e adquiriu tantos conhecimentos artísticos e científicos, quantos os que caem sob o domínio do engenho humano; e de tal maneira que era mais versado em todos esses conhecimentos que aqueles que se dedicam a um só. Quem, depois, tentou seguir, com firme propósito, as suas pegadas, não o fez em vão.

32. Que, portanto, também nas escolas, os alunos se ocupem apenas de uma matéria de cada vez.

FUNDAMENTO V

Fundamento V: Primeiro as coisas interiores.

33. A natureza começa cada uma das suas operações pelas partes mais internas.

Por exemplo: a natureza não forma primeiro as unhas, ou as penas, ou a pele da ave, mas as vísceras; depois, no seu tempo próprio, as partes exteriores.

34. Também o jardineiro não aplica os garfos á casca pela parte de fora, nem os enxerta à superfície do «cavalo», mas faz uma fenda que vai até ao coração da planta e aí encaixa, o mais profundamente que pode, os garfos bem adaptados, e tapa de tal maneira bem as junturas que a seiva não possa sair por nenhuma parte, mas vá imediatamente para o interior dos garfos e neles infunda toda a sua força, para os fazer crescer vigorosos.

35. Igualmente, a árvore alimentada com o alimento da chuva ou nutrida pela seiva do terreno, não extrai essas substâncias através da casca, mas alimenta-se através dos poros das suas partes internas. É por isso que o jardineiro não costuma regar os ramos, mas as raízes. E os animais não ministram os alimentos aos membros exteriores, mas ao estômago, que os prepara e os envia para todo o corpo. Deste modo, se o educador da juventude cultiva sobretudo a raiz do saber, isto é, a inteligência, facilmente o vigor passará para o seio do homem, ou seja, para a memória, e finalmente aparecerão flores e frutos, isto é, o uso corrente da língua e a prática das coisas.

Aberração.

36. Erram, portanto, aqueles professores que querem realizar a formação da juventude que lhes foi confiada, ditando muitas coisas e mandando-as aprender de cor, antes de as terem explicado devidamente. Erram também aqueles que as querem explicar, mas não sabem como, ou seja, não sabem como descobrir, pouco a pouco, a raíz, e nela enxertar os garfos das coisas ensinadas. E precisamente por isso estragam os alunos, como se alguém, para fazer uma fenda numa planta, em vez de uma faca, utilizasse uma bengala ou um bate-estacas.

Correção.

37. Por isso, daqui para o futuro:

I. Em primeiro lugar, formar-se-á a inteligência para a compreensão das coisas; em segundo lugar, a memória; em terceiro lugar, a língua e as mãos.

II. O professor deverá procurar todos os caminhos de abrir a inteligência e fazê-los percorrer de modo conveniente. (O que investigaremos no capítulo seguinte).

FUNDAMENTO VI

Fundamento VI: Primeiro as coisas gerais.

38. A natureza começa todas as suas obras pelas coisas mais gerais e acaba pelas mais particulares.

Por exemplo: querendo, de um ovo, produzir uma ave, a natureza não começa por formar a cabeça, ou os olhos, ou as penas, ou as unhas; mas aquece toda a massa do ovo, e o movimento produzido pelo calor dá nascimento a uma rede de veias que oferece o esboço de toda a avezinha (a cabeça, as asas, os pés, etc., em embrião), e, finalmente, pouco a pouco, cada parte se desenvolve até atingir a sua forma perfeita.

Imitação.

39. Imitando este fato natural, o arquiteto começa por conceber, na sua mente, o plano geral de todo o edifício, ou desenha-o em perspectiva no papel, ou então faz um modelo de madeira; e, em conformidade com esse plano, lança os fundamentos e levanta os muros, e, finalmente, cobre a construção com o telhado. Depois disso, ocupa-se das partes mais pequenas, as quais devem tornar a casa perfeita: as portas, as janelas, as bancadas, etc. Por último, acrescenta-lhe os ornamentos: pinturas, esculturas, tapeçarias, etc.

40. Também o pintor que quer pintar o rosto humano, não imagina nem pinta primeiro uma orelha, ou um olho, ou o nariz ou a boca, mas esboça com o carvão o rosto (ou o homem inteiro). Depois, se vê que as proporções estão exatas, com um pequeno pincel, forma o fundo do quadro, mas mantendo-se sempre nas linhas gerais. A seguir, desenha os intervalos entre as sombras e a luz, e finalmente forma os membros com todos os pormenores e adorna-os com cores perfeitamente distintas.

41. De modo idêntico, o escultor, que quer fazer uma estátua, toma um tronco rude, bosqueja-o em redor, e dá-lhe primeiro uma forma grosseira; depois, uma forma mais perfeita, para lhe dar de qualquer modo o aspecto de estátua, e, por fim, rasga-lhe de modo perfeitíssimo cada um dos membros e reveste-os de cores.

42. Igualmente, o jardineiro não toma senão o esboço geral das plantas, isto é, o garfo, o qual pode, quase logo, lançar tantos ramos principais quantos são os seus rebentos.

Aberração.

43. De onde se segue que o ensino das ciências é mal feito quando é fragmentário e quando não começa por um prévio esboço geral de todo o programa, e que ninguém pode ser perfeitamente instruído numa ciência particular, se não tem uma visão geral das outras ciências.

44. Daí se segue também que se ensinam mal as artes, as ciências e as línguas, se se não começa pelos seus primeiros rudimentos; mas habitualmente ninguém faz esse estudo prévio, pois, apenas admitidos aos estudos da dialética, da retórica e da metafísica, os infelizes dos alunos vêem-se arrasados sob uma montanha de regras prolixas, de comentários, de explicações aos comentários, de confrontos de autores e de controvérsias. De igual modo, são empanturrados de gramática latina com todas as suas exceções e irregularidades, de gramática grega com os seus dialetos, enquanto para lá estão atônitos e sem saberem para que tudo aquilo possa servir.

Correção

45. Para evitar esta desordem, eis o remédio:

I. Que na mente das crianças, que se destinam aos estudos, se façam entrar, logo desde o começo da sua formação, os fundamentos de uma instrução universal, isto é, uma tal coordenação das matérias que os estudos que, pouco a pouco, se seguem, pareçam nada trazer de absolutamente novo, mas sejam apenas um desenvolvimento pormenorizado das coisas anteriores. Efetimente, também numa árvore, ainda que o seu crescimento se prolongue por mais de cem anos, não nasce nenhum ramo novo, mas aqueles que nasceram ao princípio alongam-se constantemente e formam novas pequenas ramagens.

II. Que qualquer língua, ciência e arte se ensine: primeiro, por meio de rudimentos muito simples, para que se apreenda o seu plano geral; depois, mais completamente, por meio de regras e exemplos; em terceiro lugar, por meio de sistemas completos, a que se acrescentam as irregularidades; finalmente, se isso for necessário, por meio de comentários. Efetivamente, quem aprende uma coisa a partir dos seus fundamentos, já não tem necessidade de comentários, pois poderá, pouco depois, comentá-la por si mesmo.

FUNDAMENTO VII

Fundamento VII: Tudo gradualmente; nada por saltos.

46. A natureza não dá saltos, mas procede gradualmente.

Assim, a formação de uma avezinha passa pelas suas etapas, as quais não podem ser ultrapassadas nem transpostas, até que a avezinha, quebrada a sua prisão, saia para fora. Transposta esta etapa, a mãe da avezinha não lhe ordena imediatamente que se ponha a voar e a procurar alimentos (porque ainda não pode), mas alimenta-a ela, e, continuando a aquecê-la com o seu próprio calor, ajuda-a a cobrir-se de penas. Quando as penas estão já crescidas, não a impele imediatamente a voar fora do ninho, mas exercita-a pouco a pouco, primeiro a estender as asas dentro do ninho, depois a movê-las esguendo-se acima do ninho, e, portanto, a tentar voar fora do ninho, mas perto; depois, a voar de ramo em ramo, e, depois, de uma árvore para outra árvore, e depois de um monte para outro monte; e assim, finalmente, entrega-a com confiança ao céu livre. Mas vê-se que cada uma destas coisas quer ser feita, não só no momento preciso, mas também gradualmente, e não só gradualmente, mas também segundo uma série imutável de graus.

Imitação

47. Assim procede quem edifica uma casa: não começa pela armação do telhado, nem pelas paredes, mas pelos alicerces; e, feitos os fundamentos, não lhe coloca logo em cima o teto, mas constrói as paredes. Numa palavra, assim como todas as coisas se ajudam mutuamente, assim também todas devem estar conexas entre si segundo uma ordem determinada.

48. É também necessário que o jardineiro faça os seus trabalhos gradualmente: é necessário, com efeito, que escolha os rebentões e abra as covas, que os transplante, os pode, os fenda, lhes enxerte os garfos e lhes recubra as comissuras. E, de todas estas coisas, não pode deixar de fazer-se nem sequer uma só, nem fazer uma quando deve fazer-se outra. E, se as faz gradualmente e cada uma no seu devido tempo, é quase impossível que o seu trabalho não resulte bem.

Aberração.

49. Torna-se, portanto, evidente que não pode chegar-se a qualquer resultado válido, se os professores, no decurso do seu ensino e no decurso dos estudos dos seus alunos, não distribuem as matérias, não somente de maneira que a uma se suceda sempre outra, mas também de maneira que cada uma seja necessariamente estudada dentro dos limites fixados, pois, se se não estabelecem as metas e os meios para atingir as metas e a ordem para aplicar os meios, facilmente alguma coisa fica para trás, facilmente alguma coisa se inverte, facilmente nasce a confusão e a desordem.

Correção.

50. Daqui paia o futuro, portanto:

I. Distribua-se cuidadosamente a totalidade dos estudos em classes, de modo que os primeiros abram e iluminem o caminho aos segundos, e assim sucessivamente.

II. Distribua-se meticulosamente o tempo, de modo que a cada ano, mês, dia e hora seja atribuída a sua tarefa especial.

III. Observe-se estritamente esse horário e essa distribuição das matérias escolares, de modo que nada seja deixado para trás e nada seja invertido na sua ordem.

FUNDAMENTO VIII

Fundamento VIII: Não se deve parar, a não ser depois de terminada a obra.

51. A natureza, quando empreende um trabalho, não o abandona senão depois de o haver terminado.

A ave, com efeito, quando por instinto começa a chocar os ovos, não deixa de os chocar até a sua eclosão, pois, se deixasse de o fazer, ainda que fosse apenas por derminada algumas horas, o feto arrefeceria e morreria. Mesmo quando as avezinhas sairam já da casca, não cessa de as manter quentes, até que, cheias de vida e cobertas de penas, estejam aptas a suportar a impressão do ar.

Imitação.

52. De igual modo, o pintor, uma vez começado o retrato, tem todo o interesse em prosseguir a sua obra até ao fim, se quer que as tintas se harmonizem melhor e adiram mais solidamente.

53. Da mesma maneira, é ótimo método levar a construção de um edifício do princípio até ao fim, sem interrupção, pois, de outro modo, o sol, a chuva e os ventos estragam as paredes, e aquelas coisas que depois se lhes juntam já se não agarram tão solidamente: tudo, em suma, se fende, se greta e se estraga.

54. Também o jardineiro prudente, depois de haver começado a plantação, não a abandona, a não ser uma vez terminado o trabalho, pois, se interrompe o seu trabalho e se demora a terminá-lo, a seiva dos rebentões e dos garfos evapora-se e a planta seca.

Aberração.

55. Daqui se infere que constitui um grande dano enviar as crianças à escola por intervalos de meses ou de anos e, depois, por outros intervalos, empregá-las noutras ocupações. De igual modo, constitui um grande dano que o professor ora inicie o aluno nesta matéria ora naquela, sem nunca levar nenhuma seriamente até ao fim. Finalmente, constitui também um grande dano se, em cada hora, não propõe e não termina um programa determinado, para que, de cada vez que ensina, se verifique um real progresso. Onde falta este fervor, tudo se esfria. Efetivamente, não é por mero acaso que se diz que se deve bater o ferro enquanto ele está quente, pois, se se deixa arrefecer, em vão será batido com o martelo, devendo necessariarnente voltar a recorrer-se ao fogo; e, entretanto, gasta-se mais um pouco de tempo e mais um pouco de ferro. Com efeito, todas as vezes que o ferro é metido no fogo, perde sempre algo da sua substância.

Correção.

6.Portanto,

I. Quem freqüenta as escolas, que nelas permaneça até se tornar um homem instruído, honesto e religioso.

II. A escola deve estar num local tranqüilo, afastado dos ruídos e das distrações.

III. Deve fazer-se tudo segundo o programa estabelecido, sem admitir qualquer hiato.

IV. Não deve conceder-se a ninguém (seja sob que pretexto for) autorização para sair da escola e entregar-se a futilidades.

FUNDAMENTO IX

Fundamento IX: É necessário evitar as coisas contrárias.

57. A natureza evita deligentemente as coisas contrárias e prejudiciais.

Com efeito, a ave, enquanto, chocando-os, aquece os ovos, protege-os do vento forte, bem como da chuva e do granizo. Além disso, afasta do ninho as serpentes, os abutres e outros animais nocivos.

58. Também o arquiteto, tanto quanto lhe é possível, conserva seca a madeira, os tijolos e a cal, e não deixa cair nem arruinar-se aquilo que já construiu.

59. De igual modo, o pintor protege do vento, do calor intenso, da poeira e das mãos de estranhos um retrato ainda fresco.

60. O jardineiro, com a ajuda de uma paliçada ou de uma sebe, proteje das cabras e das lebres as plantas jovens.

Aberração.

61. Comete-se, portanto, uma imprudência todas as vezes que, logo no início do estudo de uma nova disciplina, se propõe aos alunos uma matéria controversa, isto é, sempre que se levanta uma dúvida acerca da matéria que devem ainda estudar. Efetivamente, a que equivale isso senão a dar fortes sacudidelas numa plantazinha desejosa de lançar as raízes? Hugo escreveu com razão: «Nunca chegará a atingir a verdade, aquele que começar a instruir-se com controvérsias»[4]. Comete-se também uma imprudência quando se não afasta a juventude dos livros torpes, cheios de erros e de confusões, assim como também das más companhias.

Correção.

62. Pense-se, portanto, que é essencial:

I. Não dar aos alunos nenhuns outros livros, além dos da sua classe.

II. Que esses livros sejam tão cuidadosamente ilustrados que, justa e merecidamente, possam ser considerados verdadeiros inspiradores de sabedoria, de moralidade e de piedade.

III. Não devem ser toleradas nas escolas, ou nas vizinhanças das escolas, companhias dissolutas.

Conclusão.

63. Se todas estas regras forem observadas escrupulosamente, será quase impossível que as escolas falhem na sua missão.


Capítulo XVII

FUNDAMENTOS
PARA ENSINAR E APRENDER
COM FACILIDADE

Não basta fazer qualquer coisa com segurança; é preciso procurar a facilidade.

1. Examinámos os meios, graças aos quais o educador da juventude pode atingir com segurança o seu objetivo; vejamos agora de que modo aqueles mesmos meios devem ser aplicados às inteligências, para que o seu emprego se faça com facilidade e com prazer.

Dez fundamentos dessa facilidade.

2. Se observarmos as pegadas da natureza, torna-se-nos evidente que a educação da juventude se processará facilmente, se:

I. Começar cedo, antes da corrupção das inteligências.

II. Se fizer com a devida preparação dos espíritos.

III. Proceder das coisas gerais para as coisas particulares.

IV. E das coisas mais fáceis para as mais difíceis.

V. Se ninguém for demasiado sobrecarregado com trabalhos escolares.

VI. Se em tudo se proceder lentamente.

VII. E se os espíritos não forem constrangidos a fazer nada mais que aquilo que desejam fazer espontaneamente, segundo a idade e por efeito do método.

VIII. Se todas as coisas forem ensinadas, colocando-as imediatamente sob os sentidos.

IX. E fazendo ver a sua utilidade imediata.

X. E se tudo se ensina sempre com um só e o mesmo método.

Assim, repito-o, tudo se processará segundo um andamento suave e agradável. Mas regressemos de novo às pegadas da natureza.

FUNDAMENTO I

Fundamento I: Toma-se a matéria pura.

3. A natureza não começa senão partindo do estado de virgindade (a privatione).

Uma ave, com efeito, toma para o choco ovos frescos que contenham uma matéria puríssima; se já antes tivesse começado a formar-se uma outra avezinha, em vão se esperaria um bom resu1tado.

Imitação.

4. Igualmente, o arquiteto, que quer construir uma casa, tem necessidade de um pedaço de terreno desimpedido; ou então, se a quer construir no lugar de uma outra, deve necessariamente, em primeiro lugar, demolir a velha.

5. Também o pintor pinta muito bem numa tela que nunca serviu. Mas se ela está já pintada, ou manchada, ou apresenta rugas, é necessário primeiro que a raspe e a limpe.

6. De igual modo, quem quer guardar unguentos preciosos, tem necessidade de frascos novos ou, ao menos, bem limpos do líquido que anteriormente continham.

7. Também o jardineiro planta muito bem as plantazinhas jovens, e, se acaso planta algumas que são já adultas, é necessário que primeiro lhes corte os ramos e lhes tire todas as ocasiões de desperdiçar a seiva. Foi por esta razão que Aristóteles colocou o «estado de virgindade» (privatio) entre os princípios das coisas[1], pois via que era impossível infundir uma nova forma na matéria, antes de suprimir a primeira.

Aberração.

8. Daqui, se segue: primeiro, que as mentes jovens, ainda não habituadas a distrairem-se com outras ocupações, se embebem bem dos estudos da sabedoria. E que, quanto mais tarde começa a formação, tanto mais embaraçada procede, pois a mente está já ocupada com outras coisas.

Segundo, que uma criança não pode ser instruída, com fruto, por vários mestres ao mesmo tempo, pois é quase impossível que todos empreguem o mesmo método; daí se segue a distração dos espíritos juvenis e os embaraços da sua formação. Terceiro, que agem como inexperientes aqueles que, encarregando-se da formação de crianças já crescidas e de adolescentes, não começam pela educação moral, para que, domando-lhes as paixões, os tornem aptos para as restantes coisas. É bem sabido que os domadores, primeiro domam o cavalo com o freio e tornam-no obediente, e só depois lhe ensinam a tomar esta ou aquela posição. Sêneca disse com razão: «Primeiro aprende a moral e depois a ciência, pois esta aprende-se mal sem aquela»[2]. E Cícero escreveu: «A filosofia moral prepara os espíritos para receber a boa semente»[3].

Correção.

9. Portanto:

I. Que a formação da juventude comece cedo.

II. Que, para um mesmo aluno e na mesma matéria, não haja senão um só professor.

III. Que, antes de tudo, se eduquem os costumes das crianças, de modo que obedeçam com prontidão ao menor sinal do professor.

FUNDAMENTO II

Fundamento II: A matéria torna-se ávida de receber uma forma.

10. A naturerza predispõe a matéria de modo a tornar-se ávida de uma forma.

Assim, a avezinha já formada no ovo, sendo ávida de uma perfeição maior, agita-se naturalmente e rompe a casca com as patas ou com o bico. Liberta daquela prisão, sente prazer em ser aquecida pela mãe; sente prazer em que ela lhe dê de comer e, por isso, abre o bico e engole a bicada; sente prazer em olhar o céu; sente prazer em ser treinada no voo, e, pouco depois, em voar; numa palavra,, apressa-se avidamente a pôr em ação todas as suas funções naturais, mas gradualmente.

Imitação.

11. Também o jardineiro deve necessariamente ter a preocupação de que a planta, provida da humidade e do calor vital necessário, cresça fresca e vigorosa.

Aberração.

12. Portanto, cuidam mal dos interesses das crianças aqueles que as obrigam aos estudos pela força. Efetivamente, que podem eles esperar? Se o teu estômago não recebe os alimentos com apetite e tu o queres atulhar, não podem vir-te senão nâuseas e vómitos, ou, pelo menos, uma má digestão e dano para a saúde. Ao contrário, qualquer que seja o alimento que metas num estômago famélico, ele digere-o bem e transforma-o cuidadosamente em quilo e em sangue. Por isso, dizia Isócrates: <grego>: «Se gostas de aprender, aprenderás muito»[4]. E Quintiliano escreveu: «A paixão de aprender depende da vontade, que não pode ser forçada»[5].

Correção

13. Portanto:

I. Deve inflamar-se, de qualquer modo, nas crianças, o desejo ardente de saber e de aprender.

II. O método de ensinar deve diminuir o trabalho de aprender, de modo que nada magoe os alunos e os afaste de prosseguir os estudos.

De que modo deve o desejo ardente de aprender ser excitado e favorecido nas crianças.

14. O desejo ardente acende-se e favorece-se nas crianças, pelos pais, pelos professores, pela escola, pelas proprias coisas, pelo método e pelas autoridades civis.

1) Pelos pais.

15. Os pais, se exaltam freqüentemente, diante de seus filhos, os benefícios da instrução e o valor das pessoas instruídas; se os exortam ao amor pelo estudo, prometendo-lhes belos livros, belos vestidos ou qualquer outra coisa que lhes dê prazer; se fazem o elogio dos professores (e especialmente daquele a quem confiam os filhos), pondo em relevo tanto a superioridade da sua instrução como a sua bondade para com os alunos (com efeito, o amor e a admiração são os sentimentos mais fortes para desenvolver o gosto da imitação); se, finalmente, encarregam, por vezes, os filhos de desempenhar qualquer missão junto do professor, ou de lhe levar qualquer pequeno presente, os pais, repito, conseguirão facilmente que eles considerem o professor como um amigo, e as disciplinas que ele ensina como dignas da sua dedicação.

2) Pelos professores.

16. Os professores, por sua vez, se forem afáveis e carinhosos, e não afastarem de si os espíritos com qualquer ato de aspereza, mas os atraírem a si afetuosamente, com atitudes e palavras paternais; se exaltarem os estudos empreendidos pelas crianças, mostrando a sua importância, o seu encanto e a sua facilidade; se louvarem os alunos mais diligentes (distribuindo mesmo, pelas crianças, peras, maçãs, nozes, doces, etc.); se, chamando-os para junto de si, mesmo em público, lhes mostrarem aquilo que depois deverão aprender, figuras, instrumentos de ótica, de geometria, esferas armilares e outros objetos semelhantes que despertam a admiração das crianças e as atraem; se os encarregarem de levar qualquer recado aos pais; se, numa palavra, tratarem os alunos com afabilidade, facilmente conseguirão tornar-se senhores dos seus corações, de modo que eles sintam até mais prazer em estar na escola que em casa.

Pela própria escola, se é cheia de beleza por dentro e por fora.

17. A própria escola deve ser num local agradável, apresentando, no exterior como no interior, um aspecto atraente. No interior, deve ser um edifício fechado, bem iluminado, limpo, todo ornado de pinturas, quer sejam retratos de homens ilustres, quer sejam cartas geográficas, ou recordações históricas, ou quaisquer baixos-relevos. No exterior, adjacentes à escola, deve haver, não só um pedaço de terreno destinado a passeios e a jogos (que, de quando em quando, não devem negar-se às crianças, como, veremos dentro em breve[6]), mas também um jardim aonde, em certos momentos, os alunos deverão ser conduzidos para recrearem os olhos com a vista das árvores, das flores e das plantas. Se se tiver isto em consideração na construção das escolas, é provável que as crianças vão à escola não menos gostosamente que quando vão a qualquer feira ou espetáculo, onde esperam ver e ouvir sempre qualquer coisa de novo.

4) Pelas coisas.

18. As próprias matérias de ensino atraem a juventude, se são ministradas de modo adaptado à sua capacidade e com a maior clareza, e se são intermeadas com qualquer gracejo ou, ao menos, com qualquer coisa menos séria que as lições, mas sempre agradável. Com efeito, é a isto que se chama juntar o útil ao agradável[7].

5) Pelo método (desde que seja natural e misture prudentemente o útil com o agradável)

19. Para que o próprio método excite o apetite dos estudos, é necessário: primeiro, que seja natural. Com efeito, tudo o que é natural desenvolve-se espontaneamente. Para que a água corra ao longo de um declive, não é necessário constrangê-la; basta que se levante o dique ou qualquer obstáculo que a retém, e ela correrá imediatamente. Também não é necessário pedir a uma ave que voe; basta abrir-lhe a gaiola. Também não é necessário pedir aos olhos que contemplem uma bela pintura ou aos ouvidos que ouçam uma bela melodia, se se lhes dá ensejo disso; nestes casos, é até, às vezes, necessário refreá-los. Quais devam ser os requisitos do método natural, mostra-no-lo o capítulo precedente, e ainda as regras que se seguem.

e misture prudentemente o útil com o agradável)

Em segundo lugar, para que as inteligências sejam aliciadas pelo próprio método, é necessario, com uma certa habilidade, adoçá-lo, de tal maneira que todas as coisas, mesmo as mais sérias, sejam apresentadas num tom familiar e agradável, isto é, sob a forma de conversas ou de charadas, que os alunos, em competição, procurem adivinhar; e, enfim, sob a forma de parábolas e de apólogos. Acerca disto, falaremos mais amplamente no seu devido lugar[8].

6) Pelas autoridades civis.

20. As autoridades civis e aqueles a quem incumbe o cuidado das escolas podem inflamar o zelo da juventude estudiosa, se assistem pessoalmente às provas públicas (quer sejam exercícios, declamações e disputas, quer sejam exames e promoções) e distribuem (sem parcialidade), aos mais estudiosos, louvores e pequenos prêmios.

FUNDAMENTO III

Fundamento III: Todas as coisas nascem de princípios próprios.

21. A natureza produz todas as coisas, fazendo-as nascer de elementos pequenos quanto à massa, mas fortes quanto à potência.

Por exemplo: a substância de que há-de ser formada a ave encerra-se numa gota e está circundada de uma casca, para facilmente poder ser transportada no ventre e ser mantida quente no ninho. Todavia, essa substância contém em si, potencialmente, toda a ave, porque depois, a partir dela, o corpo da avezinha é formada pelo espírito aí encerrado.

Imitação.

22. Do mesmo modo, uma árvore, por maior que seja, está toda concentrada, ou no caroço dos seus frutos, ou nos rebentos dos ramos mais altos, pois, se os lanças à terra, a partir deles desenvolve-se uma outra árvore inteira, pela potência que opera no interior do caroço ou do rebento.

Aberração que faz estarrecer.

23. Contra este fundamento, comete-se vulgarmente nas escolas um pecado enorme. Com efeito, a maior parte dos professores esfalfa-se a semear ervas em vez de sementes, e a plantar árvores em vez de mergulhões, pois, em vez dos princípios fundamentais, atulham a cabeça dos alunos com um caos de conclusões várias, e até de textos inteiros. Ora, assim como é certo que o mundo é composto de quatro elementos (apenas variam as formas), assim também é certo que a instrução se concentra toda em pouquíssimos princípios, dos quais (desde que se conheçam as diferenças modais), deriva uma infinita multidão de corolários, do mesmo modo que, de uma árvore de raízes bem sólidas, podem resultar centenas de ramos, e milhares de folhas, de flores e de frutos. Que Deus tenha piedade do nosso século e abra os olhos da mente a alguém que consiga penetrar profundamente o nexo das coisas e o mostre aos outros! Pela nossa parte, se Deus quiser, apresentaremos um esboço da nossa tentativa no Compêndio de Pansofia Cristã, com a esperança humilde de que, em tempo oportuno, Deus revele, por meio de outros, coisas mais importantes.

Correção.

24. Entretanto, notem-se três coisas:

I. Toda a arte deve encerrar-se em muito poucas regras, mas exatíssimas.

II. Toda a regra deve estar contida em pouquíssimas palavras, mas claríssimas.

III. Cada regra deve ser seguida de numerosos exemplos que façam ver como é grande a variedade dos casos a que se estende a sua aplicação.

FUNDAMENTO IV

Fundamento IV: Primeiro, as coisas mais fáceis.

25. A natureza caminha das coisas mais fáceis para as mais difíceis.

Por exemplo: a formação do ovo não começa pela parte mais dura, isto é, pela casca, mas pela gema e pela clara, as quais, primeiro, são circundadas por uma pequena membrana e depois por um invólucro mais duro. Também a ave, que quer sair do ninho para voar, primeiro finca os pés, depois abre as asas, a seguir agita-as e, finalmente, batendo-as com mais força, eleva-se, e deste modo se habitua a entregar-se ao céu imenso.

Imitação.

26. Igualmente, o carpinteiro, primeiro aprende a cortar a madeira, depois a apará-la, a seguir a encaixá-la e, finalmente, a construir edifícios, etc.

Aberração de vária espécie

27. Age-se desasadamente todas as vezes que, nas escolas, se ensina o desconhecido por meio do igualmente desconhecido, como acontece: 1. quando se dão, aos principiantes de língua latina, regras escritas em latim, o que é o mesmo que explicar o hebraico com regras escritas em hebraico, e o árabe, com regras escritas em árabe; 2. quando, aos mesmos principiantes, se dá como auxiliar um dicionário latino-vernáculo, quando deve fazer-se o contrário. Com efeito, não devem aprender a língua vernácula através do latim, mas devem aprender o latim mediante a língua vernácula, que conhecem já. (Acerca desta aberração, falaremos mais demoradamente no capítulo XXII.) 3. quando se dá à criança um preceptor estrangeiro que não conhece a língua materna da criança. Efetivamente, uma vez que não têm um instrumento comum a ambos para se entenderem, e não comunicam senão por meio de gestos, que podem eles edificar senão uma torre de Babel? 4. comete-se também um grave erro contra a reta razão quando, com as mesmas regras gramaticais (por exemplo, as de Melanchton ou de Ramo)[9], etc., se ensina a juventude de todas as nações (francesa, alemã, boema ou polaca, hungárica, etc.), uma vez que cada língua tem, com a língua latina, uma relação particular e de certo modo própria, a qual é necessário descobrir, se realmente se quer ensinar os jovens a penetrar rapidamente na índole da língua latina.

Correção.

28. Corrigir-se-ão estes defeitos, se:

I. O professor e o aluno falam, desde o berço, a mesma língua.

II. Todas as explicações são dadas numa língua conhecida.

III. Se as gramáticas e os dicionários se adaptarem à língua mediante a qual se deve aprender a língua nova (por exemplo, os de latim à língua materna; os de grego à latina, etc.).

IV. Se o estudo da nova língua proceder gradualmente, de maneira que o aluno se habitue primeiro a compreendê-la (o que é muito fácil), depois a escrevê-la (dando-lhe tempo para refletir) e, finalmente, a falá-la (o que é muito mais difícil, pois trata-se de uma improvisação).

V. Quando o ensino do latim é paralelo ao da língua materna, o desta, uma vez que ela é mais conhecida, deve ser ministrado primeiro, seguindo-se o da língua latina.

VI. É necessário coordenar as matérias a ensinar, de modo que primeiro se ensinem as que estão mais próximas, depois as que estão mais afastadas e, finalmente, as que estão ainda mais afastadas. Por isso, nas primeiras vezes que se apresentam regras às crianças (por exemplo, de lógica, de retórica, etc.), devem ser ilustradas com exemplos não afastados da sua capacidade de compreensão (teológicos, políticos, poéticos, etc.), mas tirados da vida prática de todos os dias. De outro modo, não entenderão nem a regra, nem o emprego da regra.

VII. Exercitem-se primeiro os sentidos das crianças (o que é muito fácil), depois a memória, a seguir a inteligência, e por fim o juízo. Todos esses exercícios devem ser feitos um após o outro, gradualmente, pois o saber começa a partir dos sentidos, e, através da imaginação, passa para a memória, e depois, pela indução a partir das coisas singulares, chega à inteligência das coisas universais, e finalmente, acerca das coisas bem entendidas, emite o juízo, o que permite chegar à certeza da ciência.

FUNDAMENTO V

Fundamento V: Nada de modo sobrecarregado.
Imitação.

29. A natureza não se sobrecarrega e contenta—se com pouco.

Por exemplo: a natureza não exige que, de um ovo, nasçam duas avezinhas, mas contenta-se com que nasça bem uma só. O jardineiro não enxerta muitos garfos num só pé; se vê que ele é bastante robusto, enxerta-lhe, ao máximo, dois.

Aberração.

30. É criar a distração nos espíritos, o apresentar aos alunos várias matérias ao mesmo tempo, como a gramática e a dialética, e talvez também mesmo a retórica e a poética e a língua grega, etc., no mesmo ano. (Ver o capítulo precedente, Fundamento IV).

FUNDAMENTO VI

Fundamento VI: Nada de modo precipitado.

31. A natureza não se preclpita, mas procede lentamente.

Efetivamente, uma ave não lança os ovos no fogo, para que os seus filhos nasçam mais depressa, mas aquece-os docemente com o seu calor natural; nem depois, para que cresçam mais depressa, os empanturra com alimentos (sufocá-los-ia, com efeito, mais facilmente!), mas dá-lhes, pouco a pouco e cautelosamente, apenas aquilo que é capaz de digerir a sua faculdade nutritiva, ainda tenrinha.

Imitação

32. Também o arquiteto não constrói à pressa as paredes em cima dos fundamentos, e o teto em cima das paredes; porque os fundamentos, ainda não bem enxutos e consolidados, cedem sob o peso, e, conseqüentemente, arruinam o edifício. Por isso, não pode terminar-se uma construção grandiosa em um ano, mas tem de demorar-se o tempo necessário.

33. Também o jardineiro não pretende que a planta cresça logo no primeiro mês, ou que dê fruto logo no primeiro ano. Por isso, não anda à volta dela todos os dias, nem a rega todos os dias, nem, para a aquecer, a aproxima do fogo ou espalha constantemente, junto dela, cal viva, mas contenta-se com o modo como a rega o céu e a aquece o sol.

Aberração

34. Foi, portanto, uma autêntica carnificina para os jovens: 1. retê-los todos os dias, durante seis, sete e até oito horas, em lições públicas e exercícios, e ainda, durante algum tempo, em lições particulares; 2. obrigá-los a ouvir exposições didáticas, a compor exercícios e a atulhar a memória com uma multidão de coisas, até à náusea, ou mesmo até ao delírio, como muitas vezes nós próprios vimos. Na verdade, se alguém pretende encher um pequeno frasco de gargalo estreito (a inteligência das crianças pode ser-lhe comparada)[10] à força, em vez de o encher gota a gota, que adianta? Sem dúvida que a maior parte da água salta fora, e no frasco entra menos do que entraria se ela fosse introduzida pouco a pouco. Age, portanto, idiotamente aquele que pretende ensinar aos alunos, não quanto eles podem entender, mas quanto ele próprio deseja, pois as forças querem ser ajudadas e não oprimidas, e o formador da juventude, da mesma maneira que o médico, é apenas o ministro da natureza, e não o seu senhor.

Correção.

35. Tornará, portanto, os estudos mais fáceis e mais atraentes aos estudantes aquele que:

I. os envia às lições públicas durante o menor número possível de horas, ou seja, durante quatro horas, reservando outro tanto de tempo para o estudo privado.

II. lhes sobrecarrega o menos possível a memória, ou seja, apenas obriga a aprender de cor as coisas fundamentais, deixando correr livremente as outras coisas.

III. e, todavia, lhes ensina todas as coisas de modo proporcionado à sua capacidade, a qual, com o progredir da idade e dos estudos, crescerá por si mesma.

FUNDAMENTO VII

Fundamento VII: Nada contra a vontade.

36. A natureza não empurra nada, mas apenas dá o seu impulso aos seres que atingiram o seu pleno desenvolvimento e aspiram a fazer a sua irrupção.

A natureza, com efeito, não constrange a avezinha a abandonar o ovo, a não ser quando tem já os membros bem conformados e robustecidos; nem a obriga a voar, a não ser quando está já coberta de penas; nem a expulsa do ninho, a não ser quando vê que já sabe voar, etc.

Também a árvore não lança os seus rebentos, senão quando a seiva, subindo pelas raízes, os impele para fora; nem faz desabrochar os botões, a não ser depois que as folhas, formadas juntamente com as flores, a partir da seiva interna, aspiram a abrir-se; nem deixa cair a flor, a não ser quando o fruto está já coberto com a pele; nem deixa cair o fruto, a não ser depois de o haver feito amadurecer.

Aberração.

37. Faz-se, portanto, violência às inteligências: 1. todas as vezes que se constrangem a fazer coisas superiores à sua idade e à sua capacidade; 2. todas as vezes que se obrigam a aprender de cor ou a fazer coisas que primeiro não foram explicadas, esclarecidas e ensinadas muito bem.

Correção.

38. Daqui para o futuro, portanto:

I. A nada se obrigue a juventude, a não ser àquilo que a idade e a inteligência, não só admitem, mas até desejam.

II. Nada se obrigue a aprender de cor, a não ser aquilo que a inteligência compreendeu perfeitamente. E não se obrigue uma criança a recitar de cor uma lição, sem se ter a certeza de que ela a compreendeu.

III. Nada se mande fazer, a não ser depois de haver mostrado a sua forma e indicado a regra que deve seguir-se para a executar.

FUNDAMENTO VIII

Fundamento VIII: Tudo de modo evidente, diante dos sentidos.

39. A natureza ajuda-se a si mesma de todas as maneiras que pode.

Por exemplo: ao ovo não falta o seu calor vital, mas, apesar disso, o pai da natureza, Deus, providencia que ele seja ajudado tanto pelo calor do Sol, como pelas penas da ave que o choca. Mesmo depois de a avezinha sair do ovo, e até que disso tenha necessidade, a mãe conserva-a aquecida, forma-a e fortalece-a, de vários modos, para as funções da vida. E, a este propósito, podemos ver de que modo as cegonhas vão em ajuda das suas cegonhinhas, deixando que elas lhes subam para cima e transportando-as de regresso ao ninho, ainda que tenham de agitar as asas. Também as amas ajudam, de várias maneiras, a fraqueza dos bebês: ensinam-lhes primeiro a levantar a cabeça, depois a estar sentados, depois a estar de pé, e, a seguir, a mover os pés e a dar passos, e depois a manter-se firmes nos pés e a andar devagarinho, e finalmente a caminhar expeditamente: de onde se segue, depois, a agilidade na corrida. Quando, depois, os ensinam a falar, não só pronunciam as palavras, mas, com as mãos, mostram-lhes o que significam essas palavras, etc.

Aberração.

40. É, por isso, cruel o professor que, tendo marcado aos alunos um trabalho, os não esclarece bem no que ele consiste, nem mostra como ele deve ser feito, e, muito menos, os ajuda enquanto tentam fazê-lo, mas os obriga a estar ali a suar e a sofrer sozinhos, e se fazem qualquer coisa menos bem, torna-se furioso. Mas que é isto senão a verdadeira tortura da juventude? Seria o mesmo que se uma ama obrigasse um bebê, que ainda vacila, a manter-se de pé, a caminhar expeditamente, e se o não fizesse, o obrigasse a andar à força de bastonadas. A natureza ensina-nos outra coisa, a saber, que se deve tolerar a fraqueza, enquanto não vem a força.

Correção.

41. Daqui para o futuro, portanto:

I. Por causa da instrução, não se inflija nenhum açoite. (Efetivamente, se não se aprende, de quem é a culpa senão do professor, que não sabe ou não se preocupa em tornar o aluno dócil?)

II. Tudo aquilo que deve ser aprendido pelos alunos, deve ser-lhes apresentado e explicado tão claramente, que o tenham presente como os cinco dedos das próprias mãos.

III. A fim de que todas essas coisas se imprimam mais facilmente, utilize-se, o mais que se puder, os sentidos.

42. Por exemplo: associe-se sempre o ouvido à vista, a língua à mão; ou seja, não apenas se narre aquilo que se quer fazer aprender, para que chegue aos ouvidos, mas represente-se também graficamente, para que se imprima na imaginação por intermédio dos olhos. Os estudantes, por sua vez, devem aprender, ao mesmo tempo, a expor as idéias com a língua e a exprimi-las por meio de gestos, de modo que se não dê por terminado o estudo de nenhuma matéria, senão depois de ela estar suficientemente impressa nos ouvidos, nos olhos, na inteligência e na memória. Com este objetivo, será bom que todas as coisas, que costumam ser estudadas em determinada classe, sejam representadas graficamente nas paredes da sala de aula[11]: quer se trate de teoremas e de regras, quer se trate de imagens e de baixo-relevos da disciplina que se está a estudar. Com efeito, se isto se fizer, é enorme a ajuda que pode dar, para produzir as mencionadas impressões. Tem relação com isto o fato de habituar os alunos a transcrever, nos seus cadernos diários, tudo o que ouvem e também o que lêem nos livros, porque assim, não só se ajuda a imaginação, mas também mais facilmente se exercita a memória.

FUNDAMENTO IX

Fundamento IX: Tudo conforme a sua utilidade.

43. A natureZa não produz senão aquilo que se revela imediatamente útil.

Por exemplo: quando forma uma avezinha, vê-se imediatamente que lhe dá as asas para voar, as patas para correr, etc. Também tudo o que nasce numa árvore tem utilidade, mesmo a casca e a pelugem dos frutos, etc. Portanto:

Imitação.

44. Aumentar-se-á ao estudante a facilidade da aprendizagem, se se lhe mostrar a utilidade que, na vida quotidiana, terá tudo o que se lhe ensina. E isso deve verificar-se em todas as matérias: na gramática, na dialética, na aritmética, na geometria, na física, etc. Sem este cuidado prévio, acontecerá que tudo o que lhe contarem lhe parecerá um monstro de um mundo desconhecido; e a criança, ainda não muito interessada em saber que essas coisas existem na natureza e como existem, poderá acreditar nelas, mas a sua crença não constituirá ciência. Mas, se se lhe mostrar qual é o objetivo de cada coisa, é como meter-lha na mão, para que saiba que sabe e se habitue a utilizá-la.

Portanto:

45. Não se ensine senão aquilo que se apresenta como imediatamente útil.

FUNDAMENTO X

Fundamento X: Todas as coisas uniformemente.

46. A natureza faz todas as coisas uniformemente.

Por exemplo: do mesmo modo que se processa a geração de uma ave, assim se processa a geração de todas as aves, e até a de todos os animais, mudadas apenas algumas circunstâncias. Assim se verifica também nas plantas: do mesmo modo que uma erva nasce da sua semente e cresce; do mesmo modo que uma árvore se planta, germina e floresce, assim acontece com todas, por toda a parte e sempre. E assim como é, numa árvore, uma folha, assim são todas as outras; e assim como são este ano, assim serão no ano seguinte e sempre.

Aberração.

47. Confunde, portanto, a juventude e torna os estudos excessivamente intrincados, a variedade do método, ou seja, o fato de, não só diversos autores ensinarem as artes de modo diverso, mas até de um e o mesmo ensinar de modo diverso. Por exemplo: um método para a gramática, outro para a dialética, etc., quando poderiam ensinar-se uniformemente, e em conformidade com a relação e o nexo comum que as coisas e as palavras têm entre si.

Correção.

48. Por esta razão, procurar-se-á, daqui paxa o futuro, que:

I. Se ensinem, com um só e mesmo método, todas as ciências; com um só e o mesmo método, todas as artes; com um só e mesmo método, todas as línguas.

II. Na mesma escola, seja a mesma a ordem e os processos de todos os exercícios.

III. As edições dos livros da mesma disciplina sejam, tanto quanto possível, as mesmas.

Assim tudo progredirá facilmente, sem embaraços.


Capítulo XVIII

FUNDAMENTOS
PARA ENSINAR E APRENDER
SOLIDAMENTE

Geralmente a instrução é superficial.

1. As lamentações de muitos e os próprios fatos atestam que são poucos os que trazem da escola uma instrução sólida, e numerosos os que de lá saiem apenas com um verniz ou uma sombra de instrução.

Dupla causa.

2. Se procurarmos as causas disso, encontramos duas: ou porque as escolas, descurando as coisas mais importantes, se ocupam de banalidades e de frivolidades; ou então porque os alunos, tendo passado a correr por cima de muitas matérias, mas não se tendo detido demoradamente em nenhuma delas, voltaram a desaprender aquilo que haviam aprendido. E este segundo defeito é tão comum, que poucos são aqueles que dele se não lamentam. Efetivamente, se a memória estivesse sempre pronta a pôr à nossa disposição tudo o que, alguma vez, lemos, ouvimos e compreendemos, como seríamos considerados pessoas instruídas! Em todas as ocasiões em que fôssemos postos à prova, nada nos escaparia! Mas, porque é o contrário que se verifica, sem dúvida que andamos a transportar água com um crivo...

O remédio para estes dois males deve pedir-se ao método natural.

3. Mas haverá remédio para este mal? Sem dúvida, se, introduzidos de novo na escola da natureza, investigarmos por que vias ela produz criaturas de longa duração. Será possível encontrar o modo pelo qual alguém pode saber, não só aquelas coisas que aprende, mas ainda mais do que as que aprende, isto é, não somente aquelas coisas que aprende dos professores e dos vários autores, correspondendo bem ao seu ensino, mas também as que ele próprio aprende, refletindo sobre os fundamentos das coisas.

Das condições.

4. Conseguir-se-á isso,

I. Se não se estudar senão assuntos que virão a ser de sólida utilidade.

II. E se todos esses assuntos forem estudados sem os separar.

III. E se todos eles repousarem em fundamentos sólidos.

IV. E se esses fundamentos mergulharem bem fundo.

V. E se, depois, todas as coisas não se apoiarem senão sobre esses fundamentos.

VI. Se todas as coisas que devem ser distinguidas forem minuciosamente distinguidas.

VII. Se todas as coisas que vêm a seguir se baseiam nas que estão antes.

VIII. Se todas as coisas que têm entre si uma relação estreita, se mantêm constantemente relacionadas.

IX. Se todas as coisas forem ordenadas em proporção da inteligência, da memória e da língua.

X. Se todas as coisas forem consolidadas com exercícios contínuos.

Examinemos cuidadosamente cada uma destas dez condições.

FUNDAMENTO I

Fundamento I: Não deve abordar-se nada do que nos não diz respeito.

5. A natureza não começa nada que seja inútil.

Por exemplo: quando começa a formar a avezinha, não lhe faz escamas, nem barbatanas, nem guelras, nem cornos, nem quatro patas, nem qualquer outra coisa que ela não utilizará, mas faz-lhe a cabeça, o coração, as asas, etc. Do mesmo modo, à árvore, a natureza não faz orelhas, olhos, penas, pelos, etc., mas faz-lhe a casca, o livrilho, o cerne, as raízes, etc.

Imitação em coisas mecânicas.

6. De igual modo, quem deseja um campo, uma vinha ou um pomar frutíferos, não cultiva lá zizânia, urtigas, espinheiros e silvas, mas sementes e plantas da melhor espécie.

7. Também o arquiteto, que tem intenção de levantar construções sólidas, não adquire colmo ou palha, ou lama, ou madeira de salgueiro, mas pedras, tijolos, madeira de carvalho e de plantas semelhantes, de fibra forte e compacta.

Também nas escolas.

8. Nas escolas, portanto,

I. Não se trate senão daquelas coisas que são solidamente úteis para a vida presente e para a vida futura; mais ainda para a vida futura. (Nesta terra, com efeito, devem aprender-se, segundo o aviso de S. Jerônimo, precisamente aquelas coisas cujo conhecimento continuará no céu[1]).

II. Se, na realidade, é preciso (como, efetivamente, é) infundir na mente dos jovens algumas coisas também por causa da vida presente, essas coisas devem ser de natureza a não impedirem a consecussão dos bens eternos e a produzirem um fruto sólido para a vida presente.

Deve tratar-se apenas de coisas sólidas.

9. Com efeito, para que servem as ninharias? Que interessa aprender coisas que nem trazem vantagem sólidas, a quem as sabe, nem desvantagem a quem as ignora e que, com o andar da idade, acabarão por desaparecer ou por se esquecer no meio das ocupações de todos os dias? A nossa breve vida comporta necessidades suficientes para a encher completamente, mesmo que não gastemos um momento sequer com essas futilidades. As escolas têm, portanto, a obrigação de não ocupar a juventude senão em coisas sérias. (De que modo se devam tornar sérias as coisas jocosas, vê-lo-emos mais adiante)[2].

FUNDAMENTO II

Fundamento II: Não deve deixar de fazer-se nada que tenha interesse.

10. A natureza não omite nada de quanto se apercebe que pode ser útil para o corpo que forma.

Por exemplo: enquanto forma a avezinha, não se esquece de fazer-lhe nem a cabeça, nem as asas, nem as patas, nem as unhas e a pele, nem, em suma, nenhuma daquelas coisas que dizem respeito à essência da ave (no seu gênero).

Imitação nas escolas.

11. Da mesma maneira, portanto, as escolas, enquanto formam o homem, devem formá-lo todo, de modo a tornarem-no igualmente apto para os negócios desta vida e para a eternidade, para a qual tendem todas as coisas que se fazem neste mundo.

12. Ensine-se, portanto, nas escolas, não apenas as ciências e as artes, mas também a moral e a piedade. A ciência e a arte, com efeito, adestram a inteligência, a língua e as mãos do homem a contemplar, a falar e a fazer racionalmente todas as coisas úteis. Se se deixa de aprender alguma dessas coisas, haverá um hiato, que não só tornará a instrução defeituosa, mas abalará até a sua solidez, pois nenhuma coisa pode ser sólida se não tem todas as partes bem ligadas.

FUNDAMENTO III

Fundamento III: As coisas sólidas devem basear-se solidamente.

13. A natureza não faz nada sem fundamento, ou seja, sem raízes.

É sabido que a planta, antes de lançar pela terra abaixo as raízes, não lança rebentos para cima, ou, se o tenta, necessariamente seca e morre. Por isso, o jardineiro prudente não a planta antes de ter verificado que as raízes são de boa qualidade. Na ave e em todos os outros animais, as vísceras (membros vitais) fazem as vezes das raízes, e, por isso, são sempre as primeiras a formar-se, como fundamento de todo o corpo.

Imitação.

14. Também o arquiteto não constrói a parte visível do edifício, senão após haver lançado sólidos fundamentos, pois, de outro modo, tudo cairia em ruínas. De igual modo, o pintor assenta as suas tintas sobre um fundo, pois, sem ele, facilmente as cores se despegam, se deterioram e desbotam.

Aberração

15. Não fazem repousar a instrução sobre semelhante fundamento os professores que: 1. se não esforçam, antes de tudo, por tornar os alunos dóceis e atentos; 2. não dão, logo no início, aos alunos, a idéia geral de toda a matéria que eles vão estudar, a fim de que eles entendam, de modo bem distinto, o que têm a fazer. De resto, se a criança começa a aprender sem gosto, sem atenção e sem compreender, que resultado sólido pode esperar-se?

Correção.

16. Daqui para o futuro, portanto:

I. Ao começar-se seja que estudo for, desperte-se um amor sério por ele nos alunos, por meio de argumentos tirados da excelência, da utilidade, do encanto e de qualquer outro aspecto da matéria a estudar.

II. Imprima-se sempre no espírito do estudante a idéia geral de uma língua ou de uma arte (a qual não é senão o seu resumo, delineado de modo generalíssimo, mas contendo todas as suas partes), antes de se passar a tratar dela de uma maneira particular, para que, do campo que deve percorrer, o aluno veja, logo desde os primeiros passos, toda a extensão e todos os limites e até a disposição das partes internas. Efetivamente, do mesmo modo que o esqueleto é a base de todo o corpo humano, assim também o plano de uma arte é a base e o fundamento de toda essa arte.

FUNDAMENTO IV

Fundamento IV: Que os fundamentos sejam profundos.

17. A natureza lança as raízes bem para o fundo.

Assim, nos animais, esconde os membros vitais na parte mais interna do corpo. E a árvore quanto mais para o fundo lança as suas raízes, tanto mais segura está; aquela que as lança apenas à flor da terra, arranca-se facilmente.

Correção da aberração.

18. Daqui resulta evidente que não só se deve excitar seriamente a docilidade no aluno, mas também se deve imprimir profundamente nas inteligências a idéia geral da matéria a estudar. E que ninguém seja admitido ao estudo aprofundado de uma arte ou de uma língua, antes de essa idéia geral estar plenamente compreendida e bem enraizada.

FUNDAMENTO V

Fundamento V: Tudo a partir das próprias raízes.

