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Utopias: socialismo e educacionismo - Cristovam Buarque

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O educacionismo é uma idéia lançada por Cristovam Buarque. Uma "proposta de utopia", não no sentido próprio do termo (algo sem lugar no mundo real), mas utopia como um sonho a ser defendido aqui e agora. A idéia geral, antiga na história da filosofia, é analisada e defendida de forma bastante pertinenente pelo senador. Coloco abaixo alguns trechos do livro "O que é educacionismo" e no final um outro excerto comparando o socialismo e o educacionismo.


O que é educacionismo
(excertos)

Cristovam Buarque

“Como a bola é redonda para todos e os pobres formam a maior parte da população, são eles que chegam ao topo da carreira futebolística. Mas, para entrar em uma universidade, a regra do sucesso está na escola de base onde se estudou. E as escolas não são redondas para todos. (...) O educacionismo quer fazer com que as escolas sejam igualmente boas para todos, como a bola é redonda para todos.” (O que é Educacionismo, pg. 47)

“Com os pobres excluídos de escolaridade de qualidade, os filhos das classes altas não necessitam estudar muito, porque não encontram concorrência. (...) Enquanto enganam os pobres com a idéia de que a revolução está na economia, os ricos mantém os privilégios para seus filhos em escolas que, mesmo não sendo excelentes e não obrigando ao estudo, são melhores do que as escolas dos filhos dos pobres.” (Idem, pg. 49)

“A defesa intransigente do diploma universitário para o exercício de qualquer profissão é o outro meio utilizado para a exclusão dos que não têm possibilidade de ingressar no ensino superior” (Idem)

“A partir de agora, a força sindical será cada vez mais frágil para a definição dos salários e a remuneração do trabalhador será, cada vez mais, definida por sua formação. A ascenção salarial será cada vez menos o resultado da organização política sindical e cada vez mais o resultado do talento individual.” (Idem, pg.  57)

“o que diferencia o educacionista e o neoliberal é que este trata a educaçao como um recurso econômico produzido para o mercado pela compra da formação na escola privada, sem preocupação com a igualização de oportunidades (...) O educacionista vê a educação como o oxigênio da sociedade, a garantia da chance igual para todos, por meio da escola pública, gratuita de qualidade.” (Idem, pg.  58)

“a alienação não desaparecerá como simples resultado da organização social, mas, sobretudo, pela revolução íntima de cada ser humano, por meio de uma educação de qualidade, única forma de reduzir a alienação do ser humano na sociedade moderna, tanto a alienação entre seus semelhantes quanto em relação à natureza. (...) Obviamente, para um indivíduo, a educação é o caminho necessário, mas não basta; para toda a sociedade, a educação basta, porque ela traz o resto que for necessário” (Idem, pg. 64)

“A liberdade com desigualdade no acesso à educação é uma falsa liberdade, a igualdade sem respeito ao talento e à dedicação de cada um é uma falsa igualdade, uma igualdade injusta. A combinação de liberdade, igualdade e justiça só pode ser conseguida pela revolução que assegure igual acesso à educação, dentro da democracia.” (Idem, pg. 68)

 

Os cinco erros de Marx

A base teórica que ele formulou não permitiria um regime com a liberdade que ele sonhou. Errou por pelo menos cinco razões que levaram à substituição do sonho de socialismo pela realidade do capitalismo-de-estado a que se chamou de socialismo-real”

1- “ele considerava cada trabalhador parte de uma massa chamada proletariado (...) não tinha interesse individual...”

2- “em seu tempo ainda não havia a sociedade de consumo com suas tentações sobre as pessoas”

3- “no seu tempo, o trabalhador era mão-de-obra, operário sem necessidadde de formação.

4- “a eficiência da indústria capitalista, ao inventar novas necessidades e ao produzir quantidades crescentes, foi capaz de atender muitas das aspirações e sonhos de consumo de seus empregados, quebrando grande parte da contradição e conflito de classe com os patrões

5- “Marx não previu que o crescimento da produção encontraria limites no constrangimento ecológico”

(Idem, pg. 69 e 70)

Limites de consumo máximo e mínimo

 

“o educacionismo respeita o direito à desigualdade na renda e no consumo, limitando essa desigualdade acima da exclusão social e abaixo da degradação ecológica. A generosidade organizada pelo Estado deve atender com o mínimo necessário àqueles que se situam abaixo da linha da pobreza, porque o talento ou as opções não lhes permitiram dispor do essencial para a vida. E para não permitir a destruição do meio ambiente, o Estado deve dispor de regras que impeçam o consumo acima da linha ecológica, qualquer que seja o potencial econômico da riqueza. (...) A atual realidade social e política já apresenta embriões dessas margens...” (Idem, pgs. 71-72)

