A carta do chefe Seattle ao presidente Franklin Pierce realmente existiu?

Imprimir

Em muitos meios de comunicação, incluindo materiais didáticos e "portais confiáveis" (lembrando que nenhuma fonte de informações é absolutamente confiável), encontramos uma carta supostamente escrita por um chefe indígena. Esta carta é utilizada para fazer as pessoas "entenderem", ou "sentirem", o que muitos chamam de "consciência ecológica".

Há vários vídeos no Youtube recitando esta carta, veja só este. O UOL-Boa saúde, por sua vez, nos dá a "versão integral" da carta com sua referência original:


"Em 1854, "O Grande Chefe Branco" em Washington fez uma oferta por uma grande área de território indígena e prometeu uma "reserva" para os índios.

A resposta do Chefe Seattle, aqui reproduzida na íntegra, tem sido considerada uma das declarações mais belas e profundas já feitas sobre o meio-ambiente:

“Como você pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? A idéia é estranha para nós.
Se nós não somos donos da frescura do ar e do brilho da água, como você pode comprá-los?
Cada parte da Terra é sagrada para o meu povo.

Cada pinha brilhante, cada praia de areia, cada névoa nas florestas escuras, cada inseto transparente, zumbindo, é sagrado na memória e na experiência de meu povo.

A energia que flui pelas árvores traz consigo a memória e a experiência do meu povo.
A energia que flui pelas árvores traz consigo as memórias do homem vermelho.

Os mortos do homem branco se esquecem da sua pátria quando vão caminhar entre as estrelas.
Nossos mortos nunca se esquecem desta bela Terra, pois ela é a mãe do homem vermelho.
Somos parte da Terra e ela é parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs, os cervos, o cavalo, a grande águia, estes são nossos irmãos.
Os picos rochosos, as seivas nas campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, todos pertencem à mesma família.

Assim, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que quer comprar nossa terra, ele pede muito de nós.
O Grande Chefe manda dizer que reservará para nós um lugar onde poderemos viver confortavelmente.
Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos.
Então vamos considerar sua oferta de comprar a terra.
Mas não vai ser fácil.
Pois esta terra é sagrada para nós.

A água brilhante que se move nos riachos e rios não é simplesmente água, mas o sangue de nossos ancestrais.
Se vendermos a terra para vocês, vocês devem se lembrar de que ela é o sangue sagrado de nossos ancestrais.
Se nós vendermos a terra para vocês, vocês devem se lembrar de que ela é sagrada, e vocês devem ensinar a seus filhos que ela é sagrada e que cada reflexo do além na água clara dos lagos fala de coisas da vida de meu povo.
O murmúrio da água é a voz do pai de meu pai.

Os rios nossos irmãos saciam nossa sede.
Os rios levam nossas canoas e alimentam nossas crianças.
Se vendermos nossa terra para vocês, vocês devem lembrar-se de ensinar a seus filhos que os rios são irmãos nossos, e de vocês, e consequentemente vocês devem ter para com os rios o mesmo
carinho que têm para com seus irmãos.
Nós sabemos que o homem branco não entende nossas maneiras.
Para ele um pedaço de terra é igual ao outro, pois ele é um estranho que chega à noite e tira da terra tudo o que precisa.
A Terra não é seu irmão, mas seu inimigo e quando ele o vence, segue em frente.
Ele deixa para trás os túmulos de seus pais, e não se importa.
Ele seqüestra a Terra de seus filhos, e não se importa.

O túmulo de seu pai, e o direito de primogenitura de seus filhos são esquecidos.
Ele ameaça sua mãe, a Terra, e seu irmão, do mesmo modo, como coisas que comprou, roubou, vendeu como carneiros ou contas brilhantes.
Seu apetite devorará a Terra e deixará atrás de si apenas um deserto.
Não sei.
Nossas maneiras são diferentes das suas.
A visão de suas cidades aflige os olhos do homem vermelho.
Mas talvez seja porque o homem vermelho é selvagem e não entende.

Não existe lugar tranqüilo nas cidades do homem branco.
Não há onde se possa escutar o abrir das folhas na primavera, ou o ruído das asas de um inseto.
Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não entendo.
A confusão parece servir apenas para insultar os ouvidos.
E o que é a vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de um curiango ou as conversas dos sapos, à noite, em volta de uma lagoa.
Sou um homem vermelho e não entendo.

O índio prefere o som macio do vento lançando-se sobre a face do lago, e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva de meio-dia, ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo hálito – a fera, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo hálito.
O homem branco parece não perceber o ar que respira.
Como um moribundo há dias esperando a morte, ele é insensível ao mau cheiro.

Mas se vendermos nossa terra, vocês devem se lembrar de que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seus espíritos com toda a vida que ele sustenta.

Mas se vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la separada e sagrada, como um lugar onde mesmo o homem branco pode ir para sentir o vento que é adoçado pelas flores da campina.