19. A natureza produz tudo a partir da raiz, e nada a partir de outro elemento.

Efetivamente, na árvore, tudo o que virá a ser a madeira, a casca, as folhas, as flores e os frutos, não provém senão da raiz. De fato embora as chuvas caiam sobre a planta e o jardineiro a regue, todavia, é necessário que todas as coisas sejam destiladas através das raízes, e depois circulem pelo tronco, pelos ramos, pelas folhas e pelos frutos. Por isso, embora o jardineiro vá buscar o garfo a outro lugar, deve, todavia, enxertá-lo no tronco, para que ele, incorporando-se na sua substância, possa sugar a seiva das suas raízes. Deste modo, à árvore tudo vem a partir das raízes, não sendo necessário ir a qualquer outra parte buscar os ramos e as folhas e aplicar-lhos. Da mesma maneira, quando uma ave deve revestir-se de penas, estas não vão buscar-se àquelas de que uma outra ave se despojou, mas despontam das partes íntimas do seu próprio corpo.

Imitação em coisas mecânicas.

20. Também o arquiteto sensato constrói todas as partes do edifício de modo que, assentes sobre os seus próprios alicerces, se sustentem por si mesmas, sem necessidade de apoios externos. Efetivamente, se um edifício precisa desses apoios, é porque é defeituoso e ameaça ruína.

21. De igual modo, quem prepara uma piscina ou um poço de água, não transporta as águas de qualquer outro local, nem espera as águas das chuvas, mas abre as veias de uma nascente viva, e, por meio de canais e de tubos subterrâneos, encaminha-a para o seu reservatório.

Também na escola.

22. Desta regra fundamental, segue-se que instruir bem a juventude não consiste em rechear os espíritos com um amontoado de palavras, de frases, de sentenças e de opiniões tiradas de vários autores, mas em abrir-lhes a inteligência à compreensão das coisas, de modo que dela brotem arroios como de uma fonte de água viva, e como, dos «olhos» das árvores, brotam os rebentos, as folhas, as flores e os frutos, e, no ano seguinte, de cada «olho», nasce de novo um outro ramo com as suas folhas, as suas flores e os seus frutos.

Enorme aberração das escolas.

23. Até aqui, as escolas não se têm proposto realmente como objetivo habituar os espíritos a irem buscar o vigor às próprias raízes, como fazem as árvores, mas têm-lhes ensinado apenas a munirem-se de pequenos ramos arrancados de outro lugar, e, assim, a enfeitarem-se com as penas dos outros, como o corvo de Esopo[3]; e têm-se esforçado, não tanto por cavar a fonte da inteligência neles escondida, como por irrigá-la com águas alheias. Isto é, não lhes têm mostrado as próprias coisas, como é que elas são por si e em si, mas que é que, acerca disto ou daquilo, pensou ou escreveu este ou aquele, um terceiro ou até um décimo autor; a tal ponto que chegou a pensar-se que a máxima erudição consistia em saber de cor opiniões discrepantes de muitos autores acerca de muitas coisas. Daí que muitos não se ocuparam senão em respigar, de vários autores, frases, sentenças, e opiniões, construindo uma ciência que não passava de uma manta de retalhos. A estes, repreende-os asperamente Horácio: «Imitadores, rebanho de escravos!»[4]. De fato, rebanho de escravos, habituados apenas a transportar a carga dos outros.

Verniz da instrução superficial.

24. Mas, por amor de Deus, que interessa distrair-se com as opiniões emitidas por vários autores acerca das coisas, quando o que se procura saber é como são verdadeiramente as coisas em si mesmas? Será que tudo o que fazemos na vida não consiste senão em andar atrás dos outros, que correm de cá para lá, e em observar onde alguém se desvia, tropeça ou perde o norte? Ó vós todos, deixai os caminhos tortuosos, e àvante para a meta! Se temos uma meta fixa e bem determinada, porque não havemos de esforçar-nos por atingi-la pelo caminho direto? Porque é que havemos de servir-nos mais dos olhos dos outros que dos nossos?

A causa disto é o método defeituoso.

25. Que as escolas cometem o erro de ensinar a olhar com os olhos dos outros e a saborear com o coração dos outros, mostra-o o método de todas as artes, o qual não ensina a abrir as fontes e a derivar delas vários arroios, mas apenas mostra os arroios derivados dos autores, querendo que, através deles, atinjamos as fontes. Com efeito, nenhum dicionário (a mim parece assim, se se excetuar o polaco de Knapski[5], mas, quanto a dicionários, mostrarei o que penso, no capítulo XXII) ensina a falar, mas a compreender; quase nenhuma gramática ensina a compor um discurso, mas a analisá-lo, e nenhuma estilística mostra a maneira de compor elegantemente frases ou de as variar, apenas apresentando um montão confuso de frases.

Quase ninguém ensina a física por meio de demonstraçõse gráficas e de experiências, mas todos a ensinam lendo o texto de Aristóteles ou de outro autor. Ninguém procura formar os costumes por meio de uma reforma interna das inclinações, mas todos esboçam superficialmente uma reforma moral, por meio de definições e de divisões externas das virtudes. Isto aparecerá mais claro quando, com a ajuda de Deus, falarmos do método especial de ensinar as artes e as línguas[6], e mais claro ainda, se Deus o permitir, no Plano da Pansofia[7].

Os artesãos e os operários tratam melhor as suas coisas.

26. É realmente de admirar que, neste assunto, os antigos não tenham visto melhor que nós, ou, ao menos, que este erro não tenha já sido corrigido pelos modernos; é, sem dúvida, aí que reside a verdadeira causa da extrema lentidão dos nossos progressos. Que digo? Porventura o carpinteiro mostra ao seu aprendiz a arte de fabricar casas, destruindo-as? Pelo contrário, é construindo que lhe mostra quais os materiais que se devem escolher e como cada um deles, por sua vez, deve ser medido, desbastado, polido, levantado, colocado, encaixado, etc.

Efetivamente, quem é mestre na arte de construir, de modo algum considera como uma arte a demolição, de mesmo modo que, quem sabe coser bem um vestido, não considera uma arte o descosê-lo. Demolindo casas, nunca ninguém aprendeu a ser construtor, e desfazendo vestidos, nunca ninguém chegou a alfaiate.

A incúria dos homens de estudo acerca das suas próprias coisas é duplamente nociva.

27. Sem dúvida, os inconvenientes, e até os danos, de não reformar este método, são manifestos: 1. porque a instrução de muitos, se não mesmo da maioria, se reduz a uma mera nomenclatura; isto é, sabem, de fato, recitar os termos e as regras das artes, mas não sabem fazer bom uso delas; 2. porque a lnstrução, a bem dizer de todos, não é uma ciência universal que se mantenha, se reforce e se difunda por si mesma, mas é uma espécie de manta de ratalhados, com um pedaço tirado daqui e outro de além, sem qualquer conexão e incapaz de produzir qualquer espécie de fruto sólido. Efetivamente, essa ciência, constituída por uma colecção de várias sentenças e opiniões de diversos autores, assemelha-se muito à árvore que é costume levantar em certas festas de aldeia, a qual, embora se apresente adornada com ramos, flores e frutos, e até com grinaldas e coroas, a ela ligadas de vários modos, todavia, uma vez que estas coisas não crescem de uma raiz própria, mas são amarradas externamente, não podem nem multiplicar-se nem durar muito tempo. Com efeito, semelhante árvore não produz nenhuns frutos, e os ramos, que dela pendem, murcham e caem. Mas a pessoa instruída a partir dos fundamentos é como uma árvore que tem raízes próprias e se alimenta de seiva própria, e, por isso, está sempre vigorosa (mais ainda, torna-se, de dia para dia, cada vez mais robusta) e verdejante e apta para produzir flores e frutos.

Correção.

28. A conclusão de tudo isto é esta: tanto quanto possível, os homens devem ser ensinados, não a ir buscar a ciência aos livros, mas ao céu, à terra, aos carvalhos e às faias; isto é, a conhecer e a perscrutar as próprias coisas, e não apenas as observações e os testemunhos alheios acerca das coisas. E isto equivale a dizer que é preciso caminhar de novo pelas pegadas dos mais antigos sábios, se se quer alcançar o conhecimento, não de outras fontes, mas do próprio arquétipo das coisas. Seja, portanto, lei:

I. Derivar tudo dos princípios imutáveis das coisas.

II. Nada ensinar apenas com argumentos de autoridade, mas ensinar tudo por meio de demonstração, sensível e racional.

III. Nada ensinar com o método analítico somente, mas de preferência tudo com o método sintético.

FUNDAMENTO VI

Fundamento VI: Todas as coisas distintamente.

29. Quanto mais numerosos são os usos para que a natureza prepara determinada coisa, tanto mais minuciosamente a distingue.

Por exemplo: quanto mais distintamente um animal tem os membros divididos em articulações, tanto mais é capaz de um movimento mais distinto: como o cavalo mais que o boi, o lagarto mais que o caracol, etc. Também uma árvore, que tenha estendido bem os braços dos ramos e das raízes, é mais resistente e mais bela.

Deve imitar-se.

30. Portanto, na instrução da juventude, importa fazer tudo o mais distintamente possível, de modo que, não só quem ensina, mas também quem aprende, entenda, sem nenhuma confusão, onde está e o que faz. Importa, por isso, que todos os livros utilizados nas escolas sejam elaborados segundo este luminoso exemplo da natureza.

FUNDAMENTO VII

Fundamento VII: Tudo em contínuo progresso.

31. A natureza está em contínuo progresso; nunca pára, nunca abandona as coisas velhas para fazer coisas novas, mas apenas continua, aumenta e aperfeiçoa as coisas que antes começara.

Por exemplo: na formação do feto, a substância que começou a tornar-se cabeça, pés, coração, etc., permanece isso mesmo e apenas se aperfeiçoa. Uma árvore nascida de semente não deita fora os primeiros ramos com que nasceu, mas continua solicitamente a fornecer-lhe seiva vital, para que possam, todos os anos, lançar novos ramos.

Deve imitar-se.

32. Portanto, nas escolas:

I. Disponham-se todos os estudos de tal maneira que os seguintes se baseiem sempre nos precedentes, e os que se fazem primeiro sejam consolidados pelos que vêm a seguir.

II. Todas as coisas explicadas, depois de bem apreendidas pela inteligência, fixem-se também na memória.

A memória deve ser aumentada e reforçada na primeira idade.

33. Porque, neste método natural, tudo o que precede deve servir de fundamento a tudo o que se segue, não pode proceder-se de outro modo senão assentando todas as coisas em bases sólidas. Ora não se introduzem solidamente no espírito senão as coisas que forem bem entendidas e cuidadosamente confiadas à memória. Quintitiano escreveu acertadamente: «Todo o progresso escolar depende da memória e é inútil ir à lição, se cada uma das coisas que ouvimos (ou lemos) desaparece»[8]. E Luis de Vives: «Durante a primeira idade, exercite-se a memória, pois ela desenvolve-se, cultivando-a; confie-se-lhe muitas coisas, com cuidado e freqüentemente. Com efeito, aquela idade não sente a fadiga, porque nem sequer pensa nela. Assim, sem fadiga e sem tédio, a memória alarga-se e torna-se capacíssima». (Das Disciplinas, Livro III)[9]. E, na Introdução à Sabedoria, escreve: «Nunca deixes a memória sem fazer nada. Nada lhe é mais agradável e nada a desenvolve mais que o trabalho. Confia-lhe, todos os dias, qualquer coisa: quanto mais coisas lhe confiares, tanto mais fielmente as guardará; quanto menos coisas lhe confiares, tanto menos fielmente as guardará»[10]. Que estes escritores dizem uma grande verdade, provam-no os exemplos da natureza. Com efeito, uma árvore, quanto mais humidade absorve, tanto mais robustamente cresce; e quanto mais robustamente cresce, tanto mais absorve. Também um animal, quanto mais digere, tanto mais cresce; e quanto mais cresce, tanto mais alimento deseja e digere.

E da mesma maneira todas as coisas tomam naturalmente incremento em razão das suas próprias aquisições. Não deve, portanto, sob este aspecto, poupar-se a primeira idade (desde que se proceda racionalmente); isso constituirá o fundamento de um solidíssimo progresso.

FUNDAMENTO VIII

Fundamento VIII: Todas as coisas com nexos contínuos.

34. A natureza liga todas as coisas com nexos contínuos.

Por exemplo: quando forma uma avezinha, liga de todos os modos membro com membro, osso com osso, nervo com nervo, etc. Também numa árvore, da raiz brota o tronco, do tronco os ramos, dos ramos as ramagens, das ramagens os rebentões, dos rebentões os rebentos, dos rebentos as folhas, as flores e os frutos, e depois novos rebentões, etc., de tal maneira que, embora sejam milhões os ramos, as ramagens, as folhas e os frutos, não constituem senão uma só e a mesma árvore. Também num edifício, se se quer que ele dure, todas as suas partes, as maiores como as mínimas, as paredes com os alicerces, o forro e o teto com as paredes, devem não só combinar-se entre si, mas também encaixar-se de tal maneira que se unam firmemente e constituam uma casa.

Deve imitar-se.

35. Daqui resulta que:

I. Os estudos da vida inteira devem ser dispostos de tal modo que constituam uma enciclopédia, na qual nada se encontre que não tenha nascido da raiz comum e que não esteja assente no seu devido lugar.

II. Todas as coisas que se ensinam devem de tal modo basear-se em razões sólidas que não deixem facilmente lugar nem à dúvida nem ao esquecimento.

Efetivamente, as razões são os pregos, as fivelas e os ganchos que fazem estar uma coisa seguramente ligada e não a deixam cambalear nem cair.

Que significa ensinar pelas causas?

36. Consolidar todas as coisas com razões, significa ensinar todas as coisas pelas suas causas, isto é, mostrar não só como é que alguma coisa é, mas também porque não pode ser de outra maneira. Com efeito, saber significa conhecer as coisas por meio das suas causas. Por exemplo: se se puser a questão de saber se é mais correto dizer Totus populus ou Cunctus populus, se o professor responder Cunctus populus, mas não der a razão, o aluno bem depressa se esquecerá. Mas se disser que cunctus é uma contração de conjunctus e que, portanto, totus se diz mais apropriadamente de uma coisa sólida, e cunctus, de algum coletivo, como no caso presente, não vejo como uma criança o possa esquecer, a não ser que seja muito estúpida.

De igual modo, disputam os gramáticos porque é que se diz Mea refert, Tua refert, Ejus refert, isto é, porque é que na primeira e na segunda pessoa se usa o ablativo (com efeito, assim pensam) e na terceira o genitivo? Se eu disser que acontece assim porque Refert é, neste lugar, uma contração de Res fert (pela elisão do s), e que, por isso, se deveria dizer Mea res fert, Tua res fert, Ejus res fert (ou, de modo contracto, Mea refert, Tua refert, Ejus refert) e que, assim, Mea e Tua não são ablativos mas nominativos, não trarei luz à mente do aluno?

Em conclusão, queremos que os alunos sejam ensinados a conhecer, de modo distinto e expedito, a origem de todas as palavras e a razão de todas as frases (ou construções) e os fundamentos de todas as regras nas artes e nas ciências (efetivamente, os teoremas das ciências devem apoiar-se, não em raciocínios e hipóteses, mas na demonstração primeira que é inerente às próprias coisas). Além de um dulcíssirno prazer, este exercício tem também uma notável utilidade, pois prepara o caminho para uma solidíssima instrução, uma vez que assim se abrem os olhos aos alunos, tornando-os desejosos de, por si, passarem do conhecimento de umas coisas para o de outras, e assim sucessivamente.

Conclusão.

37. Portanto, nas escolas, todas as coisas sejam ensinadas pelas suas causas.

FUNDAMENTO IX

Fundamento IX: Todas as coisas segundo uma proporção contínua, das coisas interiores para as exteriores.

38. A natureza conserva uma justa proporção entre as raízes e os ramos, relativamente à quantidade e à qualidade.

Com efeito, assim como, debaixo da terra, as raízes se desenvolvem mais robustamente ou mais debilmente, assim também, em pleno ar, os ramos se desenvolvem mais robustamente ou mais debilmente. E é necessário que seja assim, pois, se a árvore crescesse apenas para cima, não poderia manter-se de pé, uma vez que é mantida de pé pelas raízes. Se crescesse apenas para debaixo da terra, seria inútil, pois o fruto é produzido pelos ramos, e não pelas raízes. Também no animal, os membros exteriores crescem paralelamente com os interiores. Se os interiores estão bem, também os exteriores se sentem bem.

Deve imitar-se.

39. Assim também a instrução, embora, antes de tudo, deva ser concebida, incrementada e robustecida na raiz interior da inteligência, todavia, deve procurar-se que, ao mesmo tempo, lance para fora, de modo visível, os seus ramos e as suas folhas, isto é, é necessário que, ao mesmo tempo que se ensina a entender as coisas, se ensine também a dizê-las e a fazê-las, ou seja, a pó-las em prática; e vice-versa.

40. Portanto:

I. Logo que uma coisa seja entendida, pense-se imediatamente na utilidade que ela pode vir a ter, para que nada se aprenda em vão.

II. Logo que uma coisa seja entendida, difunda-se de novo, comunicando-a a outros, para que nada se saiba em vão.

Efetivamente, neste sentido, é verdadeira a seguinte máxima: O teu saber nada vale, se outro não sabe que tu sabes[11]. Por isso, não se abra nenhuma fontezinha de ciência, sem dela fazer derivar imediatamente pequenos riachos. Mas, acerca deste assunto, falaremos mais amplamente, no fundamento seguinte.

FUNDAMENTO X

Fundamento X: Todas as coisas com exercícios contínuos.

41. A natureza vivifica-se e robustece-se a si mesma com movimento constante.

Assim, uma ave, não só mantém quentes os ovos com o choco, mas também os vira, todos os dias, de um lado para o outro, para que se mantenham igualmente quentes de todas as partes. (É fácil observar este fato nas patas, nas galinhas e nas pombas que fazem nascer os seus filhos nas nossas casas). Depois, exercita e robustece a avezinha acabada de nascer, fazendo-a mover freqüentemente o bico e as patas, abrir, bater e levantar as asas, e fazer várias tentativas de caminhar e de voar. Também uma árvore, quanto mais freqüentemente é batida pelos ventos, tanto mais viçosa se eleva no ar e tanto mais fundo lança as raízes; pelo que, para todas as plantas, é um bem serem provadas pelos aguaceiros, pelo granizo, pelos trovões e pelos raios, dizendo-se até que as regiões batidas pelos ventos e pelos raios produzem madeira mais forte.

Imitação em coisas mecânicas.

42. Deste modo, também o arquiteto aprendeu a enxugar e a endurecer os seus trabalhos ao sol e ao vento. E o ferreiro, para que o ferro endureça e aguente depois o corte, mete-o muitas vezes no fogo e na água, e desta maneira o faz provar, ora o calor ora o frio, a fim de que, amolecendo muitas vezes, endureça ainda mais.

O modelo dos exercícios escolares deve ir buscar-se à natureza.

43. Dai resulta que a instrução não pode chegar a ser sólida, senão a força de repetições e de exercícios, feitos quanto mais vezes e quanto melhor possível. De resto, qual seja o melhor modo de fazer exercícios, ensinam-no-lo os movimentos naturais que, no corpo vivo, servem a faculdade nutritiva, ou seja, os movimentos de absorção, de digestão e de assimilação. Efetivamente, da mesma maneira que, no animal (e também na planta), qualquer membro deseja o alimento para o digerir, e o digere, tanto para se alimentar a si mesmo (deixando para si e assimilando uma parte do alimento digerido), como para o comunicar aos membros vizinhos, para a conservação do todo (com efeito, cada membro serve os outros, para que os outros o sirvam também), de igual modo multiplicará a doutrina quem sempre:

I. Procurar e tomar para si o alimento do espírito;

II. Tendo-o encontrado e absorvido, o ruminar e digerir;

III. Tendo-o digerido, o assimilar e o comunicar a outros.

44. Estas três coisas são expressas nos seguintes versos: «Três coisas oferecem ao aluno a oportunidade de superar o professor: perguntar muitas coisas, reter o que perguntou e ensinar o que reteve».

Pergunta-se, consultando o professor, ou um condiscípulo, ou um livro acerca das coisas que se ignoram; retém-se, confiando à memória as coisas conhecidas e entendidas, e, para que a certeza seja maior, tomando apontamentos (pois são poucos aqueles de engenho tão feliz, que possam confiar tudo à memória); ensina-se, contando, por sua vez, aos condiscípulos, e a quaisquer pessoas que se encontrem, todas as coisas aprendidas.

Os dois primeiros exercícios são bem conhecidos nas escolas; o terceiro ainda o não é suficientemente, mas seria muito bom introduzi-lo. Com efeito, é absolutamente verdadeira esta máxima: «quem ensina os outros, instrui-se a si mesmo», não só porque, repetindo os próprios conhecimentos, os reforça em si mesmo, mas ainda porque encontra uma boa ocasião para penetrar mais a fundo nas coisas. Por isso, Joaquim Fortius, homem eminente pelo saber, falando de si mesmo, afirma que «as coisas que, alguma vez, apenas ouviu ou leu, lhe fugiam da memória dentro de um mês ou até mais cedo; mas aquelas que ensinou aos outros, conheci-as tão bem como aos próprios dedos da mão e julgava que só a morte lhas poderia arrebatar». Por isso, dá o seguinte conselho: «o estudioso que deseja fazer grandes progressos, arranje alunos, aos quais ensine, todos os dias, aquilo que aprende, ainda que tenha de pagar-lhe a peso de ouro». E acrescenta: «Vale bem a pena que alguém renuncie a quaisquer vantagens materiais, desde que haja quem o queira ouvir como mestre, isto é, quem o queira fazer progredir»[12]. Assim falava este grande homem.

Como deve introduzir-se nas escolas.

45. Mas isto far-se-á mais comodamente e, sem dúvida, com utilidade para um maior número de pessoas, se o professor de cada classe instituir, entre os seus alunos, este maravilhoso gênero de exercício, do modo seguinte: em qualquer aula, depois de brevemente apresentada a matéria a aprender, e de explicado claramente o sentido das palavras, e de mostrada abertamente a aplicação da matéria, mande-se levantar qualquer dos alunos, o qual (como se fosse já professor dos outros) repita, pela mesma ordem, tudo o que foi dito pelo professor: explique as regras com as mesmas palavras; mostre a sua aplicação por meio dos mesmos exemplos. Se acaso errar, o professor deverá corrigi-lo. Depois, mande-se levantar outro para fazer o mesmo, enquanto todos os outros estão a ouvir; e depois, um terceiro e um quarto, e quantos for necessário, até que se veja claramente que todos compreenderam bem a lição e já são capazes de a repetir e de a ensinar. Não aconselho a que se observe, nesta caso, uma ordem rígida, mas aconselho que se chame primeiro os mais inteligentes, a fim de que os de inteligência mais lenta, animados pelo exemplo dos primeiros, possam mais facilmente segui-los.

Utilidade destes exercícios.

46. Esta espécie de exercícios terá notável utilidade:

I. O professor tornará os alunos sempre atentos às suas palavras. Com efeito, uma vez que, logo a seguir, qualquer deles deverá levantar-se e repetir toda a lição, e, por isso, cada um temerá tanto por si como pelos outros, de boa ou de má vontade terá os ouvidos atentos, para não deixar que nada lhe escape. Este treino da atenção, reforçado por um exercício de alguns anos, tornará o jovem desperto para todas as ocupações da vida.

II. O professor poderá verificar melhor se todas as regras expostas foram bem entendidas por todos; se assim não aconteceu, fará as devidas correções, com grande vantagem para si e para os alunos.

III. Dado que as mesmas coisas se repetem muitas vezes, mesmo os alunos de inteligência muito lenta acabarão por compreendê-las, de modo a poderem avançar para a frente ao lado dos outros, enquanto que os mais inteligentes, certos de haverem aprendido as coisas mais que claramente, experimentarão um doce prazer.

IV. Com esta repetição assim tantas vezes renovada, a lição tornar-se-á mais familiar a todos do que estudando afincadamente durante longas horas em casa; de tal maneira que, relendo-a depois à noite e de manhã, apenas por divertimento e por prazer, estarão seguros de haver fixado na memória todas as coisas.

V. Uma vez que, deste modo, o aluno é admitido a exercer como que o ofício do professor, despertará na sua mente um grande desejo e um grande ardor de aprender e adquirirá o dom de saber tratar, com palavra franca e coragem, de qualquer assunto perante o público, o que será de grande utilidade na vida.

Exercicio de ensinar os outros fora da escola.

47. Além disso, os alunos podem, mesmo fora da escola, sentados ou a passear, discutir entre si, quer acerca de coisas aprendidas há pouco ou há muito tempo, quer acerca de qualquer matéria nova que acaso se lhes apresente. Para semelhante exercício, se se juntam em número bastante elevado, devem escolher um (à sorte ou por votação) que faça as vezes de professor, dirigindo e moderando as discussões. Se algum, nomeado pelos condiscípulos, recusa, seja severamente castigado, pois queremos que seja inflexível a lei segundo a qual ninguém, não só não fuja às ocasiões de ensinar e aprender, mas até que todos as procurem.

Quanto aos exercícios escritos (que são também uma ajuda válida para progredir solidamente), daremos conselhos especiais, ao falarmos da escola de língua nacional e da escola clássica. nos capítulos XXIX e XXX.


Capítulo XIX

FUNDAMENTOS
PARA ENSINAR
COM VANTAJOSA RAPIDEZ

Previne-se uma objeção acerca da dificuldade.
Resposta: Importa procurar economizar tempo e fadiga

1. Mas, dirá alguém, estas coisas são trabalhosas e demasiado demoradas. Quantos professores, quantas bibliotecas e quantas fadigas seriam necessárias para uma instrução universal deste gênero? Resposta: sem dúvida, se se não procura economizar tempo e fadiga, a empresa tem uma extensão muito ampla e exige fadigas sem fim. Com efeito, a arte é tão longa, tão ampla e profunda. como o próprio mundo que se quer conquistar com o espírito. Mas quem não sabe que mesmo os trabalhos longos se podem encurtar, e que as coisas trabalhosas se podem transformar em vantajosas? Quem ignora que os tecelões tecem rapidamente milhares e milhares de fios, desenhando figuras de admirável variedade? Quem não sabe que os moleiros moem rapidamente milhares e milhares de grãos e que separam perfeitamente o farelo da farinha, sem nenhuma dificuldade? Quem não sabe que os mecânicos, com pequenas máquinas, e quase sem nenhuma fadiga, levantam e transportam grandes pesos? E que os pesadores, fazendo correr pelo fiel da balança ainda que seja uma só onça, pesam coisas com muitas libras de peso? É bem verdade que, muitas vezes, vale mais o jeito que a força. E então há-de ser precisamente apenas às pessoas que se dedicam ao estudo, que hão-de faltar os meios para executar engenhosamente os próprios trabalhos? Que o próprio sentimento de honra nos obrigue a uma ardorosa emulação, na procura dos remédios susceptíveis de suprimir as dificuldades que, até ao presente, têm atormentado as instituições escolares.

É necessário conhecer a doença antes do remédio.

2. Mas não poderemos encontrar os remédios, sem primeiro termos descoberto as doenças e as causas das doenças. Ou seja, sem primeiro termos descoberto qual foi a causa que, a tal ponto retardou os trabalhos escolares e o seu progresso que a maior parte dos estudantes, mesmo que tenham passado toda a vida nas escolas, não conseguiram ainda penetrar em todas as ciências e em todas as artes, e algumas nem sequer as saudaram do limiar da porta.

Oito causas dos atrasos escolares.

3. É sabido que são absolutamente verdadeiras as seguintes causas:

I

Primeira: não havia nenhumas metas fixas, até às quais deviam ser conduzidos os alunos em cada ano, em cada mês e em cada dia, mas tudo era incerto e duvidoso.

II

4. Segunda: não estavam traçadas nenhumas vias que conduzisssem infalivelmente às metas.

III

5. Terceira: as disciplinas, que por natureza são conexas, eram ensinadas sem atender às suas relações mútuas, mas mantendo-as separadas. Por exemplo: àqueles que principiavam a estudar os primeiros elementos das línguas, ensinava-se apenas a ler, deixando-se para alguns meses depois o ensino da escrita. Na escola de latim, obrigavam-se os adolescentes, durante alguns anos, a combater com palavras, sem haver a preocupação de lhes ensinar coisas, de tal modo que os anos da adolescência se gastavam todos nos estudos da gramática, deixando-se os estudos filosóficos para uma idade mais avançada. De igual maneira, obrigavam-se apenas a aprender, e nunca a ensinar. Embora todas essas coisas (ler e escrever, palavras e coisas, aprender e ensinar) devam ser feitas tão simultaneamente como, quando se anda, se levantam e se abaixam os pés, quando se conversa, se ouve e se responde, quando se joga a bola, se atira e se recebe, como vimos já atrás, nos seus devidos lugares.

IV

6. Quarta: Raras vezes, em qualquer lugar, as artes e as ciências eram apresentadas de modo suficientemente enciclopédico, mas por fragmentos. Daí resultava que, aos olhos dos alunos, eram como que um montão de paus ou de sarmentos, ninguém pensando sequer na razão por que estavam juntas. As conseqüências disso eram que um adquiria este conhecimento e outro aquele, mas ninguém conseguia uma instrução verdadeiramente universal e, por isso, fundamental.

V

7. Quinta: Utilizavam-se métodos múltiplos e vários: cada escola tinha o seu, cada professor tinha o seu, e até o mesmo professor usava um para ensinar uma arte ou língua e outro para ensinar outra arte ou língua; e, o que é pior, para ensinar uma e a mesma coisa, nem sempre usava o mesmo método, de modo que os alunos poucas vezes sabiam bem de que se tratava. Daqui as hesitações e os atrasos, e também que certas disciplinas fizessem nascer a náusea ou o desespero, antes mesmo de a elas se chegar, de modo que muitos nem sequer as queriam começar a estudar.

VI

8. Sexta: Faltava o processo de instruir ao mesmo tempo todos os alunos da mesma classe, fazendo-se um esforço inaudito para os instruir um por um. E, se acaso os alunos eram muitos, acontecia que os professores tinham um trabalho de burro de carga, e os alunos, ou tinham muitas ocasiões de ócio inútil, ou, se lhes davam algum trabalho a fazer, faziam-no com tédio e aborrecimento.

VII

9. Sétima: E, se eram vários os professores, que podia daí resultar senão uma nova confusão? Com efeito, quase em cada hora, eram propostas e realizadas tarefas diferentes. Para já não falar de que a multidão dos professores, assim como a multidão dos livros, distraem os espíritos.

VIII

10. Oitava: Finalmente, permitia-se aos alunos, sem que os mestres o levassem a mal, possuir, além dos livros de texto, outros livros, na escola e fora da escola; e julgava-se que, quanto mais autores folheassem, tantas mais ocasiões se lhes ofereciam de fazer progressos, quando não eram senão mais motivos de distração. Por isso, não é tanto para admirar que poucos conseguissem percorrer todas as disciplinas, quanto é para admirar que algum conseguisse desembaraçar-se daqueles labirintos, o que não acontecia senão às inteligências mais bem dotadas.

A regra para afastar estes atrasos deve ir buscar-se à natureza.

11. Para o futuro, portanto, deveremos afastar estes obstáculos e estes atrasos, e seguir apenas, sem rodeios, os caminhos que conduzem diretamente ao objetivo, ou então (segundo a regra comum) não empregar muitos meios, onde, com poucos, é possível conseguir o resultado.

Ou seja, o sol.

12. Aqui na terra, devemos procurar imitar o sol, que é o melhor modelo que nos oferece a natureza. Efetivamente, embora ele desempenhe uma função difícil e quase infinita (a missão de espalhar por toda a terra os seus raios e de ministrar luz, calor, vida e vigor a todos os corpos, simples e compostos, aos minerais, às plantas e aos animais, cujas espécies e indivíduos são infinitos), todavia, chega para todos e, todos os anos, realiza com exatidão o giro que tem por missão realizar.

Resumo das operações solares.

13. Vejamos, portanto, os modos como o sol realiza a sua função, tendo em mente os modos, ja passados em revista, com que as escolas desempenham a sua missão.

I. O sol não se ocupa de cada um dos objetos, por exemplo, de uma árvore ou de um animal, mas ilumina e aquece toda a terra.

II. Com os mesmos raios, ilumina todas as coisas; com a mesma condensação e dissolução das nuvens, rega todas as coisas; com o mesmo vento, ventila todas as coisas; com o mesmo calor e com o mesmo frio, incrementa todas as coisas, etc.

III. No mesmo tempo, produzindo para todas as regiões a primavera, o verão, o outono e o inverno, faz germinar, florir e frutificar as plantas, não obstante uma amadurecer os frutos mais cedo e outra mais tarde, ou seja, cada uma segundo a sua natureza própria.

IV. E mantém sempre a mesma ordem: a de hoje será a mesma de amanhã, a deste ano, a mesma do ano seguinte e, no mesmo gênero de coisas, conserva imutavelmente a mesma forma.

V. E faz nascer todas as coisas das suas sementes e não de outra origem.

VI. E produz juntamente todas as coisas que devem existir juntamente: o tronco juntamente com a casca e com o cerne, a flor juntamente com as folhas; o fruto juntamente com a casca, o pecíolo e o caroço.

VII. E faz crescer todas as coisas gradualmente, como convém a cada uma, para que umas preparem o caminho às outras e se acolham reciprocamente.

VIII. Enfim, não produz coisas inúteis, e se porventura alguma nasce, destroi-a e aniquila-a.

14. Agiremos à imitação do sol, se

I. Cada escola, ou ao menos cada classe, tiver um só professor.

II. Para cada matéria, houver um só autor.

III. Para todos aqueles que estão a assistir às lições, se dispender, em comum, o mesmo trabalho.

IV. Todas as disciplinas e todas as línguas forem ensinadas com o mesmo método.

V. Todas as coisas forem ensinadas, a partir dos seus fundamentos, de modo breve e eficaz, de tal maneira que a inteligência se possa abrir como que com uma chave, e as coisas se lhe possam manifestar espontaneamente.

VI. Todas as coisas que por natureza são conexas forem ensinadas em conexão umas com as outras.

VII. E se todas as coisas se ensinarem gradualmente, sem interrupções, de modo que todas as coisas aprendidas hoje sejam um reforço das aprendidas ontem e uma preparação para as que se aprenderão amanhã.

VIII. Enfim, se, em tudo, se puser de parte as coisas inúteis.

15. Se pudermos introduzir nas escolas estes princípios pedagógicos, é tão certo que o curso dos estudos se processará com mais facilidade e com mais rapidez, como é certo que vemos o sol realizar, todos os anos, o seu giro à volta do mundo inteiro. Entremos, portanto, no assunto, para que vejamos como é fácil pôr em prática estes nossos conselhos.

PROBLEMA 1

Como pode um só professor ser suficiente para qualquer número de alunos?

Porque é que em cada escola deve haver um só professor.
1.

16. Não só afirmo que é possível que um só professor ensine algumas centenas de alunos, mas sustento que deve ser assim, pois isso é muito vantajoso para o professor e para os alunos. Aquele desempenhará, sem dúvida, as suas funções com tanto maior prazer quanto mais numerosos forem os alunos que vir diante de si (com efeito, até os mineiros exultam, quando vêem que o minério é abundante), e quanto mais ardoroso ele for, tanto mais atentos tornará os alunos.

De modo igual, quanto mais numerosos forem os alunos, tanto maior prazer e utilidade sentirão (para todos os que trabalham constitui um grande conforto ter muitos companheiros de trabalho), uma vez que se estimularão e se ajudarão mutuamente, pois também esta idade sente os estímulos da emulação.

Além disso, quando o professor é ouvido por poucos, facilmente esta ou aquela coisa passa inadvertida aos ouvidos de todos; quando é ouvido por muitos, cada um fixa quanto pode e depois, com as repetições, volta-se ao princípio em cada coisa, contribuindo todas as coisas para a utilidade de todos, uma vez que a inteligência de um afia a inteligência de outro, a memória de um, a memória de outro. Numa palavra, assim como o padeiro, com uma só fornada de massa e aquecendo uma só vez o forno, coze muitos pães, e o forneiro, muitos tijolos, e o tipógrafo, com uma só composição, tira centenas e milhares de cópias de um livro, assim também o professor, com os mesmos exercícios, pode, ao mesmo tempo e de uma só vez, ministrar o ensino a uma multidão de alunos, sem qualquer incômodo. Do mesmo modo que vemos também que um só tronco é suficiente para sustentar e embeber de seiva uma árvore, por mais ramos que ela tenha, e o sol é suficiente para fecundar toda a terra.

Como é possível? Prova-se com exemplos da natureza.

17. Mas como pode fazer-se isso? Vejamos, pelos exemplos da natureza, há pouco referidos, qual o modo de proceder. O tronco não se estende até às extremidades de todas as ramagens, mas, conservando-se no seu lugar, comunica a seiva aos ramos principais, que lhe estão imediatamente ligados, e estes comunicam-na a outros e assim sucessivamente até às últimas e mais pequeninas partes da árvore. Também o sol não incide, em particular, sobre cada uma das árvores, das ervas e dos animais, mas, espalhando os seus raios, do cimo dos céus, ilumina ao mesmo tempo todo um hemisfério, apropriando-se cada uma das coisas criadas da sua luz e do seu calor, para utilidade própria. Deve, todavia, observar-se também que a ação do sol é ajudada pela situação do lugar, pois os raios concentrados nos vales aquecem mais a região vizinha.

Nas escolas deve imitar-se a natureza.

18. Portanto, se a organização escolar se conformar com estes exemplos naturais, com a mesma facilidade um só professor bastará para a educação de um grande número de alunos. Ou seja:

I. Dividindo os alunos em classes.

I. Se os alunos forem divididos em várias turmas, por exemplo de dez alunos cada uma; e se se colocar à frente de cada uma um aluno que vigie os outros, e à frente desses chefes de turma, outros alunos e assim sucessivamente até ao chefe supremo.

II. Não dando lições a nenhum em separado, mas a todos em conjunto.

II. Se nunca se instruir um aluno sozinho, nem privadamente fora da escola, nem publicamente na escola, mas todos ao mesmo tempo e de uma só vez. Por isso, o professor não deverá aproximar-se de nenhum aluno em particular, nem permitir que qualquer aluno, separando-se dos outros, se aproxime dele, mas, mantendo-se na cátedra (de onde pode ser visto e ouvido por todos), como o sol, espalhará os seus raios sobre todos; e todos, com os olhos, os ouvidos e os espíritos voltados para ele, receberão tudo o que ele exposer com palavras, ou mostrar com gestos ou gráficos. Deste modo, com um só vaso de cal poderão caiar-se, não duas paredes, mas muitíssimas[1].

III. Tornando todos atentos.

19. Será preciso apenas habilidade para tornar atentos todos e cada um dos alunos, de tal modo que, acreditando que a boca do professor é (como efetivamente é) a fonte de onde para eles correm os arroios do saber, todas as vezes que notam que esta fonte se abre, se habituem a colocar logo debaixo dela o vaso da atenção, para que nada passe sem entrar no vaso. Por isso, o professor terá o máximo cuidado em nada dizer, se os alunos não estão a ouvir, e em nada ensinar, se não estão atentos. Se em algum lugar tem cabimento, é precisamente aqui que o tem esta advertência de Sêneca: «Não deve ensinar-se nada a não ser a quem tem vontade de escutar»[2]. E talvez também aquela sentença de Salomão: «O homem inteligente faz-se desejar» (Provérbios, 17, 27), isto é, não lança as suas palavras ao vento, mas no espírito dos homens.

Como é isso possível? Com a ajuda dos monitores e com a ação do professor, seguindo oito vias.

20. Poderá despertar-se e manter-se viva a atenção, não só com a ajuda dos chefes de turma e de outros encarregados de qualquer vigilância (ou seja, de estar bem atentos aos outros), mas também e sobretudo pela ação do próprio professor, seguindo estas oito vias:

1. Se se esforçar por oferecer sempre aos alunos qualquer coisa de atraente e de interessante, pois assim os seus espíritos serão atraidos a ir à escola de boa vontade e dispostos a estar atentos.

2. Se, no princípio de cada lição, os espíritos dos alunos forem espevitados com a demonstração da importância da matéria a explicar, ou solicitados por meio de perguntas acerca de coisas já explicadas e que estejam em conexão com a matéria da lição desse dia, ou acerca de coisas ainda a explicar, a fim de que, apercebendo-se da sua ignorância acerca desse assunto, se lancem mais avidamente a adquirir conhecimento claro do tema.

3. Se o professor, mantendo-se num lugar elevado, lançar os olhos em redor e não permitir a nenhum aluno que faça outra coisa senão ter os olhos fixos nele.

4. Se ajudar a atenção dos alunos, apresentando todas as coisas, sempre que possível, aos sentidos, como mostrámos no capítulo XVII, fundamento VIII, regra III. Com efeito, isso facilita, não só a compreensão, mas também a atenção.

5. Se, a determinada altura da lição, interrompendo a exposição, disser: «Fulano ou Sicrano, que é que acabei de dizer? Repete o último período; Fulano, diz a que propósito estamos a falar disto», e coisas semelhantes, para proveito de toda a classe. E se verificar que algum não estava atento, repreenda-o ou castigue-o. Assim, todos farão todo o esforço possível por estar atentos.

6. De igual modo, se o professor interrogar um aluno, e este não responder, passe ao segundo, ao terceiro, ao décimo, ao trigésimo, e convide-o a responder, sem lhe repetir a pergunta. Faça-se isto sempre com o objetivo de que, quando se diz uma coisa a um, todos se esforcem por estar atentos, e por tirar daí qualquer utilidade.

7. Pode também proceder-se do seguinte modo: se um ou dois não sabem determinada coisa, pergunte-se a toda a classe; e então aquele que responder em primeiro lugar ou que responder melhor, seja louvado diante de todos, para que sirva de exemplo à emulação. Se algum se enganar, seja corrigido, fazendo-lhe ver também o motivo do engano (que a um professor sagaz não será difícil descobrir) e fazendo-o desaparecer. O progresso rapidíssimo que se faz desta maneira é algo de incrível.

8. Finalmente, terminada a lição, dê-se aos alunos a oportunidade de perguntarem ao professor tudo o que quiserem, quer acerca de alguma dificuldade surgida nessa lição, quer em lições anteriores. Não deve, todavia, permitir-se pedidos de explicação em particular. É necessário que cada um consulte o professor em público, quer por si, quer por meio do seu chefe de turma (se este não foi capaz de dar-lhe uma resposta satisfatória), de modo que tudo se torne útil a todos, tanto as perguntas, como as respostas. Se algum faz um maior número de perguntas úteis, deve ser louvado mais freqüentemente, para que aos outros não faltem exemplos e incitamentos para serem diligentes.

Quão grande é a utilidade da atenção assim exercitada.

21. Semelhante exercício quotidiano da atenção será útil aos adolescentes, não somente no presente, mas assim durante toda a vida. Habituados, com efeito, pela prática contínua de alguns anos, a fazer sempre aquilo que devem fazer, farão sempre tudo atentamente, sem esperar que os outros os advirtam ou estimulem. E se as escolas procederem assim, porque não há-de esperar-se que forneçam uma abundantíssima produção de homens de valor?

Objeção: será possível que assim se atenda a todos e a cada um dos alunos? Respondo que sim:
1. Com a ajuda dos chefes de turma.

22. Pode, porém, objetar-se que é necessário uma vigilância particular, por exemplo, para ver como cada um conserva os livros asseados, como escreve corretamente as lições, como aprende bem de cor, etc. Ora, se os alunos são muitos, este trabalho exige muito tempo. Resposta: Não é necessário que o professor ouça sempre todos os alunos, nem que examine sempre os livros e os cadernos de todos, pois, tendo como ajudantes os chefes de turma, estes estarão atentos a que os alunos, colocados sob a sua responsabilidade, procedam como devem.

2. Com a habilidosa vigilância do próprio professor.

23. Pessoalmente, o professor, como inspetor supremo, deverá apenas estar atento ora a este, ora àquele aluno, para verificar a sua fidelidade, de modo especial daquele de quem desconfia. Por exemplo: mandará dizer a lição, aprendida de cor, a um, dois ou três ou mais alunos, um após o outro, tanto dos últimos como dos primeiros, enquanto toda a classe está a ouvir. Assim, todos sentirão necessidade de estar sempre preparados para responder, pois cada um terá receio de ser interrogado. Ou então, quando o professor vê que determinado aluno começa a responder desembaraçadamente, se está persuadido de que ele responderá bem no resto, ordena a outro que continui. Se também este mostra segurança, mande que o terceiro período ou o terceiro parágrafo seja dito por outro.

Assim, examinando acerca de poucas coisas, certificar-se-á se todos estudaram a lição.

Modo de examinar as lições ditadas e escritas.

24. Procede do mesmo modo relativamente às lições escritas, após haverem sido ditadas, se acaso as houver. Manda ler o escrito a um ou a dois ou, se necessário, a vários, com voz clara e distinta, e notando também expressamente os sinais de pontuação; os outros, olhando cada um o seu caderno, corrigem. Poderá, todavia, o professor, de vez enquando, examinar ele próprio os cadernos de um ou dois alunos, ao acaso; e, se for encontrado algum negligente, seja castigado.

Modo de corrigir os exercícios de composição.

25. Para corrigir os exercícios de composição, parece que será necessário um pouco mais de trabalho, mas, ainda aqui, não faltaremos com o nosso conselho àqueles que seguirem o caminho que indicámos. Por exemplo, nos exercícios de tradução, proceda-se do seguinte modo: depois de todos, turma por turma, terem terminado a tradução, manda-se levantar um e desafiar o adversário que quiser. Logo que o adversário esteja de pé, o outro leia a sua tradução, um pedaço de cada vez, enquanto todos os outros escutam atentamente, e o professor (ou então o chefe de turma) está a vigiar, pelo menos para examinar a ortografia. Depois de ler um período, pára, mostrando o adversário os erros que acaso notou.

A seguir, permite-se a todos os alunos daquela turma e, finalmente, a todos os alunos da classe, que façam a crítica daquele período; depois, se necessário, o professor faça as suas observações. Entretanto, todos observam os seus próprios cadernos, e, se cometeram erros iguais, corrigem-nos, exceto o adversário que deve conservar intacta a sua tradução para a crítica que se seguirá. Depois de bem examinado e de bem corrigido este período, passe-se a outro, e assim sucessivamente até ao fim.

Então, o adversário lerá a sua tradução, seguindo o mesmo processo, mas estando atento aquele que o provocou, para que não leia uma tradução corrigida em vez da não corrigida. Far-se-á a critica de cada palavra, de cada frase e de cada conceito, seguindo o processo anteriormente usado. Depois, aplica-se o mesmo sistema com outro par de alunos, e com tantos outros pares quantos o tempo o permitir.

Missão dos chefes de turma nesta matéria.

26. Mas os chefes de turma deverão vigiar: 1. que, antes que comece a correção, todos tenham terminado a tradução; 2. que, enquanto se faz a correção; todos estejam atentos, para corrigirem os próprios erros à medida que vão ouvindo os erros dos outros.

Utilidade deste método.

27. Assim se conseguirá que:

I. Ao professor seja diminuído o trabalho.

II. Nenhum dos alunos seja esquecido e todos sejam instruídos.

III. A atenção de todos seja mais viva.

IV. Tudo o que, por qualquer razão, se disser a um, sirva igualmente a todos.

V. A variedade das frases — pois, sendo diversos os alunos, será impossível que não usem frases diversas — sirva para formar e confirmar tanto o juízo acerca das coisas, como o uso da língua.

V. Finalmente, feita a correção das traduções de dois ou três pares de alunos, aparecerá claro aos outros que pouco ou nada falta para corrigir. Por isso, o resto do tempo seja consagrado a todos em comum, para que aqueles que, ou têm qualquer dúvida acerca da sua própria tradução, ou crêem havê-la feito melhor que os outros, apresentam o seu ponto de vista e sobre ele se pronuncie um juízo.

28. Disse estas coisas acerca dos exercícios de tradução como que à maneira de exemplo, mas elas podem aplicar-se facilmente, em todas as classes, aos exercícios de estilo, de oratória, de lógica, de teologia, de filosofia, etc.

29. Assim se vê que um só professor pode bastar para centenas de alunos, sem que seja maior a sua fadiga do que se devesse trabalhar apenas para um ou dois alunos.

PROBLEMA II

como é possível ensinar a todos com os mesmos livros.

A este propósito é necessário observar cinco coisas:
I. Durante esse tempo não deve permitir-se outros livros.

30. Todos sabem que a pluralidade dos objetos distrai os sentidos. Conseguir-se-á, por isso, uma grande economia de fadiga e de tempo: Primeiro, se aos alunos se não permitirem senão os livros de texto da sua classe, a fim de que seja sempre posto em prática o mote que, nos tempos antigos, era repetido a todos os que ofereciam sacrifícios: Atenção! estás a oferecer um sacrifício![3]. Efetivamente, quanto menos os outros livros ocuparem os olhos, tanto mais os livros de texto ocuparão a mente.

II. Dos livros de textos deve haver abundância.

31. Segundo, se todo o material escolar, isto é, quadros, cartazes, livros elementares, dicionários, tratados acerca das artes e das ciências, etc. estiver preparado. Efetivamente, enquanto os professores fazem (como, de fato, fazem), para os alunos, os quadros alfabéticos, escrevem modelos de caligrafia e ditam regras, textos ou traduções de textos, etc., quanto tempo se perde!

Será, por isso, vantajoso ter prontos, em quantidade suficiente, todos os livros que se usam em todas as classes; e aqueles que hão-de verter-se para a língua materna, tenham a tradução ao lado, pois assim todo o tempo que deveria consagrar-se a ditar, a escrever e a traduzir, poderá dedicar-se, de modo muito mais útil, a explicações, a repetições e a tentativas de imitação.

Previne-se uma objeção.

32. E não deve ter-se receio de, assim, fomentar a preguiça dos professores. Com efeito, assim como se o pregador lê o texto sagrado da Bíblia, e explica e mostra a sua utilidade aos ouvintes (para os ensinar, exortar, consolar, etc.), se aceita que cumpriu o seu dever, embora não tenha sido ele a traduzir o texto original, mas se tenha servido de uma tradução já feita, (uma vez que isso, para os ouvintes, pouco interessa), assim também aos alunos pouco importa que o próprio professor ou qualquer outro antes dele tenha preparado a sua lição, desde que aquilo que é necessário esteja pronto e o professor ensine o seu uso exato.

É bom, pois, que tudo esteja preparado, para que haja, quer maior segurança quanto aos erros, quer maior espaço de tempo para os exercícios práticos.

III. Sejam feitos com primor e escritos em linguagem acessível.

33. Estes livros, portanto, deverão ser conformes às nossas leis da facilidade, da solidez e da brevidade, e contar, para todas as escolas, tudo o que é necessário, de modo completo, sólido e aprimorado, para que sejam uma imagem verdadeira de todo o universo (o qual deve ser mpresso nas mentes juvenis). E (o que vivamente desejo e inculco) que esses livros exponham todas as coisas de modo familiar e popular, para que tornem tudo acessível aos alunos, de modo que o entendam por si, mesmo sem qualquer professor.

Porque convém compô-los em forma de diálogo?

34. Gostaria que esses livros fossem compostos em forma de diálogo, pelas seguintes razões: 1. porque, dessa maneira, mais facilmente se pode adaptar a matéria e o estilo aos espíritos juvenis, para que não imaginem que as coisas são, para eles, ou impossíveis ou árduas ou demasiado difíceis, pois nada há de mais familiar nem de mais natural que a conversação, pela qual, pouco a pouco, o homem pode ser conduzido onde se quer e sem que ele se aperceba disso. Assim, em forma de diálogo, escreveram os comediógrafos todas as suas observações acerca da decadência dos costumes, para advertência do povo; assim escreveu Platão toda a sua filosofia; assim escreveu Cícero várias das suas obras e Santo Agostinho toda a sua teologia, a fim de se adaptarem à capacidade dos leitores. 2. Os diálogos excitam, animam e reavivam a atenção, precisamente pela variedade das perguntas e das respostas, e pelos diferentes motivos e formas destas, sobretudo se nelas se misturam coisas agradáveis; mais ainda, pela variedade e troca dos interlocutores, não só o espírito se liberta do tédio, como, estendendo mais o campo da sua atividade, se torna sempre mais desejoso de estar a ouvir. 3. O diálogo torna a instrução mais sólida. Com efeito, da mesma maneira que recordamos melhor um fato que nós próprios vimos, que um fato que apenas ouvimos referir, assim também na mente dos alunos permanecem mais tenazmente fixas as coisas que aprendem por meio de uma comédia ou de uma conversação (pois, nestes casos, lhes parece não só ouvir, mas também ver o fato) que as que apenas ouvem contar de uma forma nua pelo professor, como o demonstra a experiência. 4. Uma vez que a maior parte da nossa vida é constituída por conversas, a juventude é para isso facilmente conduzida, se se habitua, não só a compreender as coisas úteis, mas ainda a discorrer acerca delas com variedade, elegância, gravidade e prontidão. 5. Finalmente, os diálogos servem para facilitar as repetições, mesmo quando estas são feitas privadamente entre os alunos.