 


NOSSA CAUSA - COMUM: O EDUCACIONISMO - Escola igual para todos
(excertos)

Cristovam Buarque

"A proposta de utopia socialista sonhava com um mundo onde cada um “trabalharia de acordo com sua capacidade e ganharia de acordo com suas necessidades”. O socialismo no século XX errou ao não perceber que no século XIX qualquer um tinha emprego conforme sua capacidade natural, sem necessidade de formação, e errou ainda mais ao não perceber que as necessidades já não são limitadas, decorrem de uma ânsia consumista ilimitada. Daí o recurso, nos países socialistas, ao uso da ditadura, para reprimir as aspirações consumistas das classes médias.

No século XXI, a capacidade de cada um depende diretamente da formação do trabalhador, cada vez mais complexa e sofisticada, e as necessidades de cada um são cada vez maiores. No século XIX o operário tinha emprego sempre que houvesse crescimento econômico criando vagas em grande número. No século XXI o crescimento cria poucas vagas e estas sobram se o trabalhador não for qualificado. Porque para ter emprego, o operário tem que se transformar em operador.

A revolução de hoje está em assegurar o pleno desenvolvimento da capacidade de cada um, e permite-lhe que seja remunerado de acordo com esta capacidade, permitindo um consumo diferenciado. O “socialismo” no século XXI deve consistir em assegurar a todos igualdade no acesso à qualificação, permitir que todos tenham a mesma oportunidade educacional. Com isto, a liberdade permitirá desigualdade no consumo, acima da linha da exclusão e abaixo da linha da destruição ecológica. Ninguém consumindo menos do que o necessário para sair da pobreza e ninguém consumindo mais do que equilíbrio ecológico permite. No espaço entre o necessário - social e o possível - ecológico, a liberdade convive com a desigualdade.

Depois do fracasso de todos os “ismos” que baseavam a utopia nos sistemas econômicos nacionais, o educacionismo baseia a construção da utopia civilizatória na revolução educacional que assegure a mesma oportunidade de formação para todos. Esta é uma visão compatível com os novos tempos onde a globalização substitui as economias nacionais e onde o capital-conhecimento e as informações substituem ao capital-máquina como os vetores do progresso; onde o computador substitui a máquina a vapor, a escola substitui a fábrica. Onde os operários se transformam em operadores e a luta de classes é substituída pelo choque de interesses entre os que têm e os que não têm formação profissional e educacional e por esta razão a sociedade é dividida entre incluídos e excluídos da modernidade, separados por um sistema de apartheid social, a apartação, devido a desigualdade abismal no acesso à educação.

Depois de um século de frustrações com as revoluções prisioneiras das economias nacionais, que utilizaram o poder do Estado para criar novas classes burocráticas por meio do desenvolvimentismo ou do socialismo, e no início de um novo século no qual o mundo se divide internacionalmente entre um Primeiro-Mundo-Internacional-dos-Ricos, seja qual for o país onde se vive, e um Arquipélago-Social-de-Pobres espalhados no Planeta - o gulag neoliberal - o ponto de partida da utopia é derrubar a Cortina de Ouro que separa incluídos e excluídos dentro de cada país, quebrar a apartação e integrar a todos, dando- lhes a mesma chance. O crescimento econômico não será capaz, a revolução social tradicional pela economia e controle do estado não será possível. O caminho é a educação.

Isso, obviamente, não significará o coroamento do projeto civilizatório. É um passo revolucionário, mas apenas um primeiro passo. O futuro distante pode ser apenas sugerido como uma idéia, não uma proposta: no lugar da sonhada e fracassada igualdade na renda e no consumo com o sacrifício da liberdade, proposta nos séculos XIX e XX, agora a utopia sonhada pode ser a humanidade livre e integrada globalmente. Uma humanidade conectada, dispondo dos equipamentos e das bases culturais para o grande diálogo mundial que os diversos meios de comunicação já permitem. Hoje, o papel da Nossa Causa é dar uma pequena contribuição: fazer com que os brasileiros estejam todos integrados, e com a mesma chance de participar."

Baixe o texto todo aqui

 


Fontes:

BUARQUE, Cristovam. O que é educacionismo, Coleção Primeiros Passos, Ed. Brasiliense.

BUARQUE, Cristovam. NOSSA CAUSA - COMUM: O EDUCACIONISMO - Escola igual para todos - http://www.cristovam.org.br/portal2/index.php?option=com_remository&Itemid=26&func=startdown&id=56

 

Última atualização em Ter, 10 de Novembro de 2015 13:19  

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