Assim, vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra.
Se resolvermos aceitar, eu imporei uma condição – o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e não entendo de outra forma.
Vi mil búfalos apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os matou da janela de um trem que passava.

Sou um selvagem e não entendo como o cavalo de ferro que fuma pode se tornar mais importante que o búfalo, que nós só matamos para ficarmos vivos.

O que é o homem sem os animais?
Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão do espírito.
Pois tudo o que acontece aos animais, logo acontece ao homem.
Todas as coisas estão ligadas.

Vocês devem ensinar a seus filhos que o chão sob seus pés é as cinzas de nossos avós.
Para que eles respeitem a terra, digam a seus filhos que a Terra é rica com as vidas de nossos parentes.
Ensinem as seus filhos o que ensinamos aos nossos, que a Terra é nossa mãe.
Tudo o que acontece à Terra, acontece aos filhos da Terra.
Se os homens cospem no chão, eles cospem em si mesmos.

Isto nós sabemos – a Terra não pertence ao homem – o homem pertence à Terra.
Isto nós sabemos.
Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família.
Todas as coisas estão ligadas.

Tudo o que acontece à Terra – acontece aos filhos da Terra.
O homem não teceu a teia da vida – ele é meramente um fio dela.
O que quer que ele faça à teia, ele faz a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus anda e fala com ele como de amigo para amigo, não pode ficar isento do destino comum.

Podemos ser irmãos, afinal de contas.
Veremos.
De uma coisa nós sabemos, que o homem branco pode um dia descobrir – nosso Deus é o mesmo Deus.
Vocês podem pensar agora que vocês O possuem como desejam possuir nossa terra, mas vocês não podem fazê-lo.
Ele é Deus do homem, e Sua compaixão é igual tanto para com o homem vermelho quanto para com o branco.
A Terra é preciosa para Ele, e danificar a Terra é acumular desprezo por seu criador.
Os brancos também passarão, talvez antes de todas as outras tribos.

Mas em seu desaparecimento vocês brilharão com intensidade, queimados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e para algum propósito especial lhes deu domínio sobre esta terra
e sobre o homem vermelho.
Esse destino é um mistério para nós, pois não entendemos quando os búfalos são mortos, os cavalos selvagens são domados, os recantos secretos da floresta carregados pelo cheiro de muitos homens, e a vista das montanhas maduras manchadas por fios que falam.

Onde está o bosque?
Acabou.
Onde está a águia?
Acabou.
O fim dos vivos e o começo da sobrevivência.”

Extraído de The Irish Press, sexta-feira, 4 de junho de 1976."

http://boasaude.uol.com.br/lib/ShowDoc.cfm?LibDocID=3981&ReturnCatID=1773

***

A internet está lotada de referências, comentários e elogios a esta carta. Dê uma olhada no google para ter uma idéia (37 mil citações em 30 de maio de 2008). Você pode também escutar uma curiosa versão radiofônica da carta, que pode ser acompanhada pelo texto deste link: http://www.rbc.org.br/feijao/Seattle.htm. Isto porque existem versões diferentes da carta espalhadas pela rede, como acontece com muitos textos clássicos. Ela está presente em portais mais confiáveis, como o UOL-Boa Saúde (trecho acima), universidades e  o Comitê Paulista para a década da Cultura de Paz, da UNESCO - não necessariamente com a mesma versão. Isto reflete uma característica potencialmente perigosa da internet, uma espécie de "disse que disse", um telefone sem fio cuja origem fica esquecida em algum passado mítico e remoto... Muitas vezes é apenas falta de paciência e tempo - estranha característica numa auto-proclamada sociedade do conhecimento. Por que saber requer tempo para refletir.

(nota: quando fui buscar uma "fonte confiável" para colocar a carta aqui no Rizomas, lembrei-me de que tinha uma versão no portal da USP faz alguns anos, que havia usado numa aula de ecologia. Procurei um bom tempo por ela e não encontrei. Achei estranho... por que a USP teria tirado do ar? Isso me motivou a fazer uma breve pesquisa, que descrevo abaixo. Depois disso, enviei emais aos sites citados acima. Fiquei feliz em saber que as universidades continuam sendo grandes protetoras do conhecimento, pois a única resposta que obtive foi da Universidade Federal do Pará. A partir das dúvidas levantadas por este artigo, o grupo de permacultura de lá realizou uma interessante pesquisa em busca da história do cacique e da versão original da carta, e em uma semana o portal já estava atualizado).

Trata-se, de fato, de um belo texto, além de uma interessante forma de ver o mundo, muito sintonizada com as idéias ecológicas que surgiram depois, no século XX. Ler esta carta pode ser inspirador para aqueles que buscam de fato incorporar a chamada "questão ambiental" em um modo de vida que seja desejável, agradável e, é bom lembrar, viável a longo prazo.