IV. De uma só edição.

35. Será bom também que os livros utilizados sejam da mesma edição, de tal modo que as páginas, as linhas e todas as outras coisas concordem, por causa das citações e da memória local, e para que, em parte alguma, se dê motivo a atrasos.

V. O conteúdo dos livros deve pintar-se nas paredes.

36. Será da maior utilidade, para o nosso objetivo, que se pinte nas paredes das aulas o resumo de todos os livros de cada classe, tanto o texto (com vigorosa brevidade), como ilustrações, retratos e relevos, pelos quais os sentidos, a memória e a inteligência dos estudantes sejam, todos os dias, estimulados. Com efeito, não foi sem razão que os antigos nos transmitiram este processo; nas paredes do templo de Esculápio estavam inscritas as regras de toda a medicina, as quais Hipócrates, entrando lá às escondidas, copiou[4]. Também Deus encheu, por toda a parte, este grande teatro do mundo de pinturas, estátuas e imagens, como vivos representantes da sua sabedoria, e quer instruir-nos por meio deles. (Acerca destas pinturas, falaremos mais amplamente na descrição particular das classes)[5].

PROBLEMA III

Como é possível que, na escola, todos façam as mesmas coisas durante o mesmo tempo.

Porque convém que todos se ocupem de uma só coisa ao mesmo tempo.

37. É evidente que seria útil que, na mesma classe, apenas uma matéria fosse estudada, ao mesmo tempo, por todos, pois assim o professor teria menos trabalho e os alunos aproveitariam mais. Efetivamente, um aguça o engenho do outro, quando todos estão a pensar e a trabalhar esforçadamente à volta da mesma coisa, e, além disso, depois corrigem-se uns aos outros com mútuas ajudas. Assim como um oficial não ensina os exercícios aos recrutas, instruindo-os um a um, mas, conduzindo-os em conjunto para a parada, mostra a todos o uso das armas e o modo de as manejar, e, embora se dirija particularmente a um só, quer, todavia, que os outros façam as mesmas coisas que este faz, que estejam atentos a este e procurem fazer os mesmos exercícios que este faz, assim também deve proceder, em tudo, o professor.

Como é possível?

38. Para que isso seja possível, será necessário:

1. Não abrir as escolas senão uma vez por ano, do mesmo modo que o sol não começa o seu trabalho à volta de todos os vegetais senão uma vez por ano (na primavera).

2. Dispor tudo o que deve fazer-se, de maneira que, em cada ano, mês, semana, dia e até em cada hora, haja uma tarefa a realizar, de modo que todos, sem tropeçar, a possam realizar e assim atinjam a meta juntamente.

Mas, acerca disto, falaremos mais particularmente, dentro em breve, nos seus devidos lugares.

PROBLEMA IV

Como é possível que se ensine todas as coisas com um só método.

O método natural não é senão um e deve ser utilizado em todos os domínios.

39. Nos capítulos XX, XXI e XXII, demonstraremos que o método para ensinar todas as ciências não é senão um, o método natural, como não é senão um o método para ensinar todas as artes e as línguas. Com efeito, a variação ou diversidade, se acaso alguma se verifica num ou noutro domínio, é tão ligeira que não pode constituir uma nova espécie de método, e não resulta da essência da matéria estudada, mas do critério do professor, baseando-se esse critério na peculiar relação das línguas ou das artes entre si, e na capacidade e no progresso dos alunos. Observar, portanto, em todos os domínios, o método natural, constituirá para os alunos uma grande economia de tempo e de fadiga, do mesmo modo que para os viajantes seguir por um caminho único e plano, sem desvios. As diferenças particulares notar-se-ão mais facilmente, se se fizerem ver particularmente, permanecendo intactas as qualidades gerais e comuns do método.

PROBLEMA V

Como, com poucas palavras, se pode ter compreensão clara de muitas coisas.

Os livros bons devem preferir-se aos livros medíocres.

40. De modo algum é útil atormentar os espíritos com volumes ou discursos intermináveis. Com efeito, é certo que ao estômago humano dá mais alimento um pedaço de pão e um trago de vinho que um saco de palha ou de qualquer mixórdia. É melhor ter no bolso uma só moeda de ouro que cem moedas de chumbo. E Sêneca, falando das regras, disse expressamente: «as sementes devem espalhar-se com justa medida, pois não importa que sejam muitas, mas que sejam boas»[6]. Com efeito, permanece assente aquilo que demonstrámos no capítulo V[7], isto é, que, no homem, enquanto microcosmos <grego>, existem todas as coisas, não sendo necessário senão introduzir-lhe uma luz para que ele veja imediatamente. E quem não sabe que, mesmo de uma pequena chama de candeia, pode sair uma luz suficiente para um homem que estude de noite? Portanto, para ensinar as artes e as línguas, como livros fundamentais devem escolher-se ou fazer-se de novo volumes de pequeno tamanho e de notável utilidade, que exponham as coisas sumariamente, ou seja, muitas coisas em poucas palavras (como adverte o Eclesidstico, 32, 8), isto é, que ponham sob os olhos dos alunos as coisas fundamentais, tais quais são, com poucas palavras, mas bem escolhidas e por meio de teoremas e de regras facílimas de entender, de modo que todas as outras coisas sejam naturalmente apreendidas pela inteligência.

PROBLEMA VI

Como regular as coisas de modo que, com um só trabalho, se façam duas ou três coisas.

A natureza mostra que, com um só trabaho, se podem fazer várias coisas.

41. Os exemplos da natureza mostram-nos que, ao mesmo tempo e com o mesmo trabalho, se podem fazer diversas coisas. Uma árvore, no mesmo tempo, desenvolve-se para cima, para baixo e para os lados, e, ao mesmo tempo, faz crescer o tronco, a casca, as flores e os frutos. A mesma coisa pode observar-se num animal, pois os seus membros crescem todos ao mesmo tempo. Além disso, cada membro tem várias funções. Com efeito, os pés permitem ao homem estar de pé, andar para a frente e para trás; de vários modos; a boca é não só a porta do corpo, mas também a mó e a tuba que ressoa, todas as vezes que se lhe ordena; o pulmão, com a mesma respiração, refresca o coração, ventila o cérebro, produz o som, etc.

E a arte imita.

42. O mesmo acontece nas coisas artificiais. Efetivamente, no relógio solar, o mesmo ponteiro, com a mesma sombra, pode marcar as horas do dia (e isso até segundo diversos relógios), o sinal do Zodíaco, onde se encontra então o sol, a duração das noites e dos dias, o dia do mês e muitas outras coisas. Nos carros, o mesmo timão serve para dirigir, para voltar e para parar o carro. Também um bom orador e poeta, com a mesma obra, ensina, comove e deleita, embora estas três coisas sejam distintas entre si.

Também as escolas a devem imitar. Norma geral acerca deste tema.

43. Regule-se, portanto, segundo este modelo, a formação da juventude, para que cada trabalho produza mais que um fruto. A norma geral para obter esse efeito é a seguinte: sempre e em toda a parte, tome-se o relativo com o seu correlativo. Por exemplo: juntar as palavras e as coisas, ler e escrever, exercitar o estilo e o engenho, aprender e ensinar, coisas jocosas e coisas sérias, e, além disso, todas as coisas semelhantes que possam excogitar-se.

Especialmente cinco coisas: I. As palavras com as coisas; e vice-versa.

44. Portanto, não se ensinem nem se aprendam as palavras senão juntamente com as coisas, da mesma maneira que se vendem, se compram e se transportam o vinho juntamente com a garrafa, a espada com a bainha, o tronco com a casca e os frutos com a pele. Efetivamente, que são as palavras senão os invólucros e as bainhas das coisas? Portanto, seja qual for a língua que os alunos aprendam, mesmo a materna, mostrem-se-lhes as coisas que devem ser significadas com as palavras; e, inversamente, ensine-se-lhes a exprimir, por meio de palavras, tudo o que vêem, ouvem, apalpam e saboreiam, para que a língua e a inteligência caminhem e se desenvolvam sempre a par. Tenhamos, portanto, como regra: Quanto mais alguém entende uma coisa, tanto mais se habitue a dizê-la; e, vice-versa, aprenda a entender aquilo que diz. Não se permita a ninguém recitar aquilo que não entende, ou entender aquilo que não pode dizer. Na verdade, quem não exprime os sentimentos da própria alma é uma estátua; quem tarameleia aquilo que não entendeu é um papagaio. Nós, ao contrário, formamos homens, e desejamos formá-los com economia de tempo e de fadiga, o que acontecerá se, em toda a aprendizagem, andarem juntamente as palavras com as coisas, e as coisas com as palavras.

Corolário: os livros palavrosos devem ser considerados bexigas cheias de vento.

45. Por força desta regra, deverão banir-se das escolas todos os autores que apenas ensinam palavras, e não fazem adquirir nenhum conhecimento de coisas úteis. Com efeito, deve ter-se maior cuidado com aquilo que vale mais. «Importa proceder de modo que não sejamos escravos das palavras, mas do sentido», escreveu Sêneca na Carta 9[8]. Se quereis que sejam lidos certos livros, fazei-os ler fora da escola, de passagem e a correr, sem explicações prolixas e fatigantes e sem um esforço aturado de imitação, pois esse esforço poderá dispender-se mais uti1mente em coisas mais positivas.

II. Juntar a leitura e a escrita.

46. Também os exercícios de leitura e de escrita se farão sempre juntos, com grande economia de tempo e de fadiga. Na verdade, é quase impossível excogitar para os alunos do a b c um estímulo ou um atrativo mais forte do que mandar-lhes aprender as letras, escrevendo-as. Com efeito, porque é quase natural às crianças quererem pintar, deleitar-se-ão com este exercício; entretanto, a sua força imaginativa desenvolver-se-á duplamente. Assim, mais tarde, quando souberem ler correntemente, exercitem-se naquelas matérias que posteriormente terão de aprender, por exemplo, naquelas matérias que inculcam o conhecimento das coisas, a moral e a piedade. Assim, quando principiam a aprender a ler o latim, o grego e o hebraico, constituirá uma economia de tempo e de fadiga repetir as declinações e as conjunções, fazendo-as reler e copiar muitas e muitas vezes, até que os alunos as saibam ler e escrever, conheçam o significado das palavras com segurança e, finalmente, saibam formar bem as desinências. Eis, portanto, neste caso, um quádruplo fruto de um só e mesmo trabalho! Poderá, a seguir, em qualquer gênero de estudos, aplicar-se este utilíssimo método de economia de tempo e de fadiga, de tal maneira que todos os frutos que se recolhem da leitura, a pena os transforme num corpo, como diz Sêneca[9]; ou, como escreve Santo Agostinho[10[ de si mesmo, para que progredindo escrevamos, e escrevendo progridamos.

III. Os exercícios escritos sejam, ao mesmo tempo, exercícios da mente e da boca.

47. Os exercícios escritos costumam geralmente fazer-se sem escolher a matéria e sem procurar a conexão dos temas, de onde resulta que são meros exercícios de escrita e pouco ou nada exercitam a mente; mais ainda, acontece que, embora sejam elaborados com esforço, se tornam depois farrapos de papel, sem nenhuma utilidade para a vida. Deve, portanto, exercitar-se a pena naquela matéria científica ou literária, na qual se exercita a inteligência na aula, fazendo compor aos alunos, ou relatos históricos (acerca dos inventores da arte de que se trata, acerca dos lugares e das épocas, em que, de modo especial, floresceram, e coisas semelhantes), ou comentários, ou ensaios de imitação, para que, com o mesmo trabalho, a pena e a inteligência se exercitem, enquanto que estas coisas são também recitadas pela língua.

IV. Conjuguem-se o aprender e o ensinar.

48. Como se possa ensinar imediatamente tudo aquilo que se aprende, mostramo-lo no fim do capítulo XVIII[11]; mas como isto ajuda, não só a solidez, mas também a rapidez do progresso, diz respeito também ao argumento de que tratamos agora.

V. As coisas jocosas devem juntar-se às sérias.

V. 49. Finalmente, conseguir-se-á uma notável economia de tempo e de fadiga, se as coisas jocosas, que se concedem aos jovens para lhes recrear o espírito, forem tais que lhes representem ao vivo as coisas sérias da vida e criem neles o hábito das coisas sérias. Efetivamente, as artes manuais, os assuntos econômicos, os negócios políticos, o exército, a arquitetura e outras coisas podem representar-se através dos instrumentos que lhes são próprios. É ainda possível preparar os espíritos para o estudo da medicina, se, na primavera, se conduzem a um campo ou a um jardim e se lhes mostra as espécies das ervas, permitindo-se uma sabatina, para ver quem conhece maior número. Assim, não só se tornará evidente quais os que, por natureza, são inclinados para a botânica, mas também se acenderão imediatamente chamas no coração dos alunos. E poderia, para maior estímulo, a quem maiores progressos fizer neste campo, dar-se o título de doutor, licenciado ou bacharel em medicina. Do mesmo modo, nos outros exercícios: por exemplo, no exército, podem atribuir-se os títulos de general, coronéis, capitães e porta-bandeiras; na política, o de rei, conselheiros da coroa, primeiro ministro, marechal, secretários, embaixadores, etc.; e ainda o de cônsul, senadores, presidentes das cdmaras, assessores, etc. Estas brincadeiras conduzem a coisas sérias. Então, realizaremos plenamente o seguinte voto de Martinho Lutero: «ocupar a juventude, nas escolas, com estudos sérios, mas de modo que deles tirem prazer não menor do que se passassem os dias inteiros a jogar às pedrinhas»[12]. Assim, as escolas serão uma agradável preparação para a vida.

PROBLEMA VII

Como convém em tudo proceder gradualmente.

O mistério da graduação diz respeito também a este assunto.

50. Estudámos a maneira de usar o método gradual, no capítulo XVI, fundamentos V, VI, VII e VIII, e no capítulo XVIII, fundamentos V, VI e VII. É segundo essas normas que deverão redigir-se os livros de texto para as escolas de humanidades, mas acrescentando-lhes algumas indicações metodológicas para os professores, acerca do modo de usar bem e prontamente esses livros, a fim de que a instrução, a moral e a piedade possam atingir gradualmente a sua perfeição.

PROBLEMA VIII

Do modo de suprimir e de evitar os atrasos

Não tratar de certas coisas.

51. Uma vez que, não sem razão, se tem dito que «não há coisa mais vã que saber e aprender muitas coisas, ou seja, coisas que não virão a servir para nada», e ainda que «sabe, não quem sabe muitas coisas, mas quem sabe coisas úteis», poderão tornar-se mais fáceis os trabalhos escolares, fazendo alguma economia no ensino das coisas, isto é, se não se ensinar:

I. Coisas não necessárias;

II. Coisas antipáticas (aliena);

III. Pormenores insignificantes.

I. Não tratar de coisas não necessárias (como são muitas das que se encontram nos livros dos pagãos).

52. São coisas não necessárias aquelas que não favorecem nem a moral, nem a piedade, e sem as quais, todavia, a instrução não sofre qualquer dano. São assim os nomes e a história dos ídolos e dos ritos pagãos, e ainda as esquisitices e coisas semelhantes dos poetas e dos comediógrafos de engenho luxurioso e até tendente para a lascívia. Se, uma ou outra vez, interessar a algum ler tais coisas nos autores por ele usados, que as leia; mas, nas escolas, onde devem lançar-se os fundamentos da sabedoria, colocar diante dos alunos tais coisas não traz utilidade nenhuma. «Que estultícia, exclama Sêneca, aprender coisas supérfluas, quando temos tanta falta de tempo! Nada se aprende, portanto, apenas para a escola, mas para a vida, para que, quando se sair da escola, nada seja levado pelo vento»[13]

II. Não tratar de coisas antipáticas (como são certos objetos para certos engenhos).

53. São antipáticas as coisas que não são conformes ao engenho deste ou daquele. Com efeito, assim como é vária a índole das ervas, das árvores e dos animais, e assim como um ser há-de tratar-se de um modo e outro de outro modo, e nem todas as coisas se podem utilizar igualmente para os mesmos fins, assim também acontece com os engenhos dos homens. É certo que não faltam engenhos felizes, os quais penetram onde querem, mas também não faltam aqueles que, perante certos objetos, se perturbam e se obscurecem de modo estranho. Determinado indivíduo, nas ciências especulativas, é uma águia, enquanto que, nos estudos práticos, é como um burro diante de uma lira. Um outro, hábil em todas as outras disciplinas, não dá nada na música; e o mesmo acontece com outros, relativamente à matemática, ou à poética, ou à lógica, etc. Nestes casos, que deve fazer-se? Querer tirar da natureza aquilo que ela não tem é lutar contra a natureza, num esforço inútil. Com efeito, ou não se aproveita nada, ou então o proveito não compensa o esforço. E como o professor é ministro, e não senhor, nem formador, ou reformador da natureza, se vê que algum dos seus alunos está a fazer qualquer coisa contra a vontade[14], não o force, e tenha a esperança de que, como costuma acontecer, aquele aluno compensará em outra disciplina a deficiência naquela matéria. Efetivamente, quebrado ou cortado um ramo a uma árvore, os outros desenvolvem-se com mais vigor, pois toda a força passa para eles. E quando nenhum aluno for constrangido a fazer qualquer coisa contra a vontade, nada haverá que gere a náusea e entorpeça a mente, seja a quem for, mas cada um progredirá facilmente naqueles estudos para os quais (por disposição da divina providência) o arrasta um oculto instinto, e, mais tarde, no lugar que convém às suas capacidades, servirá uitilmente a Deus e à sociedade humana.

III. Não tratar de pormenores insignificantes.

54. Do mesmo modo, se alguém quisesse enumerar as mínimas particularidades (como todas as diferenças das ervas e dos animais, e ainda todas as atividades dos artistas, os nomes dos seus instrumentos, e coisas semelhantes), tornar-se-ia prolixo e confuso e, por conseqüência, enfadonho. Basta, portanto, nas escolas, passar em resenha os gêneros das coisas com as suas principais diferenças (mas verdadeiras), desde que tal resenha seja completa e sólida; as outras coisas, na ocasião propícia, apresentar-se-ão por si à inteligência. Efetivamente, assim como quem quer sair rapidamente vitorioso do inimigo, não se demora a dar o assalto a todas as pequenas posições, mas atende aos aspectos mais importantes da guerra, com a certeza de que, se vencer o grosso do exército, e expugnar as principais fortificações, tudo o resto se lhe entregará espontaneamente e passará para o seu poder, assim também acontecerá no caso que nos interessa, de modo que, se se conseguir submeter à inteligência as coisas principais, as minúcias acabarão por esclarecer-se por si mesmas. A este gênero de obstáculos pertencem os vocabulários e os dicionários chamados completos, ou seja, aqueles que abrangem todos os vocábulos de uma língua; e uma vez que uma boa parte deles nunca virão a ser usados, para quê obrigar os jovens a aprendê-los e a sobrecarregar com eles a memória?

Eis o que queria dizer acerca da economia de tempo e de fadiga que pode fazer-se quando se ensina e quando se aprende.


Capítulo XX

MÉTODO PARA ENSINAR
AS CIÊNCIAS EM GERAL

Os riachos devem confluir para um rio.

1. Reunamos, finalmente, em um só lugar, as observações dispersas, aqui e além, acerca do modo de ensinar metodicamente as ciências, as artes, as línguas, a moral e a piedade. Disse «metodicamente», isto é, de modo fácil, sólido e rápido.

A ciência é a visão da mente, exigindo os mesmos requisitos que a visão dos olhos.

2. A ciência ou conhecimento das coisas, uma vez que não é senão uma visão interna das coisas, exige os mesmos requisitos que a observação ou visão externa, ou seja, os olhos, o objeto e a luz. Dados estes meios, segue-se a visão. Ora os olhos da visão interna é a mente ou engenho; o objeto são todas as coisas colocadas fora e dentro da inteligência; a luz é a devida atenção. Mas, assim como, na visão externa, é preciso usar uma técnica própria, se se quer ver as coisas tais como são, assim também, na ciência, é preciso usar um método próprio, a fim de que as coisas se apresentem à inteligência de modo que esta as apreenda e conheça com prontidão e certeza.

3. Em resumo, devem proporcionar-se ao adolescente, que deseja penetrar a fundo as partes mais intrincadas das ciências, as quatro condições seguintes:

I. Que tenha puros os olhos da inteligência;

II. Que os objetos lhe estejam próximos;

III. Que preste atenção; e então

IV. Que se lhe ofereçam as coisas que estão relacionadas com outras coisas, com o devido método. Assim, compreenderá tudo, bem e depressa.

I. Como conservar puros os olhos da mente.

4. Não está nas mãos de ninguém receber uma inteligência dotada destas ou daquelas qualidades. Deus, a seu beneplácito, distribui estes espelhos da mente, estes olhos interiores. Está, todavia, em nosso poder não permitir que estes nossos espelhos se embaciem de pó e percam o seu brilho. São pó as ocupações ociosas, vãs e inúteis da mente. Com efeito, o nosso espírito está em continuo movimento como uma mó que gira, a que os sentidos externos, seus habituais ministros, fornecem constantemente matéria, tomada de qualquer parte, mas, a maioria das vezes (a não ser que a razão, suprema inspetora, esteja bem atenta), fornecem-lhe coisas vãs, ou seja, em vez de trigo e cevada, fornecem-lhe folhelhos, palha, areia, desperdícios e coisas semelhantes. E então acontece como na mó: todos os buracos se enchem de pó. Preservar, portanto, a nossa mó interior, a mente (que é também um espelho), da poeira, significa habituar sensatamente a juventude às coisas honestas e úteis, mantendo-a afastada das ocupações frívolas.

II. Como aproximar os objetos.

5. Ora, para que o espelho reflita bem os objetos, em primeiro lugar, é necessário que os objetos sejam sólidos e evidentes, e, em segundo lugar, que esses mesmos objetos sejam apresentados aos sentidos. Com efeito, a neblina e outras coisas semelhantes, pouco consistentes, não brilham, e refletem-se demasiado debilmente no espelho; e as coisas afastadas não se refletem de modo algum. Portanto, os objetos que se quer fazer conhecer à juventude devem ser coisas, não sombras de coisas; e coisas sólidas, verdadeiras e úteis, que produzam boa impressão nos sentidos e na imaginação; e produzi-la-ão se se aproximam tanto que os impressionem.

Tudo por meio da ação direta da vista.

6. Por isso, seja para os professores regra de ouro: que cada coisa seja apresentada àquele dos sentidos a que convém, ou seja, as coisas visíveis à vista, as audíveis ao ouvido, as odorosas ao olfato, as saborosas ao gosto, as tangíveis ao tato; e se algumas podem, ao mesmo tempo, ser percepcionadas por vários sentidos, sejam colocadas, ao mesmo tempo, diante de vários sentidos, como se disse no capítulo XVII, fundamento VIII.

Tripla razão desta regra

7. Isto baseia-se em três razões válidas:

1. porque os sentidos dão começo ao conhecimento.

1. O conhecimento deve necessariamente principiar pelos sentidos (uma vez que nada se encontra na inteligência, que primeiro não tenha passado pelos sentidos). Porque é que então o ensino há-de principiar por uma exposição verbal das coisas, e não por uma observação real dessas mesmas coisas? Somente depois de esta observação das coisas ter sido feita, virá a palavra, para a explicar melhor.

2.porque o tornam certo.

2.8. Segunda: a verdade e a certeza da ciência também não dependem senão do testemunho dos sentidos. Com efeito, as coisas imprimem-se primeiramente e imediatamente nos sentidos, e depois, graças aos sentidos, na inteligência. É prova disso o fato de que, ao conhecimento sensitivo, se presta assentimento por si mesmo, ao passo que, no raciocínio ou na afirmação de outrem, para se ter a certeza, recorre-se ao testemunho dos sentidos. De fato, não nos fiamos na razão senão quanto ao que pode demonstrar-se com a indução específica de exemplos (e é pelos sentidos que se verifica se eles merecem fé). Se julgamos que nos encontramos em presença de coisas contrárias à nossa própria experiência sensíve1, não nos deixamos convencer pelos testemunhos de outrem. Por isso, quanto mais o saber deriva dos sentidos, tanto mais é certo. Em conseqüência disso, se queremos que os alunos saibam as coisas com verdade e com certeza, é necessário fazer tudo para lhas ensinar todas por meio da ação direta da vista e da percepção sensível.

3. porque o confiam à memória.

9. E porque os sentidos são o mais fiel dispenseiro da memória, essa demonstração sensível de todas as coisas tem por efeito que, tudo o que se sabe através dela, se sabe para sempre. Com efeito, se, ainda que uma só vez, saboreei o açúcar, se alguma vez vi um camelo, se alguma vez ouvi cantar um rouxinol, se alguma vez estive em Roma e a visitei (com a necessária atenção, bem entendido), estas coisas aderem fixadamente à memória e não podem desprender-se. Daqui se vê que, com imagens, facilmente se pode imprimir na mente das crianças a história sagrada e outras histórias. E é evidente que cada um de nós imagina mais facilmente e mais tenazmente o que é um rinoceronte, se, ao menos uma vez, o viu (mesmo que fosse em imagem); e quem tomou parte pessoalmente numa empresa, conhece a sua história com mais certeza do que se, tendo estado ausente, a ouvisse contar centenas de vezes. Daqui o dito de Plauto: «Uma só testemunha ocular vale mais que dez testemunhas auriculares»[1]. E o de Horácio: «aquelas coisas que vêm pelos ouvidos despertam muito mais lentamente a atenção que as que se apresentam à fidelidade dos olhos do observador e que ele vê por si mesmo»[2]. Deste modo, quem, uma vez, observou atentamente a anatomia do corpo humano, entende e recordar-se-á de todas as coisas com mais certeza do que quem leu extensos tratados de anatomia, sem observação ocular. Daqui a máxima: A observação ocular faz as vezes da demonstração.

Grande utilidade das imagens no ensino.

10. Se porventura não é possível ter as coisas à mão, podem utilizar-se os representantes delas, isto é, modelos ou desenhos feitos especialmente para o ensino, como foi já ultimamente posto em prática pelos professores de botânica, de zoologia, de geometria, de geodésia e de geografia, que juntam imagens às suas descrições.

N.B. Esqueleto artificial do corpo humano.

Assim conviria fazer também no ensino da física e de outras disciplinas. Por exemplo, em nosso entender, o funcionamento do corpo humano ensinar-se-á muito do corpo bem por meio de demonstrações oculares, se, à volta de cada osso de um esqueleto humano (como aqueles que habitualmente se encontram nas Academias, ou então feitos de madeira), se colocam os músculos, os tendões, os nervos, as veias e as artérias, juntamente com as vísceras, os pulmões, o coração, o diafragma, o fígado, o estômago e os intestinos, feitos de peles cheias de lã. Todas estas partes do corpo humano devem, porém, ser colocadas no seu devido lugar e ser proporcionadas, escrevendo-se sobre cada uma delas o seu nome e aquilo para que serve. Efetivamente, se um estudante de história natural é conduzido a ver este manequim, que, diante dele, é desmontado, para que observe todas as suas partes, uma por uma, ele entenderá todas as coisas como que divertindo-se e, a partir de então, compreenderá a estrutura do seu corpo. Seria necessário, portanto, construir instrumentos deste gênero (isto é, modelos das coisas, pois nem sempre é possível ter à mão coisas verdadeiras), em todos os campos do saber, de modo a poder tê-los à mão nas escolas. Embora, para fazer estas coisas, seja necessária alguma despesa e um pouco de perícia, todavia, o resultado compensará todos os esforços.

Se todas as coisas podem ser apresentadas aos sentidos.

11. Se alguém duvidasse que todas as coisas, mesmo as espirituais e ausentes (as quais se encontram ou acontecem no céu ou nos abismos, ou nas regiões ultramarinas), podem, deste modo, ser submetidas aos sentidos, lembre-se que, por obra da divina providência, todas as coisas foram feitas com perfeita harmonia, de modo que as coisas superiores podem ser representadas por meio das inferiores, as ausentes por meio das presentes, e as invisíveis por meio das visíveis, como o demonstra com suficiente clareza o Macromicrocosmos de Roberto Fluttus, o qual mostra artificialmente como se geram os ventos, as chuvas e os trovões[3]. E não há dúvida que tais coisas podem ainda reduzir-se a maior evidência e a maior facilidade.

III. Em que consiste a luz da atenção.

12. O que dissemos refere-se à apresentação dos objetos aos sentidos. Falemos agora da luz, pois, se ela falta, é em vão que se colocam os objetos diante dos olhos. A luz do saber é a atenção, graças à qual o aluno, com a inteligência presente e, por assim dizer, aberta, recebe todas as coisas. Com efeito, assim como, às escuras e com os olhos fechados, ninguém vê seja o que for, mesmo que o objeto se encontre muito perto dos olhos, assim também, se se diz ou se se mostra qualquer coisa a quem não está atento, ela passar-lhe-á desapercebida aos sentidos, como se vê acontecer àqueles que, distraídos por outros pensamentos, não se apercebem de muitas coisas que sucedem na sua presença. Portanto, do mesmo modo que quem quer mostrar a outro, durante a noite, uma coisa, deve necessariamente acender a lâmpada e espevitá-la muitas vezes, para que dê uma luz clara, assim também o professor, se quer iluminar com o conhecimento das coisas um aluno circundado pelas trevas da ignorância, a primeira coisa que tem a fazer é despertar nele a atenção, a fim de que a mente, sedenta das coisas, beba aquilo que se lhe ensina. O modo como isto deve ser feito, mostrámo-lo no capítulo XVII e no capítulo XIX.

IV. Que exige o método de apresentar as coisas por meio de uma luz clara?

13. Ainda relativamente à luz, deve falar-se agora do modo ou do método de apresentar os objetos de tal maneira aos sentidos que eles produzam uma impressão duradoura. Faremos bem, decalcando o processo deste método sobre a técnica da visão externa. Ora, quando se quer ver uma coisa bem vista, é necessário: 1. colocá-la diante dos olhos; 2. não demasiado longe, mas à distância conveniente; 3. não de lado, mas em frente dos olhos; 4. e não invertendo ou pondo de través a face da coisa, mas mantendo-a direita; 5. de modo que os olhos possam, de um só golpe, abrangê-la toda; 6. e, depois, examinar cada uma das partes separadamente; 7. seguindo uma ordem metódica, desde o princípio até ao fim; 8. insistindo, depois, no exame de cada parte; 9. até que todas as particularidades sejam bem distinguidas, graças à percepção das diferenças. Observando devidamente estas regras, a visão realiza-se adequadamente; mas basta esquecer uma para que ela deixe de se realizar ou se realize mal.

Esclarece-se o assunto com um exemplo.

14. Por exemplo: se alguém quer ler uma carta que lhe foi enviada por um amigo, é necessario: 1. que a apresente aos olhos (pois, se a não vê, como pode lê-la?); 2. que a aproxime dos olhos a uma distância adequada (a demasiada distância, a vista não distingue); 3. que a ponha de frente (o que se vê de través, vê-se confusamente); 4. que a coloque direita diante de si (efetivamente, se se apresenta aos olhos uma carta ou um livro do invés, ou de través, quem os poderá ler?); 5. é preciso que, antes de tudo, se observem as coisas mais gerais da carta, isto é, quem a escreve, a quem, de onde e quando (sem o conhecimento prévio destas coisas, os pormenores do texto serão muito menos claros); 6. que, a seguir, se leia tudo o resto, de modo que não escape nada (de outra maneira, não se tomará conhecimento de todas as coisas, e poderá mesmo acontecer que se não chegue ao objetivo principal); 7. é preciso que se leia ordenadamente cada período, como estão no texto, um a seguir ao outro (se se toma um pedaço aqui e outro além, um período daqui e outro de além, desliga-se e confunde-se o sentido); 8. deve demorar-se em cada uma das coisas, até que se entendam todas e cada uma em particular (efetivamente, se se dá à carta apenas uma rápida olhadela, facilmente qualquer coisa de útil passará desapercebiçla à mente); 9. finalmente, tomado conhecimento de todas as coisas, preste-se atenção à diferença entre umas coisas e outras, mais ou menos necessárias.

Aplicação à arte de ensinar as ciências por meio de nove regras.

15.Destas observações, resultam, para os que ensinam as ciências, nove regras muito úteis:

I. Regra

I. Ensine-se tudo o que se deve saber.

Efetivamente, se se não oferecem ao aluno aquelas coisas que ele deve saber, de onde as virá a saber? Abstenham-se, portanto, os professores de manter qualquer coisa escondida dos alunos, quer intencionalmente, como fazem habitualmente os invejosos e os desleais, quer por negligência, como costumam fazer aqueles que querem terminar o seu trabalho o mais cedo possível. Nestas coisas, é necessário a boa fé e o zelo.

II. Regra.

16. Tudo o que se ensina, ensine-se como coisa do mundo de hoje, e de utilidade certa.

Isto para que o aluno veja que aquilo que aprende não são coisas vindas do país da utopia[4] ou das idéias de Platão, mas coisas que verdadeiramente estão à nossa volta e cujo conhecimento perfeito é realmente útil para a vida. Assim, a mente lançar-se-á a elas com maior ardor e discerni-las-á com maior exatidão.

III. Regra.

17. Tudo o que se ensina, ensine-se de uma maneira direta, e não com rodeios.

Efetivamente, vemos as coisas diretamente, e não de través, quando, não somente as vemos, confusa e obscuramente, mas as apreendemos com a vista. Seja qual for a coisa, coloque-se diante dos olhos do aluno, fazendo-lhe ver a sua essência nuamente, e não por meio de subterfúgios, de palavras, de metáforas, de alusões e de hipérboles, figuras de retórica que se usam para engrandecer ou diminuir as coisas já conhecidas, para as louvar ou rebaixar, mas não para as fazer conhecer; trata-se aqui de enfrentar as coisas diretamente.

IV. Regra.

18. Tudo o que se ensina, ensine-se tal qual é e acontece, isto é, pelas suas causas.

Com efeito, o conhecimento é perfeito quando as coisas se conhecem tais quais são, pois se são conhecidas de modo diverso do que são, o conhecimento não é verdadeiro conhecimento, mas erro. Toda a coisa é tal como foi feita, pois se é diferente de como foi feita, deve entender-se que foi alterada. Ora, toda a coisa é feita pelas suas causas. Logo, explicar as causas da coisa, é ensinar a verdadeira ciência da coisa, segundo a máxima que diz : saber é conhecer uma coisa pelas suas causas[5]. Além disso, a causa é o guia da mente. As coisas serão, portanto, conhecidas melhor, mais facilmente e com maior certeza, se forem conhecidas como estão feitas. Do mesmo modo que, a quem quer ler uma carta, esta deve ser oferecida segundo a posição em que está escrita, pois ler uma carta ao invés ou de través é difícil, igualmente, se se explica uma coisa como ela acontece, será entendida facilmente e com segurança; se, ao contrário, ela é explicada, colocando em primeiro lugar o que aconteceu em segundo lugar, (per <grego>) e mudando, de vários outros modos, a ordem natural, com toda a certeza que se mergulhará o aluno na confusão. Portanto, o método didático deve seguir a ordem das coisas: primeiro, as que aconteceram primeiro; depois, as que aconteceram depois.

V. Regra.

19. Tudo o que se oferece ao conhecimento, ofereça-se primeiro de modo geral, e depois por partes.

A razão desta regra foi explicada no capítulo XVI, fundamento VI. Oferecer uma coisa para ser conhecida de modo geral, consiste em explicar a essência e os acidentes de toda essa coisa. A essência explica-se por meio destas perguntas: Que é? Qual é? Porquê? À pergunta que é, responde o nome, o gênero, a missão e a finalidade da coisa; à pergunta qual é, responde a forma da coisa, ou seja, o modo em virtude do qual a coisa é apta para o seu fim; à pergunta porquê, responde a eficiência, ou seja, aquela força pela qual a coisa se torna apta para o seu fim. Por exemplo: se se deseja dar ao aluno um verdadeiro conhecimento geral do homem dir-se-á: «O homem é: 1. a criatura de Deus mais perfeita, destinada a governar as outras; 2. enriquecida com o dom de escolher e de fazer livremente qualquer coisa; 3. e, por isso. dotada da luz da razão, para que possa regular sabiamente as suas escolhas e as suas ações». Este é um conhecimento geral do homem, mas fundamental, pois enuncia todas as coisas necessárias acerca do homem. Se se quiser, a estas coisas, poderá acrescentar-se certos acidentes, também de caráter geral, como, por quem foi feito, onde teve origem, quando, etc. Feito isto, é preciso estudar as partes do homem, o corpo e a alma, decompondo o corpo por meio da anatomia dos membros, e explicando a alma por meio das faculdades que a constituem, etc. Tudo isto deve ser feito com a devida ordem.

VI. Regra.

20. Conheçam-se todas as partes da coisa, mesmo as mais pequeninas, sem omitir nenhuma, respeitando a ordem, a posição e as relações que umas têm com as outras.

Com efeito, nada é inútil, e, por vezes, é precisamente na parte mais pequenina que reside a força das partes maiores. E sabido que, no relógio, uma só rodinha partida, torcida ou deslocada pode fazer parar toda a máquina; e, se a um corpo vivo se tirar um só membro, pode tirar-se-lhe a vida; e, muitas vezes, no contexto de um discurso, a mais pequena palavra (como uma preposição ou uma conjunção) modifica e até inverte todo o sentido. E assim acontece em todas as coisas. O conhecimento perfeito de uma coisa obtém-se, portanto, conhecendo todas as suas partes, e sabendo o que é e para que serve cada uma delas.

VII. Regra.

21. Ensinem-se todas as coisas sucessivamente, e, durante o mesmo tempo, não se ensine senão uma coisa só.

Com efeito, assim como a vista não pode, ao mesmo tempo, voltar-se para dois ou três objetos, senão dispersamente e confusamente (é evidente que quem lê um livro não pode olhar para duas páginas ao mesmo tempo, nem mesmo para duas linhas, embora estejam próximas uma da outra, nem sequer para duas palavras, e nem até para duas letras, mas olha para elas sucessivamente, uma após a outra), assim também a mente não pode especular senão acerca de uma só coisa durante o mesmo espaço de tempo. Proceda-se, portanto, distinamente de uma coisa para outra, para que as inteligências não sejam obstruídas.

VIII. Regra.

22. Insista-se sobre cada matéria, até que ela seja perfeitamente compreendida.

Nada acontece num instante, pois, tudo o que acontece, acontece graças ao movimento e o movimento implica sucessão. Deve, portanto, demorar-se com o aluno em qualquer parte do saber, até que a tenha apreendido bem e saiba que a sabe. Conseguir-se-á isso, inculcando, examinando e repetindo, até que as coisas estejam bem fixas na mente, como mostrámos no capítulo XVIII, fundamento X.

IX. Regra.

23. Ensinem-se bem as diferenças das coisas, para que o conhecimento de todas as coisas seja distinto.

Está contida uma grande verdade nesta máxima famosa (<grego>): Quem distingue bem, ensina bem. Efetivamente, a multidão das coisas perturba o aluno e a variedade confunde-o, a não ser que se utilizem remédios: no primeiro caso, o remédio será a ordem, de modo que se ensine uma coisa após outra; no segundo caso, será a consideração atenta das diferenças, de modo que se torne sempre manifesto qual a diferença que vai de uma coisa a outra. Apenas este processo fornece um conhecimento distinto, claro e certo, porque, não só a variedade, mas também a verdade das coisas depende das diferenças, como o enunciámos acima, no capítulo XVIII, fundamento VI.

As ciências que se ensinam nas escolas devem ser adornadas com este método.

24. Mas, porque não é dado a todos poder exercer o ofício de professor com tudo o que ele exige de destreza, é necessário submeter todas as ciências que se ensinam nas escolas a estas regras do método, a fim de que o ensino não descarilhe e não falhe no seu objetivo. Efetivamente, se estas regras se fixam e se observam estritamente, será impossível que um jovem, introduzido no teatro do universo, não seja capaz de penetrar com a sua agudeza toda a magnificência das coisas ali expostas; e assim, em plena luz, caminhar entre as obras de Deus e dos homens, com a mesma facilidade com que alguém, introduzido num palácio real pode, num determinado espaço de tempo e sem tédio, ver muito bem tudo o que nele se encontra: pinturas, trabalhos de cinzel, tapeçarias e qualquer outro ornamento.


Capítulo XXI

MÉTODO
PARA ENSINAR AS ARTES

É preciso estudar mais as artes práticas que as ciências especulativas.

1. «A teoria das coisas é fácil e breve, e não produz senão prazer; ao contrário, a sua aplicação é árdua e demorada, proporcionando maravilhosas vantagens», diz Vives[1]. Sendo as coisas assim, importa investigar com diligência o método de guiar facilmentc a juventude a pôr em prática as coisas que dizem respeito às artes técnicas.

Três requisitos da arte.

2. A arte requer três coisas: 1. O modelo ou imagem, que é uma espécie de forma externa, que o artista observa e tenta reproduzir. 2. A matéria, que é aquilo a que deve imprimir-se a nova forma. 3. Os instrumentos, com a ajuda dos quais se executa o trabalho.

Outras tantas coias são requeridas para a ação prática.

3. Depois (quando se possuem já os instrumentos, a matéria e o modelo), o ensino da arte requer: 1. a utilização devida destas três coisas; 2. a sua direção prudente; 3. exercícios freqüentes. Isto é, que se ensine ao aluno onde e como cada uma destas três coisas deve ser utilizada. E, enquanto as utiliza, a dirigi-las bem, para que não cometa erros; e, se acaso os comete, para que os corrija. Finalmente, para que deixe de errar, ensine-se-lhe a afastar-se dos erros, até que tenha aprendido a trabalhar com segurança, com rapidez e sem cometer erros.

Onze cânones acerca deste assunto:

4. Relativamente a este assunto, são de notar onze cânones: seis acerca da utilização; três acerca da direção; e dois acerca do exercício.

I

5. Aprenda-se a fazer fazendo.

Os mecânicos não detêm os aprendizes das suas artes com especulações teóricas, mas põem-nos imediatamente a trabalhar, para que aprendam a fabricar fabricando, a esculpir esculpindo, a pintar pintando, a dançar dançando, etc. Portanto, também nas escolas, deve aprender-se a escrever escrevendo, a falar falando, a cantar cantando, a raciocinar raciocinando, etc., para que as escolas não sejam senão oficinas onde se trabalha fervidamente. Assim, finalmente, pelos bons resultados da prática, todos experimentarão a verdade do provérbio: fazendo aprendemos a fazer (Fabricando fabricamur).

II

6. Façam-se sempre os trabalhos segundo determinada forma e norma.

Observando essa forma e essa norma, e como que caminhando pelas suas pegadas, o aluno deve imitá-la. Com efeito, não pode ainda inventar nada de seu, uma vez que ignora o que deve fazer e como o deve fazer; por isso, é necessário mostrar-lho. Além disso, seria uma crueldade constranger alguém a fazer aquilo que tu queres, ignorando ele o que tu queres. Do mesmo modo, seria uma crueldade querer que trace linhas retas, ângulos retos ou círculos redondos, sem primeiro lhe ter metido nas mãos o esquadro, a régua e o compasso, e sem lhe haver mostrado o uso desses instrumentos. Importa, por isso, procurar seriamente que, de todos os trabalhos que devem fazer-se na escola, haja figuras ou desenhos e modelos, verdadeiros, claros e simples, fáceis de entender e de imitar, quer sejam esboços ou desenhos das coisas, quer sejam planos ou «maquetes» das obras. Então, já não será absurdo exigir daquele a quem foi ministrada luz, que veja, daquele que já se mantém de pé, que comece a andar, daquele que sabe já manejar os instrumentos, que trabalhe.

III

7. Mostre-se o uso dos instrumentos, mais com a prática que com palavras, isto é, mais com exemplos que com regras.

Já antigamente advertiu Quintiliano que «é longo e difícil o caminho por meio de regras, mas breve e eficaz por meio de exemplos»[2]. Mas, normalmente, quão pouco se recordam desta advertência as escolas! É sabido que entulham de tal maneira, mesmo os principiantes de gramática, com preceitos e regras, com exceções às regras e exceções às exceções, que eles, a maioria das vezes, não sabem que fazer e começam antes a ficar estúpidos que a entender. Mas, na verdade, não vemos que os mecânicos procedam de modo a ensinarem tantas regras aos seus aprendizes, mas, conduzidos estes à oficina, mandam-nos observar os seus trabalhos, e imediatamente, para que os imitem (pois o homem é um animal imitador: (<grego>), metem-lhes na mão os instrumentos e ensinam-lhes como os devem manejar; então, se se enganam, advertem-nos e corrigem-nos, mais com o exemplo que com palavras; e a prática mostra que a imitação facilmente consegue bons resultados. Com efeito, é verdadeira esta bela máxima alemã: «Ein guter Vorgänger findet einen guten Nachgänger» (Um bom precursor encontra sempre um bom seguidor)[3]. E também tem aqui cabimento o dito de Terêncio: «Vai à frente, que eu te seguirei»[4]. Deste modo, vemos as crianças aprender a andar, a correr, a falar, a entregar-se a jogos vários, apenas graças à imitação, sem regras fatigantes e penosas. Efetivamente, as regras são autênticos espinhos para os espíritos e exigem atenção e agudeza, ao passo que com exemplos até as cabeças mais rudes são ajudadas. Além disso, só com regras, ninguém será capaz de adquirir o hábito de uma língua ou de uma arte; mas, com a prática, mesmo sem regras, pode adquiri-lo perfeitamente.

IV

8. O exercício deve começar com os primeiros rudimentos, e não com obras acabadas.

Com efeito, o carpinteiro não ensina, logo nos primeiros dias, o seu aprendiz a construir torres e fortalezas de madeira, mas a pegar no machado, a cortar a madeira, a pôr em esquadria as traves e a perfurar barrotes, a pregar pregos e a fazer encaixes, etc. Também o pintor não manda o seu aprendiz pintar rostos humanos, mas ensina-lhe a misturar as cores, a manejar os pincéis, a traçar pequenas linhas, e depois a tentar esboçar desenhos, etc. E quem ensina uma criança a ler, não lhe coloca à frente um livro compacto, mas as letras do alfabeto, primeiro uma de cada vez, depois unidas em sílabas, a seguir unidas em palavras e finalmente em frases, etc. Portanto, também a quem começa a estudar a gramática, primeiro deve pôr-se-lhe à frente palavras, uma de cada vez, depois fazer-lhas juntar duas a duas, depois ensinar-lhe expressões de uma só proposição, depois de duas e de três; depois, passe-se à estrutura dos períodos e daí a um discurso inteiro. Também na dialética, primeiro aprendam a distinguir as coisas e os conceitos acerca das coisas por meio dos gêneros e das diferenças; depois, a coordenar as coisas segundo as suas relações mútuas (com efeito, de qualquer maneira, cada coisa tem relações com outra); a seguir, a defini-las e a classificá-las; finalmente, a examinar em conjunto as coisas e os conceitos das coisas, procurando resposta para estas perguntas: Que é? Acerca de quê? Por causa de quê? É necessária ou contingente? Naquelas coisas em que já estiver suficientemente exercitado, passa-se ao ato do raciocínio, no qual, dadas e concedidas certas coisas, se deduzem outras. Por fim, passe-se aos discursos, ou seja, às exposições completas de temas. De modo semelhante, no estudo da retórica, os progressos serão rápidos, se o aluno se exercitar primeiro, durante um certo tempo, a recolher sinônimos, depois aprender a dar a designação própria aos nomes, aos verbos e aos advérbios, e, imediatamente a seguir, aprender a esclarecê-los com outros de significado oposto, e depois a falar, de vários modos, por meio de perífrases, e a mudar os termos próprios em outros mediante metáforas, a deslocar as palavras para obter boa harmonia, a mudar, de todos os modos possíveis, as frases simples em frases figuradas; finalmente, e não antes, quando souber fazer prontamente cada uma destas coisas, passar-se-á aos ornarnentos de orações inteiras. Se, em qualquer arte, se caminha assim gradualmente, é impossivel não fazer progressos rápidos e sólidos.

O fundamento disto foi exposto no capítulo XVII, fundamento IV.

V

9. Os primeiros exercícios dos principiantes sejam acerca de matéria conhecida.

Esta regra foi-nos sugerida pelo fundamento IX do capítulo XVII e pelo corolário VI do fundamento IV. Ela significa que o estudante não deve ser sobrecarregado com coisas desproporcionadas à sua idade, à sua capacidade e à sua condição, para não ser obrigado a combater com sombras. Por exemplo: a uma criança polaca, que aprende a ler ou a escrever o alfabeto, não se deve apresentar um texto em latim, em grego ou árabe, mas na sua língua, para que ela entenda o que faz. Assim, para que a criança compreenda o emprego das regras da dialética, deve ser exercitada com exemplos, tomados, não de Virgílio ou de Cícero ou de assuntos teológicos, políticos e médicos, mas de coisas familiares à criança, como um livro, um vestido, uma árvore, uma casa, uma escola, etc. Isto fará com que os exemplos tomados para explicar a primeira regra, sendo já conhecidos, sirvam para todas as outras. Como se, no estudo da dialética, se tomar (por exemplo) uma árvore: mostre-se o seu gênero, a sua diferença, as suas causas, os seus efeitos, as suas partes subjetivas e acrescentadas, etc., a sua definição, a sua classificação, etc.; depois, de quantas maneiras alguma coisa se pode predicar de uma árvore; a seguir, como é que, por meio de um raciocínio, daquelas coisas que até então foram ditas acerca da árvore, se podem deduzir e demonstrar outras, etc. Explicado deste modo, com um, dois ou três exemplos familiares, o emprego das regras, o jovem poderá facilmente, por via de imitação, fazer o mesmo em todos os outros casos.

VI

l0. A princípio, a imitação faça-se segundo a forma prescrita; depois, poderá ser mais livre.

Efetivamente, quanto mais a formação de uma coisa nova se apega à sua forma, tanto melhor e mais exatamente é expressa a forma. Como as moedas, que são tiradas do mesmo cunho, são todas exatamente iguais, tanto ao seu cunho como umas com as outras; e igualmente os livros impressos e os trabalhos fundidos em cera, gesso, metal, etc. Portanto, na medida do possível, também nos outros trabalhos, a imitação (ao menos a primeira) apegue-se estreitamente ao seu modelo, até que as mãos, a mente e a língua se habituem a mover-se mais livremente e com mais segurança, e a formar por si coisas semelhantes. Por exemplo: aqueles que aprendem a escrever tomem um papel fino e de qualquer modo transparente, e coloquem-lhe debaixo um modelo (<grego>), ou seja,, aquela escrita que desejam imitar, pois assim poderão facilmente imitar os traços das letras que transparecem. Ou então imprimam-se, em papel branco, modelos, numa cor atraente, amarela ou escura, para que os alunos, fazendo passar a pena, cheia de tinta preta, através daqueles traços, se habituem a imitar aquelas letras, com aquela mesma forma. Do mesmo modo, quanto ao estilo, toma-se de um autor uma frase, um pensamento ou um período, e manda-se ao aluno formar outras semelhantes. Por exemplo, porque se diz dives opum[5] manda-se a criança imitar e dizer dives nummorum, dives pecuniae, dives pecoris, dives vinearum, etc. Uma vez que Cicero diz: «Eudemo, segundo a opinião de pessoas doutíssimas, é de longe o primeiro em astronomia»[6], imitando-o, poderá dizer-se: «Cicero, segundo a opinião de oradores doutíssimos, é de longe o primeiro em eloqüência» e «Paulo, no apostolado, segundo a opinião de toda a Igreja, é de longe o primeiro», etc. Do mesmo modo, aparecendo em lógica esta dilema: «ou é dia ou é noite; ora é noite; logo não é dia», aprenda a criança a imitar todos os contrários imediatos assim expostos. Por exemplo: «ou é ignorante ou é erudito; ora é ignorante; logo não é erudito». «Caim ou foi pio ou foi ímpio; ora não foi pio...»