Pois bem. Para isto o texto já serve. Mas, ao ler com cuidado, um observador crítico pode duvidar de sua autenticidade histórica.

Segundo o artigo abaixo, existem muitas versões diferentes da carta, e ao que parece a mais popular foi retirada de um filme dos anos 70.

"Most environmental educators will be familiar with what has become known as ‘Chief Seattle's speech'. Many people consider it to be one of the finest statements ever made on behalf of nature - it has even been called ‘the Fifth Gospel'- and it is regularly reprinted in text-books and curriculum materials around the world. Outlook Australia (Tribe 1989: 121) has Chief Seattle's speech as being given in 1853 whereas Green Politics in Australia (Hutton 1987: 32) cites it as ‘a letter from Chief Seattle... to US President Franklin Pierce in 1854'. How-ever, the magazine Every Day (1991: 1) cites it as a ‘letter... to President Polk in 1852'. Green Teacher #23 (July-August 1991: 13) carries an article which introduces the speech by suggesting that it contains ‘prophetic statements about pollution and the environment that can be seen to be true today'. Outlook Australia also suggests that parts of the speech ‘foretell the future'. The speech to which they refer does not contain prophecy but hindsight. As has been revealed recently, the popular version of the speech is not a native American text but is excerpted from a movie script written in 1971-72. "

Noel Gough

 

GOUGH, N. Chief Seattle's gospel: chiefly Protestant propaganda? Green Teacher N.24 (December 1991): pg. 4-6

http://www.latrobe.edu.au/oent/Staff/gough_papers/noelg_ChiefSeattle_91.pdf

 

A mais antiga crítica (ou uma delas) à versão popular da carta parece teri sido publicada no artigo abaixo, que não pude encontrar na rede:
KAISER, Rudolf. (1987) Chief Seattle's Speech (es): American Origins and European Reception.In Recovering the Word: Essays on Native American Literature.

Restam, portanto, muitas questões a respeito deste famoso e controverso documento. A carta que encontramos na internet é verdadeira? É uma má tradução? É um roteiro de filme? O chefe Seattle realmente escreveu alguma carta ao presidente? Será que alguma das versões é verdadeira?

Pelo que pude entender, dando uma rápida olhada nos artigos em inglês, existe alguma referência histórica a uma carta que teria sido enviada por um chefe indígena ao presidente dos EUA. No entanto, não existe documento oficial de que esta carta tenha de fato saído de Seattle rumo à Washington. Além disto, análises linguísticas sugerem que a versão mais comum da carta não corresponde ao inglês utilizado naquela época. E, por fim, como vimos no trecho acima (em inglês), não parece existir um consenso quanto à data da carta, além dela (ou parte) ter sido retirada de um filme escrito em 1971. Note que a "referência original", segundo o UOL Boa Saúde, é de 76.

Dadas estas evidências, parece que a carta é falsa na origem. Ou seja, não foi escrita por um chefe indígena do século XIX. (Caso você discorde ou queira dizer algo, deixe seu comentário abaixo)

Neste caso, resta a pergunta. Mesmo sendo falsa na origem, por que a carta é tão lida e relida pelo mundo? Será apenas pelo fato de ter sido escrita por um chefe indígena, ou porque trata-se de um belo texto que revela, à sua maneira, a verdade das coisas?

Última atualização em Sáb, 24 de Dezembro de 2011 13:32  


Para que serve a educação?
 

Selecione uma palavra-chave

Artigos mais lidos desta categoria

O criacionismo pode ser ensinado nas aulas de ciências?

Polêmicas
Comento abaixo alguns trechos da reportagem MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciências, de Fábio Takahashi e Talita Bedinelli (Folha de S.Paulo 13/12/2008). Veja também a discus...(13715)

Custo ambiental - a ecologia na economia

Polêmicas
arvoresdebarra.jpg desenho de Dorfo Gomes, BocAberta n.15 Quanto custa a natureza? Depende da época. No início da humanidade, tudo foi sempre de graça. No paraíso das delícias, os frutos eram oferecidos gra...(13372)

Qual é o verdadeiro efeito do efeito estufa?

Polêmicas
Como biólogo mas, antes, como ser humano, sempre me senti incomodado com o modo pelo qual o homem se relaciona com a natureza. Minha "consciência ecológica" começou, na infância, com normas co...(11111)

Devemos reciclar oléo de cozinha na escola? Mitos, perigos e interesses

Polêmicas
A pergunta vem de um texto que anda circulando por email. Fui buscar a fonte e o autor me respondeu minutos depois, por email, esclarecendo o ponto central: "estão levando isso para as escolas...(10388)

O "sistema anti-chute" do novo ENEM funciona mesmo?

Polêmicas
Quando escutei que o novo ENEM teria um sistema anti-chutes, achei ótimo. Sempre achei estas provas de múltipla escolha um tanto rudimentares. Meus alunos, diferentemente, não gostaram da muda...(9690)