VII

11. Os modelos a imitar sejam o mais perfeitos possível, para que, se alguém consegue imitá-los bem, possa ser considerado perfeito na sua arte.

Efetivamente, assim como, com uma régua curva, ninguém pode traçar linhas retas, assim também de um modelo defeituoso não pode formar uma bela obra. Será necessário, portanto, esforçar-se por que haja modelos verdadeiros, perfeitos, simples e fáceis de imitar de tudo o que deve fazer-se na escola e, mais ainda, durante toda a vida, quer sejam imagens das coisas, pinturas, desenhos, quer sejam prescrições e regras, brevíssimas, claríssimas, inteligíveis por si mesmas e verdadeiras sem nenhuma exceção.

12. O primeiro esforço de imitação seja o mais aprimorado possível, para que se não afaste do modelo nem sequer no mínimo pormenor.

Isto, naturalmente, nos limites do possível. Mas é necessário. Com efeito, todas as primeiras coisas são como que os fundamentos das que virão a seguir; sendo elas sólidas, as outras poderão construir-se solidamente; se forem vacilantes, tudo vacilará. E assim como os médicos observam que as irregularidades da primeira digestão se não corrigem na segunda e na terceira, assim também, em qualquer trabalho, os primeiros erros prejudicam tudo o que vem a seguir. Por isso, Timóteo, professor de música, fazia pagar as lições pelo dobro aos alunos que haviam já estudado os rudimentos daquela arte com outros professores, dizendo que isso implicava para ele uma duplicação de trabalho, pois primeiro tinha de fazer desaprender aquilo que haviam aprendido mal, e depois ensinar-lho bem[7]. É necessário, portanto, fazer tudo para que os alunos procurem imitar o melhor possível os modelos da arte que estudam, pois, superada esta dificuldade, o resto seguir-se-á normalmente, da mesma maneira que uma cidade, cujas portas foram expugnadas, está já na mão do vencedor. Importa, por isso, abster-se de toda a precipitação, para que nunca se passe às coisas que vêm a seguir, antes de se haver consolidado com o necessário cuidado as coisas que estão primeiro. Caminha suficientemente depressa quem nunca se afasta do caminho. E o tempo que se gasta para consolidar bem os rudimentos não é tempo perdido, mas representa uma grande economia de tempo e de fadiga, porque permitirá dominar facilmente, rapidamente e seguramente as coisas que vêm a seguir.

IX.

13. O erro seja corrigido pelo professor que assiste à lição, mas acrescentando as observações, a que chamamos regras e exceções às regras.

Ensinámos até aqui que as artes devem ensinar-se mais com exemplos que com regras. Acrescentamos agora que se devem ajuntar as normas e as regras que dirijam o trabalho e o perservem de erros, mostrando claramente o que no modelo se encontra de modo obscuro, isto é, mostrando por onde se deve começar o trabalho, para que fim deve tender, como deve ir avançando e porque convém fazer cada coisa de determinada maneira. Tudo isto fornecerá, finalmente, um sólido conhecimento da arte e a confiança e a segurança na imitação. Mas importa que essas regras sejam o mais breves e o mais claras possível, para que se não envelheça em cima delas; aquelas, porém, que uma vez foram aprendidas, sejam úteis para sempre, mesmo quando postas de parte. Para que não aconteça como à criança a quem as talas foram de grande utilidade para aprender a dar os primeiros passos, e depois deixaram de ter qualquer utilidade.

X.
Os exercícios sintéticos devem ser feitos antes dos analíticos.

14. O ensino perfeito da arte consiste na síntese e na análise. No capítulo XVIII, fundamento V, mostrámos, com exemplos tirados da natureza e das artes mecânicas, que, no nosso caso, o principal papel cabe à síntese. E que, na maior parte das disciplinas, os exercícios sintéticos devem fazer-se antes, mostram-no ainda as razões seguintes: 1. Deve começar-se sempre pelas coisas mais fáceis; ora nós entendemos mais facilmente as nossas coisas que as alheias. 2. Os autores escondem com cuidado a arte das suas obras, de modo que os alunos, logo à primeira vista, dificilmente nelas conseguem penetrar; consegui-lo-ão, todavia, quando já estiverem um pouco exercitados com as suas próprias rudes invenções. 3. O que se pretende atingir em primeiro lugar deve fazer-se em primeiro lugar; ora, o nosso primeiro intento é que os estudantes das artes se habituem a procurar novas invenções e não apenas a servir-se das que já foram realizadas. (Ver o que foi dito também no capítulo XVIII, fundamento V).

Importa, todavia, ajuntar exercícios analíticos.

15. É, todavia, absolutamente necessário ajuntar a análise atenta das invenções e das obras dos outros. Com efeito, conhece bem uma estrada quem a percorreu freqüentes vezes de uma ponta à outra, e observou, aqui e além, todas as encruzilhadas, bifurcações e entroncamentos. Além disso, são vários, e até certo ponto infinitos, os modos das coisas, de tal maneira que não é possível condensar todas as coisas em regras, nem que estas estejam todas na cabeça de um só. A vários, é possível ver mais coisas; as coisas, que se não tornam nossas a não ser que as adquiramos e conheçamos, devem gerar em nós, pelo espírito de emulação e de imitação, o hábito de produzir coisas semelhantes.

Resumo do que se disse.

16. Desejamos, portanto, que, em qualquer arte, se façam modelos ou exemplares completos e perfeitos, de tudo aquilo que, dessa arte, se deve, se costuma e se pode colocar perante os alunos, acrescentando-se, ao lado, advertências e regras que exprimam as razões do que se fez e do que há-de fazer-se, dirijam no esforço de imitar, preservem dos erros e permitam corrigir os erros cometidos. Dêem-se, depois, ao aluno outros e outros exemplos, os quais ele adapte, um por um, aos modelos, e por imitação faça outros semelhantes. Finalmente, examinem-se as obras alheias (mas de artistas de valor) e julguem-se em conformidade com os modelos e com as regras atrás referidas, quer para que se ponha mais em evidência a aplicação das mesmas regras, quer para que aprendam a arte de esconder os artifícios. Com a continuação deste exercício poderá, finalmente, julgar-se com sensatez acerca das invenções e acerca da elegância das invenções, próprias e alheias.

XI

17. Estes exercícios devem ser continuados, até que tenham criado o hábito da arte.

Efetivamente, só a prática faz os artistas[8].


Capítulo XXII

MÉTODO
PARA ENSINAR AS LÍNGUAS

Porque se devem aprender as línguas e quais.

1. As línguas aprendem-se, não como uma parte da instrução ou da sabedoria, mas como um instrumento para adquirir a instrução e para a comunicar aos outros. Por isso, não devem aprender-se todas, o que é impossível, nem muitas, o que é inútil, além de que roubaria o tempo devido ao estudo das coisas; mas apenas as necessárias. Ora, são necessárias: a língua materna, para tratar dos negócios domésticos; as dos países vizinhos, para entrar em relações com eles (assim, para os polacos, de uma parte, a língua alemã, e, de outra parte, a língua húngara, a romena e a turca); para ler livros sabiamente escritos, a latina, que é a língua comum da gente instruída; para os filósofos e para os médicos, a grega e a arábica; para os teólogos, a grega e a hebraica.

Cada língua deve ser aprendida completamente?

2. Nem todas as línguas devem aprender-se em todas as suas partes, até a perfeição, mas apenas tanto quanto é necessário. Com efeito, não é necessário pronunciar tão perfeitamente a língua grega e a hebraica como a vernácula, pois não há homens com quem as falemos. Basta aprender o suficiente para ler e entender os livros.

Não convém aprendê-las sem as coisas.

3. O estudo das línguas, especialmente na juventude, deve caminhar paralelamente com as coisas, de modo que se aprenda a entender e a exprimir tanto as coisas como as palavras. Efetivamente, formamos homens, e não papagaios, como se disse no capítulo XIX, fundamento VI.

Corolários:
1. Com os mesmos livros podem aprender-se as coisas e a língua.

4. Daqui se segue, em primeiro lugar, que as palavras não se devem aprender separadamente das coisas, uma vez que as coisas separadas das palavras nem existem, nem se entendem; mas, enquanto estão unidas, existem aqui ou além e desempenham esta ou aquela função. Esta consideração levou-me a escrever a Porta das línguas (Janua Linguarum), onde as palavras que formam as frases exprimem ao mesmo tempo a estrutura das coisas, e (ao que parece) com bons resultados[1].

2. elNão é necessário para ninguém conhecer uma língua completamente.

5. Em segundo lugar, segue-se que não é necessário para ninguém conhecer completamente uma língua, e se alguém procurasse aprendê-la completamente faria uma coisa ridícula e estúpida. Com efeito, nem sequer Cícero tinha um conhecimento total da língua latina (da qual, aliás, é considerado o maior mestre), pois ele mesmo confessa que ignorava os termos técnicos dos artesãos[2], não tendo jamais conversado com os sapateiros e com os operários de outras profissões, para observar todos os seus trabalhos e aprender a denominação de todos os instrumentos que eles manejam. E para que lhe serviria aprender tudo isso?

Os ampliadores (Docemius, Kinerus, etc.) da «Porta» agiram inconsideradamente, e por isso o autor, que começara a «Segunda porta da latinidade» não a terminou.

6. A isto não atenderam alguns ampliadores da nossa Porta, que a encheram de palavras inusitadas, significando coisas que ultrapassam em muito, a capacidade das crianças. Uma porta não deve ser senão uma porta; as outras coisas devem reservar-se para outra altura, principalmente aquelas que ou nunca ocorrem ou, se ocorrem, podem procurar-se em livros subsidiários (vocabulários, dicionários, prontuários, etc.). Por esta razão, interrompi a Segunda Porta da Latinidade, coletânea de palavras arcaicas e pouco usadas, que havia começado.

Às crianças deve oferecer-se temas infantis, e não Cicero e outros autores, que são para homens feitos.

7. Em primeiro lugar, segue-se que as crianças devem formar tanto a sua inteligência como a sua língua, trabalhando de preferência sobre matérias que convêm às crianças e deixando as coisas próprias de homens feitos para outra altura da vida; por isso, faz obra vã quem coloca diante das crianças Cícero e outros grandes autores que tratam de coisas que ultrapassam a capacidade infantil. Com efeito, se não entendem as coisas, como podem entender a arte com que essas mesmas coisas são eficazmente expressas? Esse tempo dispende-se com maior utilidade em coisas mais humildes, de modo que, tanto a língua como a inteligência se não aperfeiçoem senão gradualmente. A natureza não dá saltos, e também os não dá a arte, quando imita a natureza. À criança deve ensinar-se a dar passos, antes de a exercitar na dança; a cavalgar um belo e longo pau, antes de montar cavalos ricamente arreados; a construir sílabas, antes que a falar, e a falar, antes que a discursar, pois Cícero afirma que se não pode ensinar a discursar a quem não sabe falar[3].

Oito regras acerca da poliglotia.

8. Quanto à poliglotia (<grego>), digo que tornará breve e suave o estudo, para aprender diversas línguas, o método que encerro nas oito regras seguintes:

I

9. Aprenda-se cada língua em separado.

Primeiro, a língua materna; depois, aquela que há-de utilizar-se em vez da materna, como seria a língua de um povo vizinho. (Sou de opinião, com efeito, que as línguas vulgares devem aprender-se antes das línguas sábias). A seguir, a língua latina e, depois desta, a grega, a hebraica, etc.; sempre uma depois da outra, e não ao mesmo tempo; de outra modo, uma gera confusão na outra. Finalmente, todavia, quando, com a prática, se dominarem essas línguas, poderão utilmente confrontar-se, com a ajuda de dicionários, de gramáticas comparadas, etc.

II

10. Ao estudo de cada língua, consagre-se um período determinado de tempo.

Para que não façamos, daquilo que é secundário, a atividade principal (<grego>), e percamos com palavras o tempo que deve empregar-se no estudo das coisas. A língua materna, porque se liga com as coisas que, pouco a pouco, se apresentam à inteligência, exige necessariamente vários anos: por exemplo, oito ou dez anos, isto é, toda a infância e parte da puerícia. Pode, depois, passar-se a outra língua vulgar, podendo o curso de cada uma delas realizar-se suficientemente bem no espaço de um ano; o estudo da língua latina pode fazer-se num biênio; o do grego em um ano e o do hebraico num semestre.

III

11. Todas as línguas devem aprender-se mais com a prática que por meio de regras.

Isto é, ouvindo, lendo, relendo, transcrevendo, tentando a imitação com a mão e com a língua, o mais freqüentemente possível. Veja-se o que foi dito no capítulo anterior, cânon I e XI.

IV

Todavia, as regras devem ajudar e confirmar a prática.

Como foi dito no capítulo anterior, cânon II, etc. Este princípio aplica-se principalmente às línguas sábias, as quais necessariamente se devem aprender por meio de livros, mas também às línguas vulgares, pois também a língua italiana, a francesa, a alemã, a boema, a húngara, etc., podem ser submetidas a regras e, de fato, têm já regras formuladas.

V

13. As regras das línguas sejam gramaticais, e não filosóficas.

Isto é, não inquiram sutilmente acerca das razões e das causas dos vocábulos, das frases, e dos nexos, porque é necessário fazer desta ou daquela maneira, mas expliquem, de modo acessível, o que se faz e como se faz. Um exame mais sutil das causas e dos nexos, das semelhanças e das dissemelhanças, das analogias e das anomalias, que as coisas e as palavras têm entre si, pertence ao filósofo, e faz perder tempo ao filólogo.

VI

14. A norma para escrever as regras de uma nova língua seja uma língua já conhecida, para que se mostre apenas a diferença daquela relativamente a esta.

Efetivamente, repetir os aspectos comuns, não somente é inútil, mas é até prejudicial, pois, ao ver uma extensão e uma discordância maior que aquela que realmente existe, a mente assusta-se. Por exemplo: ao ensinar a gramática grega, não há necessidade de repetir as definições dos nomes, dos verbos, dos casos, dos tempos, etc., ou as regras sintáticas que nada tragam de novo, etc., pois supõe-se que estas coisas já são sabidas. Exponham-se, portanto, apenas aquelas coisas em que a língua grega se afasta da latina, já conhecida. Então, será possível reduzir a gramática grega a algumas páginas; e tudo será mais distinto, mais fácil e mais sólido.

VII

15. Os primeiros exercícios de uma nova língua sejam acerca de matéria já conhecida.

Para que não seja necessário constranger a mente a dirigir os seus esforços, ao mesmo tempo, sobre as coisas e sobre as palavras, e, desse modo, a distrair-se e a enfraquecer-se, mas apenas sobre as palavras, para delas se assenhorar mais facilmente e mais rapidamente. Essa matéria poderá ser ou os capítulos do catecismo ou da história sagrada, ou, em suma, coisas já suficientemente conhecidas. (Ou então, se se quiser, o nosso Vestíbulo e a nossa Porta, embora estes dois livros, por causa da sua brevidade, sejam mais adaptados a ser aprendidos de cor, ao passo que os outros são mais adaptados para serem lidos e relidos, pois freqüentemente ocorrem as mesmas palavras, que assim melhor se insinuam na inteligência e na memória).

VIII

16. Todas as línguas podem, portanto, aprender-se por um só e mesmo método.

Isto é, podem aprender-se pela prática, com a adição de regras facílimas, que mostrem apenas a diferença que medeia entre a língua conhecida primeiro e aquela que se quer estudar; e com a adição de exercícios feitos sobre matérias conhecidas, etc.

DAS LÍNGUAS QUE SE DEVEM APRENDER
DE MODO PERFEITO

A prática exige que apenas se aprendam de modo quase perfeito duas línguas, e estas duas por quatro graus.

17. No princípio deste capítulo, advertimos que nem todas as línguas, que se aprendem, devem aprender-se com o mesmo esmero. À língua materna e à língua latina devemos consagrar um tal cuidado que acabemos por dominá-las perfeitamente. Em ordem a atingir este resultado, o estudo destas línguas deve ser distribuído por quatro idades:

— a primeira é a idade infantil, balbuciante, em que se aprende a falar de um modo qualquer;

— a segunda é a idade pueril, crescente, em que se aprende a falar com propriedade;

— a terceira é a idade juvenil, florida, em que se aprende a falar com elegância;

— a quarta é a idade viril, vigorosa, em que se aprende a falar com rigor.

Porquê assim?

18. Efetivamente, não se pode andar para a frente com sucesso senão por graus; de outro modo, tudo será confuso, desarticulado e cheio de lacunas, como a maioria de nós experimentámos em nós próprios. Além disso, os estudantes de línguas podem ser conduzidos facilmente através destes quatro graus, se os instrumentos para ensinar as línguas forem excelentes, ou seja, se tanto os livros didáticos, para serem postos nas mãos dos alunos, como os livros informativos, compilados para uso dos professores, são, uns e outros, breves e metódicos.


Os livros para ensinar uma língua devem ser de quatro espécies.

19. Os livros didáticos, conforme os graus da idade, devem ser quatro.

I. O Vestíbulo
II. A Porta
III. O Palácio
IV. O Tesouro

Da língua
(por exemplo da língua latina),
com os seus livros auxiliares

I. O Vestíbulo

20. O Vestíbulo deve conter matéria para balbuciantes, algumas centenas de vocábulos ligados em forma de pequenas frases, tendo anexas as tábuas das declinações e das conjugações.

II. A Porta.

21. A Porta deve conter todas as palavras mais usadas da língua, cerca de oito mil, reunidas sob a forma de pequenas frases, que exprimam ao vivo as coisas, na sua situação natural. Deve, além disso, ter anexas breves e claríssimas regras gramaticais, que ensinem, de modo fácil e simples, a maneira autêntica e genuína de escrever e de pronunciar as palavras, e de formar e construir as frases dessa língua.

III. O Palácio.

22. O Palácio deve conter vários trechos acerca de todas as coisas, cheios de todo o gênero de frases e de flores de elegância, com notas marginais que indiquem de que autor foi tirado cada um dos escritos. No fim, acrescentam-se as regras para variar e colorir de mil maneiras as frases e os pensamentos.

IV. O Tesouro de autores.

23. Dá-se o nome de Tesouro aos autores clássicos que escreveram, com gravidade e vigor, acerca de qualquer assunto. Deve ser precedido das regras sobre a investigação e a escolha das partes mais vigorosas de um discurso, assim como sobre a tradução exata dos idiotismos (o que é uma das regras mais importantes a observar). Escolham-se alguns destes autores para ler nas escolas; dos outros, faça-se um catálogo para que se, mais tarde, a algum aluno surgir a ocasião ou o desejo de percorrer os autores que tratam exaustivamente desta ou daquela matéria, saiba quais são esses autores.

Livros Auxiliares.

24. Dá-se o nome de livros auxiliares àqueles que ajudam a usar, de uma maneira mais rápida e com maior fruto, os livros didáticos. Tais são:

I

O vocabulário língua materna-latim e latim-materna, para o Vestíbulo [4].

II

Para a Porta, o dicionário etimológico latim-língua materna, com os radicais e os seus derivados e compostos, e apresentando a razão do seu significado[5].

III

Para o Palácio, o dicionário fraseológico língua materna-língua materna, latim-latim (e, se necessário, grego-grego), onde serão coordenadas as diferentes expressões, denominações e perífrases elegantes espalhadas no Palácio, com a indicação dos autores de que foram tiradas, onde isso ocorrer.

IV

Finalmente, o Tesouro será auxiliado ou reforçado por um prontudrio universal, que explique a riqueza de uma ou de outra língua (com a língua materna, a riqueza do latim; depois, com o latim, a riqueza do grego), de tal maneira que tudo aquilo de que se tem necessidade aí se possa encontrar, e que cada coisa esteja em perfeita correspondência, a fim de que seja possível traduzir as expressões próprias por palavras próprias, os pensamentos figurados por palavras figuradas, os termos humorísticos por termos humorísticos, os provérbios por provérbios, etc. Não é, com efeito, verosimil que exista uma língua materna tão pobre que não possua uma quantidade suficiente de palavras, de expressões e de provérbios que se não possam judiciosamente pôr em ordem e confrontar com os do latim; ou, com certeza, não há nenhuma língua materna que não possua essa quantidade de palavras, se se é suficientemente hábil na arte de imitar e de formar termos, derivando-os dos semelhantes das línguas semelhantes.

Não existe nenhum prontuário linguístico, além do do polaco G. Cnápio.

25. Um tal «Promptuarium» universal não existe, porém. É verdade que Rehor Knapaski, jesuíta polaco, prestou, neste domínio, um grande serviço ao seu povo, escrevendo a obra intitulada Tesouro polaco-latino-grego[6]. Mas, nesta obra de mérito, faltam estas três coisas: Primeira, ele não compilou todas as palavras e frases da língua pátria. Segunda, não as compilou segundo a ordem que indicámos, de modo a fazer corresponder (na medida do possível) um termo com outro termo, os termos próprios com os termos próprios, os figurados com os figurados, os arcaicos com os arcaicos, de modo a tornar-se patente, com igual claridade, o caráter, o esplendor e a riqueza de uma e outra língua. Com efeito, a cada palavra ou frase polaca, ele faz seguir um número maior de palavras e de frases latinas, ao passo que nós desejamos que a cada uma corresponda uma só, a fim de que todas as elegâncias dos latinos se transformem em elegâncias nossas; ou seja, a fim de que este prontuário sirva perfeitamente também para traduzir quaisquer livros do latim para a nossa língua, e vice-versa. Em terceiro lugar, desejaríamos ver no Tesouro de Cnápio maior cuidado na ordenação das frases em séries, ou seja, que não fossem amontoadas de qualquer maneira, mas que primeiro fossem apresentadas as fórmulas simples e históricas de exprimir as coisas; depois, as expressões mais elevadas da oratória; a seguir, as mais sublimes, as mais difíceis e mais insólitas da poética; e finalmente, as expressões desusadas.

26. Mas deixemos para outra ocasião a exposição completa acerca da estrutura desse Prontuário Universal, assim como também a exposição acerca do modo especial e do método de utilizar o Vestíbulo, a Porta, o Palácio e o Tesouro, para que se siga infalivelmente o resultado que pretendemos, isto é, a perfeição da língua. Discorrer acerca destas coisas, de modo pormenorizado, diz respeito à organização especial das classes.


Capítulo XXIII

MÉTODO
PARA ENSINAR A MORAL

Tudo o que dissemos até aqui é acessório. Chegamos finalmente ao essencial: a moral e a piedade.

1. Até aqui, mostrámos como se deve ensinar e aprender mais rapidamente as ciências, as artes e as línguas. A propósito destas coisas, vem-me à mente, e com razão, aquele dito de Sêneca (da Carta 89): «não devemos aprender estas coisas agora, mas devíamos tê-las aprendido»[1]. Sem dúvida, pois não são senão propedêuticas para coisas mais importantes; e, como ele diz: «os nossos trabalhos são rudimentos, e não obras acabadas». Quais são então as obras acabadas? O estudo da sabedoria que nos torne sublimes, fortes e magnânimos, ou seja, aquilo que, até aqui, indicámos com o nome de moral e de piedade, pois, por meio delas, nos elevamos verdadeiramente acima das outras criaturas e nos aproximamos mais de Deus.

Impõe-se necessariamenie reduzi-las a normas de arte.

2. Importa, portanto, esforçar-se, quanto possível, por estabelecer com exatidão a arte de incutir no nosso espírito a moral e a piedade autênticas, e por introduzi-las nas escolas, para que estas sejam verdadeiramente, como são chamadas, oficinas de homens.

Dezesseis cânones da moral.

3. A arte de formar os costumes tem dezesseis cânones principais.

I.

O primeiro é o seguinte: Deve implantar-se na juventude todas as virtudes, sem excetuar nenhuma.

Efetivamente, em matéria de retidão e de honestidade, não pode fazer-se nenhuma exceção, sem romper e perturbar a harmonia.

II.

4. Em primeiro lugar, importa plantar as virtudes fundamentais, a que se dá o nome de virtudes cardiais: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

Para que o edifício não seja levantado sem alicerces, e para que as partes, não bem ligadas entre si, não assentem mal sobre as suas próprias bases.

III.

5. A prudência adquire-se por uma boa instrução, aprendendo a conhecer as verdadeiras diferenças das coisas e o seu valor.

Com efeito, o exato juízo acerca das coisas é o verdadeiro fundamento de toda a virtude. São belas estas palavras de Vives: «A verdadeira sabedoria consiste em julgar as coisas com equidade, de modo que avaliemos cada coisa tal como ela é, para que não procuremos as coisas vis como se fossem preciosas, ou rejeitemos as coisas preciosas, como se fossem vis; para que não vituperemos as coisas dignas de louvor, nem louvemos as que merecem vitupério. Daqui, com efeito, nasce todo o erro na mente dos homens e todo o vício; e nada há, na vida humana, mais pernicioso que essa depravação dos juízos, pois não se dá às coisas o seu valor próprio. Habitue-se, por isso, o homem (continua Vives), desde pequenino, a ter opiniões exatas acerca das coisas, as quais opiniões cresçam juntamente com a idade. E apegue-se às coisas retas e fuja das más, para que este hábito de proceder bem se converta nele como que numa segunda natureza»[2].

IV.

6. Ensinem-se e habituem-se a observar a temperança no comer e no beber, no sono e na vigília, no trabalho e nos divertimentos, na palavra e no silêncio, durante todo o tempo da sua instrução e educação.

Para isso, é preciso recordar constantemente aos jovens esta regra de ouro: Nada em excesso! 3, a fim de que, em tudo, parem antes de atingirem a saciedade e o tédio.

V.

7. Aprendam a fortaleza vencendo-se a si mesmos, ou seja, dominando a paixão de discorrer, ou de se divertir fora ou além do tempo próprio, e refreando a impaciência, a murmuração e a ira.

O fundamento disto está em habituar os alunos a proceder sempre em conformidade com a razão e nunca em conformidade com as inclinações e com as paixões. Com efeito, o homem é um animal racional; portanto, habitue-se a guiar-se pela razão ao deliberar quais são as ações boas, porque as deve fazer e como as deve fazer; para que o homem seja verdadeiramente senhor dos seus atos. Mas, porque as crianças (ao menos, nem todas) não são ainda capazes de proceder assim deliberadamente e assim racionalmente, será de grande proveito que se lhes ensine a maneira de exercitar a fortaleza e de se dominarem a si mesmas, habituando-as a fazer de preferência a vontade dos outros que a própria, por exemplo, a obedecer, em tudo e sempre, aos superiores, com a máxima prontidão. «Aqueles que domesticam bem os cavalos, diz Lactâncio, antes de tudo ensinam-lhes a obedecer ao freio; portanto, quem quer instruir e educar crianças, habitue-as primeiro a prestar atenção ao que se lhes diz»[4]. Que grande esperança não haveria de transformar para melhor as confusões humanas, de que está inundado o universo, se, desde a primeira idade, todos se habituassem a fazer concessões mútuas e a proceder em tudo com base em razões válidas!

VI.

8. Aprendam a justiça, não fazendo mal a ninguém, dando a cada um o que é seu, fugindo da mentira e dos enganos, e mostrando-se prestáveis e amáveis.

Nesta virtude, como nas outras acima mencionadas, devem ser formados com os modos e métodos prescritos pelos cânones seguintes.

VII.

9. Há duas espécies de fortaleza: franqueza honesta e perseverança nas fadigas, as quais são muito especialmente necessárias à juventude.

Efetivamente, porque a vida se deve passar a conversar e a trabalhar, importa ensinar às crianças a não ter medo nem das faces humanas nem de nenhum trabalho honesto, a fim de que se não tornem ou morcegos ou misantropos (<grego>), mandriões[5] e pesos inúteis sobre a terra[6]. A virtude cultiva-se com atos, e não com palavras.

VIII.

10. A franqueza honesta adquire-se conversando freqüentemente com pessoas honestas e executando perante elas qualquer missão recebida.

Aristóteles educou Alexandre de tal maneira que, aos doze anos, este sabia tratar com pessoas de todas as condições, com reis, com embaixadores de reis e de povos, com sábios e com ignorantes, com citadinos, camponeses e artesãos; e, sobre qualquer assunto, interrogava ou respondia com sensatez. Para que, na nossa educação universal, se ensine a todos a imitar com êxito Alexandre, será necessário escrever regras de conversação e fazê-las pôr em prática, habituando os alunos a conversar modestamente e a raciocinar todos os dias acerca de várias coisas, com os professores, com os condiscípulos, com os pais, com os criados e com outras pessoas. Finalmente, os professores deverão estar atentos, e, se notarem em algum aluno um pouco de preguiça ou de temeridade, de grosseria ou de teimosia, etc., deverão chamá-lo ao bom caminho.

IX.

11. Os jovens adquirirão a perseverança no trabalho, se fizerem sempre qualquer coisa, ou a sério ou como divertimento.

Efetivamente, desejando nós mantê-los ocupados, nada importa que façam uma coisa ou outra, com este ou com aquele fim, desde que façam qualquer coisa. Quando o momento e as circunstâncias o exigem, mesmo dos gracejos se podem tirar ensinamentos sérios e úteis. Assim como se aprende a fazer fazendo (como vimos já)[7], assim também se aprende a trabalhar trabalhando, de modo que as contínuas ocupações do espírito, e do corpo (moderadas, bem entendido) se transformem em energia e tornem intolerável ao homem laborioso a ociosidade estéril. Então, será verdadeiro aquilo que Sêneca diz: «O trabalho alimenta os espíritos fortes»[8].

X.

12. Entre as primeiras, é necessário incutir no espírito das crianças uma virtude irmã da justiça: a solicitude e o desvelo em servir os outros.

Efetivamente, é inerente à nossa natureza corrupta um grave vício, o egoísmo (<grego>), que impele cada um a desejar apenas o seu próprio bem-estar, sem se preocupar com o que acontece aos outros. Ora este vício é fonte de várias confusões nas coisas humanas, pois cada um se afana com os seus próprios negócios, sem olhar ao bem público. Importa, por isso, inculcar na juventude o objetivo da nossa vida, ou seja, que não nascemos apenas para nós, mas também para Deus e para o próximo, isto é, para a comunidade do gênero humano, a fim de que as crianças, seriamente persuadidas desta verdade, se habituem, desde pequeninas, a imitar Deus, os anjos, o sol, etc. e todas as outras criaturas mais generosas, isto é, desejem e se esforcem por ajudar, com os seus serviços, o maior número possível de pessoas. Assim, finalmente, a situação das coisas privadas e das coisas públicas seria feliz, se todos soubessem e quisessem cooperar nos interesses comuns e em tudo e sempre ajudar-se mutuamente. Os homens instruídos sabem e querem fazer assim.

XI.

13. A formação das virtudes deve começar desde a mais tenra idade, antes que os espíritos tenham contraído vícios.

Efetivamente, se num campo se não semeiam sementes boas, ele produzirá com certeza ervas. Mas que ervas? Cizânia e joio. Ora, se é uma alma que se deve cultivar, ela cultivar-se-á mais facilmente e com mais fundadas esperanças numa messe abundante, se for lavrada, semeada e sachada, logo no princípio da primavera. É muito importante habituar bem as crianças, desde a mais tenra idade[9], pois, «se um odor consegue infiltrar-se num vaso novo. aí permanece durante muito tempo»[10].

XII.

14. As virtudes aprendem-se, praticando constantemente ações honestas.

Vimos, com efeito, nos capítulos XX e XXI, que se aprende a conhecer conhecendo, e a fazer fazendo. Portanto, assim como as crianças aprendem facilmente a caminhar caminhando, a falar falando, a escrever escrevendo, etc., assim também aprenderão a obediência obedecendo, a abstinência abstendo-se, a veracidade dizendo a verdade, a constância sendo constantes, etc., desde que não falte quem lhes abra o caminho, com palavras e com exemplos.

XIII.

15. Os pais, as amas, os professores e os condiscípulos dêem exemplos de vida disciplinada, que, como faróis, brilhem sempre diante das crianças.

Com efeito, as crianças são macaquinhos impacientes por imitar tudo o que vêem, o bem como o mal, sem que seja preciso mandar-lho; por isso, aprendem a imitar antes de aprender a conhecer. É evidente, porém, que devem ser postos diante das crianças tanto exemplos vivos, como exemplos históricos, mas principalmente exemplos vivos, pois deixam impressões mais fortes e mais duradouras. Se, portanto, os pais forem probos e fiéis guardiões da disciplina doméstica, e os professores forem realmente homens de eleição, admiráveis pelos seus costumes, teremos o meio maravilhoso de impelir fortemente os alunos para uma vida honesta.

XIV.

16. Aos exemplos deve acrescentar-se, porém, preceitos e regras de vida.

Isto é necessário para corrigir, ajudar e reforçar a imitação. (Veja-se de novo o que foi dito no capítulo XXI, regra IX). Esses preceitos irão buscar-se à Sagrada Escritura e às máximas dos sábios. Por exemplo: porquê e como devemos preservar-nos da inveja? Com que armas devemos premunir o coração contra as dores e contra qualquer infelicidade que acaso possa cair sobre um homem? Como devemos moderar as alegrias? De que maneira se deve dominar a ira, afastar um amor ilícito, e outras coisas semelhantes? É fácil de entender que deve ter-se em conta a idade e o grau de progresso.

XV.

17. É indispensável defender, com a máxima diligência, as crianças das más companhias, para que não sejam contagiadas por elas.

Efetivamente, por causa da corrupção da nossa natureza, o mal acomete-nos, não só mais facilmente, mas também mais tenazmente. Importa, portanto, com todo o cuidado, manter longe da juventude todas as ocasiões de corrupção, como são as más companhias, as conversas grosseiras, as leituras frívolas e fúteis (pois os exemplos de vícios que se infiltram, quer pelos ouvidos, quer pelos olhos, são veneno para os espíritos); e, finalmente, a ociosidade, para que as crianças, estando sem fazer nada, não aprendam a fazer mal[11] ou se deixam invadir pelo torpor da alma. Será bom, portanto, mantê-los sempre ocupados, quer em coisas sérias, quer em divertimentos. O essencial é que nunca se deixem entregues à ociosidade.

XVI.

18. E porque é quase impossível ter tal clarividência que se impeça que qualquer bocadinho de mal se insinue entre as crianças, é necessária a disciplina para fazer barreira aos maus costumes.

Efetivamente, o nosso inimigo, Satanás, não só nos vigia enquanto dormimos, mas também quando estamos acordados e semeamos a boa semente nos campos da inteligência, para aí espalhar a sua cizânia; e enfim, a nossa própria natureza corrupta espreita furtivamente, aqui e além, de modo que é necessário impedir a passagem do mal com a força. Impede-se a passagem do mal com a disciplina, isto é, com repreensões e castigos, com palavras e com vergastadas, segundo os casos, mas sempre quando o fato ainda está fresco, a fim de que a planta do vício seja sufocada imediatamente apenas desponta, ou melhor, se possível, seja arrancada. Portanto, nas escolas, a disciplina deve ser severa, não tanto por causa das letras (as quais, ensinadas com um bom método, são delícias e atrativos para a inteligência humana), como por causa dos costumes.

Mas, acerca da disciplina, falaremos ainda no capítulo XXVI.


Capítulo XXIV

MÉTODO
PARA INCUTIR A PIEDADE

Se o espírito de piedade se pode ensinar metodicamente, como uma arte.

1. Embora a piedade seja um dom de Deus, e seja dada pelo céu, por obra e graça do Espírito Santo, uma vez, porém, que Este ordinariamente opera através dos meios ordinários, e assim escolhe para seus ministros os pais, os professores e os sacerdotes que, com cuidado fiel, devem plantar e regar as arvorezinhas do paraíso (Coríntios, I, 3, 6, 8), é justo que estes entendam a razão do seu ofício.

Que se entende por piedade.

2. Que significa para nós a palavra piedade, já o mostrámos atrás[1], isto é, que o nosso coração (depois de embebido de um sentimento reto em matéria de fé e de religião) saiba, por toda a parte, procurar Deus (a quem a Sagrada Escritura chama rei escondido (Isaías, 45, 15) e rei invisível (Hebreus, II, 27), isto é, aquele que se cobre com o véu das suas obras, e, estando presente invisivelmente em todas as coisas visíveis, invisivelmente as rege); e, tendo-o encontrado, saiba segui-lo por toda a parte; e, tendo chegado até Ele, saiba gozá-lo para sempre.

Três coisas.
1.2.3.

Ao primeiro intento, chega-se com a inteligência; ao segundo, com a vontade; e ao terceiro, com a satisfação da consciência.

Significado destas três coisas.

3. Procuramos Deus, observando através de toda a criação os vestígios da divindade. Seguimos Deus, entregando-nos inteiramente e em todas as coisas, à sua vontade, tanto para fazer como para sofrer tudo o que lhe agradar. Gozamos Deus, repousando no seu amor e no seu favor, de modo que, quer no céu quer na terra, nada exista para nós de mais desejável que o próprio Deus, nada de mais belo que pensar n’Ele, nada de mais doce que louvá-lo; e com tal intensidade que o nosso coração arda de amor por Ele.

Três fontes e, conseqüentemente, três graus de beber.

4. Há para nós três fontes onde bebemos este amor, e três modos ou graus de o beber.

A fonte é a tríplice Palavra de Deus: feita, escrita e inspirada.

5. As fontes são a Sagrada Escritura, o mundo e nós mesmos: na primeira, encontram-se as palavras de Deus, no segundo as obras e em nós os instintos. É para nós fora de dúvida que, pela Sagrada Escritura, se chega ao conhecimento e ao amor de Deus. Que através do mundo e da inteligente contemplação das suas maravilhas, que são obras de Deus, sejamos levados a sentir piedade para com Ele, dão-nos disso testemunho até os pagãos, os quais, apenas a partir da contemplação do mundo, foram levados à veneração da divindade, como é evidente pelo exemplo de Sócrates, de Platão, de Epiteto, de Sêneca e de outros, embora aquele seu sentimento de amor fosse imperfeito e se desviasse do seu objetivo, pois então os homens não eram ajudados por uma especial revelação divina. Mas que aqueles que se esforçam por atingir o conhecimento de Deus, através da sua Palavra e das suas obras, se inflamam de um amor ardentíssimo, é evidente pelo exemplo de Job, de Eliú[2], de David e de outras almas piedosas. E neste momento, convém observar a particular providência de Deus para conosco (o modo maravilhoso como nos formou, nos conservou até agora e nos governa), como o mostram, com o seu exemplo, David (Salmo 139)[3] e Job (cap. 10).

Tríplice modo de beber nas três fontes.

6. O modo de haurir a piedade destas três fontes é tríplice: a meditação, a oração e a tentação[4]. O eminente Lutero disse que estas três coisas fazem teólogo; mas também o cristão em geral, só estas três coisas o podem fazer.

I. Meditação.

7. A meditação é a consideração freqüente, atenta e devota das obras, das palavras e dos benefícios de Deus, e de como tudo provém de Deus (que opera ou permite) e de como, por caminhos maravilhosos, todos os desígnios da vontade divina são exatamente realizados.

II. Oração.

8. A oração é a freqüente e, de certo modo, contínua aspiração para Deus, e a imploração da sua misericórdia, para que nos conserve e nos governe com o seu espírito.

III. Tentação.

9. Finalmente, a tentação é a freqüente exploração do nosso progresso na piedade, quer seja feita por nós próprios, quer seja feita por outros, e a que, a seu modo, pertencem as tentações humanas, diabólicas e divinas. Com efeito, o homem deve tentar-se constantemente a si mesmo, para ver se tem fé (Corintios, II, 13, 5) e para ver com que solicitude faz a vontade de Deus; e tem necessidade de ser posto à prova pelos homens, amigos e inimigos. Isto acontece quando aqueles que presidem devotamente aos outros se põem a explorar, com vigilante atenção e com investigações abertas ou ocultas, os progressos realizados, e quando Deus nos coloca ao lado um adversário, que nos ensine a refugiarmo-nos em Deus e nos mostre qual a força da fé que em nós existe. Finalmente, Deus costuma lançar também o próprio Satanás, ou até Ele mesmo insurgir-se contra o homem, para que se manifeste o que se encontra no seu coração. Todas estas coisas, portanto, devem ser incutidas na juventude cristã para que ela se habitue a elevar-se para Deus através de tudo o que existe, de tudo o que acontece e de tudo o que virá a acontecer, e a procurar a paz da alma somente n’Aquele que é a primeira e a mais perfeita de todas as coisas.

O método da piedade encerra-se em 21 cânones.

11. O método especial para ensinar as coisas que dizem em respeito à piedade está contido nos vinte e um cânones seguintes:

I.

I. O cuidado para incutir a piedade comece nos primeiros anos da infância.

Deve começar-se nos primeiros anos da infância, tanto porque não adiar tal cuidado é útil, como porque adiá-lo é perigoso. A própria razão nos mostra que as primeiras coisas devem ser feitas primeiro, e as melhores melhor. E que coisa pode estar primeiro ou é melhor que a piedade? Sem ela, qualquer outra atividade serve para pouco, ao passo que ela tem as promessas da vida presente e da vida futura (Timóteo, I, 4, 8). Uma só coisa é necessária (Lucas 10,42): procurar o reino de Deus, pois, a quem se preocupa com isso, tudo o resto lhe será dado por acréscimo (Mateus, 6, 33). É perigoso adiá-lo, pois, se os ânimos se não embebem do amor de Deus, quando são ainda tenros, facilmente, na vida prática, vivida durante algum tempo sem respeito pela divindade, se insinua em tácito desprezo pela mesma divindade e um espírito profano, que, depois, só com muita dificuldade, se arrancam, e, em certos casos, nunca mais é possível arrancar. Por isso, um profeta, lamentando o horrendo dilúvio de impiedade que havia invadido o seu povo, disse que já não havia ninguém a quem Deus ensinasse, a não ser «aos meninos acabados de desquitar, aos que acabam de ser desmamados» (Isaías, 28, 9). Acerca dos outros, um outro profeta disse que «não podem corrigir-se de modo a praticarem o bem, pois estão acostumados a fazer o mal» (Jeremias, 13, 23).

II.

11. Portanto, logo que começam a servir-se dos olhos, da língua, das mãos e dos pés, aprendam as criancinhas a olhar os céus, a erguer as mãos, a pronunciar o nome de Deus e de Cristo, e ajoelhar-se diante da sua invisível majestade e a venerá-la.

As criancinhas não são tão incapazes de aprender estas coisas, como o imaginam aqueles que, não atendendo a quanto é necessário fugir de Satanás, do mundo e nós mesmos, ministram um ensino de tamanha importância com grande negligência. Embora, a princípio, as crianças, uma vez que têm o uso da razão débil, não entendam bem o que significam aqueles atos religiosos, todavia, é de primária importância que saibam que devem fazer aquilo que, precisamente pela prática, aprendem que devem fazer. Efetivamente, depois de, à força de fazerem, terem aprendido aquilo que devem fazer, o que vem imediatamente a seguir poderá mais facilmente incutir-se no seu coração, de modo que comecem a entender que atos são aqueles que praticam, porque os praticam, e de que modo devem ser praticados. Deus ordenou, por meio de uma lei, que todas as primícias lhe fossem consagradas[5]; porque é que então se lhe não hão-de consagrar as primícias dos nossos pensamentos, das nossa palavras balbuciadas, dos nossos movimentos e ações?

III.

12. Logo que as crianças têm idade suficiente para serem ensinadas, deve, antes de tudo, infundir-se-lhes a convicção de que não estamos no mundo por causa desta vida, mas que caminhamos para a eternidade, e que aqui estamos apenas de passagem, para nos prepararmos convenientemente para entrarmos dignamente nas moradas eternas.

Isto pode ensinar-se facilmente, com os exemplos quotidianos daqueles que são arrebatados pela morte e passam para a outra vida: crianças, adolescentes, jovens e velhos. Recordem-se-lhes freqüentemente estas coisas, para que se lembrem que ninguém pode permanecer para sempre aqui na terra.

IV.

13. Conseqüentemente, advirtam-se de que, neste mundo, nada mais temos a fazer que prepararmo-nos para a vida que há-de vir.

Aliás, seria uma loucura ocuparmo-nos de coisas que bem depressa temos de abandonar, e descurarmos aquelas que nos acompanharão até à eternidade.

V.

14. Ensine-se ainda às crianças que há duas espécies de vida, para onde emigram os homens: uma feliz com Deus, e outra infeliz no inferno; e ambas são eternas.

Ensine-se isto com o exemplo de Lázaro e do ricaço, cujas almas foram levadas, a do primeiro pelos anjos para o céu, a do segundo pelos demônios para o inferno[6].

VI.

15. Ensine-se-lhes, pois, que são felizes, mil vezes felizes[7], aqueles que na terra regulam a sua vida de modo a serem considerados dignos de passarem para o seio de Deus.

Efetivamente, fora de Deus, fonte de luz e de vida, não há senão trevas, horrores, tormentos e morte perpétua, sem fim; de modo que teria sido melhor não terem nascido aqueles que virão a afastar-se de Deus e a precipitar-se no precipício da ruína eterna.

VII.

16. Que passarão para o seio de Deus todos aqueles que, neste mundo, caminham com Deus. (Como Enoch e Elias, ambos ainda em vida; os outros, depois da morte — Gênesis, 5, 24, etc.).

VIII.

17. Que caminham com Deus aqueles que o têm diante dos olhos, o temem e observam os seus mandamentos.

E isto é o essencial do homem (Totum Hominis) (Eclesiastes, 12, 13), aquilo que Cristo disse ser «a única coisa necessária» (Lucas, 10,42). Ensinem-se todos os cristãos a ter sempre na boca e no coração esta verdade, a fim de que, com Marta, não se preocupem demasiado com os cuidados desta vida.

IX.

18. Portanto, tudo aquilo que as crianças vêem, ouvem, tocam, fazem e sofrem, habituem-se a referi-lo a Deus, imediatamente ou mediatamente.

Ilustremos isto com exemplos: aqueles que se dedicam aos estudos e à vida contemplativa, devem fazê-lo precisamente para contemplarem o poder, a sabedoria e a bondade de Deus, difundidas por toda a parte, e para assim se inflamarem de amor por Ele, e, por amor, se apegarem a Ele cada vez mais fortemente, de modo a nunca mais se desligarem, eternamente. Aqueles que se entregam aos trabalhos materiais, à agricultura, aos trabalhos manuais, etc., procuram o pão e as outras coisas necessárias à vida, mas procuram-nas precisamente para viverem comodamente, e devem viver comodamente para servirem a Deus com alma tranqüila e alegre, e para lhe agradarem, servindo-O, e para estarem eternamente com Ele, agradando-Lhe. Aqueles que fazem estas coisas com outro fim, erram e afastam-se da intenção do próprio Deus.

X.

19. Aprendam, pois, desde o princípio da vida, a ocuparem-se, o mais que possam, nas coisas que conduzem imediatamente a Deus: na leitura das Sagradas Escrituras, nos exercícios do culto divino e nas boas obras corporais.

Efetivamente, a leitura das Sagradas Escrituras excita e reaviva a recordação de Deus; o exercício do culto divino coloca Deus diante do homem e une-o a ele; as boas obras reforçam esta união, porque mostram-nos que verdadeiramente caminhamos pelos caminhos ensinados por Deus. Estas três práticas religiosas devem recomendar-se seriamente a todos os candidatos a uma vida piedosa (quais são todos os jovens cristãos, consagrados a Deus pelo batismo).

XI.

20. Por isso, que a Sagrada Escritura seja, nas escolas cristãs, o Alfa e o Omega.

Hyperius disse que o teólogo nasce na Escritura[8], e nós vemos que o Apóstolo S. Pedro estendeu muito mais a eficácia dos livros sagrados, dizendo que «os filhos de Deus nascem de uma semente incorruptível, pela palavra do Deus vivo, que permanece eternamente» (Pedro, I, 1, 23). Portanto, nas escolas cristãs, com este livro de Deus, mais que com todos os outros livros, a exemplo de Timóteo, todos os jovens cristãos, instruídos desde pequeninos nas Sagradas Escrituras, adquiram a sabedoria que os conduzirá à salvação (Timóteo, II, 3, 15), alimentados com as palavras da fé (Timóteo, I, 4, 6). Já no seu tempo, Erasmo discorreu belamente sobre este assunto na sua «Paraclesis», ou seja, na Exortação ao estudo da filosofia cristã. «A Sagrada Escritura, diz, adapta-se igualmente bem a todos, abaixa-se até às criancinhas, acomoda-se ao seu modo de viver, alimentando-as com leite, aquecendo-as, sustentando-as, tudo fazendo até que se tornem grandes em Cristo. E, entretanto, assiste de tal maneira aos mais pequenos, que é admirável mesmo para os maiores: com os pequenos é pequena, com os grandes é mais que grande. Não rejeita nenhuma idade, nenhum sexo, nenhuma fortuna, nenhuma condição. O sol, portanto, não é tão comum e tão fruível por todos como a doutrina de Cristo. Não repele absolutamente ninguém, a não ser que esse mesmo se repila a si, odiando-se a si próprio», etc.[9]. E acrescenta: «Prouvera a Deus que a Bíblia fosse traduzida em todas as línguas de todos os povos, para que pudesse ser lida e conhecida, não só pelos escoceses e pelos irlandeses, mas também pelos turcos e pelos sarracenos. Poderia acontecer que muitos se rissem, mas alguns ficariam encantados. Oxalá os camponeses, à rabiça do arado, cantem alguns versículos, oxalá os tecelões acompanhem qualquer trecho ao som da lançadeira; oxalá o viajante suavize a dureza do caminho com as narrações bíblicas; e que todas as conversas dos cristãos sejam sobre temas da Bíblia! Com efeito, nós somos aquilo que forem as nossas conversas quotidianas. Cada um chegue onde pode, cada um diga o que pode. Quem vem atrás não inveje aquele que vai à frente; aquele que está em primeiro lugar encoraje o que o segue, e não o despreze. Porque restringimos a poucos uma profissão comum a todos?»[10]. E perto do fim: «Todos quantos jurámos no batismo sobre as palavras de Cristo (se acaso jurámos com toda a alma), logo entre os abraços dos pais e entre as carícias das amas, embebemo-nos dos princípios de Cristo. Com efeito, penetram profundíssimamente e permancem tenacíssimamente agarradas as primeiras coisas de que se embebe o virgem vaso da alma. Que a primeira palavra que se aprenda a balbucinar seja Cristo; e que, com os seus Evangelhos, se forme a primeira infância: desejaria que estas coisas lhe fossem ensinadas entre as primeiras, para que fossem amadas pelas crianças. Dediquem-se, depois, as crianças aos estudos bíblicos, até que, com tácitos progressos, se transformem em homens robustos em Cristo. Feliz aquele que a morte encontra com a Bíblia na mão! Todos, portanto, amemo-la com todo o coração, abracemo-nos a ela, dediquemo-nos continuamente a ela, beijemo-la e, finalmente, morramos por ela e transformemo-nos nela, pois os costumes identificam-se com os estudos, etc.»[11]. O mesmo Erasmo, no Compêndio de Teologia, diz: «Não fiz uma ação de insensato aprendendo à letra os livros sagrados, mesmo aqueles que não entendia, como diz Santo Agostinho, etc.»[12]. Nas escolas cristãs, portanto, não ressoem os nomes nem de Plauto, nem de Terêncio, nem de Ovídio, nem de Aristóteles, mas os de Moisés, de David e de Cristo. Pense-se no modo de tornar a Bíblia tão familiar como o alfabeto à juventude consagrada a Deus (efetivamente, todos os filhos dos cristãos são santos — Coríntios, I, 7, 14). Com efeito, assim como todo o discurso é constituído por sons e por letras, assim também, dos elementos da Sagrada Escritura, se ergue toda a estrutura da religião e da piedade.

XII.

21. Que tudo o que se aprende através da Escritura se refira à fé, à caridade e à esperança. Estas três virtudes são, com efeito, os três máximos fundamentos a que se referem todas as coisas que a Deus aprouve manifestar-nos com as suas palavras. Efetivamente, certas coisas revela-as, para que as saibamos; outras ordena-as, para que as façamos; outras ainda promete-as, para que as esperemos da sua benignidade, nesta vida e na vida futura. E em toda a Sagrada Escritura nada se encontra que se não refira a qualquer destes assuntos. Ensinem-se, portanto, estas coisas a todos, para que saibam conscientemente mover-se dentro dos desígnios divinos.

XIII.

22. Ensine-se a pôr em prática a fé, a caridade e a esperança.

É necessário, com efeito, formar cristãos práticos, e não teóricos, desde os primeiros anos da sua formação, se queremos ter verdadeiros cristãos. A religião é viva, e não pintada; por isso, mostre os efeitos da sua vitalidade, como uma semente viva que, lançada em bom terreno, logo germina. É por isso que a Sagrada Escritura exige uma fé eficaz (Gálatas, 5, 6) e, se é privada de eficácia, chama-lhe morta (Tiago, 2, 20), e quer também uma esperança viva (Pedro, I, 1, 3). Daí que apareça, freqüentes vezes, na Escritura, a advertência de que as coisas reveladas pela divina providência são reveladas para que as façamos. Cristo diz: «Se sabeis estas coisas, sereis felizes se as fizerdes» (João, 13, 17).

XIV.

23. Ensinar-se-á a pôr adequadamente em prática a fé, a caridade e a esperança, se se ensinar às crianças (e a todos) a acreditar firmemente no que Deus revela, a cumprir o que Ele ordena e a esperar o que Ele promete.

Importa fazer notar e inculcar com diligência na mente dos jovens que, se querem que a palavra de Deus infunda neles a virtude de se salvarem, devem ter um coração humilde e devoto, sempre e por toda a parte preparado a submeter-se em tudo a Deus; mais ainda: um coração já efetivamente entregue a Deus. Com efeito, assim como o sol, com a sua luz, nada revela a quem não quer abrir os olhos, e os alimentos, colocados sobre a mesa, não saciam aquele que se recusa a comer, assim também a luz divina, ministrada à nossa mente, e as normas dadas às nossas ações e a beatitude prometida às pessoas tementes a Deus serão vãs, se as não abraçarmos com fé pronta, com caridade ardente e com esperança firme. Desta maneira, Abraão, pai dos crentes, tendo fé nas palavras de Deus, acreditava mesmo em coisas incríveis para a razão humana; e, cumprindo as ordens de Deus, fazia coisas duríssimas para o seu coração (como foi deixar a pátria, sacrificar o filho, etc.); e, forte com as promessas de Deus, esperava onde não havia motivo para esperar[13]. Todavia, esta fé, viva e eficaz, foi-lhe justamente tida em consideração. E assim, importa ensinar, a todos aqueles que se entregam a Deus, a fazer a experiência desta regra em si mesmos e a observá-la constantemente.

XV.

24. Mesmo tudo aquilo que se ensina à juventude cristã após a Sagrada Escritura (Ciências, Artes, Línguas, etc.), seja-lhe ensinado subordinadamente às Sagradas Escrituras, precisamente para que ela possa, por toda a parte, notar e ver claramente que tudo é mera vaidade, se se não refere a Deus e à vida futura.

Sócrates é louvado pelos antigos, porque conduziu a filosofia, das especulações nuas e espinhosas, para os problemas morais; e os Apóstolos propuseram-se trazer os cristãos, das espinhosas questiúnculas da Lei, para a doce caridade de Cristo (Timóteo, I, 1, 5, 6, 7, etc.); e, da mesma maneira, alguns piedosos teólogos modernos procuraram arrancá-los de complicadas controvérsias, que servem mais para destruir que para edificar a Igreja, para os levarem a preocuparem-se com os problemas da consciência e da vida prática. Oh! que Deus, tendo misericórdia de nós, nos faça encontrar um modo e um método geral, capaz de nos ensinar a voltar para Deus todas as coisas que estão fora de Deus, e de que se ocupa a inteligência humana, e a voltar para o estudo das coisas celestes todas as ocupações desta vida, nas quais se embaraça e se imerge o mundo! Assim teríamos uma espécie de escada sagrada, pela qual, mediante todas as coisas que existem e que se fazem, as nossas mentes subiriam, sem obstáculo, até ao supremo e eterno senhor de todas as coisas, fonte da verdadeira felicidade[14].

XVI.

25. Ensine-se a todos a assistir religiosamente ao culto divino, tanto interno como externo; para que o culto interno, sem o externo, não arrefeça; e o externo, sem o interno, não degenere em hipocrisia.

O culto externo de Deus consiste em falar de Deus, em pregar e ouvir a sua palavra, em adorá-lo de joelhos, em cantar hinos de louvor, em freqüentar os sacramentos e em observar os outros ritos sagrados, públicos e privados. Por sua vez, o culto interno de Deus consiste em pensar continuamente que Deus está presente, em temer e em amar a Deus, em renunciarmos a nós mesmos e em entregarmo-nos nas mãos de Deus, ou seja, na vontade pronta de fazer e de sofrer tudo o que agrada a Deus. Estes dois cultos devem juntar-se e não separar-se: não somente porque é justo que Deus seja glorificado pelo nosso corpo e pelo nosso espírito, que lhe pertencem (Coríntios, I, 6, 20), mas também porque os não podemos separar sem os perigo. Com efeito, Deus abomina os ritos externos, sem verdade interna: «quem pediu tais ofertas às vossas mãos?, etc.» (Isaías, I, 12 e noutros lugares). Porque Deus é espírito, quer ser adorado em espírito e verdade (João, 4, 24). Mas, como nós não somos meramente espirituais, mas também corporais e dotados de sentidos, é necessário, por conseqüência, excitar os nossos sentidos a fazer externamente aquilo que se deve fazer internamente em espírito e verdade. Precisamente por isto, Deus, embora exija sobretudo práticas internas, ordenou, todavia, ao mesmo tempo, práticas externas, e quer que sejam observadas. O próprio Cristo, embora libertasse das cerimônias o culto prescrito no Novo Testamento, e ensinasse que se deve adotar a Deus em espírito e verdade, todavia, adorava o Pai com a face por terra e prolongava essa adoração por noites inteiras, freqüentava as reuniões sagradas, ia ouvir os Doutores da Lei e interrogava-os, pregava a palavra de Deus, cantava hinos, etc. Portanto, ao formarmos a juventude para a religião, formemo-la por inteiro, externamente e internamente, para não formarmos hipócritas, ou seja, cultores de Deus superficiais, fingidos e simuladores, ou então fanáticos, que se deleitam nos seus sonhos e, desprezando o ministério externo, dissolvem a ordem e o decoro da Igreja; ou ainda gente fria, se as práticas externas não estimulam as internas, e as práticas internas não reavivam as externas.

XVII

26. As crianças devem ser diligentemente habituadas às obras externas, ordenadas por Deus, para que saibam que o verdadeiro cristianismo está em demonstrar a sua fé com obras.

Essas obras consistem em exercitar, sem interrupção, a temperança, a justiça, a misericórdia e a paciência, pois, se a nossa fé não produz estes frutos, demonstra que está morta (Tiago, 2, 17). Ora ela deve ser viva, se quer ser salvadora.

XVIII

27. Ensine-se-lhes também a distinguir acuradamente os fins dos benefícios e das condenações de Deus, para que saibam fazer bom uso de todas as coisas, e não façam mau uso de nada.

Fulgêncio (Carta 2 a Galla) divide os benefícios de Deus em três espécies[15]. Diz que alguns duram eternamente, que outros servem para adquirir a eternidade, e que outros ainda se utilizam apenas na vida presente. Os da primeira espécie são: conhecimento de Deus, alegria no Espírito Santo e caridade de Deus, a qual se difunde nos nossos corações. Da segunda espécie são a fé, a esperança e a misericórdia para com o próximo. Da terceira espécie são a saúde, as riquezas, os amigos e outros bens exteriores que, por si mesmos, não nos tornam nem felizes nem infelizes.

Do mesmo modo, ensine-se que as condenações de Deus, isto é, os seus castigos, são de três espécies. Alguns (aos quais Deus estabeleceu poupar eternamente) são castigados neste mundo e transportam a sua cruz para que se tornem puros e brancos (Daniel, 11, 35; Apocalipse, 7, 14), como Lázaro; outros são poupados neste mundo, para serem castigados eternamente, como o rico comilão[16]; os sofrimentos de outros começam aqui na terra, para serem prolongados eternamente, como os de Saúl, de Antíoco, de Herodes, de Judas e de outros. Ensine-se, portanto, aos homens a distinguir todas as coisas, para que não aconteça que, enganados pelos bens sensíveis, prefiram os bens que são apenas temporais, e para que aprendam a recear, não tanto os males presentes, como o inferno, e a temer sobretudo, não aqueles que apenas podem atingir o corpo, mas aquele que pode não só perder o corpo, mas também levar a nossa alma para o inferno (Lucas, 12, 4 e 5)

XIX

28. E advirtam-se as crianças de que o caminho mais seguro da vida é o caminho da cruz, e que, precisamente por isso, foi por ela que o Mestre, Cristo, saiu desta vida, o qual convidou os outros a seguirem por esse caminho, e por ele conduz aqueles a quem quer melhor.

O mistério da nossa salvação foi realizado na Cruz, é feito de Cruz, na qual é crucificado o velho Adão, para que viva o novo, criado segundo Deus. Por isso, Deus castiga aqueles que ama e, por assim dizer, crucifica-os com Cristo, para, depois da ressurreição, os colocar à sua direita, no céu, juntamente com Cristo. E embora a palavra Cruz seja a potência de Deus para salvar aqueles que acreditam, todavia, para a carne, é loucura e estorvo (Coríntios, I, 1, 18); de tal maneira que é necessário inculcar muito bem nos Cristãos esta verdade, para que entendam que não podem ser discípulos de Cristo, se não renunciam a si mesmos, se não transportam sobre os seus ombros a Cruz de Cristo (veja-se Lucas, 14, versículo 27), e se não estão preparados a seguir Deus durante toda a vida, por qualquer parte por onde Ele queira conduzi-los.

XX

29. Deve providenciar-se para que, enquanto se ensinam estas coisas às crianças, não lhes seja dado nenhum exemplo em contrário.

Isto é, procure-se que as crianças não ouçam nem vejam blasfêmias, perjuros, profanações do nome de Deus ou outras impiedades, mas que, para qualquer parte que se voltem, encontrem reverência pela divindade, observância da religião e pureza de consciência. E se alguma coisa acontece em contrário disto, em casa ou na escola, que notem que ela não fica impune, mas se castiga severamente; e de tal maneira que a pena, infligida pelo crime de lesa-divindade, sendo sempre mais dura que a pena infligida por uma ofensa cometida contra Prisciano[17], mostre que é que, acima de tudo e antes de tudo, se deve temer.

XXI

30. Finalmente, porque, na presente corrupção do mundo e da natureza, nunca progredimos tanto como devíamos; e, mesmo que progridamos alguma coisa, a nossa carne depravada cai facilmente na contemplação de si mesma e na soberba espiritual, e assim (porque Deus resiste aos soberbos), [18] a nossa salvação corre um perigo gravíssimo, importa ensinar, a tempo, a todos os cristãos, que os nossos bons estudos e as nossas boas obras, pela sua imperfeição, nada valem, se não vem em nossa ajuda, com a sua perfeição, Cristo, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo[19], e no qual apenas se compraz o Pai, etc.[20]. É necessário, portanto, invocar Cristo e só nele confiar.

Assim, finalmente, colocamos em seguro a esperança da nossa salvação e dos nossos, se a colocarmos sobre Cristo, pedra angular[21], o qual, assim como é o vértice de toda a perfeição, na terra e no céu, assim também é o único iniciador e aperfeiçoador da nossa fé, da nossa caridade, da nossa esperança e da nossa salvação. Efetivamente, o Pai enviou Cristo do Céu à terra, precisamente para que, feito Emanuel (Deus-homem), reunisse os homens e Deus; e, vivendo santíssimamente na humanidade assumida, se apresentasse aos homens como modelo da vida divina; e, morrendo inocentemente, expiasse com o sacrifício de si mesmo as culpas do mundo, e, com o próprio sangue, lavasse os nossos pecados; e, enfim, ressuscitando, mostrasse que a morte fora vencida com a morte, e, subndo ao céu, e de lá enviando o Espírito Santo, penhor da nossa salvação, e, mediante o mesmo Espírito, habitasse em nós como Templos seus, e nos regesse e nos guardasse para a salvação, enquanto lutamos aqui na terra, e depois nos ressuscitasse e levasse para si, para que, onde Ele está, estejamos também nós e contemplemos a sua glória, etc.

31. A este único salvador de todos os homens, com o Pai e o Espírito Santo, seja dado eterno louvor, honra, benção e glória, por todos os séculos dos séculos. Amen.

32. Convém, todavia, determinar o modo particular de realizar aptamente todas estas coisas, em todas as classes das escolas.


Capítulo XXV

SE REALMENTE
QUEREMOS ESCOLAS REFORMADAS
SEGUNDO AS VERDADEIRAS NORMAS
DO AUTÊNTICO CRISTIANISMO,
OS LIVROS DOS PAGÃOS,
OU DEVEM SER AFASTADOS DAS ESCOLAS,
OU AO MENOS DEVEM SER UTILIZADOS
COM MAIS CAUTELA QUE ATÉ AQUI[1]

De que coisa se começa a persuadir neste capítulo.

1. Uma necessidade inevitável obriga-nos a desenvolver um pouco mais o assunto a que, de passagem, fizemos já menção no capítulo precedente, pois, se queremos ter escolas verdadeiramente cristãs, importa afastar delas uma multidão de doutores pagãos. Exporemos, primeiro, as causas urgentes desta atitude, e, depois, ensinaremos qual a cautela de que se deve usar relativamente a esses sábios, para fazer nossos todos os seus pensamentos, os seus ditos e os seus fatos, quando são bons.

E com que zelo para com Deus.

2. O amor da glória de Deus e da salvação dos homens impele-nos a tratar com zelo este assunto, pois vemos que as principais escolas dos cristãos professam Cristo apenas de nome e, de resto, não põem as suas delícias senão nos Terêncios, Plautos, Cíceros, Ovídios, Catulos e Tíbulos, Musas e Vênus. Daqui resulta que sabemos mais do mundo que de Cristo, e que temos necessidade de procurar os cristãos no meio da cristandade, precisamente porque, mesmo a muitos teólogos, entre os mais eruditos e notáveis, Cristo apenas fornece uma máscara, e Aristóteles, com a restante multidão dos pagãos, fornece o sangue e o espírito. Ora isto é um horrendo abuso da liberdade cristã, uma turpíssima profanação e uma coisa cheia de perigos. Com efeito:

Causas por que os livros pagãos devem ser excluídos das escolas cristãs e os livros divinos devem ser introduzidos:
Primeira.

3. Em primeiro lugar, os nossos filhos, nascidos para o céu, renasceram por virtude do Espírito de Deus. Devem, por conseqüência, ser formados como cidadãos para o céu e, principalmente, devem tomar conhecimento com os habitantes do céu: Deus, Cristo, os Anjos, Abraão, Isac, Jacob e outros. E, postas de parte, entretanto, todas as outras coisas, deve procurar fazer-se isto antes de tudo, não só por causa da incerteza desta vida, para que ninguém venha a ser arrebatado pela morte sem estar preparado, mas também porque as primeiras impressões permanecem profundamente gravadas na mente e (se são santas) tornam mais seguras todas as outras coisas que se devem tratar depois, durante a vida.

Segunda.

4. Em segundo lugar, Deus, embora provesse abundantemente ao seu povo eleito, todavia, não lhe mostrou outra escola além da dos seus átrios, onde estabeleceu ser Ele mesmo o nosso professor, nós os alunos, e a doutrina, a voz dos seus profetas. Com efeito, fala assim pela boca de Moisés: «Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e com toda a tua força. E estas palavras, que eu hoje te intimo, estarão gravadas no teu coração; e tu as ensinarás a teus filhos, e as meditarás sentado em tua casa, e andando pelo caminho, e estando no leito, e ao levantar-te, etc.» (Deuteronômio, 6, 4 e ss.). E pela boca de Isaías: «Eu sou o Senhor teu Deus, que te ensino o que é útil, que te dirijo pelo caminho que segues» (Isaías, 48, 17). E noutro lugar: «Porventura o povo não há-de consultar o seu Deus?» (Isaías, 8, 19). E Cristo diz: «Perscrutai as Escrituras» (João, 5, 39).

Terceira.

5. E que esta sua voz é luz fulgidíssima da nossa inteligência e regra perfeitíssima das nossas ações e, num e noutro caso, um auxílio suficientíssimo para a nossa fraqueza, declara-o com estas palavras: «Eis que vos ensinei os estatutos e os ordenamentos judiciários. Observai-os e ponde-os em prática, pois está aqui a vossa sabedoria e a vossa prudência diante dos olhos dos povos, os quais, ouvindo estas coisas, dirão: «Apenas esta gente é um povo sábio e prudente» (Deuteronômio, 4, 5 e 6). E em Josué ordena: «Não se aparte da tua boca o livro desta lei; mas meditarás nele dia e noite para observar e cumprir tudo o que nele está escrito; então levarás o teu caminho direito e prosperarás» (Josué, 1, 8). E pela boca de David: «A doutrina de Jeová é íntegra e restauradora da alma; o testemunho de Jeová é veraz e dá sabedoria aos ignorantes, etc.» (Salmo 19, 8). Finalmente, o Apóstolo atesta: «Toda a Escritura, divinamente inspirada, é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça; a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa» (Timóteo, II, 3, 16 e 17). Igualmente os homens mais sábios (entenda-se cristãos, verdadeiramente iluminados) reconheceram também esta verdade e professaram-na. S. João Crisóstomo diz: «Tudo aquilo que é necessário saber ou ignorar, aprendemo-lo nas Escrituras»[2]. E Cassiodoro: «A Escritura é uma escola celeste, uma erudição vital, a aula da verdade, uma disciplina certíssimamente singular, e ocupa os alunos com pensamentos frutuosos, e não com vãos artifícios de palavras, etc.»[3].

Quarta.

6. Além disso, Deus proibiu expressamente ao seu povo as doutrinas e os costumes dos pagãos: «Não aprendais os caminhos dos gentios» (disse Jeremias, 10,2). E igualmente: «Porventura não há um Deus em Israel, para vós virdes consultar Belsebu, deus de Acaron?» (IV Livro dos Reis, 1, 3) «Porventura o povo não há-de consultar o seu Deus? Há-de ir falar com os mortos acerca dos vivos? Antes deve recorrer à lei e ao testemunho, pois, se não falarem segundo esta linguagem, não raiará para eles a luz da manhã» (Isaías, 8, 19-20). Porquê assim? Porque «toda a sabedoria vem de Deus e com ele permanece para sempre». E logo a seguir: «A raiz da sabedoria a quem foi jamais revelada?» (Eclesiástico, 1, 1 e 6). «Estes jovens viram a luz, e habitaram sobre a terra; mas ignoraram o caminho da sabedoria, e não entenderam as suas veredas, nem seus filhos a receberam; ela se retirou para longe deles. Não foi ouvida na terra de Canaã, nem foi vista em Temã. Também os filhos de Agar, os quais procuram a prudência que vem da terra, os fabulistas e os esquadrinhadores da inteligência, ignoraram o caminho da sabedoria. Mas aquele que sabe todas as coisas, conhece-a e descobriu todos os caminhos da sabedoria e ensinou-a a Jacob, seu servo, e a Israel, seu amado» (Baruc, 3, versículos 20, 21, 22, 23, 32, 36, 37). «Não fez assim a nenhuma outra nação, e por isso não conheceram os seus preceitos» (Salmo 147, 20).

Quinta.

7. Quando o seu povo se desviava da sua lei, indo à procura dos atrativos da fantasia humana, Deus censurava-lhe não só a loucura, pois abandonava a fonte da sabedoria (Baruc, 3, 12), mas também a dupla malícia «porque o meu povo fez dois males: abandonaram-me a mim, que sou a fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, cisternas rotas, que não podem reter as águas» (Jeremias, 2, 13). E, pela boca de Oseias, lamentando-se porque o seu povo tinha relações demasiado amistosas com os gentios, acrescenta: «Os multíplices ensinamentos da minha lei, que por mim foram escritos, consideram-nos como coisa feita para os outros» (Oseias, 8, 12). Porventura procedem de maneira diferente aqueles cristãos que têm sempre entre as mãos, de dia e de noite, os livros dos pagãos?[4]. Do sagrado código de Deus, como se se tratasse de uma coisa dos outros que a eles não diz respeito, nenhum se interessa, embora ele não seja «coisa vã, que possa impunemente descurar-se, mas a nossa própria vida», segundo o testemunho do próprio Deus (Deuteronômio, 32, 47).

Sexta.

8. Por isso, a verdadeira Igreja e os verdadeiros cultores de Deus não procuraram nenhuma outra escola, além da palavra de Deus, nela haurindo abundantemente a sabedoria verdadeira e celeste, que é superior a toda a sabedoria mundana. Efetivamente, David diz de si mesmo: «Mais sábio que os meus inimigos me tornou o teu mandamento, porque ele está sempre comigo. Sou mais prudente que todos os meus mestres, porque os teus mandamentos são a minha meditação, etc.» (Salmo 118, 98, etc.). De modo semelhante, Salomão, o mais sábio dos mortais, declara: «O Senhor é quem dá a sabedoria, e da sua boca sai a prudência e a ciência» (Provérbios, 2, 6). Também Jesus, filho de Sirac (no prólogo do seu livro), afirma que a sua sabedoria foi haurida «na leitura da lei e dos profetas» (Eclesiástico). Daqui, a alegria dos santos, quando viam a luz na Luz de Deus (Salmo 35, 10). «Somos ditosos, ó Israel, porque as coisas que agradam a Deus nos são manifestas» (Baruc, 4, 4). «Senhor, para quem havemos nós de ir? Só tu tens palavras de vida eterna» (João, 6, 69).

Sétima.

9. Exemplos de todos os séculos mostram que, sempre que a Igreja se desviou das fontes de Israel, sempre esse desvio foi ocasião de cismas e de erros. Relativamente à Igreja israelítica; o fato é suficientemente conhecido, através das lamentações dos profetas; relativamente à Igreja cristã, infere-se da história que, sempre que foi governada pelos Apóstolos e por pessoas apostólicas, apenas com a doutrina do Evangelho, sempre permaneceu vigorosa a sinceridade da fé. Mas, logo que os pagãos começaram a entrar em multidão na Igreja, e arrefeceu o primitivo ardor e solicitude em separar as doutrinas puras das impuras, e, por isso, se começou a ler, primeiro privadamente e depois em público, os livros dos pagãos, é evidente que espécie de mistura e de confusão de doutrinas resultou. Precisamente por culpa daqueles mesmos que se jactavam de ser os únicos depositários da chave da sabedoria, perdeu-se essa chave; em conseqüência disso, em lugar dos artigos da Fé, surgiu uma infinidade de opiniões estranhas; daí os dissídios e os litígios, que não dão ainda mostras de quererem desaparecer. Deste modo, a caridade arrefeceu e a piedade extinguiu-se, e, sob o nome de cristianismo, surgiu e reina o paganismo. Efetivamente, foi necessário que se realizasse em plenitude a ameaça de Jeová: «se eles não falarem segundo esta linguagem não raiará para eles a luz da manhã» (Isaías, 8, 20). «Por isso, Deus infundiu neles o espírito de sonolência e fechou-lhes os olhos, para que para eles toda a visão fosse como as palavras de um livro fechado, etc.» (Isaías, 29, 10 e ss.), pois temiam Deus segundo os mandamentos e as doutrinas dos homens. Oh! quão verdadeiramente se verifica, a respeito destes, aquilo que o Espírito Santo afirmou dos filósofos pagãos, dizendo que «se desvaneceram nos seus pensamentos e obscureceu-se o seu coração insensato» (Romanos, 1, 21). Por isso, se a Igreja se quer purgar com bom resultado dos inquinamentos, não há nenhum outro caminho mais seguro que o de abandonar as dissertações sedutoras dos homens e regressar às únicas fontes puras de Israel, e retomar, nós e os nossos filhos, por mestre e guia, Deus e a palavra de Deus. Assim, finalmente, se realizará a profecia de Isaías: «todos os filhos da Igreja serão ensinados pelo Senhor» (Isaías, 54, 13).

Oitava.

10. Nem certamente a nossa dignidade de cristãos (que, por Cristo, fomos feitos filhos de Deus, um sacerdócio real[5] e herdeiros do céu) permite que nós e os nossos filhos nos abaixemos e nos prostituamos de modo a tratar os moralistas pagãos como amigos íntimos e façamos deles as nossas delícias. É evidente, com efeito, que aos filhos dos reis e dos príncipes não é costume dar como pedagogos os parasitas, os bobos, os bufões, mas pessoas graves, sábias e devotas. E nós não nos envergonhamos de dar como pedagogos aos filhos do rei dos reis, aos irmãos de Cristo, aos herdeiros da eternidade, aquele brincalhão do Plauto, aquele lascivo do Catulo, aquele impuro do Ovídio, aquele Luciano, ímpio escarnecedor de Deus, aquele obsceno do Marcial e outros do mesmo jaez, que não conhecem nem temem o verdadeiro Deus? Os quais, uma vez que viveram sem esperança alguma de uma vida melhor e apenas pensaram em mergulhar-se no charco da vida presente, não podem deixar de remexer consigo nas mesmas imundícies aqueles que os freqüentam. Basta, basta, ó cristãos, de semelhante loucura! É tempo de terminar com ela, pois Deus chama-nos a coisas melhores, e é justo seguir quem nos chama.

A escola de Deus.

Cristo, eterna sabedoria de Deus, abriu uma escola em sua casa para os filhos de Deus, onde faz de reitor e de mestre supremo o próprio Espírito Santo, de professores e de mestres os profetas e os apóstolos, todos dotados de verdadeira sabedoria, todos ensinando, luminosamente, com a palavra e com o exemplo, o caminho da verdade e da salvação, todos homens santos; onde são alunos apenas os eleitos de Deus, as primícias dos homens resgatados por Deus e pelo Cordeiro; e onde fazem de inspetores e de prefeitos os anjos e os arcanjos, os principados e as potestades que estão no céu (Efésios, 3, l0). Tudo o que se ensina nesta escola ministra a todos uma ciência que é mais verdadeira, mais certa e mais perfeita que os raciocínios do cérebro humano, e que se estende a todos os usos desta vida e da vida futura. Com efeito, só a boca de Deus é a fonte de onde promanam todos os rios da verdadeira sabedoria; só a face de Deus é o luzeiro de onde se difundem os raios da verdadeira luz; só a palavra de Deus é a raiz de onde despontam os verdadeiros gérmens da inteligência. Felizes, portanto, aqueles que olham a face de Deus, estão atentos à sua boca e recebem no coração as suas palavras, pois é este o único caminho de uma inefável, verdadeira e eterna sabedoria, e fora dele não há outro.

Nona.

11. Nem deve passar-se em silêncio quão seriamente Deus proibiu ao seu povo as relíquias dos gentios, nem aquilo que aconteceu àqueles que não prestaram atenção à seguinte ameaça: «O Senhor exterminará diante de ti aquelas nações, etc. Tu, porém, queimarás no fogo as suas esculturas; não cobiçarás a prata nem o ouro de que são feitas, nem delas tomarás nada para ti, para que não tropeces, visto serem a abominação do Senhor teu Deus. E não levarás para tua casa coisa alguma de ídolo, para que te não tornes anátema, como ele o é» (Deuteronômio, 7, 22, 25, 26). E no capítulo 12: «Quando o Senhor teu Deus tiver exterminado diante de ti as nações em que entrares para as possuir, e as possuíres, e habitares na sua terra, abstém-te de as imitar, depois que elas tiverem sido destruídas à tua entrada, e de te informar das suas cerimônias, dizendo: Assim como estas nações adorarem os seus deuses, do mesmo modo também eu os adorarei. Não farás assim com o Senhor teu Deus. Porque elas fizeram pelos seus deuses todas as abominações, que o Senhor aborrece, oferecendo-lhes seus filhos e filhas e queimando-os no fogo. Faze somente em honra do Senhor aquilo que eu te ordeno; não acrescentes nem tires nada» (Deuteronômio, 12, 29, e ss.). E embora Josué (Josué, 24, 23), depois da vitória, tivesse recordado aos israelitas este mandamento de Deus e os aconselhasse a abandonar os ídolos no que não foi obedecido, estas relíquias pagãs tornaram-se para eles uma cilada, e assim recaíram sempre na idolomania até à ruína dos dois reinos hebraicos. E nós, tornados mais cautelosos pelo exemplo alheio, não haveremos de tomar juízo?

Os livros dos pagãos são ídolos.

12. Mas os livros não são ídolos, objetará alguém. Respondo: Mas são relíquias daquelas gentes que o Senhor nosso Deus dispersou da face do seu povo cristão, como outrora, mas são mais perigosas que outrora. Com efeito, então ficavam presos no laço apenas aqueles cujos corações se embruteciam (Jeremias, 10, 14); agora, porém, mesmo os mais sábios podem ser enganados (Colossences, 2, 8). Então, eram obras das mãos humanas (é assim que Deus costuma falar ao exprobar a estultícia do idólatra); agora, são obras da inteligência humana. Então, o resplendor da prata e do ouro encandeava os olhos; agora, a plausibilidade da sabedoria carnal cega a mente. O quê? Negas que os livros pagãos são ídolos? Quem é que então afastou de Cristo o imperador Juliano?[6] Quem fez perder a cabeça ao papa Leão X, que considerava uma fábula a história de Cristo?[7] Por que espírito foi Bembo inspirado a dissuadir o Cardeal Sadoleto da leitura dos Livros Santos (sob o pretexto de que aquelas inépcias não eram dignas de um varão eminente?)[8]. Que é que, ainda hoje, faz precipitar no ateísmo tantos sábios italianos e outros?[9]. Oxalá na Igreja de Cristo reformada não existam também aqueles que Cícero, Plauto, Ovídio, etc. arrastam atrás de si com um odor verdadeiramente mortal!

Evasão.

13. Se alguém disser: o abuso não deve imputar-se às coisas, mas às pessoas; ora, há cristãos piedosos aos quais a leitura dos pagãos não faz mal algum — o Apóstolo responde: «sabemos que o ídolo não é nada no mundo», «mas nem em todos há este conhecimento» (capaz de discernir). «Tende cautela, pois, para que a vossa liberdade se não torne ocasião de queda para os fracos» (Coríntios, 1, 8, 4, 7, 9). Portanto, embora o Deus misericordioso preserve muitos da ruína, todavia, nós não podemos ser escusados se, conscientemente e voluntariamente, toleramos tais atrativos (quero dizer as várias invenções do cérebro humano ou ainda da fraude satânica), alindados de sutilezas e de elegâncias, enquanto que é certo que esses atrativos fazem perder a cabeça a alguns, e até a muitos, e fazem-nos cair nas ciladas de Satanás. Obedeçamos, antes, a Deus e não introduzamos ídolos nas nossas casas nem coloquemos Dragões ao lado da arca da aliança[10], para que não misturemos a sabedoria que vem do céu com a sabedoria terrena, material e diabólica, nem demos a Deus ocasiões para desabafar a sua justa ira contra os nossos filhos.

Alegoria.

14. Na verdade, também aquele caso, recordado por Moisés alegoricamente, talvez tenha aqui cabimento. Nabad e Abiú, filhos de Arão, sacerdotes principiantes, tendo colocado (porque não conheciam ainda bem o cerimonial), nos seus turíbulos, fogo estranho à religião (isto é, fogo comum), em vez de fogo sagrado, para incensar o Senhor, foram feridos pelo fogo de Deus e morreram diante do Senhor (Levítico, 10, 1 e ss.). Mas que são os filhos dos cristãos senão «um sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus»? (Pedro, I, 2, 5). Porém, se enchemos os seus turíbulos, ou seja, as suas mentes, com um fogo que lhes é estranho, não fazemos mais que expô-los ao furor da ira divina. E, efetivamente, não é e não deve ser estranha ao coração dos cristãos qualquer coisa que provenha de outro lugar e não do espírito de Deus? E não provém de Deus a maior parte dos delírios filosóficos e poéticos dos pagãos, segundo o testemunho do Apóstolo (Romanos, 1, 21, 22 e Colossences, 2, 8, 9). E, não sem razão, S. Jerônimo chamou à poesia vinho dos demônios[11], com o qual Satanás embebeda as mentes incautas, nelas infunde sonolência e nelas suscita sonhos que são causa de opiniões monstruosas, de perigosas tentações e de maus desejos. Convém, por isso, ter cuidado com estes filtros satânicos.

Os efésios devem ser imitados.

15. Se não obedecemos a Deus, que nos aconselha coisas mais seguras, no dia de juízo 1evantar-se-ão contra nós os Efésios, os quais, logo que a luz da divina sabedoria refulgiu a seus olhos, queimaram todos os livros de argumento licencioso, tornados inúteis para eles cristãos (Atos dos Apóstolos, 19, 19). E a moderna Igreja grega, embora tenha livros de filosofia e de poesia, escritos na sua língua elegante por autores antigos, considerados os homens mais sábios do mundo, todavia, proibiu a sua leitura, sob pena de excomunhão, aos eclesiásticos e àqueles que professam a sua religião. Daqui resultou que o mundo grego, porque inundado pela barbárie, tenha caído em grande ignorância e em muitas superstições, mas foi até agora preservado por Deus do dilúvio anti-cristão dos erros. Importa, portanto, imitar os gregos neste ponto (tendo, porém, em maior consideração o estudo das Sagradas Escrituras), para mais facilmente afastar as trevas que nos foram deixadas pelo paganismo, pois, só na Luz de Deus se vê a luz (Salmo 35, 10). «Vós, pois, da casa de Jacob, vinde e caminhemos na luz do nosso Deus» (Isaías, 2, 5)

Dissolvem-se agora as objeções.

16. Vejamos, porém, com que razões se insurge contra estas coisas a razão humana, contorcendo-se como uma serpente, para que se não veja obrigada a aceitar o obséquio da fé e a entregar-se a Deus. Assim instam os racionalistas.

1. da grande sabedoria contida nos livros dos pagãos.

17. Nos livros dos filósofos, dos oradores e dos poetas, está contida uma grande sabedoria. Respondo: são dignos das trevas aqueles que desviam os olhos da luz. É certo que à coruja o crepúsculo parece o meio dia, mas os animais nascidos para a luz, conhecem-na bem diversamente. Ó homem fútil, que procuras a luz clara nas trevas do raciocínio humano, levanta os olhos para o céu! De lá desce a luz verdadeira, do Pai das luzes.

Nas obras humanas, se porventura se encontra qualquer jorro ou qualquer chispa de luz, são pequenas centelhas, as quais, embora a quem está nas trevas pareçam um esplendor, todavia, para nós que temos à mão chamas ardentes ofertadas em dom (a fulgidíssima palavra de Deus), que utilidade podem trazer aquelas centelhas? Com efeito, os filósofos, se disputam acerca da natureza, não fazem mais que lamber o vidro, sem nunca atingir as papas. Ora, na Sagrada Escritura, o próprio Senhor da natureza narra os grandes mistérios das suas obras, explicando as primeiras e as últimas razões de todas as criaturas visíveis e invisíveis. Se os filósofos falam de moral, fazem como as avezinhas presas pelo visco que, por mais que esvoacem com toda a força, não conseguem efetivamente voar. Ora a Escritura contém verdadeiras e claras descrições das virtudes e profundas exortações, que penetram até à medula dos ossos, e exemplos vivos de toda a espécie. Quando os pagãos querem ensinar a piedade, ensinam a superstição, porque não estão embebidos nem do verdadeiro conhecimento de Deus, nem do verdadeiro conhecimento da sua vontade. «Eis que as trevas cobrem a terra e a escuridão os povos; em Sion, porém, nasce o Senhor e aí se vê a sua glória» (Isaías, 60, 2).

Embora, portanto, aos filhos da luz seja dada a liberdade de se abeirarem, por vezes, dos filhos das trevas, para que, notada a diferença, possam exultar ainda mais no caminho da luz, devem, é certo, compadecer-se das trevas daqueles infelizes, mas, se preferem as suas centelhas à nossa luz, cometem uma loucura intolerável e injuriosa contra Deus e contra a nossa alma. «Que interessa progredir nas doutrinas mundanas e languescer nas doutrinas divinas? Seguir as ficções caducas e ter fastio pelos mistérios celestes? É necessário abster-se de tais livros e, por amor das Sagradas Escrituras, fugir dos autores que deslumbram pelo seu estilo, mas são destituídos de virtude e de sabedoria», diz Santo Isidoro[12]. Eis o louvor de tais livros! São cascas sem miolo. A este propósito, Filipe Melanchton pensa o seguinte: «Que ensinam em geral os filósofos, se acaso algum deles ensina acertadamente, senão a confiança e o amor de nós próprios? Cicero, no seu livro «De finibus bonorum et malorum»[13], acha que toda a razão de praticar a virtude nasce do amor de nós próprios e do egoísmo. Quanto de enfatuado e de soberba não há em Platão? E não me parece que uma inteligência sagaz e penetrante possa conseguir facilmente não contrair qualquer defeito da ambição platônica, se acaso ler os seus escritos. A doutrina de Aristóteles é, no seu conjunto, uma autêntica paixão de polemizar, de tal maneira que não o julgamos sequer digno do último lugar, entre os escritores de filosofia moral, etc.» (Compêndio de Teologia, no lugar onde trata do pecado)[14].

2. da sua necessidade para a filosofia.

18. Dizem também: Se os escritores pagãos não ensinam retamente a Teologia, ensinam, porém, a filosofia, a qual não pode haurir-se da Sagrada Escritura, que nos foi dada para nossa salvação. Respondo: A fonte da sabedoria é a palavra de Deus que está nos céus (Eclesiástico, 1, 5). A verdadeira filosofia não consiste senão no verdadeiro conhecimento de Deus e das suas obras, e estas coisas não podem aprender-se em parte alguma com mais verdade que da boca de Deus. Por isso, Santo Agostinho, tecendo louvores à Sagrada Escritura, afirma: «Aqui está a filosofia: porque todas as causas de todas as naturezas estão em Deus, seu criador. Aqui está a Ética: porque a vida equilibrada e honesta não pode formar-se de outro modo senão amando, juntamente com a vida, as coisas que se devem amar, e amando-as como se deve, isto é, Deus e o próximo. Aqui está a lógica: porque a verdade e a luz da razão humana não é senão Deus. Aqui está também a mais louvável salvação do Estado: porque não se tutela da melhor maneira o bem-estar dos cidadãos, a não ser quando, com o fundamento e com o vínculo da fé e de uma firme concórdia, se ama o bem comum, que é Deus, sumo e verdadeiro bem»[15]. E alguns autores do nosso século[16] demonstraram já que, na Sagrada Escritura, estão contidos, com mais verdade que em outras obras, os princípios fundamentais de todas as ciências e de todas as artes filosóficas; de tal maneira que se deve admirar o magistério do Espírito Santo, que procura informar-nos principalmente das coisas invisíveis e eternas, mas, ao mesmo tempo, aqui e além, nos descobre as razões das coisas naturais e artificiais, e nos dá normas suficientes para pensar e operar sabiamente, enquanto que, acerca de tudo isto, nos filósofos pagãos, apenas consegue encontrar-se uma sombra. Se, portanto, um grande teólogo escreveu: «a bela sabedoria de Salomão está no fato de que introduziu a Lei de Deus nas casas, nas escolas e nas cortes», se nós inculcarmos à juventude, em vez dos escritores pagãos, a lei de Deus, prescrevendo assim regras para todo o gênero de vida, que é que nos impede de esperar que volte até nós a sabedoria salomônica, ou seja, a sabedoria verdadeira e celeste? Esforcemo-nos, portanto, para termos em nossas casas tudo aquilo que pode tornar-nos sábios, mesmo naquela ciência externa, e por assim dizer profana, a que chamamos filosofia. É certo que houve uma época desgraçada, em que os filhos dos israelitas se viram obrigados a ir aos filisteus arranjar a relha do arado, a enxada, o machado e o sacho, pois não havia ferreiro na terra dos israelitas (Samuel, I, 13, 19 e 20). Mas será necessário angustiar e pôr assim sempre em dificuldades os israelitas? Não, principalmente quando é certo que isso traz o dano de que, como então, os filisteus forneciam, é certo, as enxadas, mas de modo algum forneciam as espadas aos israelitas, que as usariam contra eles; assim também pode ir buscar-se à filosofia pagã silogismos comuns, feitos à força de raciocínios e de flores oratórias, mas de modo algum as espadas e as lanças para debelar a impiedade e a superstição. Desejemos, portanto, antes a época de David e de Salomão, em que os filisteus foram vencidos e em que Israel reinava e gozava dos seus bens.

E, de igual modo, por causa da elegância do estilo.

19. Ao menos, portanto, por causa do estilo, leiam Terêncio, Plauto e outros escritores semelhantes, os estudiosos da Latinidade. Primeira Resposta: Porventura, para que aprendam a falar, havemos de levar os nossos filhos pelas tascas, baiúcas, tabernas, lupanares, e outras cloacas semelhantes? Como efeito, para onde conduzem a juventude Terêncio, Plauto, Catulo, Ovídio e outros semelhantes, senão para lugares sórdidos como aqueles? Que espetáculo lhe oferecem senão facécias, galhofas, comesainas, bebedeiras, amores baixos, devassidões, enganos e outras coisas parecidas, das quais é necessário afastar os olhos e os ouvidos dos cristãos, mesmo quando se lhes apresentam diante por mero acaso? Porventura julgamos que o homem está pouco depravado em si, de tal modo que seja necessário ministrar-lhe do exterior formas de toda a espécie de torpezas, estímulos e incentivos, e como que empurrá-lo para a ruína? Mas dir-se-á: Nestes escritores, nem tudo é mau. Respondo: o mal, porém, apega-se-nos sempre mais facilmente, e, por isso, enviar a juventude onde o mal está misturado com o bem, é coisa muito perigosa. Com efeito, mesmo para matar alguém, não se costuma, nem mesmo se pode, dar-lhe o veneno puro, mas misturado com os melhores manjares ou bebidas; mas, apesar disso, o veneno faz sentir a sua força e provoca a morte a quem o toma. Exatamente assim, o antigo homicida, se quer insinuar-se no meio de nós, necessariamente tem de adoçar os seus tóxicos infernais com o açúcar das carícias das suas ficções e discursos. Conscientes disto, não havemos nós de mandar para o diabo o seu nefando artifício? Poderá dizer-se: Nem todos são porcos. Cícero, Virgílio, Horácio e outros são honestos e graves. Respondo: Todavia, também estes são pagãos cegos que desviam as mentes dos leitores, do verdadeiro Deus para os deuses e deusas (Júpiter, Marte, Netuno, Vênus, Fortuna e outras divindades, sem dúvida fingidas). Ora Deus disse ao seu povo: «Não deveis recordar o nome dos deuses estrangeiros, e a vossa boca não deve pronunciá-lo» (Êxodo, 23, 13). E, além disso, nesses escritores, que caos de superstições, de opiniões falsas, de cupidezas mundanas, em guerra umas contra as outras! Evidentemente que enchem os seus discípulos de um espírito diferente daquele que Cristo neles quer infundir. Cristo chama-nos para fora do mundo, eles imergem-nos no mundo; Cristo ensina-nos a renúncia a nós mesmos, eles ensinam o amor a nós mesmos; Cristo chama para a humildade, eles para o orgulho; Cristo recomenda a simplicidade das pombas, eles instilam, de mil maneiras, a arte das sutilezas; Cristo aconselha a modéstia, eles espalham a frivolidade; Cristo ama os crédulos, eles preferem os suspeitosos, os disputadores, os obstinados. E, para concluir com poucas palavras, pergunto com as palavras do Apóstolo: «Que sociedade pode haver entre a luz e as trevas? E que concórdia entre Cristo e Belial? Ou que de comum entre o fiel e o infiel?» (Coríntios, II, 6, 14 e 15). Também Erasmo diz, com razão, nas suas Parábolas: «As abelhas abstêm-se das flores podres; do mesmo modo, não deve tocar-se num livro que contenha pensamentos pútridos»[17]. E igualmente: «Assim como nos podemos deitar com segurança absoluta no trevo, pois nesta erva as serpentes não se escondem; assim também devemos freqüentar aqueles livros onde não há nenhum veneno a temer»[18].

II. Resposta.

20. Mas, afinal, que têm de belo e gracioso os escritores pagãos, de modo a serem preferidos aos nossos escritores sagrados? Acaso só eles nos mostram as elegâncias literárias? O mais perfeito artífice da língua é aquele que a criou, o espírito de Deus; e os santos de Deus experimentam e pregam que as suas palavras são mais doces que o mel, mais penetrantes que uma espada de dois gumes, mais eficazes que o fogo que funde os metais e mais pesadas que o martelo que despedaça as pedras. Acaso só os escritores pagãos contam histórias memoráveis? A nossa Bíblia está cheia de fatos verdadeiros e muito mais maravilhosos. Acaso só eles formam tropos, figuras, metáforas, alegorias, parábolas e máximas? Nestas coisas, os mais altos cimos foram por nós atingidos. É uma imaginação leprosa preferir ao Jordão e às outras águas de Israel, o Albana e o Farfar, rios de Damasco (Livro dos Reis, IV, 5, 12). É ramelosa a vista a que o Olimpo, o Elícona e o Parnaso oferecem panoramas mais amenos que o Sinai, o Sion, o Ermon, o Tabor e o Monte das Oliveiras. É surdo o ouvido a que soa mais docemente a lira de Orfeu, a trompa de Homero e de Virgílio, que a harpa de David. É estragado a paladar, ao qual sabem melhor o fingido néctar e a ambrósia, e as fontes de Castálio, que o verdadeiro maná celeste e as fontes de Israel. É perverso o coração a que proporcionam maiores delícias os nomes dos deuses e das deusas, das musas e das graças, que o nome adorável de Jeová, de Cristo Salvador e dos vários dons do Espírito santo. É cega aquela esperança que passeia pelos campos Elíseos, de preferência a passear pelos jardins do paraíso, pois, naqueles, tudo é fabuloso, ao passo que, nestes, tudo é real e absolutamente verdadeiro.

III. Resposta.

21. Aceitemos, no entanto, que os escritores pagãos têm também elegâncias, frases, adágios e máximas morais, dignas de serem transferidas para nós. Mas devemos enviar para junto deles os nossos filhos, para colherem essas florzitas? Acaso não é lícito despojar os egípcios e privá-los dos seus ornamentos? Sim, é lícito; é até conveniente, segundo as ordens de Deus (Êxodo, 3, 22). Com efeito, de direito, pertencem à Igreja todas as propriedades dos gentios. É necessário, portanto, insiste-se, ir para a frente e tomar posse dessas coisas. Resposta: Manassés e Efraim, tendo intenção de ocupar um país de gentios para os Israelitas, avançaram armados e só com homens; as crianças e os fracos ficaram em casa, em lugar seguro (Josué, 1, 14). Façamos nós também assim: nós, homens já firmes e robustos pela instrução, pelo discernimento e pela piedade cristã, tomemos essas partes dos escritores pagãos, mas não exponhamos a juventude a esses perigos. Efetivamente, que faríamos nós, se esses pagãos trucidassem ou ferissem ou levassem como escravos os nossos filhos? Infelizmente, tristes exemplos nos mostram quantos deles a filosofia dessa turba pagã separou de Cristo e precipitou no ateísmo. Seria, portanto, uma atitude cheia de segurança enviar gente armada a roubar àqueles que, por disposição divina, estão feridos pela excomunhão, todo o ouro e prata e qualquer outra coisa preciosa, e fazer a sua distribuição pelos herdeiros do Senhor. Que Deus suscite espíritos heróicos que recolham todas as florzinhas de elegância que se encontram nesses vastos desertos e se comprazam em transportá-las para os jardins da filosofia cristã, para que não possa desejar-se algo de mais na nossa casa!

IV. Resposta.

22. Finalmente, se deve admitir-se algum dos pagãos nas nossas escolas, seja Sêneca, Epiteto, Platão e outros semelhantes, mestres de virtude e de honestidade, nos quais há a notar um menor número de erros e de superstições. Era este o conselho do grande Erasmo, que aconselhava se alimentasse a juventude cristã com as próprias Sagradas Escrituras, e finalmente acrescentava: «Se acaso ela deve demorar-se na literatura profana, quanto a mm, gostaria que se demorasse naquela parte que está mais próxima da literatura revelada» (Erasmo, no Compêndio de Teologia)[19]. Mas, mesmo estes escritores, não é bom colocá-los diante da juventude, se primeiro não foram expurgados de modo a tirar-lhes os nomes dos deuses e qualquer outra coisa que saiba a superstição, e se os espíritos dos jovens não estão já bem firmes no cristianismo. Efetivamente, Deus permitiu casar com virgens pagãs, com a condição de se lhes rapar os cabelos e cortar as unhas (Deuteronômio, 21, 12). Entendamo-nos, portanto, bem: não proibimos, de todo, aos cristãos os escritores dos pagãos, para que conheçam bem o privilégio celeste com que Cristo cumulou os crentes (note-se bem: os crentes): «manusearão serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal» (Marcos, 16, 18); mas queremos que se use de precaução, e pedimos e suplicamos que se não exponham às serpentes os filhos de Deus, que não tenham ainda uma fé bem firme, e que, com temerária segurança, se lhes não dê ocasiões de beber venenos. «Disse o espírito de Cristo que os filhos de Deus deviam ser alimentados com o leite sincero da palavra de Deus» (Pedro, I, 2, 2; Timóteo, II, 3, 15).

4a. objeção: da dificuldade da Sagrada Escritura para os primeiros anos.

23. Mas, aqueles que incautamente patrocinam a causa de Satanás contra Cristo, dizem ainda: Os livros da Sagrada Escritura são demasiado difíceis para a juventude, e, por isso, deve meter-se-lhe nas mãos, entretanto, outros livros, enquanto se lhe desenvolve a capacidade de discernimento.

I. Resposta.

Primeira Resposta: Esta é uma afirmação de quem está em erro, ignora as Escrituras e não conhece a força de Deus. O que demonstro de três maneiras. Primeiro: é conhecida a história de Timóteo, célebre músico de tempos passados, o qual, todas as vezes que recebia um novo aluno, costumava perguntar-lhe se já tinha começado a estudar com outro professor. Se respondia que não, recebia-o por um preço aceitável; se respondia que sim, dobrava o preço, apresentando a razão de que, para o ensinar, eram necessários trabalhos dobrados: um para lhe fazer desaprender as coisas que havia aprendido mal; e outro para lhe ensinar a arte verdadeira[20]. Nós, porém, embora tenhamos declarado a todo o gênero humano que o nosso mestre e doutor é Jesus Cristo, além do qual estamos proibidos de procurar outro (Mateus, 17, 5; 23, 8), o qual disse: «Deixai vir a mim as criancinhas e não as embaraceis» (Marcos, 10, 14), haveremos de continuar, contra a vontade dele, a conduzi-las a outro? A não ser que tenhamos receio que Cristo seja um ocioso que, com demasiada condescendência, lhes ensine a sua moral; e, conseqüentemente, conduzimo-las daqui para além, primeiro pelas oficinas dos outros e, como disse, pelas tabernas, pelas tascas e por todas as estrumeiras e, finalmente, quando estão já estragadas e contaminadas, levamo-las a Cristo, para que as reforme à sua maneira. Mas em que se pensa menos que nestes jovens infelizes e, quanto a este ponto, de todo inocentes? Ou devem necessariamente lutar durante toda a vida, também para desaprender as coisas de que foram embebidos nos primeiros anos, ou são absolutamente repelidos para longe de Cristo e são abandonados a Satanás, para que os forme ele? Com efeito, aquilo que é consagrado a Moloc, não é a abominação de Deus? Estas coisas são horrendas, mas infelizmente são verdadeiras. Suplico, pela misericórdia de Deus, aos magistrados cristãos e aos chefes das Igrejas que não permitam que sejam oferecidos a Moloc os jovens cristãos, nascidos para Cristo, e a Ele consagrados pelo batismo.

II. Resposta.

24. É falso aquilo que apregoam:

A Escritura é demasiado sublime e está acima da capacidade da idade infantil. Ou será que Deus não entendeu até que ponto a sua palavra é adaptada ao nosso espírito? (Deuteronômio, 31, 11, 12, e 13). E David não afirma que «a lei do Senhor ministra a sabedoria às crianças» (Salmo 18, 8)? Note-se bem: às crianças. E não diz S. Pedro que «a palavra de Deus é o leite das crianças regeneradas, o qual lhes é dado para que, alimentadas com ele, cresçam e se desenvolvam» (Pedro, I, 2, 2)? Eis o leite de Deus, fresquíssimo, dulcíssimo, salubérrimo, de modo que o alimento das criancinhas geradas para Deus seja a palavra de Deus. Porque é que então se há-de contradizer a Deus, tanto mais que a doutrina pagã é uma comida dura de roer com os dentes, e até capaz de quebrar os próprios dentes? Por isso, o Espírito Santo, pela boca de David, convida as criancinhas para a sua escola, dizendo: «Vinde, filhos, ouvi-me e eu vos ensinarei o temor de Deus» (Salmo 33, 12).

III. Resposta.

25. Finalmente, confessamos que há, de fato, nas Sagradas Escrituras, lugares de grande profundidade, mas tais que neles os elefantes se afogam e os cordeiros nadam, como escreveu elegantemente Santo Agostinho[21], ao querer notar a diferença entre os sábios do mundo, que presunçosamente lêem as Escrituras, e os filhos de Cristo, que delas se aproximam com ânimo humilde e dócil. E que necessidade há de ser conduzido imediatamente ao mar alto? Pode ir-se pouco a pouco. Primeiro importa costear os litorais da doutrina do catecismo; depois, fazer breves travessias, aprendendo a história sagrada, pensamentos morais e coisas semelhantes, que não ultrapassem a capacidade da mente, mas a conduzam, pouco a pouco, a coisas mais elevadas, que se seguem. Finalmente, tornam-se aptos para nadar nos mistérios da fé. Deste modo, instruídos desde a infância nas Sagradas Escrituras, preservar-se-ão mais facilmente das corrupções mundanas e adquirirão aquela sabedoria que conduz à salvação, por meio da fé que está em Cristo Jesus (Timóteo, II, 3, 15). Efetivamente, em quem se dá a Deus e, sentando-se aos pés de Cristo, abre os ouvidos à sabedoria, que vem do alto, é impossível que não entre o espírito de graça, para lhe acender a luz da verdadeira inteligência e para lhe mostrar claramente iluminados os caminhos da salvação.

Redarguição.

26. Para terminar: aqueles autores (Terêncio, Cícero, Virgílio, etc.) que se pretende oferecer à juventude cristã, em vez da Bíblia, são tais como eles afirmam que é a Sagrada Escritura: difíceis e menos inteligíveis que ela para a juventude. Efetivamente, não foram escritos para adolescentes, mas para homens de juízo maduro, que se movem já no palco ou no foro. Aos outros, de nada aproveitam, como o provam os fatos. É certo, com efeito, que um homem feito e que procede virilmente, numa só lição sobre Cícero aproveita mais que um adolescente que o aprenda todo, linha por linha. Porque é que então se não remete para um tempo oportuno o estudo destes clássicos importantes, se de fato são importantes? Mas é digno da maior consideração aquilo que disse já, isto é, que, nas escolas cristãs, se deve formar cidadãos para o céu, e não para o mundo, e que, por conseqüência, se lhes deve dar professores tais que lhes incutam doutrinas celestes, de preferência a doutrinas terrenas, doutrinas santas, de preferência a doutrinas profanas.

Conclusão.

27. Concluamos, portanto, com estas palavras angélicas: «Não pode a construção de um edifício humano erguer-se naquele lugar, onde se começa a ver a cidade do Altíssimo» (Livro IV de Esdras, 10, 54). E uma vez que Deus quer que sejamos «árvores de justiça e plantação de Jeová, onde ele seja glorificado» (Isaías, 61, 3), não convém, portanto, que os nossos filhos sejam arbustos da plantação de Aristóteles, ou de Platão, ou de Plauto, ou de Túlio, etc. De outro modo, a sentença já foi proferida: «Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada pela raiz» (Mateus, 15, 13). Toma precaução, e, se alguém quiser conduzir-te contra a ciência de Deus, não cedas, (Coríntios, II, 10, 5).


Capítulo XXVI

DA DISCIPLINA ESCOLAR

Nas escolas é necessária a disciplina.

1. É verdadeiro o seguinte provérbio usado na língua popular boema: uma escola sem disciplina é um moinho sem água. Efetivamente, assim como se se tira a água a um moinho, ele pára necessariamente, assim também, se na escola falta a disciplina, tudo afrouxa. Do mesmo modo, se um campo não é sachado, logo nele nascem cizânia e outras ervas daninhas; se as árvores não são podadas, tornam-se selvagens e lançam rebentos inúteis. Daqui não se segue que a escola deva estar cheia de gritos, de pancadas e de varas, mas cheia de vigilância e de atenção, da parte dos professores e da parte dos alunos. Com efeito, que é a disciplina senão um processo adequado de tornar os discípulos verdadeiramente discípulos?

Quanto à disciplina devem observar-se três coisas.

2. Será, portanto, bom que o formador da juventude conheça, não só o fim, mas também a matéria e a forma da disciplina, para que não ignore porquê, como e quando deve usar uma sensata severidade.

1. Fim da disciplina.

3. Antes de tudo, creio que é doutrina aceite por todos que a disciplina se deve exercer contra quem exorbita, mas não porque exorbitou (efetivamente, o fato não pode desfazer-se), mas para que não exorbite mais. Deve, por isso, aplicar-se a disciplina sem paixão, sem ira e sem ódio, com tal candura e tal sinceridade, que aquele mesmo a quem a aplicamos se aperceba de que a pena disciplinar se lhe aplica para seu bem e que é ditada pelo afeto paterno que lhe dedicam aqueles que o dirigem, e por isso a deve receber com o mesmo ânimo com que costuma tomar os remédios receitados pelo médico.

2. Matéria por causa da qual se deve aplicar a disciplina aos alunos. Não por causa dos estudos.

4. Não deve empregar-se uma disciplina severa no que se refere aos estudos e às letras, mas apenas nos aspectos ligados aos costumes. Com efeito, se os estudos são adequadamente regulados (como ensinámos já), são, por si mesmos, atrativos para os espíritos, e, pela sua doçura, atraiem e encantam a todos (se se excetuar os monstros de homens). Se acontece diversamente, a culpa não é dos alunos, mas dos professores. Mas, se se ignoram os métodos de atrair com arte os espíritos, é, sem dúvida, em vão que se emprega a força. Os açoites e as pancadas não têm nenhuma força para inspirar, nos espíritos, o amor das letras, mas, ao contrário, têm muita força para gerar, na alma, o tédio e a aversão contra elas. Por isso, quando se adverte que à alma se apega a doença do tédio, esta deve ser afastada com dieta e, depois, com remédios doces, em vez de a tornar mais violenta com o emprego de remédios violentos. Desta prudência dá-nos mostras o próprio sol que, no princípio da primavera, não incide logo sobre as plantas novinhas e tenras, nem, logo desde o princípio, as estreita e queima com o seu calor, mas aquecendo-as pouco a pouco, insensivelmente, fá-las crescer e ganhar vigor; e, finalmente, quando já são adultas e amadurecem os seus frutos e as suas sementes, lança-se sobre elas com toda a sua força. O jardineiro usa dos mesmos cuidados, tratando com mais delicadeza as plantas novinhas, com mais ternura as que são ainda tenrinhas, e não faz sentir a tesoura, nem a navalha, nem a foice, nem as feridas às plantas que ainda as não podem suportar. E o músico, se a guitarra, ou a harpa, ou o violino está desafinado, não bate nas cordas com o punho ou com um pau, nem o atira contra uma parede, mas procede com arte até que as tenha bem afinadas. É desta maneira que deve chegar-se a criar, nos alunos, um amor harmonioso dos estudos, se se quer evitar que a sua indiferença se transforme em hostilidade, e a sua apatia em estupidez.

Como se devem estimular para os estudos.

5. Se, porém, por vezes, é necessário espevitar e estimular, o efeito pode ser obtido por outros meios e melhores que as pancadas: às vezes, com uma palavra mais áspera e com uma repreensão dada em público; outras vezes, elogiando os outros: «olha como estão atentos este teu colega e aquele, e como entendem bem todas as coisas! Porque é que tu és assim preguiçoso?»; outras vezes, suscitando o riso: «Então tu não entendes uma coisa tão fácil? Andas com o espírito a passear?» Podem ainda estabelecer-se «desafios» ou «sabatinas» semanais, ou ao menos mensais, para ver a quem cabe o primeiro lugar ou a honra de um elogio, como ensinámos já noutro lugar, desde que se veja que isto não vai resultar num mero divertimento ou numa brincadeira, e por isso inútil, mas para que o desejo do elogio e o medo do vitupério e da humilhação estimulem verdadeiramente à aplicação. Por esta razão, é absolutamente necessário que o professor assista ao «desafio» e o dirija com seriedade e sem artifícios, censure e repreenda os mais negligentes e elogie publicamente os mais aplicados.

Disciplina por causa dos costumes.
1 2 3

6. No entanto, deve aplicar-se uma disciplina mais severa e mais rígida àqueles que exorbitam no domínio dos costumes. Ou seja: 1. Em caso de qualquer ato de impiedade, como a blasfêmia, a obscenidade, e todas as faltas que se cometem abertamente contra a lei de Deus. 2. Em caso de contumácia e de malícia obstinada, como quando algum aluno despreza as ordens do professor ou de qualquer outro superior, e quando sabe o que deve fazer, mas, conscientemente, o não faz. 3. Em caso de soberba e de vaidade, ou ainda de inveja e de preguiça, como quando um aluno, solicitado por um colega para lhe ensinar qualquer coisa, se recusa a ajudá-lo.

Porque razão se deve proceder assim.

7. Com efeito, aqueles delitos do primeiro gênero ofendem a majestade de Deus; os do segundo gênero arruinam a base de todas as virtudes (humildade e docilidade); os do terceiro gênero inibem e retardam os progressos rápidos nos estudos. O delito contra Deus é um desregramento que deve ser expiado com um duríssimo castigo; aquele que alguém comete contra os homens e contra si mesmo é uma iniquidade a que se deve remediar com uma correção dura; aquele que se comete contra Prisciano[1] é uma nódoa que se deve tirar com a esponja da repreensão. Numa palavra, a disciplina deve tender no sentido de que, em tudo e sempre, se estimule e se fortaleça, através de um exercício e de uma prática constante, a reverência para com Deus, o respeito para com o próximo e o desejo de cumprir os deveres e as obrigações da vida.

3. A forma da disciplina é tomada do sol.

8. Um ótimo método de regular a disciplina é-nos ensinado pelo Sol, o qual ministra às coisas que crescem: 1. sempre, luz e calor; 2. freqüentemente, chuva e vento; 3. raras vezes, raios e trovões, embora estas coisas tenham também a sua utilidade.

Como deve proceder-se para utilizar este modelo.

9. À imitação do sol, o diretor da escola esforçar-se-á por levar a juventude a cumprir o seu dever:

1.

I. Com exemplos constantes, mostrando que é um modelo vivo de todas aquelas coisas para as quais os alunos devem preparar-se. Se falta isto, tudo o resto é vão.

2.

II. Com palavras de formação, de exortação e de censura, com a condição de que, quer ensine, quer admoeste, quer mande, quer repreenda, mostre sempre bem claramente que faz tudo com amor paternal, com intenção de edificar a todos e não de arruinar seja quem for. Se o discípulo não vê bem claramente este amor e não está dele convencido, facilmente, não só despreza a disciplina, como até se obstina contra ela.

3.

III. Todavia, se houver algum aluno com um espírito tão infeliz para quem estes remédios suaves não sejam suficientes, importa recorrer a remédios mais violentos, para que nada do que foi planeado seja abandonado, e antes de ele ser dado por incorregível, como um terreno impróprio para qualquer cultura, do qual nada há a esperar. Talvez, acerca de alguns, ainda hoje seja verdadeiro o seguinte provérbio: o frígio não se corrige senão à força de pancadas[2]. Ao menos, esta disciplina, se não aproveitar àquele a quem é aplicada, aproveitará, todavia, aos outros, pelo medo que lhes incute, desde que se tenha o cuidado de não recorrer, por qualquer motivo, como freqüentemente acontece, a remédios extremos, para que os remédios extremos se não esgotem antes dos casos extremos.

Resumo.

10. O resumo do que se disse e do que vai dizer-se seja o seguinte: a disciplina tenda para que, naqueles que preparamos para Deus e para a Igreja, formemos e confirmemos constantemente a têmpera das inclinações, de modo a tornar tal têmpera semelhante àquela que Deus exige aos seus filhos, confiados à escola de Cristo, para que «exultem com tremor» (Salmo 2, 11), e trabalhando na sua salvação com temor e tremor (Filipenses, 2, 12), gozem no Senhor (Ibid, 2, 2) isto é, para que possam e saibam, não só amar, como também reverenciar os seus formadores, e não só se deixem conduzir de boa vontade onde devem ser conduzidos, mas até desejem vivamente ser conduzidos. Esta têmpera das inclinações não pode obter-se com meios diversos daqueles que apontámos já: bons exemplos, palavras carinhosas, amor constantemente sincero e manifesto; somente em casos muito extraordinários, fulminando e trovejando abertamente, mas, mesmo então, sempre com a intenção de que a severidade termine sempre no amor, se é isso possível.

Por uma aplicação semelhante.

11. Efetivamente, quem viu alguma vez (seja-me ainda lícito esclarecer este ponto com um exemplo) um ourives formar uma pequena imagem só à força de golpes? Ninguém. As imagens pequenas fazem-se melhor, fundindo-as que martelando-as. E se lhe fica preso algum pedacito de metal supérfluo e inútil, o artista habilidoso não o bate impetuosamente com o martelo, mas extrai-o suavemente com o martelinho, ou desprende-o com a lima, ou corta-o com a pinça, e, fazendo tudo com cautela, acaba por polir e alisar a sua obra. E julgamos nós poder formar uma pequena imagem do Deus vivo, uma criatura racional, com impetos irracionais?

Outro exemplo.

12. Também o pescador que pensou apanhar peixes em águas mais profundas, com uma rede maior, não prende à rede apenas pedaços de chumbo que a mergulhem na água e a obriguem a arrastar-se pelo fundo, mas, do lado oposto, prende-lhe pedaços de cortiça que a mantenham à superfície da água. De modo semelhante, quem resolveu fazer uma pesca de virtudes com a juventude, por um lado, deverá dominá-la pela severidade para a tornar temente, humilde e obediente, e, por outro lado, pela afabilidade, deverá conduzi-la ao amor e ao zelo alegre. Felizes os artífices desta têmpera! Feliz a juventude que tem tais mestres!

13. Tem aqui cabimento a opinião do eminente Eilhard Lubin, Doutor em Teologia, o qual, no prefácio ao Novo Testamento, editado em grego, latim e alemão, dissertando acerca da reforma das escolas, escreveu estas palavras: «A outra coisa é que tudo o que se propõe à juventude, que seja adaptado à sua capacidade, lhe seja exigido de modo que nada façam contra a vontade e à força, mas, tanto quanto é possível, espontaneamente e de boa vontade, e com verdadeiro prazer do espírito. Por isso, sou de opinião de que as varas e as vergastas, instrumentos servís e de modo algum convenientes para pessoas livres, se não empreguem nas escolas, mas sejam afastadas para longe, e sejam empregadas com escravos ou com maus servos de espírito servil. Estes devem ser notados a tempo e devem ser afastados das escolas, igualmente a tempo, não só por causa da sua índole, própria de espíritos servís, mas também por causa da sua perversidade, que quase sempre anda emparelhada com aquela; e se a estas péssimas qualidades se acrescentam os meios do saber e das artes, então estas e aqueles transformam-se em armas de vileza e serão espadas nas mãos de loucos furiosos que, com elas, se degolarão a si mesmos e aos outros. Há, todavia, outros gêneros de penas que podem ser aplicadas aos jovens que nasceram livres e de alma liberal, etc.»[3].


Capítulo XXVII

AS INSTITUIÇÕES ESCOLARES
DEVEM SER DE QUATRO GRAUS,
EM CONFORMIDADE COM A IDADE
E COM O APROVEITAMENTO

A prudência dos filhos do século deve ser imitada pelos filhos da luz.

1. Os artesãos começam por fixar aos seus aprendizes um certo tempo (dois anos, três anos, etc., até sete anos, conforme a sua arte é mais sutil ou mais complexa), e, dentro desse espaço de tempo, o curso das lições deve estar terminado; e cada um, depois de instruído em tudo o que diz respeito àquela arte, de aprendiz torna-se oficial da sua arte, e depois mestre. Convém, portanto, fazer o mesmo nas nossas escolas, e estabelecer para as artes, para as ciências e para as línguas, um determinado espaço de tempo, de modo que, dentro desse período, os alunos terminem todo o curso geral dos estudos e saiam dessas oficinas de humanidade homens verdadeiramente instruídos, verdadeiramente morigerados e verdadeiramente piedosos.

Para uma educação perfeita do homem todo, requer-se todo o tempo da juventude: 24 anos.

2. Para obter este escopo, tomamos, para exercitar os espíritos, todo o tempo da juventude (efetivamente, no nosso caso, não se trata de aprender uma só arte, mas o complexo de todas as artes liberais, juntamente com todas as ciências e algumas línguas), desde a infância até à idade viril, ou seja 24 anos, repartidos em períodos determinados, os quais se devem dividir tomando por guia a natureza. Efetivamente, a experiência mostra que o corpo do homem, em geral, cresce em estatura, até à idade de vinte e cinco anos, e não até mais tarde; depois, robustece-se, adquirindo vigor. E este crescer lento (com efeito, o corpo de certos animais, muito maior, em alguns meses, ou então em um ano ou dois, atinge o seu máximo desenvolvimento) é de crer que a divina providência o tenha reservado à natureza humana, precisamente para que o homem tenha todo o tempo necessário para se preparar para realizar as funções da vida.

Deve ser repartido em quatro escolas.

3. Dividiremos, portanto, em quatro partes distintas os anos da idade ascendente: infância, puerícia, adolescência e juventude, atribuindo a cada uma destas partes seis anos e uma escola peculiar, de modo que:

I. O regaço materno seja a escola da infância;

II. A escola primária (ludus literarius) , ou escola pública de língua vernácula, seja a escola da puerícia;

III. A escola de latim ou o ginásio seja a escola da adolescência;

IV. A Academia e as viagens sejam a escola da juventude.

E é necessário que a escola materna exista em todas as casas; a escola de língua vernácula, em todas as comunas, vilas e aldeias; o ginásio, em todas as cidades; a Academia em todos os reinos e até nas províncias mais importantes.

Os trabalhos de cada uma destas escolas não devem diferir quanto à matéria, mas quanto à forma.

4. Embora estas escolas sejam diversas, não queremos, todavia, que nelas se aprendam coisas diversas, mas as mesmas coisas de maneira diversa, ou seja, todas aquelas coisas que podem tornar os homens verdadeiramente homens, os cristãos verdadeiramente cristãos, os sábios verdadeiramente sábios, mas segundo a idade e o grau da preparação antecedente, e conduzindo sempre mais acima. Segundo as leis do método natural, as disciplinas não devem ser ensinadas separadamente, mas sempre todas em conjunto, da mesma maneira que uma árvore cresce sempre toda, em cada uma das suas partes, e isto durante este ano, para o ano que vem e até daqui a cem anos, enquanto estiver verdejante.

Diferença das escolas em razão da forma dos exercícios.

5. Haverá, todavia, uma tríplice diferença. Primeiro, porque nas primeiras escolas todas as coisas serão ensinadas de modo geral e rudimentar; nas escolas seguintes, tudo será ensinado de maneira mais particularizada e distinta. Da mesma maneira que uma árvore que, em cada ano, se expande em novas raízes e em novos ramos, e assim cada vez mais se revigora e cada vez mais frutos produz.

1. Porque numa escola importa ensinar de uma maneira, e noutra de outra.
2. Porque numa escola é necessário insistir mais numas coisas, e noutras.

6. Segundo, porque, na primeira escola, na materna, se devem exercitar sobretudo os sentidos externos, para que se habituem a aplicar-se bem aos próprios objetos e a conhecê-los distintamente. Na escola primária, devem exercitar-se os sentidos internos, a imaginação e a memória, juntamente com os seus órgãos executores, as mãos e a língua, lendo, escrevendo, pintando, cantando, contando, medindo, pesando, imprimindo várias coisas na memória, etc. No ginásio, com o estudo da dialética, da gramática, da retórica e das outras ciências positivas e artes, ensinadas teórica e praticamente, formar-se-á a inteligência e o juízo de todas as coisas recolhidas através dos sentidos. Finalmente, as Academias formarão sobretudo aquelas coisas que dizem respeito à vontade, ou seja, as faculdades que ensinam a conservar a harmonia (e, quando esta é perturbada, a refazê-la), servindo-se da Teologia para a alma, da filosofia para a mente, da medicina para as funções vitais do corpo e da jurisprudência para os bens exteriores.

Motivo desta gradação.

7. Com efeito, o verdadeiro método de formar adequadamente os espíritos consiste precisamente em que, primeiro, as coisas sejam apresentadas aos sentidos externos, aos quais impressionam imediatamente. E quando a sensação externa imprimiu nos sentidos internos as imagens das coisas, estes, excitados por essas imagens, devem aprender a exprimi-las e a reproduzi-las, tanto interiormente por meio da reminiscência, como exteriormente por meio das mãos e da língua. Depois destes trabalhos preparatórios, entre a inteligência em ação, e, por meio de minuciosas observações, confronte todas as coisas entre si e pondere-as, para lhes apreender as razões, o que formará a verdadeira inteligência das coisas e o verdadeiro juízo acerca das mesmas. Finalmente, habitue-se a vontade (que é o centro do homem e a diretora de todas as suas ações) a exercer legitimamente o seu império sobre todas as coisas. Querer formar a vontade antes da inteligência (como querer formar a inteligência antes da imaginação e a imaginação antes dos sentidos) é trabalho perdido. Mas, infelizmente, procedem assim aqueles que ensinam às crianças a lógica, a poética, a retórica e a ética, antes das coisas reais e sensíveis; agem como quem quisesse fazer dançar uma criancinha de dois anos, que ainda mal se sustem em pé. Mantemo-nos firmes na nossa opinião de, em tudo e sempre, tomar a natureza por guia; e assim como esta manifesta as suas faculdades, umas após as outras, assim também nós somos de opinião de que, para o desenvolvimento de uma, devemos esperar pelo desenvolvimento da outra.

3. Porque uns se exercitam nestas, e outros naquelas.

8. A terceira diferença reside em que as escolas inferiores, a materna e a primária, exercitam a juventude de ambos os sexos; a escola de latim deve educar sobretudo, de modo perfeito, os adolescentes que aspiram a coisas mais altas que os trabalhos manuais; e as Academias devem formar os doutores e os futuros condutores dos outros, para que, nem às igrejas, nem às escolas, nem às administrações públicas, faltem dirigentes competentes.

As quatro escolas correspondem às quatro pares do ano.

9. Estas quatro espécies de escolas podem, não sem razão, comparar-se às quatro partes do ano: a escola materna faz lembrar a amena primavera, embelezada de rebentos e de florinhas de vária fragrância; a escola primária representa o verão, que nos mostra as espigas cheias e ainda certos frutos precoces; o ginásio corresponde ao outono, que recolhe os ricos frutos dos campos, dos jardins e das vinhas, e os guarda nos armazéns da mente; e, finalmente, a academia deve assemelhar-se ao inverno que prepara, para os vários usos, os frutos recolhidos, para que possa ter-se com que viver durante todo o resto da vida.

Também as árvores crescem gradualmente em quatro tempos.

10. Esta maneira de instruir e educar acuradamente a juventude pode comparar-se também ao cultivo dos jardins. Com efeito, as criancinhas de seis anos, bem exercitadas pelos cuidados dos pais e das amas, parecem semelhantes às arvorezinhas que foram carinhosamente plantadas, enraizaram bem e começam a lançar pequeninos ramos. Os adolescentezinhos de doze anos assemelham-se às arvorezinhas que já têm ramos e lançam rebentos frutíferos; mas não se vê ainda bem que é que contêm esses rebentos; ver-se-á em breve. Os adolescentes de dezoito anos, que possuem já conhecimento pleno das línguas e das artes, assemelham-se às plantas que estão todas revestidas de flores e, com isso, oferecem um belo espetáculo aos olhos e um agradável odor ao nariz e prometem frutos saborosos para a boca. Finalmente, os jovens de vinte e quatro ou vinte e cinco anos, já plenamente cultivados com os estudos acadêmicos, lembram as árvores cheias de frutos, os quais é tempo de colher e de utilizar de várias maneiras.

Mas cada uma destas coisas deve ser exposta de uma maneira mais pormenorizada.


Capítulo XXVIII

PLANO
DA ESCOLA MATERNA

Devem procurar-se primeiro as coisas principais.

1. Todos os ramos principais que uma árvore virá a ter, ela fá-los despontar do seu tronco, logo nos primeiros anos, de tal maneira que, depois, apenas é necessário que eles cresçam e se desenvolvam. Do mesmo modo, todas as coisas, em que queremos instruir um homem para utilidade de toda a vida, deverão ser-lhe plantadas logo nesta primeira escola. Que isto é possível, tornar-se-á claro a quem percorrer todos os gêneros de estudos. Mostrá-lo-emos com poucas palavras, resumindo todas essas coisas em vinte pontos[1].

Catálogo das matérias a serem ensinadas nestas escolas.
I.

2. A chamada Metafísica tem precisamente aqui o seu início, pois todas as coisas, a princípio, são apreendidas pelas crianças com conceitos gerais e confusos: enquanto vêem alguma coisa, ouvem, saboreiam, apalpam, advertem que alguma coisa existe, mas não julgando que coisa seja em espécie, e só mais tarde, pouco a pouco, distinguindo o que seja. Começam, portanto, a entender os seguintes termos gerais: alguma coisa, nada, existe, não existe, desta maneira, de outra maneira, onde, quando, etc., semelhante, dissemelhante, etc., as quais coisas são precisamente os fundamentos da ciência metafísica.

II.

3. Nas ciências físicas, nestes primeiros seis anos, pode conduzir-se a criança de modo a não ignorar o que seja a água, a terra, o ar, o fogo, a chuva, a neve, o gelo, a pedra, o ferro, a planta, a erva, a ave, o peixe, o boi, etc. E deve também aprender a nomenclatura e o uso dos membros do seu próprio corpo, ao menos dos externos. Estas coisas aprendem-se facilmente nesta idade e lançam os fundamentos da ciência natural.

III.

4. A criança entende os rudimentos da ótica, quando começa a distinguir e a designar a luz e as trevas e a sombra, e as diferenças entre as várias cores: branco, preto, vermelho, etc.

IV.

5. Será o início da astronomia, conhecer aquilo a que se chama céu, sol, lua, estrelas, e notar que estas coisas nascem e se põem todos os dias.

V.

6. Aprende os primórdios da geografia, quando começa a entender o que é um monte, um vale, um campo, um rio, uma aldeia, um castelo, uma cidade, segundo as ocasiões que lhe oferece o lugar onde é educada.

VI.

7. Lançam-se os fundamentos da cronologia, se a criança entende o que significa hora, dia, semana, ano, e o que significa verão, inverno etc., e ontem, no dia anterior, amanhã, depois de amanhã, etc.

VII.

8. Constitui o início da história poder recordar-se e passar em resenha os fatos acontecidos há pouco, como é que tal ou tal indivíduo se comportou nesta ou naquela situação, embora estas coisas sejam tratadas puerilmente.

VIII.

9. Lançam-se as raízes da aritmética, se a criança entende que significa pouco e muito, se sabe contar ainda que seja até dez, se nota que três são mais que dois e que três mais um são quatro, etc.

IX.

10. Possuirão os rudimentos da geometria, se entenderem a que é que chamamos grande e pequeno, comprido e breve, largo e estreito, grosso e fino. Igualmente, se entendem a que é que chamamos linha, cruz, círculo, etc, e vêem medir certas coisas com o palmo, com o braço, com os dedos, etc.

X.

11. Iniciam também o estudo da estática, se vêem pesar as coisas com a balança, e aprendem a pesar qualquer coisa com a mão, para saberem se é pesada ou leve.

XI.

12. Começam o tirocínio das artes mecânicas, se se lhes permite, e até se lhes ensina a fazer qualquer coisa: por exemplo, transportar uma coisa daqui para além, ordenar as coisas desta ou daquela maneira, construir e destruir, unir e desunir, etc., como às crianças, nesta idade, dá prazer. Estas coisas, como não são senão tentativas para produzir coisas segundo o modelo da natureza, não só não devem ser proibidas, mas até devem ser fomentadas e prudentemente dirigidas.

XII.

13. A arte dialética da razão desponta já aqui e lança os seus gérmens: observando que as conversas se fazem por meio de perguntas e de respostas, as crianças habituam-se também a perguntar qualquer coisa e a responder às perguntas que lhes são feitas. Importa apenas ensinar-lhes a interrogar aptamente e a responder diretamente às perguntas, para que se habituem a fixar o pensamento no tema proposto, e a não divagar.

XIII.

14. A gramática infantil consistirá em pronunciar corretamente a língua materna, isto é, em proferir articuladamente as letras, as sílabas e as palavras[2].

XIV.

15. Iniciam o estudo da retórica, se imitam os tropos e as figuras contidas nas conversas familiares. Em primeiro lugar, importa ensinar-lhes que o gesto deve corresponder às palavras e que o tom da voz deve corresponder à qualidade da conversa, de modo que aprendam a pronunciar com voz mais alta as últimas sílabas das perguntas e, com voz mais baixa, as últimas sílabas das respostas, e coisas semelhantes, que a própria natureza como que ensina; e, se qualquer coisa passa das medidas, pode, com prudente método formativo, corrigir-se facilmente.

XV.

16. A criança adquirirá o gosto pela poesia, se, nesta primeira idade, lhe ensinarem muitos pequenos poemas, sobretudo de sentido moral, quer rítmicos, quer métricos, de que estão bem providas todas as línguas.

XVI.

17. Adquirirá os primórdios da música, aprendendo alguns dos mais fáceis salmos e hinos sagrados, o que terá lugar nos exercícios quotidianos de piedade.

XVII.

18. Os rudimentos de economia doméstica consistirão em aprender de cor o nome das pessoas de que consta a familia, ou seja, quem se chama pai, mãe, criada, criado, inquilino, etc., e igualmente aprendendo os nomes das partes da casa: átrio, cozinha, quarto, estábulo, etc., e dos utensílios domésticos: mesa, prato, faca, copo, etc., juntamente com o seu uso.

XVIII.

19. Quanto à política, a criança inicia-se nela mais dificilmente, pois os conhecimentos desta idade com dificuldade se projetam fora de casa. Pode, todavia, ser iniciada, se lhe fazem observar que certas pessoas da cidade se reunem na Câmara, as quais são chamadas Senadores; e, de entre estes, um tem o nome de Presidente, outro o de Secretário, outro o de Notário, etc.

XIX.

20. A moral (ética) é a disciplina que, na escola materna, deverá, antes de todas, receber fundamentos solidíssimos, se queremos que as virtudes sejam como que congênitas à juventude bem formada. Por exemplo[3]:

(1) a temperança: observe-se a capacidade do estômago, e nunca se permita às crianças que tomem alimentos, além dos necessários para saciar a fome e a sede.

(2) a limpeza na mesa, nos vestidos e também nos brinquedos e nos objetos de adorno das crianças deve ser esmerada.

(3) a veneração devida para com os superiores.

(4) a obediência, sempre pronta e solícita, às ordens e às proibições.

(5) a veracidade religiosa em todas as coisas, de tal maneira que nunca se lhes permita que mintam ou enganem, quer a brincar quer a sério (pois a brincadeira, em coisas não boas, pode acabar por degenerar num dano sério).

(6) aprendam a justiça, não tocando, nem levando para casa, nem guardando para si, nem ocultando nada sem licença do dono, e nada fazendo que cause tristeza ou inveja a outrem.

(7) eduquem-se sobretudo para a caridade, para que estejam sempre prontas a distribuir pelas outras daquilo que têm, todas as vezes que alguém, impelido pela necessidade, a elas se dirige; mais ainda, a fazê-lo espontaneamente. Com efeito, é esta a virtude mais cristã e recomendada acima de todas pelo espírito de Cristo; se, principalmente com ela, na frigidíssima velhice do mundo presente, se aquecer o coração dos homens, conseguiremos a salvação da Igreja.

(8) as crianças devem ser também exercitadas em, trabalhos e ocupações contínuas, quer de caráter sério quer de caráter lúdico, para que a ociosidade se lhes torne insuportável.

(9) habituem-se as crianças, não somente a não tagarelarem constantemente e a não dizerem tudo o que lhes vem à boca, mas também a guardar silêncio quando a ocasião o exige, como é o caso quando outros falam, quando está presente alguma pessoa de elevada categoria, quando se produz algum acontecimento que exige o silêncio.

(10) Nesta primeira idade, devem ser formadas sobretudo na paciência, da qual terão necessidade durante toda a vida; de tal maneira que, antes que as paixões irrompam mais violentamente e lancem raízes, sejam domadas, e as crianças se habituem a deixarem-se guiar pela razão e não pela paixão, e a refrearem e a não darem largas à ira, etc.

(11) a cortesia e solicitude em servir os outros é o mais belo ornamento da juventude e, mais ainda, da vida inteira. Devem, por isso, ser nela exercitadas, durante estes primeiros seis anos, para que sempre que se lhes ofereça a ocasião de servir e de ser agradável aos outros, o façam imediatamente.

(12) Deve acrescentar-se também a urbanidade das atitudes, para que nada façam ineptamente ou tolamente, mas façam tudo com a devida modéstia. A esta virtude pertencem a afabilidade das atitudes, cumprimentar, responder aos cumprimentos, pedir «por favor” quando necessitam de qualquer coisa, dizer «muito obrigado» quando recebem qualquer benefício, fazendo uma modesta inclinação de cabeça, beijando as mãos, e coisas semelhantes.

XX.

21. Finalmente, as crianças de seis anos podem ser introduzidas no estudo da religião e da piedade[4], de modo a aprenderem de cor os principais pontos do catecismo e os fundamentos do cristianismo e, tanto quanto a idade o permite, os comecem a entender e a pôr em prática. E assim, compenetradas do sentimento da divindade, vendo Deus presente em toda a parte e considerando-o como vingador justíssimo do mal, se habituem a não cometer nada de mal; e, ao contrário, amando-o, venerando-o, invocando-o, louvando-o, como remunerador benigníssimo do bem, e dele esperando misericórdia na vida e na morte, se habituem a não deixar de fazer nada de quanto bem se aperceberam que lhe agrada e a viver sob o olhar de Deus e (como diz a Escritura) a andar com Deus[5].

Utilidade da infância formada desta maneira.

22. Assim, poderá dizer-se dos filhos dos cristãos aquilo que o evangelista disse do próprio Cristo: que ele «crescia em sabedoria, em idade e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lucas, 2, 52).

Porque é que, a este propósito, se não pode prescrever nada de mais pormenorizado.

23. Estas serão as metas, estas serão as tarefas da escola materna. Mas não se pode explicar mais pormenorizadamente, ou seja, não se pode mostrar por meio de quadros que programa se deva desenvolver em cada ano, em cada mês, em cada dia (como mostraremos ser necessário na escola primária e na de latim)[6]; e não se pode pormenorizar, como no programa das escolas que vêm a seguir, por duas razões. Em primeiro lugar, porque os pais, ocupados com os negócios domésticos, não podem observar tão estritamente a ordem como nas escolas públicas, onde se não faz outra coisa senão educar a juventude. Em segundo lugar, porque o engenho e o desejo de aprender se manifestam de modo muito diverso nas crianças, sendo umas mais precoces e outras mais lentas. Algumas crianças de dois anos falam já desenvoltarnente e são capazes de tudo; outras, dificilmente, aos cinco anos, estão ao nível daquelas. Por isso, é necessário confiar inteiramente à prudência dos pais a formação das criancinhas desta primeira idade.

Salvo duas grandes ajudas:
I. O informador da escola materna.

24. Pode, todavia, fazer-se utilmente duas coisas.

Primeira: compilar um livro de conselhos para os pais e para as amas, para que não ignorem os seus deveres. Neste livro, devem expor-se, uma por uma, todas as coisas em que é necessário formar a infância, e dizer de que ocasiões deve aproveitar-se para agir, e quais as maneiras e as regras que devem observar-se na fala e no gesto para incutir nas crianças as primeiras noções elementares. Um opúsculo deste gênero (sob o título O informador da escola materna)[7] será por nós escrito.

II. O exercitador dos sentidos.

25. Outra coisa que poderá ser útil aos exercícios da escola materna será um Livrinho de Imagens, a colocar nas mãos das próprias crianças. Com efeito, como nesta escola se deve sobretudo exercitar os sentidos a receber as impressões das coisas mais fáceis, e a vista ocupa um lugar importante entre os sentidos, conseguiremos o nosso objetivo se colocarmos sob os olhos das criancinhas todas as primeiras noções de história natural, de ótica, de astronomia, de geometria, etc., mesmo segundo a ordem do programa didático, há pouco delineado. Neste livro, com efeito, pode pintar-se montes, vales, plantas, aves, peixes, cavalos, bois, ovelhas, homens de várias idades e de várias estaturas, e principalmente a luz e as trevas, o céu com o sol, a lua, as estrelas, as nuvens, as cores fundamentais, e também os utensílios domésticos e os dos artesãos: panelas, frigideiras, talhas, martelos, tesouras, etc. De igual modo, podem pintar-se pessoas com os seus distintivos, como um rei com o cetro e a coroa, um soldado com as armas, um cocheiro com o coche, um lavrador com a charrua, um carteiro a distribuir cartas, e, em cima de cada figura, uma inscrição a indicar o seu significado: cavalo, boi, cão, árvore etc.[8].

Utilidade deste livro.

26. A utilidade deste livro é tríplice: 1. ajuda a imprimir as coisas na mente das crianças, como dissemos já; 2. atrai os espíritos tenros a procurar em qualquer outro livro coisas para se divertir; 3. faz aprender a ler mais facilmente, pois, como as figuras das coisas têm o seu nome escrito por cima, poderá começar-se a ensinar a ler, ensinando a ler as letras desses nomes.


Capítulo XXIX

PLANO
DA ESCOLA
DE LÍNGUA NACIONAL

A escola de língua nacional deve ser anterior à de latim.

1. No capítulo IX, demonstrei que toda a juventude, de um e outro sexo, deve ser enviada às escolas públicas. Agora acrescento que toda a juventude deve ser confiada, primeiro, às escolas de língua nacional, embora alguns sejam de opinião contrária. Zepper, no livro 1, cap. 7, da sua Política eclesiastica[1], e Alsted, no cap. 6 da sua Escolástica[2], aconselham «a mandar às escolas de língua nacional apenas as raparigas e os rapazes que virão a dedicar-se às artes mecânicas; mas aconselham a enviar, não à escola de língua nacional, mas diretamente à escola de latim, as crianças que, segundo a intenção de seus pais, aspiram a uma mais profunda cultura do espírito». Alsted acrescenta: «discorde quem quiser; eu proponho o caminho e o método que gostaria de ver seguido por aqueles que desejaria o mais bem instruídos possível». Ora, o método da nossa Didática obriga-nos a discordar.

Porque:

2. Discordamos porque: 1. queremos dar a todos aqueles que nasceram homens uma instrução geral capaz de educar todas as faculdades humanas. Importa, portanto, conduzi-los todos, em conjunto, até onde é possível conduzi-los todos em conjunto, a fim de que todos se animem, se encorajem e se estimulem mutuamente; 2. queremos que todos se formem em todas as virtudes, e, por isso, também na modéstia, na concórdia e no serviço mútuo. Não devem, portanto, separar-se tão cedo uns dos outros, nem deve oferecer-se a alguns ocasião de se julgarem mais que outros e de os desprezarem; 3. querer determinar, à volta dos seis anos, qual a vocação de cada um, se para os estudos ou para os trabalhos e artes manuais, parece um verdadeiro ato de precipitação, pois, naquela idade, não se manifestam ainda bem nem as forças do engenho nem as inclinações da alma; e umas e outras desenvolvem-se muito melhor depois; precisamente como se não pode ver quais as ervas que se devem arrancar e quais as que se devem conservar num jardim, enquanto são novinhas, mas pode ver-se quando estão já crescidas. E não se abra a escola de latim apenas aos filhos dos ricos, ou dos nobres, ou apenas daqueles que exercem as magistraturas, porque não são somente os filhos destes que nascem para subir aos altos graus nas magistraturas, mas também os outros, que, por isso, não devem ser postos de parte como gente sem esperança. O espírito sopra onde quer, e nem sempre começa a soprar em determinado tempo.

3. A quarta razão é, para nós, que o nosso método universal não aspira apenas a possuir essa ninfa, geralmente objeto de um ardente amor, que é a língua latina, mas procura também o caminho a seguir para que possam dominar-se igualmente as línguas vernáculas de todos os povos (para que todos os espíritos louvem, cada vez mais, o Senhor). Seria inoportuno perturbar uma tal intenção com um salto tão desmedido por cima de toda a língua nacional.

4. Em quinto lugar, querer ensinar uma língua estrangeira a quem não domina ainda a sua língua nacional, é como querer ensinar equitação a quem não sabe ainda caminhar. É preferível, portanto, fazer as coisas separadamente, como demonstrámos no capítulo XVI, fundamento IV. Do mesmo modo que Cícero dizia que lhe era impossível ensinar a aprender a quem não sabia falar[3], também o nosso método proclama que não convém ensinar o latim a quem não sabe ainda a sua língua nacional, pois estabeleceu que esta deve dar a mão à outra e servir-lhe de guia.

5. Finalmente, como a instrução que nós procuramos dar é uma instrução prática, é possível, com igual facilidade, conduzir os alunos ao conhecimento do material linguístico com a ajuda de livros escritos em língua nacional, que contenham a nomenclatura das coisas. Procedendo assim, os alunos aprenderão a língua latina muito mais facilmente, pois bastará que adaptem às coisas por eles já conhecidas a nova nomenclatura latina e que depois, com prudente gradação, acrescentem ao conhecimento prático das coisas o seu conhecimento teórico.

Objetivos e metas da escola de língua nacional.

6. Mantendo, portanto, a nossa hipótese de quatro espécies de escolas, dilinearemos como se segue a escola de língua nacional. O objetivo e a meta da escola de língua nacional é ensinar a toda a juventude, dos seis aos doze (ou treze) anos de idade, aquelas coisas que lhe serão úteis durante toda a vida. Ou seja:

I. Ler correntemente tudo aquilo que, em letras tipográficas ou à mão, está escrito na língua nacional.

II. Escrever, primeiro caligraficamente, depois rapidamente, e, por último, em conformidade com as regras gramaticais da língua nacional, as quais devem ser expostas do modo mais familiar, e devidamente aplicadas por meio de exercícios.

III. Contar, por meio de números ou de cálculos, conforme a necessidade.

IV. Medir, segundo as regras da arte, de qualquer maneira, o comprimento, a largura, a distância, etc.

V. Cantar melodias das mais correntes; e aos que tiverem mais aptidões para isso, ensinar também os rudimentos da música.

VI. Aprender de cor a maior parte das salmódias e dos hinos sagrados que são usados em vários lugares, para que, alimentados pelos louvores de Deus, saibam (como diz o Apóstolo)[4] ensinar-se e admoestar-se a si mesmos, mediante os salmos, os hinos e os cânticos espirituais, cantando-os em louvor de Deus nos seus corações.

VII. Além do catecismo, saibam na ponta da língua as histórias e as máximas principais de toda a Sagrada Escritura, para que as saibam recitar.

VIII. Aprendam de cor, entendam e comecem a pôr em prática os ensinamentos morais, expressos em regras e ilustrados com exemplos, adaptados à capacidade da sua idade.

IX. Acerca das condições econômicas e políticas, conheçam o suficiente para compreenderem aquilo que todos os dias vêem fazer em casa e na sociedade.

X. Não ignorarão a história geral do mundo: a criação, a queda, a redenção e o modo como é sabiamente regido por Deus.

XI. Aprendam as coisas principais da cosmografia, relativas à forma redonda do céu, ao globo terrestre suspenso no meio do espaço, ao oceano que envolve a terra, às várias sinuosidades dos mares e dos rios, às principais partes do mundo, aos mais importantes Estados da Europa, e, sobretudo, as cidades, os montes, os rios e tudo o que há de mais notável na sua pátria.

XII. Finalmente, devem adquirir conhecimentos vários, de ordem geral, acerca das artes mecânicas, quer apenas com o objetivo de não serem tão crassamente ignorantes que não saibam o que se faz na vida humana, quer para que, mais tarde, com maior facilidade, a natureza revele aquilo para que cada um é mais fortemente inclinado.

Porque é que nesta escola se propõem objetivos tão amplos.

7. Se todas estas coisas forem capazmente ministradas nesta escola de língua nacional, acontecerá que, não só aos adolescentes que entram para a escola latina, mas também aqueles que passam a exercer o comércio, a agricultura ou os ofícios manuais, nada se deparará que seja de tal maneira novo do qual não tenham já haurido o gosto aqui; e, por isso, tudo aquilo que cada um, mais tarde, deverá fazer, exercendo a sua própria arte, ou ouvir dos oradores sagrados ou de outros, ou, enfim, deverá ler em qualquer livro, nada mais será que, ou uma mais rica dilucidação ou uma dedução mais particular de coisas já antes conhecidas; e os homens experimentarão por si mesmos que são realmente aptos para aprender, para fazer e para julgar melhor todas as coisas.

Meios aptos para atingir estes fins.

8. Para atingir este objetivo, temos os seguintes meios:

I. As classes.

I. A população da escola de língua nacional, que, durante seis anos, se dedicará aos estudos, deve distribuir-se em seis classes (separadas, se possível, mesmo quanto ao lugar, para que se não perturbem mutuamente).

II. Os livros.

II. A cada classe sejam destinados livros de texto próprios, que contenham todo o programa prescrito para essa classe (quanto à instrução, à moral e à piedade), para que, durante o espaço de tempo em que os jovens são conduzidos pelo caminho destes estudos, não tenham necessidade de nenhum outro livro, e com a ajuda destes livros possam ser conduzidos infalivelmente às metas fixadas. Com efeito, é necessário que estes livros contenham todo o programa de língua nacional: por exemplo, todos os nomes das coisas que as crianças, segundo a sua idade, são capazes de entender, e os principais e mais usados modos de dizer.

A matéria dos livros das várias classes é a mesma: só a forma é diferente.

9. Portanto, em conformidade com o número de classes, estes livros serão seis, diferentes entre si, não tanto pelas matérias tratadas, como pela forma. Com efeito, todos tratarão de todas as coisas; mas o primeiro apresentará os aspectos mais gerais, mais conhecidos, mais fáceis; o seguinte promoverá a intelecção de aspectos mais especiais, mais desconhecidos e mais difíceis, ou oferecerá um modo novo de considerar as mesmas coisas, para fazer saborear novas delícias aos espíritos, como dentro em breve se mostrará.

Nestes livros, tudo deverá ser adaptado à índole da idade.

10. Deve, todavia; haver a preocupação de que, nesses livros, tudo seja adaptado aos espíritos infantis, os quais, por natureza, são inclinados para as coisas agradáveis, jocosas e lúdicas, e aborrecem, em geral, as coisas sérias e severas. Portanto, para que possam aprender as coisas sérias que, a seu tempo, serão de utilidade ao homem sério, e aprendê-las com facilidade e prazer, importa misturar por toda a parte o útil ao agradável, o qual atraia os espíritos por meio dos seus encantos quase contínuos, e os conduza até onde desejamos.

Para aliciar as crianças, adornem-se os livros com títulos bonitos.

11. Que os livros sejam também ornados com títulos que, pela sua suavidade, aliciem a juventude, e, ao mesmo tempo, exprimam elegantemente todo o conteúdo do livro. Espero que esses títulos sejam tirados das espécies dos jardins dessa ameníssima propriedade que é a escola. Efetivamente, porque a escola se compara a um jardim, porque é que o livrinho da primeira classe se não há-de chamar Canteiro de violetas, o da segunda Roseiral e o da terceira Vergel, etc.?[5].

Nestes livros, todos os termos técnicos devem ser expressos em língua nacional.

12. Acerca destes livros, e acerca da sua matéria e da sua forma, falaremos mais pormenorizadamente noutro lugar. Acrescento apenas isto: porque estes livros são escritos em língua nacional, também os termos técnicos devem ser expressos na língua nacional, e não deve usar-se de termos latinos ou gregos.

Porquê?
1.

Razão: I. Queremos proporcionar à juventude que entenda tudo sem perda de tempo. Ora, as palavras de uma língua estrangeira, antes de serem entendidas, devem ser explicadas; e, mesmo depois de explicadas, não são entendidas, mas apenas se crê que signifiquem aquilo que significam, e, conseqüentemente, retém-se com grande dificuldade. Ao passo que, quando se trata de palavras familiares, não é necessária outra explicação além desta: tal palavra significa tal coisa; e imediatamente se entende e se imprime na memória. Queremos, portanto, que os empecilhos e os instrumentos de suplício estejam ausentes desta primeira informação, para que tudo corra como um rio. II. Além disso, queremos que se cultivem as línguas nacionais, não à maneira dos franceses que conservam termos latinos e gregos que o povo não entende (é a censura formulada por Stevinus)[6], mas exprimindo todas as coisas com palavras que o povo entenda, como o aconselha o mesmo Stevinus aos seus compatriotas belgas e o mostrou elegantemente na sua Matemática[7].

Três objeções.

13. Pode objetar-se, e costuma objetar-se, que nem todas as línguas são tão ricas de modo a poderem traduzir igualmente bem os vocábulos gregos e latinos. Objeta-se ainda que, mesmo que essas línguas traduzam bem esses vocábulos, todavia, os eruditos, habituados aos seus termos, não os abandonam. Finalmente, objeta-se que é melhor que as crianças, que devem ser iniciadas no estudo do latim, se habituem já aqui à língua dos eruditos, para que não seja necessário depois aprender duas vezes os termos técnicos.

Resposta à primeira objeção.

14. Mas responde-se a essas objeções. A culpa não é das línguas, mas dos homens, se alguma língua se revela obscura, mutilada e imperfeita para significar aquilo que é necessário. Também os latinos e os gregos tiveram de inventar primeiro as palavras e de as fazer entrar no uso corrente; a princípio, pareceram-lhes tão ásperas e obscuras, que eles próprios duvidaram se as deviam ou não cultivar; mas, depois que foram aceites, não há nada de mais significativo. É o que se verifica com as palavras ente, essência, substância, acidente, qualidade, quididade, etc. Não faltaria, portanto, nada a nenhuma língua, se aos homens não faltasse o engenho.

A segunda.

15. Quanto à segunda objeção: que os eruditos conservem para si a sua língua; nós agora pensamos apenas nos ignorantes e no modo de os levar também a entender as artes liberais e as ciências, isto é, no modo de lhes não falar com boca de estrangeiro e numa língua exótica.

A terceira.

16. Finalmente, aquelas crianças que, mais tarde, se dedicarão ao estudo das línguas, sentirão tão pequeno incômodo por saberem os termos técnicos na sua língua pátria, como por chamarem a Deus Pai, na sua língua, antes que em latim.

III. Terceiro requisito: um bom método, o qual consta de quatro leis.

17. O terceiro requisito será um método fácil de apresentar estes livros à juventude, o qual condensaremos nas regras seguintes:

I. Não se dediquem diariarnente aos estudos públicos senão quatro horas: duas antes e duas depois do meio dia. As outras poderão ser passadas utilmente nos trabalhos domésticos (principalmente nas famílias mais pobres) ou em quaisquer recreações honestas.

II. As horas da manhã devem ser consagradas a cultivar a inteligência e a memória; as da tarde, a exercitar as mãos e a voz.

III. Nas horas da manhã, portanto, o professor prelecionará a lição marcada no horário, enquanto todos os alunos estarão a ouvir; e, se for necessário explicar qualquer ponto, fá-lo-á do modo mais familiar, para que seja impossível que os alunos não entendam. Então, mandará que, por ordem, os alunos releiam, de modo que, enquanto um lê claramente e distintamente, os outros, olhando para os seus livrinhos, acompanhem em silêncio. E, se se continuar a fazer assim, durante meia hora ou mais, acontecerá que os mais inteligentes tentem recitar aquela lição sem livro e, finalmente, também os mais lentos. Note-se que as lições devem ser muito breves, adaptadas aos tempos dos horários e à capacidade das inteligências infantis.

IV. Estas lições radicar-se-ão ainda melhor na mente dos alunos, nas horas de depois do meio dia, nas quais não queremos que se trate nenhum tema novo, mas que se repita a mesma lição da manhã: em parte, transcrevendo os próprios livros impressos, e em parte fazendo «sabatinas», a ver quem repete com mais prontidão as lições anteriores ou quem escreve, canta e conta com mais segurança e elegância, etc.

Porque aconselhamos que os alunos copiem os livros com a sua própria mão.

18. Não é sem razão que aconselhamos que todas as crianças copiem com a sua própria mão, o mais asseadamente possível, os seus livros impressos. Efetivamente:

1. Este trabalho serve para imprimir tudo mais profundamente na memória, pois ocupa os sentidos durante mais tempo, nas mesmas matérias. 2. Com este exercício quotidiano de escrita, as crianças adquirirão o hábito de escrever caligraficamente, rapidamente e ortograficamente, hábito muito necessário para os estudos ulteriores e para os negócios da vida. 3. Para os pais, será um argumento evidentíssimo de que, na escola, os seus filhos se ocupam daquilo de que devem ocupar-se, e poderão mais facilmente julgar do aproveitamento dos filhos e até quanto estes acaso os superam a eles mesmos.

Conselho acerca do estudo das línguas dos povos vizinhos.

19. Reservamos as coisas mais particulares para outra ocasião. Advertimos, todavia, que, se algumas das crianças quiserem dedicar-se ao estudo das línguas dos povos vizinhos, façam-no nesta altura, em que têm dez, onze ou doze anos, ou seja, entre a escola de língua nacional e a escola latina. O que se fará muito facilmente se forem enviados para um lugar onde se fale todos os dias, não a sua língua materna, mas aquela que querem aprender, e se os livros de texto da escola de língua vernácula (já deles conhecidos, quanto à matéria) são por eles lidos, copiados, decorados e objeto de exercícios escritos e orais, nessa nova língua.


Capítulo XXX

PLANO
DA ESCOLA LATINA

Meta desta escola: quatro línguas e toda a enciclopédia das artes.

1. Fixamos as metas a esta escola, de modo que, com quatro línguas, se abranja toda a enciclopédia das Artes, ou seja, de modo que, conduzindo devidamente os adolescentes por estas classes, consigamos:

I. Gramáticos competentes para fornecer, de modo perfeito, as razões de todas as coisas, em latim e na língua nacional e, se necessário, em grego e em hebreu.

II. Dialéticos peritos em definir, distinguir, argumentar e em rebater os argumentos dos outros.

III. Retóricos ou Oradores capazes de discorrer elegantemente sobre qualquer tema.

IV. Matemáticos e

V. Geômetras, tanto para as várias necessidades da vida, como porque estas ciências preparam e aguçam o engenho para as outras.

VI. Músicos, práticos e teóricos.

VII. Astrônomos, versados, ao menos, nas coisas fundamentais, ou seja, na doutrina da esfera e no cômputo, pois, sem estas, a Física, a Geografia e a maior parte da História são cegas.

2. Estas são as tão decantadas sete Artes liberais, que o vulgo julga deverem ser ensinadas pelo professor de Filosofia. Mas, para que os alunos subam mais alto, queremos que haja também:

VIII. Naturalistas (Physici) que conheçam a composição do mundo, a natureza dos elementos, as diferenças dos animais, as propriedades das plantas e dos minerais, a estrutura do corpo humano, etc., considerando estas coisas, tanto em geral, como são em si mesmas, e ainda como coisas criadas para utilidade da nossa vida, o que compreende a parte que diz respeito à medicina, à agricultura e a todas as outras artes mecânicas.

IX. Geógrafos que tenham gravado na mente o globo terrestre, os mares, as suas ilhas, os rios, os Estados, etc.

X. Cronologistas que saibam de cor a sucessão das várias épocas, desde o começo do mundo, e as suas divisões.

XI. Historiadores que saibam enumerar a maior parte das mais notáveis transformações do gênero humano, dos principais Estados e da Igreja, e bem assim os vários costumes e ritos dos povos e dos homens.

XII. Moralistas que conheçam exatamente os gêneros e as diferenças das virtudes e dos vícios, e saibam fazer observar aquelas e levar a fugir destes, considerando tanto a sua idéia geral como a sua aplicação prática, relativamente à vida econômica, política, eclesiástica, etc.

XIII. Finalmente, queremos fazer Teólogos que, não só conheçam os fundamentos da sua fé, mas possam eles próprios ir hauri-los nas Sagradas Escrituras.

3. Desejamos que, terminado este curso de seis anos, os adolescentes sejam, em todas estas coisas, se não perfeitos (como efeito, nem a idade juvenil pode atingir a perfeição, nem é possível, em seis anos de instrução, esgotar o oceano), pelo menos possuidores de sólidos fundamentos, onde poderá assentar uma cultura mais perfeita.

Caminho para atingir estes objetivos: seis classes.

4. Será necessário que, repartindo-se a instrução por seis anos, haja seis classes, as quais, começando a enumerar desde a mais baixa, podem receber os seguintes nomes:

I. Gramática

II. Física

III. Matemática

IV. Ética

V. Dialética

VI. Retórica.

Porque é que, depois a gramática, não deve vir imediatamente a dialética?

5. Espero que ninguém mova uma campanha contra nós, pelo fato de pormos em primeiro lugar a gramática, como se ela fosse a porteira das outras disciplinas. Porém, aqueles que consideram os costumes como se fossem leis, talvez se admirem que coloquemos a dialética e a retórica depois das ciências positivas. Convém, todavia, fazer assim, pois estamos convencidos de que se deve ensinar as coisas antes do modo das coisas, isto é, a matéria antes da forma, e de que o único método capaz de nos fazer progredir, de maneira segura e rápida, é aquele que consiste em adquirir conhecimento das coisas antes de se começar, ou a julgá-las a fundo ou a expô-las com estilo florido. Procedendo de modo diverso, ter-se-á à disposição todos os modos de discorrer e de falar, mas ser-se-á pobre quanto às coisas a examinar e a aconselhar; e, então, que poderá examinar-se ou aconselhar-se? Assim como é impossível que uma virgem dê à luz, se primeiro não concebeu, assim também é impossível que alguém fale das coisas racionalmente, se primeiro não tomou conhecimento das coisas. As coisas, em si mesmas, são aquilo que são, ainda que a razão ou a língua se não ocupem delas; mas a razão e a língua apenas trabalham com as coisas e dependem delas: sem as coisas, ou se reduzem a nada, ou tornam-se sons sem pensamento, por efeito de um esforço, ou estúpido ou ridículo. Portanto, uma vez que o raciocínio e o discurso se fundam nas coisas, é absolutamente necessário que o fundamento seja lançado primeiro.

Porque que é que a moral se coloca depois das ciências naturais.

6. Embora muitos façam o contrário, homens doutos demonstraram que as ciências naturais devem colocar-se antes das ciências morais. Lípsio, no Livro I, capítulo 1, da sua Fisiologia, escreve: «Agrada-nos a opinião dos grandes autores, e consentirei e deliberarei que a Física se ensine em primeiro lugar. Nesta parte (da Filosofia) é maior o prazer, apto para atrair e para prender; e há também uma dignidade maior e um esplendor que excita a admiração; finalmente, uma preparação e cultivo da alma de modo a ouvir-se com fruto as lições da Ética»[1].

Porque é que, a exemplo dos antigos, se não põe a matemática antes da física?

7. Quanto à matemática, poderia duvidar-se se ela deve seguir ou anteceder a física. É certo que os antigos principiaram a observação das coisas pelos estudos matemáticos e, por isso, as matérias a estudar se chamaram {Oacv~}, ou seja, disciplinas; e Platão não admitia na sua Academia nenhum ageômetra (<grego>). A razão é evidente, porque as ciências que tratam de números e de quantidades baseiam-se, mais que outras, nos sentidos e, por isso, são mais fáceis e mais certas, e concentram e fixam a força imaginativa, e, finalmente, porque dispõem e excitam a estudar outras coisas mais afastadas dos sentidos.

Primeira Resposta.

8. Tudo isto é verdade. No entanto, a este propósito, devemos fazer algumas considerações, uma vez que: 1. se aconselhou a exercitar os sentidos na escola de língua nacional e a aguçar os espíritos com as coisas sensíveis; portanto, os nossos alunos já não serão totalmente ageômetras (<grego>). 2. O nosso método procede sempre gradualmente. Portanto, antes de chegar às mais sublimes especulações das quantidades, é bom que se demore um pouco a ensinar as coisas concretas acerca dos corpos, porque estes servem como que de passagem para atingir e apreender melhor as coisas abstratas. 3. Ao programa da classe de matemática, nós acrescentamos várias coisas artificiais, cujo conhecimento fácil e verdadeiro dificilmente pode adquirir-se sem o ensino das ciências naturais, e, por isso, colocamos primeiro estas ciências. Mas, se as razões dos outros ou mesmo a prática convencerem que é melhor proceder diversamente, não temos intenção de nos opor. Mas, por enquanto, estamos convencidos das nossas razões.

A Física deve ser precedida da Metafísica: mas de qual?

9. Depois de adquirido um conhecimento mediano da língua latina (através do Vestíbulo e da Porta, a que consagramos a primeira classe), aconselhamos que se apresente aos alunos uma ciência generalíssima, a qual é chamada ciência primeira, e vulgarmente Metafísica (em nosso entender, seria mais correto chamar-lhe profísica (<grego>) ou hipofísica {<grego>}, ou seja, preparação para o estudo da física). Esta ciência deve descobrir aos alunos os primeiros e os mais profundos fundamentos da natureza, como, por exemplo, os requisitos necessários, os atributos e as diferenças de todas as coisas, e dar a conhecer as leis mais gerais, as definições, os axiomas, o modelo e a estrutura de todas as coisas. Quando tiverem adquirido estes conhecimentos (e, com o nosso método, será muito fácil), poderão dirigir as observações para todos os particulares, pois a maior parte deles parecerão já conhecidos, e nada parecerá absolutamente novo, a não ser a aplicação das leis gerais aos casos particulares. Destas coisas gerais, a que se pode dedicar, ao máximo, um trimestre (com efeito, entendem-se muito facilmente, pois são como que princípios que qualquer dos sentidos apreende e admite só pela sua própria luz), passe-se imediatamente à observação do mundo visível, para que as maravilhas da natureza (reveladas na profísica) se tornem cada vez mais claras por meio de exemplos particulares escolhidos na própria natureza: Este estudo constituirá a classe de Física.

A seguir à Física vem a Matemática; depois, a Ética.

10. Da essência das coisas, passar-se-á então a uma observação mais acurada sobre os acidentes das coisas. A este estudo damos o nome de classe de Matemática.

11. Imediatamente a seguir, os alunos deverão fazer especulações sobre o próprio homem com as ações da sua vontade livre, como senhor das coisas, para aprenderem a ver o que está e o que não está sob o nosso poder e sob o nosso arbítrio, como convém governar todas as coisas segundo as leis do universo, etc.

Isto ensinar-se-á no quarto ano, na classe de Ética. Mas estudem-se todas estas coisas, já não apenas historicamente, isto é, pela prática, como acontecia nos rudimentos da escola de língua nacional, mas teoricamente, para que os alunos se habituem a considerar as causas e os efeitos das coisas. Mas abstenham-se os professores de misturar com o programa destas primeiras quatro classes algo de controverso, pois queremos reservar estas coisas integralmente para a quinta classe, como se segue.

Classe de Dialética.

12. Na classe de Dialética, depois de apresentadas, de modo breve, as regras do raciocínio, queremos que se percorra o programa da Física, da Matemática e da Ética, e se ventile tudo o que de mais importante lá se contém, que seja objeto das controvérsias dos eruditos. Então ensinar-se-á: Qual a origem da controvérsia? qual o seu estado atual? qual a tese e a antítese? com que argumentos verdadeiros ou prováveis se defende esta ou aquela? Procure-se depois descobrir o erro, a ocasião de erro e a falácia dos argumentos da tese oposta, e, bem assim, a força dos argumentos a favor da tese verdadeira, ou ainda, se ambas as asserções contêm algo de verdadeiro, tente-se a conciliação. Assim, com o mesmo trabalho, far-se-á, por um lado, uma agradabilíssima repetição do programa já estudado, e, por outro lado, uma utilíssima explicação das coisas que não foram entendidas, e, com economia de tempo e de fadiga, ensinar-se-á ainda a arte de raciocinar, de investigar as coisas desconhecidas, de esclarecer as obscuras, de distinguir as ambíguas, de determinar as gerais, de defender as verdadeiras com as armas da própria verdade, de rejeitar as falsas e, enfim, de ordenar as coisas confusas com contínuos exemplos, com um método breve e eficaz.

Classe de Retórica.

13. A última classe será a de Retórica, na qual queremos que se façam exercícios verdadeiramente práticos, fáceis e agradáveis, de todas as coisas ensinadas até aqui, e através dos quais se torne evidente que os nossos alunos aprenderam alguma coisa e que não estiveram na escola inutilmente. Na verdade, segundo a máxima socrática «fala para que saiba quem és»[2], queremos formar a língua para uma sábia eloqüência àqueles de que até agora formámos principalmente a mente para a sabedoria.

14. Apresentadas, portanto, de novo, brevíssimas e claríssimas regras de eloqüência, passe-se aos exercícios, ou seja, à imitação dos melhores mestres na arte de dizer. Não convém, todavia, demorar-se sempre nas mesmas matérias, mas deve percorrer-se novamente todos os campos da verdade e da variedade das coisas, e os jardins da honestidade humana e os paraísos da sabedoria divina, para que tudo aquilo que os alunos sabem que é verdadeiro, bom e útil, isto é, agradável e honesto, o saibam também dizer bem e, se necessário, o saibam inculcar fortemente. Para este efeito, estando já de posse, graças aos estudos precedentes, de um cabedal de conhecimentos não desprezível, ou seja, de um razoável conhecimento de coisas de toda a espécie, de palavras, de frases, de adágios, de sentenças, de histórias, etc., adquirirão nesta classe uma nova bagagem.

O estudo da história deve distribuir-se por todas as classes.

15. Acerca destas coisas particulares, falaremos de novo, se necessário, pois a prática nos ensinará tudo o resto. Seja-me lícito acrescentar apenas isto: Porque é evidente que o conhecimento da história é uma parte belíssima da instrução e é como que os olhos de toda a vida, sou de opinião de que a história seja distribuída por todas as classes deste sexênio, para que os nossos alunos não ignorem tudo aquilo que de memorável fez ou disse a antiguidade. É, todavia, para desejar que este estudo seja ministrado com prudência, para que não aumente o trabalho dos alunos, mas até o torne mais suave, e seja para eles como que o condimento dos estudos mais severos.

E como.

16. Pensamos que será possível compilar, para cada classe, um livrinho especial, que contenha um certo gênero de fatos históricos, segundo o programa seguinte, distribuído pelas seis classes:

I. Compêndio de história sagrada.

II. História das ciências naturais.

III. História das artes e das invenções.

IV. História da moral: exemplos mais excelentes de virtudes, etc.

V. História dos ritos: acerca dos vários ritos dos povos, etc.

VI. História Universal, ou seja, história de todo o mundo e dos principais povos, mas sobretudo da Pátria de cada um. Tudo será exposto resumidamente, tratando apenas das coisas necessárias e omitindo as que não têm importância.

Advertência acerca do método continuamente uniforme destas escolas.

17. Acerca do método especial que deve usar-se nestas escolas, nada direi agora, a não ser o seguinte: desejamos que as quatro horas de lições públicas sejam assim divididas: as duas horas da manhã (após um exercício de piedade) dediquem-se àquela ciência ou àquela arte, da qual a classe toma o nome; que a História ocupe a primeira hora depois do meio dia, sendo a segunda hora consagrada a exercícios da pena, da palavra e das mãos, em conformidade com o que é requerido pela matéria de cada classe.


Capítulo XXXI

DA ACADEMIA

Porque se trata aqui da Academia.

1. Em verdade, o nosso método não se estende até a Academia (Universidade). Mas que mal há em abordar este tema, para dizer quais são os nossos votos a seu respeito? Dissemos atrás[1] que, por direito, se deve deixar às Academias as partes mais elevadas e complementares de todas as ciências e todas as faculdades superiores.

Três votos a seu respeito.

2. Desejamos, portanto, que nas Academias:

I. Se façam estudos verdadeiramente universais, de tal maneira que nada exista nas letras e nas ciências humanas que lá se não ministre.

II. Se adotem os métodos mais fáceis e mais seguros, para imbuir todos aqueles que as freqüentam de uma erudição sólida;

III. Que os cargos públicos não sejam confiados senão àqueles que nelas se prepararam com sucesso, e que são dignos e idôneos para que se lhes entregue com segurança o governo das coisas humanas.

Vejamos agora, modestamente, o que nos parece exigir cada um destes votos.

I. Que sejam verdadeiramente Universidades.

3. Para que os estudos acadêmicos sejam universais, há necessidade: de Professores de todas as ciências, artes, faculdades e línguas, eruditos e ardorosos, que extraiam de si, como de reservatórios vivos, e comuniquem a todos todas as coisas; e de uma Biblioteca seleta dos vários autores e de uso inteiramente comum.

II. Que tenham um método verdadeiramente universal.

4. Os trabalhos da Academia prosseguirão mais facilmente e com maior sucesso, se, em primeiro lugar, só para lá forem enviados os engenhos mais seletos, a flor dos homens; os outros enviar-se-ão para a charrua, para as profissões manuais, para o comércio, para que, aliás, nasceram.

Onde deve observar-se:

5. Se, em segundo lugar, cada um se aplicar ao estudo daquela disciplina para a qual, segundo certos indícios mostram, a natureza o destinou. Com efeito, assim como, por instinto natural, um se torna músico, poeta, orador, naturalista, etc. melhor que outro, assim também um é mais apto que outro para a teologia, para a medicina ou para a jurisprudência. Mas, quanto a isto, peca-se demasiado freqüentemente, pois queremos, a nosso arbítrio, fazer um Mercúrio de qualquer madeira[2], sem atender às inclinações da natureza. Daqui resulta que, lançando-nos nós, a despeito da nossa natureza, nestes ou naqueles estudos, nada fazemos que seja digno de louvor, e, freqüentemente, somos mais competentes em qualquer outra coisa acessória (<grego>) que na nossa própria profissão. Seria, portanto, de aconselhar que, no termo da Escola Clássica, fosse feito, pelos Diretores das Escolas, um exame público às capacidades dos alunos, para que pudessem deliberar quais dos jovens deviam ser enviados para a Universidade e quais os que deviam destinar-se aos outros gêneros de vida; e, igualmente, de entre aqueles que fossem destinados para prosseguir os estudos, quais os que deveriam dedicar-se à Teologia, ou à Política, ou à Medicina, etc., tendo em conta as suas inclinações naturais e ainda as necessidades da Igreja e do Estado.

III.

6. Em terceiro lugar, convém estimular os engenhos heróicos para tudo, para que não faltem homens que saibam muito (<grego>), ou saibam tudo (<grego>), ou sejam sábios em tudo (<grego>).

IV.

7. Deve, todavia, haver o cuidado de que só vão para as Universidades os alunos diligentes, honestos e solícitos, e que elas não tolerem os falsos estudantes, os quais esbanjam, no ócio e no luxo, o tempo e o dinheiro, dando mau exemplo aos outros. Assim, onde não há peste, não há contágio; todos se esforçarão por cumprir o seu dever.

V. Conselho acerca do resumo de autores de toda a espécie.

8. Dissemos que, na Academia, se devia estudar todo o gênero de autores. Ora, para que este estudo não seja demasiado penoso, e, contudo, seja útil, seria para desejar que se pedisse às pessoas doutas, aos filósofos, aos teólogos, aos médicos, etc. que prestassem à juventude estudiosa o mesmo favor que os geógrafos prestam aos estudiosos da geografia, encerrando províncias inteiras, reinos e mundos em mapas, e pondo extensíssimas partes da terra e do mar sob os olhos, de modo a poderem ser observadas com um só golpe de vista. Efetivamente, porque é que, do mesmo modo que os pintores representam ao vivo as regiões, as cidades, as casas e as pessoas, se não há-de representar Cícero, Lívio, Platão, Atistóteles, Plutarco, Tácito, Gélio, Hipócrates, Galeno, Celso, Santo Agostinho, S. Jerônimo e tantos outros? Não digo que se deva fazer apenas extratos de sentenças e florilégios (como foi feito por alguns), mas que se resumam as obras inteiras às coisas substanciais.

Quádrupla utilidade desses livros.

9. Estes resumos dos autores teriam uma grande utilidade. Em primeiro lugar, para aqueles que não têm tempo para ler obras extensas, para que ao menos adquirissem um conhecimento geral desses autores. Em segundo lugar, para aqueles que (segundo o conselho de Sêneca)[3] desejassem familiarizar-se apenas com um autor (pois nem todas as coisas convêm igualmente a todos) pudessem escolher mais facilmente e mais judiciosamente, quando, tendo saboreado vários autores, tivessem sentido que este ou aquele está mais em relação com os seus gostos. Em terceiro lugar, esses resumos prepararão muito bem para uma leitura mais frutuosa aqueles que deverão estudar as obras completas, da mesma maneira que, para um viajante, o fato de ter conhecido no mapa a corografla de determinada região, o ajuda a observar com mais facilidade, com mais segurança e com maior prazer todas as particularidades que, a seguir, lhe caem sob os olhos. Finalmente, esses breviários servirão a todos, para fazer mais rapidamente as revisões necessárias dos autores e para deles extrair a substância que se fixa no espírito e se transforma em alimento vital.

Conselho acerca da edição desses compêndios.

10. Poderiam esses sumários dos autores ser editados em separado (para uso dos mais pobres ou daqueles que não têm possibilidades de estudar integralmente os grandes volumes) e, depois, serem juntados aos respectivos autores, para que, quem se prepara para ler uma obra inteira, possa primeiro apreender o resumo de toda ela.

VI. Conselho acerca da criação, na Academia, de «Colégios Gelianos»

11. Quanto aos exercícios acadêmicos, não sei se deverei introduzir Colóquios (<grego>) públicos, segundo o modelo dos Colégios de Gélio[4]; ou seja, quando um professor trata publicamente de determinado tema, devem distribuir-se pelos alunos todos os melhores autores que tratam desse assunto, para que os leiam privadamente. E, acerca de tudo quanto o professor prelecionou na lição antes do meio dia, far-se-á uma discussão, na aula de depois do meio dia, em que participarão todos os alunos. Proceder-se-á do seguinte modo: os estudantes apresentarão questões, ou sobre determinado ponto que acaso algum não tenha entendido, ou sobre uma dificuldade que algum tenha encontrado, ou sobre uma opinião discordante que algum tenha descoberto no seu autor, e coisas semelhantes. Compete ao professor, como presidente da reunião, dizer quando é que é lícito a determinado aluno (seguindo-se, contudo, uma ordem determinada) responder e aos outros, a seguir, julgar e pronunciar-se sobre se a resposta é satisfatória, e, finalmente, terminar a controvérsia. Assim, parece que tudo aquilo que muitos leram se pode juntar num todo, não somente para que aproveite a todos, mas ainda para que tudo se imprima melhor nos espíritos e, conseqüentemente, todos façam progressos verdadeiramente sólidos na teoria e na prática das ciências.

III. Terceiro voto:
não conceder a coroa senão aos vitoriosos.

12. Parece que, a partir destes exercícios coletivos, possa ser satisfeito, sem muita dificuldade, o nosso último voto, e que é também o voto de todas as pessoas de bem: Não sejam admitidos nos cargos públicos senão aqueles que são dignos. Conseguir-se-á este desiderato, se isso não depender do arbítrio privado de uma ou duas pessoas, mas da consciência e do testemunho público de todos. Por isso, uma vez por ano, do mesmo modo que as escolas dos graus inferiores devem ser visitadas pelos seus diretores, recebam também as Academias a visita de inspetores do Estado, que procurem conhecer o empenho com que foram feitas todas as coisas, quer da parte dos professores, quer da parte dos alunos. Verificarão aqueles que mais se distinguiram pela sua diligência e, para atestar publicamente o seu valor, conferir-lhes-ão o grau de Doutor ou de Mestre.

Medo da vitória.

13. Se se não quer fazer apenas uma paródia, mas autênticas Disputas, para a colação dos graus acadêmicos, será convenientíssimo que o candidato (ou vários ao mesmo tempo) se coloque, sem o seu moderador, no meio da sala. E então os mais doutos e os mais versados na prática proponham-lhe que faça tudo o que julgarem melhor para verificar o seu progresso teórico e prático. Por exemplo: questões várias, tiradas de um texto (da Sagrada Escritura, de Hipócrates, do Código de Direito, etc.), perguntando-lhe: onde vem escrita esta, ou aquela, ou aqueloutra coisa? Como pode estar de acordo com isto ou com aquilo? Conhece algum autor que está em desacordo? Qual? E que argumentos apresenta? E como resolver a questão? E outras coisas semelhantes. Quanto à prática, proponham-se ao candidato vários casos: de consciência, de doenças, de processos. E pergunte-se-lhe: como procederia neste ou naquele caso? E porque procederia assim? Insista-se com novas perguntas e com novos casos, até que se torne evidente que ele é capaz de emitir juízo acerca das coisas, sabiamente e com verdadeiro fundamento. Quem não esperaria que os alunos poriam toda a diligência no estudo, se soubessem que teriam de enfrentar um exame tão público, tão sério e tão severo?

Das viagens.

14. Quando às viagens (a que demos um lugar neste último sexênio, ou no fim dele), não é necessária nenhuma advertência, a não ser talvez dizer que nos agrada, e está de acordo com os nossos princípios, a opinião de Platão, o qual proibia à juventude viajar antes de acalmar a excessiva impetuosidade da idade ardente e antes de adquirir a prudência e a capacidade necessária para viajar[5].

Acerca de uma escola das escolas: qual o seu objetivo e a sua utilidade.

15. E nem sequer é preciso mostrar quão necessária seria uma escola das escolas ou uma Sociedade Didática (Collegium Didacticum)[6], a fundar em qualquer parte, ou, se isso não for possível, ao menos entre os eruditos interessados em promover, dessa maneira, a glória de Deus, mesmo sem uma presença corporal. Os trabalhos desta sociedade devem tender para descobrir, cada vez mais, os fundamentos das ciências, para depurar e difundir pelo gênero humano, com melhor sucesso, a luz da sabedoria e para fazer sempre prosperar os interesses humanos com novas e utilíssimas invenções. Efetivamente, se não queremos estar sempre agarrados ao mesmo caminho, ou até andar para trás, temos de pensar em fazer progredir as boas empresas. Mas, como para isto não basta, nem um homem só, nem apenas a vida de um homem, é necessário que muitos homens juntamente e sucessivamente continuem a obra começada. Este colégio universal seria para as outras escolas o que o estômago é para os membros do corpo, ou seja, a oficina vital que a todos forneceria suco, vida e força.

16. Mas voltemos àquelas coisas que nos falta ainda dizer acerca das nossas escolas.


Capítulo XXXII

DA ORGANIZAÇÃO
UNIVERSAL E PERFEITA
DAS ESCOLAS

Recapitulação do que foi dito.

1. Discorremos largamente acerca da necessidade e do modo de reformar as escolas. Não será fora de propósito que façamos o resumo, quer dos nossos votos, quer dos nossos conselhos. É o que vamos fazer.

Resumo dos votos a satisfazer para que a arte didática atinja a precisão e a elegância da arte tipográfica.

2. Desejamos que o método de ensinar atinja tal perfeição que, entre a forma de instruir habitualmente usada até hoje e a nossa nova forma, apareça claramente que vai a diferença que vemos entre a arte de multiplicar os livros, copiando-os à pena, como era uso antigamente, e a arte da imprensa, que depois foi descoberta e agora é usada[1]. Efetivamente, assim como a arte tipográfica, embora mais difícil, mais custosa e mais trabalhosa, todavia, é mais acomodada para escrever livros com maior rapidez, precisão e elegância, assim também, este novo método, embora a princípio meta medo com as suas dificuldades, todavia, se for aceite nas escolas, servirá para instruir um número muito maior de alunos, com um aproveitamento muito mais certo e com maior prazer, que com a vulgar ausência de método (<grego>).

Vantagens da imprensa sobre o manuscrito.

3. É fácil pensar quão pouco útil pôde parecer o esforço do primeiro inventor da imprensa, dado o uso tão livre e tão rápido da pena. Mas os fatos mostram quantas vantagens trouxe esta invenção. Em primeiro lugar, dois rapazes podem imprimir mais exemplares de determinado livro, do que, no mesmo tempo, o faziam talvez duzentos copistas. Em segundo lugar, esses manuscritos serão diferentes quanto ao número, forma e disposição das folhas, das páginas e das linhas; ao contrário, os livros impressos são de tal maneira correspondentes uns aos outros que nem um ovo é tão semelhante a outro ovo; e isto verifica-se relativamente a todos os exemplares, o que é uma particularidade cheia de elegância e de atrativos. Em terceiro lugar, não é certo que as cópias feitas à pena sejam corretas, se se não revêem, se não se confrontam e se não se corrigem cuidadosamente todas e cada uma delas, o que se não pode fazer sem um multíplice trabalho, que provoca o tédio. Ao contrário, corrigidas as provas tipográficas de um só exemplar, todos os outros, sejam eles quantos milhares forem, ficarão corrigidos; o que parece algo de incrível para quem não conhece a arte tipográfica, mas é, de fato, verdade. Em quarto lugar, para escrever (quando se escreve com a pena), nem todo o papel é bom, mas somente o que é mais forte, que não deixe trespassar a tinta, ao passo que pode imprimir-se em qualquer espécie de papel, mesmo sobre papiro muito fino e transparente, sobre linho, etc. Finalmente, podem imprimir elegantemente livros, mesmos aqueles que não sabem escrever elegantemente, porque executam o trabalho, não com as próprias mãos, mas por meio de caracteres propositadamente preparados para isso.

Vantagem do método perfeito (o que preconizamos) relativamente ao método usado até hoje.

4. Parece que nada acontecerá de diferente se, a tudo aquilo que diz respeito à nossa nova forma universal de instruir, dermos um reto ordenamento (efetivamente, não afirmamos que a nossa já seja assim; apenas louvamos o método universal, <grego>), de tal maneira que: 1. com um menor número de professores, se possa ensinar um número muito maior de alunos, que com o método até aqui usado; 2. e os alunos se tornem verdadeiramente instruídos; 3. e recebam uma instrução polida e cheia de gravidade; 4. e se admitam a esta cultura mesmo aqueles que não são dotados de grandes inteligências e até os de inteligência lenta; 5. finalmente, serão hábeis para ensinar, mesmo aqueles a quem a natureza não dotou de muita habilidade para ensinar, pois a missão de cada um não é tanto tirar da própria mente o que deve ensinar, como sobretudo comunicar e infundir na juventude uma erudição já preparada e com instrumentos também já preparados, colocados nas suas mãos. Com efeito, assim como qualquer organista executa qualquer sinfonia, olhando para a partitura, a qual talvez ele não fosse capaz de compor, nem de executar de cor só com a voz ou com o órgão, assim também porque é que não há-de o professor ensinar na escola todas as coisas, se tudo aquilo que deverá ensinar e, bem assim, os modos como o há-de ensinar, o tem escrito como que em partituras?

Investigação mais particular deste assunto.

5. Mas retomemos a comparação que fomos buscar à tipografia e utilizemo-la para explicar melhor ainda em que consiste o mecanismo regular do nosso método e para mostrar claramente que é possível imprimir as ciências no espírito da mesma maneira que, externamente, é possível imprimi-las no papel, com tinta. E que razão haverá para que se não possa forjar um nome susceptível de convir à nossa nova Didática, como o termo didacografia (<grego>), modelado sobre a palavra tipografia? Mas exponhamos o assunto parte por parte.

Análise da arte tipográfica quanto aos materiais e aos trabalhos.

6. A arte tipográfica tem os seus materiais e os seus trabalhos. Os materiais principais são: o papel, os tipos, as tintas e o prelo; os trabalhos são: a preparação do papel, a composição, a paginação, colocar tinta nos tipos, a tiragem das folhas, a secagem, a correção das provas, etc., e cada uma destas coisas faz-se de uma maneira especial, e se se faz da maneira prescrita, tudo corre normalmente.

E igualmente da arte didática.

7. Na Didacografia (agrada-me usar esta palavra), as coisas passam-se precisamente da mesma maneira. O papel são os alunos, em cujos espíritos devem ser impressos os caracteres das ciências. Os tipos são os livros didáticos e todos os outros instrumentos propositadamente preparados para que, com a sua ajuda, as coisas a aprender se imprimam nas mentes com pouca fadiga. A tinta é a viva voz do professor que transfere o significado das coisas, dos livros para as mentes dos alunos. O prelo é a disciplina escolar que a todos dispõe e impele para se embeberem dos ensinamentos.

Que papel se requer.

8. O papel é bom, seja qual for a sua natureza; no entanto, quanto mais puro for, tanto mais nitidamente recebe e representa as coisas impressas. Assim também o nosso método admite todas as inteligências, mas faz progredir melhor as que são mais brilhantes.

Relação entre os tipos e os livros didáticos.

9. A analogia entre os tipos metálicos e os nossos livros didáticos (tais como nós queremos) é muito grande. Efetivamente, em primeiro lugar, assim como é necessário fundir, polir e adaptar os tipos, antes de se começar a impressão dos livros, assim também é necessário preparar os instrumentos do novo método, antes de começar a pôr em prática esse novo método.

2.

10. Exige-se uma tal abundância de tipos que seja suficiente para os trabalhos que se quer executar. Igualmente, é necessária grande abundância de livros e de instrumentos didáticos, porque é molesto, aborrecido e prejudicial começar um trabalho e não o poder continuar por falta dos meios necessários.

3.

11. O tipógrafo perfeito tem tipos de todas as espécies, para que nunca se encontre desprovido de qualquer dos tipos de que acaso venha a precisar. Do mesmo modo, é necessário que os nossos livros contenham tudo aquilo que pertence à plena cultura dos espíritos, para que a ninguém esteja vedado aprender aquilo que pode aprender.

4.

12. Os tipos, para que possam estar sempre à mão para qualquer uso, não se devem deixar espalhados aqui e além, mas devem ser colocados ordenadamente em caixas e em caixotins. Do mesmo modo, os nossos livros, tudo o que nos oferecem para aprendermos, não o devem oferecer de modo confuso, mas repartido do modo mais distinto possível, em tarefas de um ano, de um mês, de um dia e de uma hora.

5.

13. Retiram-se das caixas apenas os tipos de que temos necessidade para executar determinada obra, deixando-se os outros sem se lhes tocar. Também se devem colocar nas mãos das crianças somente os livros didáticos de que têm necessidade na sua classe, para que os outros não sejam ocasião de distração e de confusão.

6.

14. Finalmente, o tipógrafo serve-se de um componedor para dispor linearmente os caracteres em palavras, as palavras em linhas, as linhas em colunas, para que nada fique fora de proporção. Do mesmo modo, aos educadores da juventude, é necessário dar normas, em conformidade com as quais executem as suas obras, isto é, devem escrever-se para uso deles Livros-roteiros que os aconselhem quanto ao que hão-de fazer, em que lugar e de que modo, para que se não caia em erro.

Dois gêneros de livros didáticos.

15. Os livros didáticos serão, portanto, de dois gêneros: verdadeiros livros de texto para os alunos, e livros-roteiros (informatorii) para os professores, para que aprendam a servir-se bem daqueles.

Que é a tinta didática.

16. Dissemos que a tinta didática é a voz do professor. Efetivamente, assim como os caracteres, quando estão enxutos, permanecem também (pela ação do prelo) impressos no papel, mas não deixam, todavia, senão vestígios cegos, que, pouco depois, desaparecem, mas, embebidos de tinta, nele imprimem imagens visibilíssimas e quase indeléveis, assim também as coisas que os mudos professores das crianças, os livros de texto, colocam diante delas, são realmente mudas, obscuras e imperfeitas, mas, quando aos livros se junta a voz do professor (que explica tudo racionalmente, segundo a capacidade dos alunos, e tudo ensina a pôr em prática), tornam-se cheios de vida, imprimem-se profundamente nos seus espíritos, e assim, finalmente, os alunos entendem verdadeiramente aquilo que aprendem. E como a tinta da imprensa é diferente da que se usa com a pena, ou seja, não é feita com água, mas com óleo (e aqueles que desejam receber o grande elogio de serem verdadeiramente artistas tipográficos, usam óleo puríssimo e pó de carvão de noz), assim também a voz do professor, mediante um método didático suave e simples, deve insinuar-se, como óleo finíssimo, no espírito dos alunos, e juntamente consigo, deve insinuar as coisas.

A disciplina é o prelo didático.

17. Finalmente, aquilo que para os tipógrafos faz o prelo, nas escolas só a disciplina o consegue realizar, a qual não dá a ninguém a possibilidade de não receber a cultura ministrada. Portanto, assim como na imprensa qualquer papel, que deve transformar-se em livro, não pode fugir ao prelo (embora o papel mais forte seja apertado mais fortemente, e o mais delicado mais delicadamente), assim também quem vai à escola para se instruir deve sujeitar-se à disciplina comum.

Os graus da disciplina são os seguintes: primeiro, uma atenção contínua. Efetivamente, como a diligência e a inocência das crianças nunca nos oferecem uma confiança segura (são filhos de Adão), é necessário acompanhá-las com os olhos, para qualquer parte que se voltem. Em segundo lugar, a repreensão, com a qual se chamam ao caminho da razão e da obediência aqueles que exorbitam. Finalmente, o castigo, se recusam obedecer aos sinais de repreensão e às advertências. Mas todas estas penas disciplinares devem ser aplicadas com prudência, e sem outro fim que não seja tornar todos os alunos punidos mais desejosos de tudo fazerem com a maior seriedade.

Confronto proporcionado dos trabalhos.

18. Disse também que se requeriam trabalhos determinados, feitos de modo determinado. Resumirei também este assunto em breves palavras.

19. Quantos deverão ser os exemplares de um dado livro, outras tantas deverão ser as folhas a encher com o mesmo texto e com os mesmos caracteres; e deverá manter-se o mesmo número de folhas, desde o princípio do livro até ao fim, sem o aumentar nem o diminuir, pois, de outro modo, alguns exemplares resultam defeituosos. Do mesmo modo, o nosso método didático exige necessariamente que todos os alunos de uma escola sejam confiados ao mesmo professor, para que os eduque e instrua com os mesmos preceitos e os forme gradualmente, desde o princípio até ao fim, não admitindo nenhum na escola depois do princípio das lições, nem deixando que nenhum se vá embora antes do fim. Assim se conseguirá que um só professor seja suficiente para uma população escolar mesmo muito numerosa, e que todos aprendam tudo, sem lacunas nem interrupções. Será necessário, portanto, que todas as escolas públicas se abram e se encerrem uma vez por ano (temos razões para aconselhar que isso se faça no Outono, de preferência a fazer-se na Primavera ou noutra altura), para que, em cada ano, o programa de cada classe possa ser desenvolvido e todos os alunos (a não ser que a deficiência mental de alguns o impeça), conduzidos em conjunto para a meta, sejam promovidos em conjunto à classe superior, precisamente como acontece nas tipografias, em que, tirada a primeira folha para todos os exemplares, se passa à segunda, à terceira, e assim sucessivamente.

20. Os livros mais elegantemente impressos têm os capítulos, as colunas e os parágrafos claramente distintos, com certos espaços vazios (requeridos, quer pela necessidade, quer por uma melhor visão), tanto marginais como interlineares. Também o método didático deve necessariamente prescrever períodos de trabalho e períodos de repouso, de determinada duração, para recreações honestas. Efetivamente, esse método prescreve programas para serem desenvolvidos em um ano, em um mês, em um dia e em uma hora... E se se observarem bem estas prescrições, é impossível que cada classe não percorra todo o seu programa, e assim, em cada ano, não atinja a sua meta. Temos boas razões para aconselhar que se não dispendam a trabalhar nas escolas públicas mais de quatro horas por dia: duas antes e duas depois do meio dia. E se ao Sábado se fizer feriado de tarde e o Domingo for todo consagrado ao culto divino, teremos 22 horas semanais de aula e (concedidos ainda os feriados necessários para as festas mais solenes) teremos cerca de mil horas por ano. E, em mil horas, quantas coisas se podem ensinar e aprender, se se procede sempre metodicamente.

21. Terminada a paginação da obra que deve ser impressa, vai buscar-se o papel e estende-se no seu lugar próprio, para que esteja à mão e não haja nada que atrase os trabalhos. Igualmente, o professor coloca os alunos diante dos seus olhos, para que os veja e para que todos o vejam sempre, como, no capítulo XIX, questão 1, ensinámos que devia fazer-se.

4.

22. Mas o papel, para que se torne mais apto para receber a impressão, costuma humedecer-se e amolecer-se. Do mesmo modo, importa na escola incitar constantemente os alunos a que estejam atentos, utilizando os processos de que falámos no mesmo capítulo.

5.

23. Feito isto, embebem-se de tinta os tipos metálicos, para que a sua imagem fique claramente impressa no papel. Também o professor ilustrará sempre com a própria voz a lição que dá em determinada hora, lendo-a, relendo-a e explicando-a, de modo a poder entender-se tudo claramente.

6.

24. Imediatamente a seguir, as folhas são colocadas, uma de cada vez, debaixo do prelo, para que os caracteres metálicos imprimam a sua própria figura em todas e em cada uma das folhas. Do mesmo modo, o professor, depois de ter mostrado suficientemente o sentido de um trecho, e mostrado com alguns exemplos a facilidade de o imitar, mande fazer o mesmo a cada um dos alunos, para que, à medida que ele avança, eles o sigam, e passem do estado de discentes ao de cientes.

7.

25. Depois de impressas as folhas, expõem-se ao ar e ao vento, para que sequem. Na escola, faça-se a ventilação das inteligências por meio de repetições, de exames e de «sabatinas», até que se tenha a certeza de que todo o programa se fixou na mente dos alunos.

8.

26. Por último, terminada a tiragem do livro, recolhem-se todas as folhas impressas e põem-se em ordem, para que possa ver-se claramente se os exemplares estão completos e íntegros, sem defeitos e em estado de serem expedidos e postos à venda, de serem lidos e utilizados. Isto mesmo farão os exames públicos, no fim do ano, quando os inspetores das escolas verificarem o aproveitamento dos alunos, para constatarem a sua solidez e a sua coesão, que são a prova de que tudo o que devia ser aprendido foi, de fato, completamente aprendido.

Conclusão.

27. Neste momento, fiquem ditas estas coisas de maneira geral; reservem-se as coisas mais particulares para ocasiões particulares[2]. Por agora, basta ter feito ver que, assim como, descoberta a arte tipográfica, se multiplicaram os livros, veículos da instrução, assim também, descoberta a didacografia (<grego>) ou método universal (<grego>) é possível multiplicar os jovens instruídos, com grande proveito para a prosperidade das coisas humanas, segundo a máxima «a multidão dos sábios é a salvação do mundo» (Sabedoria, 6, 26). E porque nos esforçamos por multiplicar a instrução cristã, para infundir em todas as almas consagradas a Cristo a piedade, o saber e a honestidade dos costumes, é legítimo esperar aquilo que os oráculos divinos nos ordenam que esperemos: «que um dia a terra se encha do conhecimento do Senhor, como o mar está cheio de água» (Isaías, 11,9).


Capítulo XXXIII

DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS
PARA COMEÇAR
A PÔR EM PRÁTICA
ESTE MÉTODO UNIVERSAL

Lamenta-se que as boas idéias nem sempre são postas em prática.

1. Creio que já não haverá ninguém que, ponderada sob todos os seus aspectos a importância da nossa causa, não advirta como seria feliz a condição dos reinos e das repúblicas cristãs, se fossem criadas escolas tal como nós as preconizamos. Creio dever agora acrescentar o que me parece indispensável para que os meus projetos não continuem apenas projetos, mas possam, de qualquer maneira, tornar-se uma realidade. Não sem razão, com efeito, João Cecilio Frey se admira e se indigna de que, no decurso de tantos séculos, ninguém tenha tido a ousadia de remediar os costumes tão bárbaros dos colégios e das academias[1].

Também por causa das escolas.

2. Desde há mais de cem anos, espalhou-se uma grande quantidade de lamentações sobre a desordem das escolas e do método, e, sobretudo nos últimos trinta anos, pensou-se ansiosamente nos remédios. Mas com que proveito? As escolas permaneceram tais quais eram. Se alguém, particularmente, ou em qualquer escola particular, começou a fazer qualquer coisa, pouco adiantou: ou foi acolhido pelas gargalhadas dos ignorantes, ou coberto pela inveja dos malévolos, ou então, privado de auxílios, sucumbiu ao peso dos trabalhos; e, assim, até agora, todas as tentativas têm resultado vãs.

Importa pôr em movimento uma máquina preparada para se pôr em movimento.

3. É necessário, portanto, procurar e encontrar um processo pelo qual uma máquina tão bem construída, ou ao menos, a construir sobre bons fundamentos, seja posta em movimento, com a ajuda de Deus, mas primeiro importa afastar com prudência e fortaleza os obstáculos que até agora lhe têm impedido o movimento, e que podem continuar a impedir-lho, se não são afastados.

Cinco impedimentos à reforma das escolas universais.
1.

4. Podem notar-se os seguintes impedimentos. Por exemplo: primeiro, falta de pessoas conhecedoras do método, as quais, abertas escolas por toda a parte, possam dirigi-las de modo que produzam o sólido fruto por nós desejado. (Efetivamente, acerca da nossa Porta, já aceite nas escolas, um homem eminente escreveu-nos dizendo que, em muitos lugares, apenas falta uma coisa: pessoas idôneas que a saibam inculcar na juventude).

2.

5. No entanto, mesmo que houvesse professores assim competentes, ou que aprendessem facilmente a desempenhar as suas funções em conformidade com os nossos planos, como seria possível remunerá-los convenientemente, se tivessem de fixar-se em todas as cidades, em todas as aldeias e em todos os lugares onde nascem e se educam homens para Cristo?

3.

6. E, além disso, com que subsídios poderiam ajudar-se os filhos dos mais pobres a freqüentar a escola?

4.

7. Sobretudo, parece serem de temer os pseudo-sábios, cujo coração se compraz na rotina dos velhos hábitos e que olham tudo quanto é novo com um franzir de sobrancelhas e uma pertinaz relutância, e outras coisas parecidas, de menor importância. Mas facilmente pode encontrar-se remédio para tais dificuldades.

5.
N.B.
Aqui está o principal da questão.

8. Uma só coisa é de extraordinária importância, pois, se ela falta, pode tornar-se inútil toda uma máquina tão bem construída, ou, se está presente, pode pô-la toda em movimento: uma provisão suficiente de livros pan-metódicos[3]. Efetivamente, da mesma maneira que, fornecendo o material tipográfico, é fácil encontrar quem o possa, saiba e queira utilizar, e quem ofereça qualquer soma para imprimir bons e úteis livros, e quem compre esses livros, de preço acessível e de grande utilidade, assim também seria fácil, uma vez preparados os meios necessários para a pan-didática, encontrar os fautores, os promotores e os diretores de que ela precisa.

É necessário um colégio de doutores que coopere na realização da empresa.

9. Portanto, o ponto central de toda esta questão está na preparação de livros pan-metódicos. E esta preparação depende da constituição de uma sociedade de homens doutos, hábeis, ardorosos para o trabalho, associados para levar a bom termo uma empresa tão santa, e nela colaborando, cada um segundo os seus meios. Mas esta empresa não pode ser obra de um só homem, principalmente se está ocupado em outras coisas, e não tem conhecimento de tudo aquilo que é necessário colocar na pan-metódica (<grego>); e talvez até, para realizar tal trabalho, não seja suficiente a vida de um homem, se tudo se fizer dentro da máxima perfeição. É necessária, portanto, uma sociedade de pessoas escolhidas.

Estas pessoas têm necessidade do favor, da ajuda e da autoridade pública.

10. Para constituir, porém, esta sociedade, é necessária a autoridade e a liberalidade de qualquer rei, príncipe ou república, de um local tranqüilo e solitário, de uma biblioteca e de todas as outras coisas indispensáveis. Importa, portanto, que, tratando-se de um projeto tão santo, que visa devotamente a aumentar a glória de Deus e a salvação dos homens, ninguém procure contrariá-lo, mas antes todos se esforcem por serem ministros da benignidade divina, disposta a fazer-nos participantes de si mesma por processos sempre novos e com tanta liberalidade.

Súplica
1. aos pais.

11. Por isso, vós, caríssimos pais, a cuja fé Deus confiou preciosíssimos tesouros, as suas pequeninas imagens vivas, enquanto ouvis que se discutem estes salutares projetos, inflamai-vos de zelo e nunca cesseis de rogar ao Deus dos deuses pelo feliz sucesso da nossa empresa; insisti com as vossas súplicas, com os vossos votos, com os vossos sufrágios e as vossas solicitações junto dos magnates e das pessoas instruídas; entretanto, educai os vossos filhos no temor de Deus, preparando assim dignamente o caminho para aquela cultura mais universal.

2. Aos formadores da juventude.

12. Vós também, formadores da juventude, que com fé consagrais os vossos esforços a plantar e a regar as pequeninas plantas do paraíso, fazei sérios votos para que essas pequeninas plantas, conforto das vossas fadigas, se tornem belas o mais cedo possível e se preparem para serem úteis no máximo grau. Efetivamente, sendo vós chamados «a plantar os céus e a fundar a terra» (Isaías, 51, 16), poderá acontecer-vos coisa mais agradável que ver o fruto abundantíssimo das vossas fadigas? Que esta vossa celeste vocação, assim como a confiança em vós depositada pelos pais, entregando-vos os seus filhos, seja como que um fogo na medula dos vossos ossos que vos não dê a paz e, por meio de vós, também aos outros, até que o fogo desta luz, inflame e ilumine brilhantemente toda a nossa pátria.

3. Às pessoas ilustradas.

13. E vós também, pessoas instruídas, a quem Deus dotou de sabedoria e de juízo penetrante, para que possais julgar destas coisas e, com o vosso prudente conselho, melhorar sempre mais os projetos bem ideados, não hesiteis em trazer também as vossas centelhas, e mesmo até os vossos archotes e os vossos foles, para atiçar melhor este fogo sagrado. Que cada um de vós pense nestas palavras de Cristo: «Eu vim trazer o fogo à terra, e que quero eu, senão que ele se acenda»? (Lucas, 12, 49). Se Ele quer que o seu fogo arda, ai daquele que, podendo trazer qualquer coisa para inflamar essas chamas, não traz senão talvez os fumos da inveja, da denigração e da oposição. Lembrai-vos da remuneração que promete aos servos bons e fiéis que empregam os talentos que lhes foram confiados para negociar, de modo a ganharem outros, e como ameaça os preguiçosos que enterram os seus talentos! (Mateus, 25). Temei, portanto, que só vós sejais instruídos, e esforçai-vos por fazer progredir também os outros na instrução. Sirva-vos de estímulo o exemplo de Sêneca, que afirma: «Desejo transfundir nos outros tudo aquilo que sei». E igualmente: «Se a sabedoria me fosse dada com a condição de a manter fechada e de a não comunicar, recusá-la-ia» (Carta 27)[4]. Não negueis, portanto, a ninguém, de todo o povo cristão, o vosso saber e a vossa sabedoria, mas dizei antes com Moisés: «Quem me dera que todo o povo de Deus profetizasse!» (Números, 11,29). Uma vez que, formar bem a juventude, é formar também e reformar a Igreja e o Estado[5], nós, que não ignoramos isto, havemos de estar para aí ociosos, enquanto os outros estão vigilantes?

Neste assunto, não se excetua ninguém.

14. Um só espírito nos anime, suplico-vos, para que tudo aquilo que, seja quem for, possa trazer para a realização de um objetivo tão comum e tão salutar, aconselhando, advertindo, exortando, corrigindo, estimulando, não deixe de o fazer, para honra de Deus e proveito das gerações futuras. E que ninguém pense que isto não é obrigação sua. Efetivamente, mesmo que algum pudesse julgar que não nasceu para a escola ou ainda que não foi destinado para as funções da vocação eclesiástica, política ou médica, pensaria mal se julgasse que estava dispensado da obrigação comum de favorecer a reorganização das escolas. Na verdade, se queres ser fiel à tua vocação, e àquele que te chamou, e àqueles para os quais foste enviado, és obrigado, não só a servir pessoalmente a Deus, à Igreja e à Pátria, mas também a procurar, como homem prudente, que, depois de ti, haja quem faça o que tu fizeste. A Sócrates foi tributado louvor, porque, podendo prestar utilmente o seu contributo à pátria, exercendo qualquer outro cargo, preferiu dedicar-se à educação da juventude, dizendo «que era mais útil ao Estado quem tornava muitos cidadãos idôneos para o governo do Estado, que quem o governava efetivamente»[6].

Condenação de um preconceito e súplica aos doutos.

15. Peço também e suplico, em nome de Deus, que nenhum douto despreze estas coisas, pelo fato de virem de um homem menos instruído que ele. Na verdade, às vezes, «mesmo um camponês diz coisas muito oportunas, e talvez o que tu não sabes o saiba um burrinho», como disse Crísipo[7]. E Cristo disse também: «O espírito sopra onde quer; e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai»[8]. Juro diante de Deus que não fui movido a fazer estas coisas, nem pela confiança na minha inteligência, nem pela sede da fama, nem pela esperança de daí tirar algum proveito pessoal; mas o amor de Deus e o desejo de tornar melhores as coisas dos homens, públicas e particulares, estimula-me de tal maneira que não posso deixar envolto no silêncio aquilo que um oculto instinto me sugere constantemente. Se alguém, portanto, podendo fazer andar para a frente os nossos desejos, os nossos votos, as nossas advertências e os nossos esforços, em vez disso, lhes faz resistência e os combate, saiba que declarará guerra, não a nós, mas a Deus, à sua consciência e à natureza humana que quer que os bens públicos sejam comuns, de direito e de fato.

4. Aos teólogos.

16. Dirijo-me também a vós, ó teólogos, pois facilmente vejo que vós, com a vossa autoridade, podeis fazer muito para promover ou para deter a minha empresa. Se vos agradar mais detê-la, verificar-se-á aquilo que S. Bernardo costumava dizer: «Cristo não tem inimigos mais nocivos que aqueles que tem à sua volta, nem que aqueles que, de entre estes, detêm o primado»[9]. Mas nós esperamos coisas melhores e mais condizentes com a vossa dignidade. Deveis pensar que o Senhor confiou a Pedro que apascentasse, não só as suas ovelhas, mas também os seus cordeiros, e, em primeiro lugar, os cordeiros (João, 21, 15). E a razão disto é que os pastores apascentam mais facilmente as ovelhas que os cordeiros, porque as ovelhas estão já habituadas às pastagens da vida, em virtude da ordem que regula o rebanho, e do cajado, que regula a disciplina. Se alguém prefere alunos rudes, sem dúvida trai a própria ignorância! Com efeito, que ourives se não alegra, se da fábrica lhe é fornecido ouro puríssimo? Qual é o sapateiro que não prefere trabalhar com couros e peles bem curtidas? Sejamos, portanto, também nós, filhos da luz[10], prudentes nas nossas empresas, e desejemos que as escolas nos forneçam alunos o mais bem formados possível.

Súplica contra a inveja.

17. Que a inveja, ó servos do Deus vivo, não entre sequer no coração de um de vós! Sois condutores dos outros para a caridade, a qual não sente rivalidade, não é ambiciosa, não é egoísta, não pensa mal, etc.[11]. Não sintais inveja, se os outros fazem o que nem sequer vos veio à cabeça; tomemos antes exemplo uns dos outros, para que (segundo as palavras de S. Gregório) «todos cheios de fé possamos conseguir tocar qualquer coisa em honra de Deus, para que encontremos os instrumentos da verdade»[12].

5. Aos governantes.

18. Venho a vós, que em nome de Deus presidis às coisas humanas, ó dominadores dos povos e governantes; a vós principalmente se dirigem as nossas palavras, porque vós sois os Noés, a quem, para a conservação da semente santa, no meio de tão horrendo dilúvio de confusões mundanas, a divina providência encarregou de construir a Arca (Gênesis, 6). Vós sois aqueles Príncipes que deveis, mais que os outros, concorrer com as vossas ofertas para a construção do santuário, para que os artistas, que o Senhor encheu do seu espírito, a fim de que excogitem coisas engenhosas, não sejam constrangidos a retardar os trabalhos que devem executar (Êxodo, 36). Vós sois os Davides e os Salomões que têm a obrigação de chamar os arquitetos para construir o templo do Senhor, e de lhes fornecer, com abundância, os materiais necessários (Reis, I, 6; Crônicas, I, 29). Vós sois os centuriões, que Cristo amará, se vós amardes as suas criancinhas e para elas construirdes sinagogas (Lucas, 7, 5).

Súplica aos mesmos.

19. Peço-vos, por Cristo, suplico-vos, pela salvação dos nossos filhos, escutai-me! A coisa e séria, muito séria, pois diz respeito à glória de Deus e à salvação dos povos. Estou convencido da vossa devoção, ó pais da Pátria, e, se viesse alguém prometer-vos conselhos sobre o modo de fortificar, com pequena despesa, todas as nossas cidades, sobre o modo de instruir toda a juventude na arte militar, de tornar navegáveis todos os nossos rios e de os encher de mercadorias e de riquezas, ou sobre o modo de conduzir o Estado e os particulares a uma maior prosperidade e segurança, os vossos ouvidos, não somente ouviriam esse conselheiro, mas até lhes ficariam gratos por se ter mostrado tão devotamente solícito do vosso bem-estar e do dos vossos concidadãos. Ora, no nosso caso, trata-se de algo muito mais importante, pois mostra-se o caminho verdadeiro, certo e seguro de conseguir, com abundância, homens tais que, para negócios deste gênero ou outros semelhantes, servirão a Pátria sem fim, uns após outros. Se, portanto, Lutero, de santa memória, exortando as cidades da Alemanha a erigir escolas, escreveu com razão: «Quando, para edificar cidades, fortalezas, monumentos e arsenais, se gasta uma só moeda de ouro, devem gastar-se cem para educar bem um só jovem, para que este, quando homem feito, possa guiar os outros pelos caminhos da honestidade. Efetivamente, o homem bom e sábio (acrescenta Lutero) é o mais precioso tesouro de todo o Estado, pois nele, mais que nos esplêndidos palácios, mais que nos montes de ouro e de prata, mais que nas portas de bronze e nos ferrolhos de ferro, está..., etc.[13] (Estas idéias concordam com as de Salomão: Eclesiastes, 9, 13); se, repito, achamos que são sábias estas palavras quando afirmam que nada se deve poupar para educar bem um só jovem, que haverá então de dizer-se, quando se escancara a porta para uma cultura tão universal e tão certa de absolutamente todos os espíritos? E quando Deus promete infundir em nós os seus dons, não gota a gota, mas enviá-los como que em torrente? Quando se vê que a sua salutar ajuda se aproxima tanto, que conosco habita na terra a sua glória?

Exortação.

20. «Abri, ó princípes, as vossas portas e desempedi as portas do mundo, para que entre o rei da glória» (Salmo 24, 7). Trazei ao Senhor, ó filhos dos fortes, trazei-lhe glória e honra. Seja cada um de vós aquele David que «fez este juramento ao Senhor, esta promessa ao Deus de Jacob: Não entrarei na tenda da minha casa, não subirei ao estrado do meu leito, não darei sono aos meus olhos, nem repouso às minhas pálpebras, até que encontre um lugar para o Senhor, uma morada para o seu Tabernáculo» (Salmo 131, 2-5). Não olheis, portanto, a nenhuma despesa; dai ao Senhor e Ele vos retribuirá a cem por um. Efetivamente, embora exija com todo o direito quem diz: «É minha a prata e é meu o ouro» (Ageu, 2, 9), todavia, é cheio de benignidade aquilo que acrescenta (exortando o povo a edificar o seu templo): «Fazei a prova para ver se eu não abrirei para vós as cataratas do céu, e não lançarei sobre vós as bençãos até à abundância» (Malaquias, 3, 10).

Oração a Deus.

21. Tu, portanto, ó Senhor, nosso Deus, dá-nos um coração alegre para servirmos a tua glória, cada um dentro das suas possibilidades. Com efeito, é tua a magnificência, a força, a glória e a vitória. Tudo o que existe no céu e na terra é teu; teu é o reino, ó Senhor, e tu estás acima de todos os príncipes. Tuas são as riquezas, tua é a glória, a força e a potência; nas tuas mãos está magnificar e confirmar seja o que for. Com efeito, que somos nós, que tudo recebemos só das tuas mãos? Somos peregrinos e forasteiros diante de ti, assim como todos os nossos antepassados; os nossos dias sobre a terra são como uma sombra, e deles não há adiamento. Ó Senhor, nosso Deus, aquilo que preparamos em honra do teu santo nome, tudo veio das tuas mãos. Dá aos teus Salomões um coração perfeito para fazerem tudo o que conduz à tua glória (Crônicas, I, 29). Confirma, ó Deus, aquilo que em nós operaste (Salmo 67, 29). Sejam diáfanas as tuas obras para com os teus servos e as tuas belezas para com os filhos deles. Finalmente, esteja conosco a suavidade de Jeová, nosso Deus, e que seja Ele a dirigir as obras das nossas mãos (Salmo 90, 16). Esperámos em ti, ó Senhor; não sejamos confundidos eternamente. Amen.


Notas do Tradutor

Saudação aos Leitores

[1] - CÍCERO, De divinatione, Lib. II, c. 2, § 4.

[2] - Melanchthon a Camerarius, em 19 de Setembro de 1544. Corpus Reformatorum (Ph. Melanch. Opera Omnia, Halle, 1834 e ss.), V, 481.

[3] - S. GREGÓRIO NAZIANZENO, Oratio sec. apolog., 16 (MIGNE, Patrologia Graeca, vol. 35, col. 425).

[4] - RATKE (1571-1635) era bem conhecido de Comênio pelos relatos dos seus colaboradores Ch. Helwig e J. Jungius: Kurzer Bericht von der Didactica oder Lebrkunst Wolfgangi Ratichii, Glessen, 1614, e Artickel auff welchen führnehmlich die Ratichianische Lehr Kunst berubet, Leipzig, 1616. (Estes dois estudos foram reimpressos por P. STÖTZNER, Ratichianische Schriften, Leipzig, 1892-93).

[5] - EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamenti Graeco-Latino-Germanicae editionis pars prima ... Cum praeliminari... epistola, in qua de Latina língua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617. Comênio cita pela 2a. edição: Rostock, 1626 (Cf. Opera Didactica Omnia, pars II, col. 71 e ss.).

[6] - CHRISTOPH HELWIG (1581-1617) escreveu, de colaboração com Ratke, uma Didática, publicada postumamente: Christophori Helvici... libri didactici grammaticae universalis Latinae, Graecae, Hebraicae, Chaldaicae, una cum generalis Didacticae delineatione et speciali ad colloquia familiaria applicatione, Glessen, 1619.

[7] - STEPHANUS RITTER, Nova Didactica, das ist wohlmeinender und in der Vernunft wohlbegründeter Unterricht, durch was Mittel und Weis die Jugend die lateinische Sprach mit viel weniger als sonsten anzuwendeten Müh und Zeit fassen und begreifen möge, 1621.

[8] - ELIAS BODINUS, Bericht von der Natur-und vernunftsmessigen Didactica oder Lehrkunst: Nebenst bellen and sonnenklaren Beweiss, wie heutigen Tages der studirenden Jugend die rechten fundamenta verruckt und entzogen werden, Hamburgo, 1621.

[9] - PHILIPP GLAUM, Disputatio Castellana de methodo docendi artem quamvis intra octiduum, Glessen, 1621.

[10] - EZECHIEL VOGEL, Ephemerides totius línguae latinae unius anni spatio duabus singulorum dierum profestorum horis juxta praemissam didacticam ex vero fundamento facili methodo docendae et discendae, 2a. ed., Leipzig, 1631. (Cf. Opera Didactica Omnia, pars II, col. 81).

[11] - JACOB WOLFFSTIRN, Schola privata, hoc est nova et compendiosissima ratio informandae pueritiae a primis litterarum (linguae Latinae et Germanicae) elementis usque ad perfectam grammatici sermonis cognitionem, Bremen, 1619. (2.a ed., 1641).

[12] - JOH. VAL. ANDREA (1586-1654). Dos escritos deste teólogo de Württernberg, têm interesse pedagógico: Theophilus sive Consilium de Christiana religione sanctius colenda, vita temperantius instituenda et literatura rationabilius docenda, Stuttgart, 1649; e a Utopia «Christianopolis» - Reipublicae Christianopolitanae descriptio, Estrasburgo, 1619.

[13] - JANUS CAECILIUS FREY, Via ad divas scientias artesque, línguarum notitiam, sermones extemporaneos nova et expeditissima, Paris, 1628.

[14] - TERTULLIANUS, De anima liber, 24.

[15] - EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamenti... Cum praeliminari... epistola, in qua de latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur, p. 16c.

[16] - Salmo 8, 3.


A todos aqueles...

[1] - Cântico dos Cânticos, 4, 14.

[2] - Atos dos Apóstolos, 17, 28.

[3] - HORÁCIO, Epist. I, 10, 24: naturam expellas furca, tamen usque recurret...

[4] - Salmo 35, 10.

[5] - Apocalipse, 2, 12.

[6] - Salmo 36, 10.


Utilidade da Arte Didática

[1] - CÍCERO, De divinatione, II, 2, 4.

[2] - JOÃO STOBAIOS, Anthologion (Florilegiu), cap. 95: (<grego>). Edição de A. MEINEKZ, Leipzig, 1855, II, 103;, onde, todavia, o termo é atribuído, não a Diógenes, mas ao discípulo de Protágoras, Diotógenes. Comênio utilizou provavelmcntc a tradução, muito divulgada, de C. GESSNER, Zurich, 1543.

[3] - Mateus, 12, 39; Lucas, 11, 29.

[4] - J. V. ANDREA, Theophilus, (ed. de Leipzig. 1706, p. 16).


Capítulo I

[1] - Pítaco é um dos sete sábios da Grécia. Esta máxima e a sua história foram extensamente elucidadas por ERASMO, nos Adagia, Chil. 1, cent. VI, 95 (Opera Omnia, edição de J. CLERICUS, vol. II. Leide, 1703, p. 258).


Capítulo II

[1] - S. P. FESTUS, De verborum significatu: «abitio» (ed. de W. M. LINDSAY, Leipzig, 1913, p. 21).


Capítulo V

[1] - Efésios, 2, 3.

[2] - J. LUÍS VIVES (1492-1540), De concordia et discordia ia humano genere, em Opera Omnia, Basileia, 1555, vol. II, p. 764.

[3] - O que está entre parêntesis é um aditamento de Comênio.

[4] - SÊNECA, Epist. 92, § 29-30,ed. de O. HENSE, Leipzig, 1914, p. 398; ed. de A. BELTRAM, Roma, 1931, II, 48. Comênio cita por outra edição.

[5] - Cfr. Physicae Synopsis, XI, 21, ed. de J. REBER, p. 308 e s.

[6] - ARISTÓTETES, Metafísica, I, no Princípio (Academia de Berlim, ed. de BEKKER, 980).

[7] - S. BERNARDO, Epístola 106, § 2 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 182, col. 242).

[8] - Livro da Sabedoria, 11, 20.

[9] - SÊNECA, De beneficiiis, IV, 6.

[10] - Por exemplo, Mateus, 13, 3 e Lucas, 8, 5.

[11] - ARISTÓTELES, <grego>, III, 4 (ed. de BEKKER, 430 a)

[12] - CÍCERO, Tusculanarum Disputationum, III, 1, 2.

[13] - ARISTÓTELES, <grego>, I, 3 (cd. de BEKKER, 720 b).

[14] - SÊNECA, Epist. 95, 50.

[15] - No cap. IV do Timeu, encontra-se o sentido desta frase, embora não à letra.

[16] - CÍCERO, De natura deorum, I, 42, 117.

[17] - LACTÂNCIO, Divinarum institutionum, lib. IV, 28.

[18] - Marcos, 10, 14.

[19] - HORÁCIO, Epist. I, 1, 39 e s.


Capítulo VI

[1] - Numerosos relatos sobre descobertas deste gênero podem ler-se em J. A. L. SINGH e R. M. ZINGG, Wolf children and feral man, University of Denver Publications, Nova York e Londres, 1941.

[2] - Não foi possível localizar esta passagem em Dresser.

[3] - PH. CAMERARIUS, Oper. horarum subcisivarum cent. I, 75, Frankfurt, 1602.

[4] - SIMON GOULART, Trhèsor d’histoires admirables, Paris, 1600, etc. Nesta obra, há um capítulo intitulado Enfans nourris parmi les loups.

[5] - PLATÃO, Leis, VI, 12, 766 a.

[6] - DIÓGENES LAÉRCIO, De vitis philosophorum, VI, § 65.


Capítulo VII

[1] - CÍCERO, Cato Maior de Senectude, c. 21, § 78.

[2] - SÊNECA, Epist. 36, 4.

[3] - HORÁCIO, Epist. I, 2, 69.


Capítulo VIII

[1] - Cfr. MARTINHO LUTERO, W. A., 15, 34 (Clemen, 2, 448).

[2] - FLÁVIO JOSÉ, Antiquilatum judaicarum, I, 106.

[3] - OVÍDIO, Ars amatoria, III, 595 e s.


Capítulo IX

[1] - Deuteronômio, 1, 17; Romanos, 2, 11; Pedro, I, 1, 17.

[2] - SANTO AGOSTINHO, De spiritu et littera (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 44, col. 199 e ss.).

[3] - VIRGÍLIO, Georg., 1, 145 C s.

[4] - Eclesiástico, 39, 40.

[5] - JUVENAL, VI, 448-450.

[6] - EURÍPEDES, Hyppolitos, V, 640 e ss.


Capítulo X

[1] - Aqui Comênio tem em vista, sem dúvida, não apenas a obra matemática de Pitágoras, mas a sua interpretação do Universo como harmonia e número.

[2] - G. AGRÍCOLA (1494-1555), Bermannus sive de re metallica libri XII, Basileia, 1530 (ed. crítica, Berlim, 1920).

[3] - CHR. LONGOLIUS (circa 1488-1522), humanista francês, travou célebre disputa com Erasmo sobre se devia imitar-se à letra a linguagem de Cícero, ou se era preferível adaptar o latim à evolução das várias épocas. Foi ridicularizado por Erasmo no diálogo «Ciceronianus». Cfr. ALLEN, Erasmi Epistolas, especialmente a 914 e a 935.

[4] - Nas Opera Didactica Omnia, Comênio escreveu que isto fora afirmado por um profeta: «Verbo, totum hominem esse formandum ad humanitatem, reparandamque in nobis totam divinam imaginem, ad archetypi sui similitudinem: ut schola haec esse incipiat vere, quod esse debebant omnes, humanitatis officina, coelique et terrae plantarium, ut per prophetam loquitur Deus» (Pars III, col. 3-4).

[5] - Embora não literalmente, o sentido desta frase encontra-se na Apologia de Platão, 36 e s.

[6] - Livro dos Provérbios, 15, 15.

[7] - Cfr. Leges illustris gymnasii Lesnensis, Ratione morum, 1.

[8] - Entre esses outros lugares: Livro dos Provérbios, 9, 10; Livro de Job, 28, 28; Salmo 110, 10.


Capítulo XI

[1] - MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 44-47. (Clemen II, 456 e as.).

[2] - EILHARDUS LUBINUS, Novi Jesu Christi Testamenti Graeco-Latino- Germanicae editionis pars prima... Cum praeliminari... epistola in qua consiliu,n de Latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617, p. 7-8 b.

[3] - VIRGÍLIO, Aeneis, VIII, 560.


Capítulo XII

[1] - Acerca do barco de Hierão, que Arquimedes pôs em movimento, escreveram PLUTARCO, Marcellus, 14 e ATHENAIOS, Deipnosophistae, V, 206 d.

[2] - Fernando de Castela. Provavelmente, Comênio colheu estes dados no livro de G. BENZONI, Historia dei Mondo Nuovo, Veneza, 1565.

[3] - Comênio considera João Fust o inventor da imprensa. Com efeito, a tradição familiar dos Fust afirma que Gutenberg aprendeu de Fust.

[4] - A descoberta da pólvora pelo monge Berthold Schwarz não é historicamente certa.

[5] - Sobre este aforismo, ver ERASMO, Adagia, Chil. II, cent. IV, 45 (Opera, ed. de J. CLERICUS, Leiden, 1703-1706, vol. II, col. 537).

[6] - Comênio extraiu, por certo, esta narrativa do Florilegium Magnum, editado por J. LANG (capítulo: «Discipulus»), Frankfurt, 1621, p. 865.

[7] - ARISTÓTELES, Metafísica, I, no princípio (ed. de BERKER, 980 a).

[8] - Ver o capítulo V, § 7 e o cap. XI.

[9] - Cfr. OVÍDIO, Ars amatoria, III, 397: ignoti nulla cupido.

[10] - PLUTARCO, Temistocles, cap. 2; ERASMO, Apophthegmata V, Themistocles, 17 (ed. de J. CLERICUS, vol. IV, col. 342).

[11] - ERASMO, Apophthegmata V, Themistocles, 18 (ed. de J. CLERICUS, vol. IV, col. 244).

[12] - PLUTARCO, Alexandre, cap. 6. O aditamento, todavia, não provém de Plutarco, mas do Florilegium Magnum editado por J. LANG, Frankfurt, 1621, capítulo: «Educatio».

[13] - A doutrina dos «antídotos» desempenhou papel importante na filosofia e na medicina medievais. Sobre o «Antidotarium», ver STEPHEN D’IRSAY, Histoire des Universités, vol. I, Paris, 1933, p. 104 e ss.

[14] - CATÃO, De agricultura, cap. 5, 6.

[15] - PLUTARCO, De educatione puerorum, cap VI.


Capítulo XIII

[1] - Cfr. o capítulo XII, 5.

[2] - Cfr. o capítulo XII, 5 e o cap. XIII, 8.


Capítulo XIV

[1] - ARISTÓTELES, Metafísica, IV, 3 (ed. de BEKKER, 1005 b).

[2] - Cfr. CÍCERO, De Officiis, I, 28, 100.

[3] - HIPÓCRATES, Aforismos.

[4] - DIONISIUS CATO, Dicta Catonis ad filium suum, edição de E. BAHRENS, em Poeta lat. min., III, Leipzig, 1881, p. 225: Rem tibi quam noces aptam, dimittere noli; fronte capillata, post haec occasio calva (Dist. II, 26). Cfr. também COMENIUS, Orbis pictus: Prudentia.

[5] - M. MANILIUS, Astronomicon, IV (ed. de A. E. HOUSMAN, Londres, 1920) § 16.


Capítulo XV

[1] - Com Sêneca (De brevitate vitae, 1, 2), Comênio atribui a Aristóteles uma afirmação que, mais corretamente, pertence a Teofrasto. Cfr. CÍCERO, Tuscul., III, 28, § 69.

[2] - HIPÓCRATES, no princípio dos Aforismos.

[3] - H. GUARINONIUS, Die Grewel der Verwüstung menschlichen Greschlechts, Ingolstadt, 1610, cap. IV.

[4] - O humanista e filósofo italiano Pico della Mirandola faleceu aos 32 anos (1494).

[5] - SÊNECA, Epist. 93, § 1-8.

[6] - JUVENAL, Satirae, X, 356.

[7] - Informatorium der Mutter Schul, nova edição de J. HEUBACH, Heidelberg, 1960, cap. V p. 14 e ss.

[8] - HESÍODO, <grego>, V, 361 e s.

[9] - SÊNECA, De brevitate vitae, I, § 3.


Capítulo XVI

[1] - Reales disciplinas praemitti organicis: A palavra «organicis» contém uma referência às obras lógicas de Aristóteles, o conjunto das quais é conhecido pelo nome de Organon.

[2] - SÊNECA, Epist. 95, 38.

[3] - J. SCALÍGERO (1540-1609), célebre filólogo e historiador (filho do igualmente célebre Júlio César Scalígero) foi, durante muito tempo, considerado o fundador da filologia histórica.

[4] - HUGO DE S. VICTOR, In Ecclesiasten Homilia XVII (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 175, col. 237 e ss.).


Capítulo XVII

[1] - ARISTÓTELES, Física, I, cap. 8 (ed. de BEKKER, 191 b) e Cap. 9 (ed. de BEKKER, 192 a).

[2] - Comênio tirou esta citação, por certo, do Florilegium Magnum, ed. de J. LANG, Frankfurt, 1621, col. 1496, Capítulo: «Institutio».

[3] - CÍCERO, Tuscul., II, 5, 13.

[4] - ISÓCRATES, Orat. ad Demonicum, § 18.

[5] - QUINTILIANO, Instit. Orat., I, 3, 8.

[6] - Capítulo XIX, § 50.

[7] - HORÁCIO, Epist. II, 3, 343: Omne tulit punctum, qui miscuit utile dulci.

[8] - Cap. XIX, § 50 e ainda no Informatorium der Mutter Schul, V, 14 e ss.

[9] - Comênio aduz Melanchthon e P. Ramus, sem dúvida pelo fato de as Gramáticas deles haverem sido traduzidas para checo.

[10] - Cfr. QUINTILIANO, Instit. Orat., I, 2, 27 e s.

[11] - Dados mais pormenorizados sobre este conselho encontram-se na «Scholae Pansophicae Pars II», em Opera Didactica Omnia, pars III, col. 36 e ss. Conselhos semelhantes podem ler-se na Cidade do Sol de Campanella.


Capítulo XVIII

[1] - S. JERÔNIMO, Epist. 53, § 9 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 22, col. 549).

[2] - Ver o capítulo XIX, § 50.

[3] - ESOPO, Fábulas 200 e 200b; FEDRO, Fábulas de Esopo, I, 3.

[4] - HORÁCIO, Epist. I, 19, 19.

[5] - O jesuíta polaco REH0R KNAPSKI (1564-1638) compõs o Thesaurus Polono-Latino-Graecus (Cracóvia, 1621-32) que, no seu tempo, foi famoso. Comênio aprecia esta obra no cap. XXII, § 15.

[6] - Capítulos XXI e XXII.

[7] - Sobre a Pansofia, Comênio escreveu várias obras. Ver a nossa Introdução [Disponível apenas na edição em papel da Fundação Calouste Gulbenkian - N.E. da versão para eBook].

[8] - QUINTILIANO, Instit. Orat., XI, 2, 1.

[9] - J. LUIS VIVES, De Tradendis disciplinis lib. III, em Opera, Basileia, 1555, vol. I, p. 468.

[10] - J. LUIS VIVES, Introductio ad Sapientiam, 180-183, em Opera, Basileia, 1555, vol. II, p. 77.

[11] - PERSIUS FLACCUS, Satirae, I, 27.

[12] - J. FORTIUS (Ringelberg), De ratione studii, em «II. Grotii et aliorum Dissertationes de studiis instituendis», Amesterdã, 1645, capítulo «De ratione docendi» (não à letra). Cfr. Opera Didactica Ominia, pars III, col. 758 e ss.


Capítulo XIX

[1] - CÍCERO, Epist. ad famil., VII, 29, 2; ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VII, 3 (edição de J. CLERICUS, II, 263).

[2] - SÊNECA, Epist. 29, 1.

[3] - Cfr. OVÍDIO, Fasti, I, 321.

[4] - PLÍNIO, Naturalis historiae liber XXIX, I, 2.

[5] - Ver o capítulo XX, § 10.

[6] - SÊNECA, Epist. 9, 20.

[7] - Capítulo V, § 5.

[8] - SÊNECA, Epist. 9, 20.

[9] - SÊNECA, Epist. 84, 2.

[10] - SANTO AGOSTINHO, Epist. 143, § 2 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 33, col. 585).

[11] - Capítulo XVIII, § 44-47.

[12] - MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 44-47 (Clemen, II, 456 e ss.).

[13] - SÊNECA, Epist. 48, 12.

[14] - CÍCERO, De Officiis, I, 31, 110: invita, ut aiunt, Minerva, id est adversante et repugnante natura.


Capítulo XX

[1] - PLAUTO, Truculentus, V, 489; ERASMO, Adagia, chil. II, cent. VI, 54 (ed. de J. CLERICUS, II, 602).

[2] - HORÁCIO, Epist. II, 3, 180-182.

[3] - ROBERT FLUDD (1574-1637), Utriusque cosmi, majoris scillicet et minoris, metaphysica, physica atque technica historia (Prima Pars: Macrocosmi; Secunda Pars: Microcosmi historia), Frankfurt, 1626, no capítulo Philosophia vere christiana seu meteorologica.

[4] - O fato de empregar a palavra Utopia não nos garante que Comênio tenha lido a obra de Thomas Morus com esse título.

[5] - ARISTÓTELES, Metafísica, I, cap. 2 (edição de BEKKER, 982).


Capítulo XXI

[1] - Não foi possível localizar esta citação.

[2] - Esta frase não é de Quintiliano, mas de Sêneca, Epist. VI, 5.

[3] - Citado em alemão por Comênio.

[4] - TERÊNCIO, Andria, verso 171.

[5] - VIRGÍLIO, Aeneis, I, 14.

[6] - CÍCERO, De divinatione, II, 42, 87.

[7] - QUINTILIANO, Instit. Orat., II, 3, 3. Comênio volta a aduzir o mesmo exemplo no capítulo XXV, § 23.

[8] - OVÍDIO, Ars amatoria, II, 675 e s.


Capítulo XXII

[1] - COMENIUS, Janua línguarun, reserata, sive seminarium línguarum et scientiarum omnium, Leszno, 1631.

[2] - CÍCERO, De fin., III, 2, 4.

[3] - CÍCERO, De Oratore, III, 10, 38.

[4] - Ver o Repertorium Vestibulare sive lexici latini rudimentum, em «Opera Didactica Omnia», pars III, col. 175 e ss.

[5] - Ver a Sylva Latinae Linguae, vocum derivatarum copiam explicans, sive lexicon Januale, em «Opera Didactica Omnia», pars III, col. 219 e ss.

[6] - REHOR KNAPASKI (1564-1638), Thesaurus Polono-Latino-Graecus, Cracóvia, 1621-32.


Capítulo XXIII

[1] - SÊNECA, Epist. 88, 1.

[2] - J. LUIS VIVES, Introductio ad Sapientiam, I (Opera, Basileia, 1555, II, 70 e s.).

[3] - Ne quid nimis. Cfr. ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VI, 96 (ed. de J. CLERICUS, II, 259).

[4] - Tem em vista, sem dúvida, a conhecida passagem de PLUTARCO, De audiendo, § 3.

[5] - Ventres pigri: Cfr. a Epístola a Tito, I, 12.

[6] - Inutilia pondera terrae: expressão homérica (<grego>).

[7] - Capítulo XXI, § 5.

[8] - SÊNECA, Epist. 31, 4.

[9] - VIRGÍLIO, Georg., III, 272.

[10] - HORÁCIO, Epist. I, 2, 69 e s.

[11] - L. J. M. COLUMELLA, De rustica, XI, I, 26: Nam illud verum est M. Catonis oraculum «nihil agendo homines male agere discunt».


Capítulo XXIV

[1] - Capítulo IV, § 6.

[2] - Ver o Livro de Job, cap. 32 e ss.

[3] - Salmo 138, 14.

[4] - LUTERO, no Prólogo da edição das suas obras escritas em alemão, 1539: Da wirstu drey Regel innen finden, durch den gantzen Psalm (näml. den 119) reichlich furgestellet. Und heissen also: Oratio, meditatio, tentatio (W. A., 50, 659).

[5] - Êxodo, 22, 29-30; 23, 19.

[6] - Lucas, 16, 19 e ss.

[7] - Expressão decalcada em VIRGÍLIO, Aeneis, 1, 94.

[8] - ANDREAS GERARDUS HYPERIUS escreveu acerca do estudo da Sagrada Escritura pelos teólogos no segundo livro de De Theologo seu ratione studii theologici libri IV, Basileia, 1559; e acerca do estudo da Sagrada Escritura em geral no De sacrae scripturae lectione et meditatione quotidiana, Basileia, 1563.

[9] - ERASMO, Opera, ed. de J. CLERICUS, vol. V, Leide, 1704, col. 140 A B.

[10] - Ibid., col. 140 CD.

[11] - Ibid., col. 144 AC.

[12] - ERASMO, Ratio seu methodus compendio perveniendi ad veram theologiam, Ausgew. Werke, edição de H. HOLBORN, München, 1933, p. 293 (CLERICUS, V, 132) SANTO AGOSTINHO, De doctrina christiana, II, 9 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 34, col. 42).

[13] - Gênesis, 22, 16 e ss.

[14] - Alusão, sem dúvida, à escada da visão de Jacob: Gênesis, 28, 12 e ss.

[15] - FULGENTIUS, Epist. II, § 12-21 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 65 cols. 315-317).

[16] - Lucas, 16, 19 e ss.

[17] - PRISCIANUS (+ 526), Institutiones Grammaticae. Este livro foi considerado, durante toda a Idade Média, e até à época de Comênio, a obra de maior autoridade para o estudo da Gramática Latina.

[18] - Pedro, I, 5, 5; Tiago, 4, 6.

[19] - João, 1, 29.

[20] - Mateus, 3, 17; Marcos, 1, 11.

[21] - Salmo 117, 22; Mateus, 21,42; Marcos, 12, 10; Efésios, 2,20.


Capítulo XXV

[1] - Da vasta bibliografia sobre este tema, citamos apenas: H. I. MARROU, Histoire de l’éducation dans l’antiquité, 3e. éd., Éditions du Seuil, Paris, 1955, p. 423-425; J. V. ANDREAE, Theophilus (1a. ed., 1649), Diálogo III: De literatura christiana. Comênio foi nitidamente influenciado por esta obra. Ver ainda MARTINHO LUTERO, W. A., 15, 52 (Clemen, II, 462).

[2] - CRISÓSTOMO, Comentário à segunda Epístola a Timóteo, Homilia LX, 1 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 62).

[3] - CASSIODORO, Expositio in Psalterium, ps. 15, último capítulo (MIGNE, Patrol. Lat., vol. 70, col. 116).

[4] - Cfr. HORÁCIO, Epist. II, 3, 268 e s.: Vos exemplaria Graeca nocturna versate manu, versate diurna.

[5] - Pedro, I, 2, 9.

[6] - O imperador Juliano Apóstata (séc. IV) afastou-se do cristianismo por influência da filosofia neo-platônica. Os seus escritos filosóficos haviam sido reeditados em 1583.

[7] - Leão X foi Papa precisamente no tempo da Reforma (1513-1521). Comênio reflete aqui as opiniões tendenciosas dos protestantes acerca do Papado, expressas, por exemplo, na obra de J. BALE, The Pageant of Popes, Londres, 1574.

[8] - Tal conselho carece, sem dúvida, de autenticidade. É certo, todavia, que, destes dois cardeais e amigos, da época do Renascimento, Sadoleto era partidário do movimento bíblico, ao passo que Bembo, até à sua posterior viragem, seguia um humanismo muito mundano.

[9] - Não se refere tanto aos católicos romanos, como aos humanistas italianos hereges do séc. XVI. Comênio travou polêmica, de modo especial, com o Sozzinianismo. Sobre o movimento dos «Eretici italiani», ver D. CANTIMORI, Eretici italiani dei cinquecento. Ricerche storiche, G. C. Sansoni Editore, Firenze, 1939.

[10] - Primeiro Livro dos Reis, 5, 2.

[11] - S. JERÔNIMO, Epist. ad Damasum, no. 114.

[12] - SANTO ISIDORO DE SEVILHA, Sententiarum Libri, III c. 13, 2, 3 (MIGNE, Patrol. Lat., vol. 83, col. 686).

[13] - CÍCERO, De fin., III, 5, 16.

[14] - MELANCHTON, Theol. hypotyposes, de pecato, em «Corpus Reformatorum», XXI, col. 101 e s.

[15] - SANTO AGOSTINHO, Epist. 137, § 7 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 33, col. 524).

[16] - Comênio pensa aqui sobretudo em ALSTED, Triumphus bibliorum sacrorum seu Encyclopoedia biblica, exhibens triunphum philosophiae, jurisprudentiae et medicinae sacrae itemque sacrosanctae theologiae, quatenus illarum fundamenta ex Scriptura V. et N. T. colliguntur, Frankfurt, 1625.

[17] - ERASMO, Parabolae sive similia. «Ex Aristotele, Plinio, Theophraste» (ed. de J. CLERICUS, I, 606 c).

[18] - Ibid., I, 615 e s.

[19] - ERASMO, Ratio seu methodus compendio perveniendi ad veram theologiam, Ausgw. Werke, ed. de H. HOLBORN, München, 1933, p. 190 (ed. de J. CLERICUS, V, 82).

[20] - Ver cap. XXI, § 12 e cap. XXV, § 23, e suas respectivas notas.

[21] - Trata-se, não de Santo Agostinho, mas de S. GREGÓRIO MAGNO, Moralium libri (MIGNE, Patr. Latina, vol. 75, col. 515).


Capítulo XXVI

[1] - Prisciano é um célebre gramático do séc. VI, autor das Institutiones Grammaticae que foram livro de texto em quase todas as escolas da Europa, até depois da Renascença.

[2] - CÍCERO, Pro Flacco, 27, 65; ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VIII, 36 (ed. de J. CLERICUS, II, 311).

[3] - EILHARDUS LUBINUS (1565-1621), Novi Jesu Christi Testamanti Graeco-Latino-Germanicae editionis pars prima... Cum praeliminari... epistola, in qua consilium de Latina língua compendiose a pueris addiscenda exponitur, 1617, p. 16-17.


Capítulo XXVIII

[1] - Cfr. Informatorium der Mutter Schul, cap. IV, § 7-11; e cap. VI-VIII.

[2] - Sobre um tão amplo conceito de gramática, ver E. R. CURTIUS, Europäische Literatur und lat. Mittelalter, Bern, 1948, p. 50.

[3] - Cfr. Informatorium, cap. IV, § 7; e cap. IX.

[4] - Cfr. Informatorium, cap. IV, § 5 e s.; e cap. X.

[5] - Gênesis, 5, 22-24.

[6] - Cap. XXIX e XXX.

[7] - Esta obra tem o seguinte título: Schola Infantiae sive de provida juventutis primo sexennio educatione. Vem publicada nas «Opera Didactica Omnia», pars I, col. 198 e ss.

[8] - Sobre este tema, ver o Orbis sensualium pictus.


Capítulo XXIX

[1] - WILHELM ZEPPER, no cap. VI de De politia ecclesiastica, Herborn, 1607, recomenda que se não erijam escolas de língua materna, onde as haja de latim. Ver ainda A. MOLNAR, Lexicon Latino-Graeco-Ungaricum, vol. I, Frankfurt, 1645.

[2] - J. H. ALSTED, Encyclopaedia septem tomis distincta, Herborn, 1630, cap. VI, p. 1513. Só devem freqüentar a escola de língua materna os meninos «qui artibus mechanicis aliquando se applicabunt».

[3] - CÍCERO, De oratore, III, 10. 38.

[4] - Colossences, 3, 16.

[5] - Os nome que Comênio escolheu para esses seis livros são Violarium, Rosarium, Viridarium, Sapientiae Labyrinthus, Spirituale Balsamentum, Paradisus Animae. Ver «Opera Didactica Omnia», pars I, col. 248 e s.

[6] - SIMON STEVIN (1548-1620), matemático e físico holandês que escreveu em flamengo.

[7] - Problematum geometr. libri V, Antuérpia, 1583. Livro I.


Capítulo XXX

[1] - JUSTO LÍPSIO, Physiologiae Stoicorum libri tres, Antuérpia, 1604, Livro, I, Diss. 1, p. 2.

[2] - XENOFONTE, Memorabilia Socrat., I, 6, 15; ERASMO, Apophthegmata III, Socratica 10 (ed. de J. CLERICUS, IV, 156).


Capítulo XXXI

[1] - Capítulo XXVII, § 6.

[2] - ERASMO, Adag., chil, II, cent. IV, 45 (ed. de J. CLERICUS, II, 537).

[3] - SÊNECA, Epist. 2, 2.

[4] - As célebres Noctes Aticae de A. Gellius estão escritas em forma de colóquios.

[5] - PLATÃO, Leis, XII, cap. 5 (949 E - 950 D).

[6] - Esta idéia de uma Sociedade de Professores é mais amplamente desenvolvida por Comênio na Via lucis, cap. 18.


Capítulo XXXII

[1] - Veja-se, a este propósito, o opúsculo de COMÊNIO, Typographeum vivum, hoc est, ars compendiose, et tamen copiose ac elegauter, sapientiam non chartis sed ingeniis imprimendi, em «Opera Didactica Omnia», pars IV, col. 85-96.

[2] - Cfr. Typographeum vivum, § 19 e ss.


Capítulo XXXIII

[1] - JANUS CAECILIUS FREY (+1631), Via ad divas scientias artesque, línguarum notitiam, sermones extemporaneos nova et expeditissima, Paris, 1628, cap. II, seção 1.

[2] - Cfr. HORÁCIO, Epist. II, 3, 355.

[3] - Sobre estes livros, ver cap. XXII, § 19 e ss.; cap. XXVIII, § 23 e ss.; e cap. XXX, § 16.

[4] - SÊNECA, Epist. 6, 4. No texto lê-se, erradamente, Epist. 27.

[5] - Cfr. CÍCERO, De divinatione, II, 2, 4.

[6] - XENOFONTE, Memorab. I, 6, 15. ERASMO, Apophthemata III, Socratica 10 (ed. de J. CLERICUS, IV, 156).

[7] - ERASMO, Adagia, chil. I, cent. VI, 1 (ed. de J. CLERICUS, II, 220).

[8] - João, 3, 8.

[9] - S. BERNARDO, Sermonis de Sanctis, I, 3 (MIGNE, Patrologia Latina, vol. 183, col. 362).

[10] - Lucas, 16, 8

[11] - Coríntios, I, 13, 4.

[12] - S. GREGÓRIO MAGNO, Moralium libri XXX, cap. 27, § 81 (MIGNE, Patrol. Lat., vol. 76, col. 569).

[13] - MARTINHO LUTERO, An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen, 1524. W. A., XV, p. 50 e 34, (Clemen, II, 445 e 448).


Nota do Editor

Deixo que o próprio Autor justifique a presente edição em eBook de sua obra:

“16. Dai nasceu este meu tratado, onde o tema é, assim o espero, desenvolvido mais longamente e mais claramente do que nunca o foi até ao presente. Escrito inicialmente em vernáculo, para uso do meu povo, sai agora, a conselho de alguns homens eminentes, vertido em latim, para que, se possível, aproveite a todos.
17. Com efeito, a caridade manda que o que Deus manifestou para salvação do gênero humano (assim fala o eminente Lubin da sua Didática, se não esconda dos mortais, mas se manifeste a todo o mundo. Efetivamente, é da natureza de todos os bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados a todos; e quanto mais é a riqueza e se põe em comum, tanto melhor é e tanto mais cabe a todos.
18. É também uma lei de humanidade que, se se conhece qualquer meio de ir em auxilio do próximo para o tirar das suas dificuldades, não se deve hesitar; sobretudo quando se trata, não de um homem só, mas de muitos, e não apenas de muitos homens, mas de muitas cidades, províncias e reinos e, digo até, do gênero humano inteiro, como é o caso presente.”

E ainda:

“15. Peço também e suplico, em nome de Deus, que nenhum douto despreze estas coisas, pelo fato de virem de um homem menos instruído que ele. Na verdade, às vezes, «mesmo um camponês diz coisas muito oportunas, e talvez o que tu não sabes o saiba um burrinho», como disse Crísipo. E Cristo disse também: «O espírito sopra onde quer; e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai». Juro diante de Deus que não fui movido a fazer estas coisas, nem pela confiança na minha inteligência, nem pela sede da fama, nem pela esperança de daí tirar algum proveito pessoal; mas o amor de Deus e o desejo de tornar melhores as coisas dos homens, públicas e particulares, estimula-me de tal maneira que não posso deixar envolto no silêncio aquilo que um oculto instinto me sugere constantemente. Se alguém, portanto, podendo fazer andar para a frente os nossos desejos, os nossos votos, as nossas advertências e os nossos esforços, em vez disso, lhes faz resistência e os combate, saiba que declarará guerra, não a nós, mas a Deus, à sua consciência e à natureza humana que quer que os bens públicos sejam comuns, de direito e de fato.”

O mesmo espírito que moveu o Autor a escrever, o tradutor à tradução e a Fundação Calouste Gulbenkian a publicá-la em papel, nos moveu nesta versão para eBook.

Tenho certeza: Comenius, tão entusiasmado pela imprensa, teria adorado os eBooks, pelo que potencializam das oportunidades que tão bem apontou em sua obra.

Na presente versão para eBook, feita antes de tudo visando o leitor brasileiro, apenas a ortografia foi “abrasileirada»; conservámos, contudo, os acentos diacríticos do pretérito, nem que seja pela clareza, mas sobretudo como sugestão para uma futura reforma ortográfica.

Não constam desta versão a magnífica Introdução de Joaquim Ferreira Gomes, nem as ilustrações e, com certeza, por se tratar de texto processado por OCR, apesar de duas revisões, não tem a correção da obra impressa.

E a versão mais completa, em eBook, é a em eBookPro.

Minha busca pelas livrarias virtuais brasileiras resultou em nada, mas recomenda-se aos estudiosos que se dirijam ao website da Fundação Calouste Gulbenkian

[http://www.gulbenkian.pt/]

para verificar da disponibilidade da obra, que também poderá, com certeza, ser encontrada nas boas bibliotecas das boas Faculdades.

Sobre a Fundação Calouste Gulbenkian:

“A Fundação Calouste Gulbenkian é uma instituição portuguesa de direito privado e utilidade pública, cujos fins estatutários são a Educação, a Ciência, a Beneficência (Saúde e Proteção Social) e as Artes. Criada por disposição testamentária de Calouste Sarkis Gulbenkian, os seus estatutos foram aprovados em 1956. A Fundação tem a sua sede em Lisboa. Na prossecução dos seus fins estatutários a Fundação promove e apoia a realização de exposições, cursos, encontros e colóquios, concertos, ciclos de espetáculos dos mais variados gêneros; atribui subsídios a projetos, concede bolsas de estudo, apoia programas de natureza científica, educacional e artística tanto em Portugal como no estrangeiro. São importantes os projetos de cooperação com os países africanos lusófonos e também, desde 1999, em Timor-Lorosae (Serviço da Cooperação para o Desenvolvimento), os de preservação dos testemunhos da presença portuguesa no mundo e os de divulgação da cultura portuguesa no estrangeiro (ambos no âmbito da ação do Serviço Internacional), bem como os de apoio à diáspora armênia (Serviço das Comunidades Armênias). A Fundação mantém em todo o País um conjunto de bibliotecas. Na área de intervenção do Serviço de Saúde e Proteção Social é relevante a sua ação junto dos hospitais portugueses. No campo das edições, a Fundação desenvolve uma intensa atividade (principalmente através do Serviço de Educação e Bolsas).”

O leitor está cordialmente convidado a visitar o website da Fundação, para conhecer um pouco mais dos relevantes serviços por ela prestados a Portugal, aos países de língua portuguesa e à humanidade.

Sobre o Tradutor:

O Professor Doutor Joaquim Ferreira Gomes, da Faculdade de Letras de Coimbra e de tantas outras instituições, é nome que dispensa apresentação para os educadores brasileiros. Para conhecê-lo melhor, e surpreender-se com suas contribuições para o conhecimento humano, basta uma rápida pesquisa no Google, no Sapo, ou qualquer outra ferramenta de busca.

Recomendamos, ainda, a leitura do Ensaios em Homenagem a Joaquim Ferreira Gomes, publicado em Setembro de 1998, por ocasião do seu jubileu acadêmico. “Trata-se da coletânea de artigos escritos por alguns dos seus antigos alunos, por colegas e amigos de várias Universidades portuguesas e estrangeiras, em reconhecimento do contributo muito significativo que deu para o desenvolvimento da Psicologia e das Ciências da Educação em Portugal.”

E não apenas a Portugal! Nós, no Brasil, lhe devemos muito, muito, inclusive a maravilhosa tradução da obra que você vai ler.




Nota de Copyright

A presente edicão em eBook é feita em “fair use”, sem nenhum objetivo comercial e visando contribuir para a divulgação desta obra fundamental, colocando-a ao alcance de todos os responsáveis por processos educacionais, principalmente dos jovens. Ao fazê-lo, acreditamos estar em conformidade com os desejos do autor, do tradutor e dentro dos objetivos da
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
www.gulbenkian.pt
a cuja iniciativa deve a língua portuguesa o acesso a esta obra e a quem é atribuído o copyright da presente versão em eBook. Se algum direito patrimonial estiver sendo involuntariamente violado, favor comunicar à
eBooksBrasil
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
para que a presente edicão seja imediatamente retirada do acesso público.

Vedado todo e qualquer uso comercial.


Proibido todo e qualquer uso comercial.
Se você pagou por esse livro
VOCÊ FOI ROUBADO!

Você tem este e muitos outros títulos GRÁTIS
direto na fonte:
eBooksBrasil.org

©2001 — eBooksBrasil

Versão para eBook
eBooksBrasil

__________________
Novembro 2001

Versões para pdf e eBookLibris março 1996

eBookLibris
© 2006
eBooksBrasil.org


OBS:
Em eBookLibris, os textos em grego foram substituídos por
<grego>
para indicar a supressão.

Fonte Digital

Digitalização de
Didáctica Magna
Introdução, Tradução e Notas de
JOAQUIM FERREIRA GOMES

Copyright:
© 2001 FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN


Comentários

blog comments powered by Disqus
Última atualização em Qua, 28 de Abril de 2010 04:33  


Qual é o melhor método de ensino?
 
Para que serve a educação?
 

Selecione uma palavra-chave

Artigos mais lidos desta categoria

Qual é o melhor método de ensino?

Métodos de ensino
A questão da metodologia na educação tem sido muito discutida. Devemos ter uma escola tradicional ou construtivista? Engraçado como gostamos de dividir o mundo em dois, quando na verdade há in...(33179)

Como falar bonito sem ter o que dizer? Embromation pedagógico

Métodos de ensino
Quem quiser realmente falar bonito sem ter o que dizer, terá que contar com um bom método. Afinal, quanto maior a eficiência do método, menor é a necessidade de um ser humano inteligente, pers...(14970)

Como fazer uma boa apresentação oral?

Métodos de ensino
alt Oratória, arte dos contadores de estória, políticos, apresentadores, professores... Esta semana conheci o TED Talks, um belíssimo encontro de pessoas e idéias. São várias palestras, verdadei...(14871)

Pedagogia Shaolin e a "escola forte"

Métodos de ensino
alt"Os templos Shaolin são um grupo de mosteiros budistas da China. (...)"Shaolin" significa "Floresta Jovem", e este nome teve origem após um grande incêndio que devastou as florestas ao redor d...(9738)

A evolução do ensino de matemática - piada tragicômica

Métodos de ensino
alt Recebi por email esta piada sobre o ensino de matemática nas últimas décadas. Achei interessante pelo lugar de destaque que é colocado a uma metodologia muito praticada hoje em dia. O conhec...(8417)