Chegaremos ao "bom capitalismo" ou precisaremos inventar outra coisa?

Qua, 04 de Fevereiro de 2009 11:50 Rodrigo Travitzki Pensando a longo prazo
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Uma pergunta ligada às idéias do filósofo Slavoj Žižek, que foi no Roda Viva esta semana.

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Selecionei abaixo 3 trechos de um artigo que ele escreveu na folha, que podem nos ajudar a pensar a utopia de uma forma não ingênua.


Missão: impossível
Crença na utopia é ainda a melhor forma de questionar a exclusão social
(trechos selecionados)

"Os protestos anticapitalistas dos anos 60 suplementaram a crítica padrão da exploração socioeconômica pelos temas da crítica social: a alienação da vida cotidiana, a "mercadorização" do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massa em que "usamos máscaras" e sofremos opressão sexual e outras etc.

Mas o novo espírito do capitalismo recuperou triunfalmente a retórica anti-hierárquica de 1968, apresentando-se como bem-sucedida revolta libertária contra as organizações sociais opressivas do capitalismo corporativo e do socialismo "realmente existente".

O que sobreviveu da libertação sexual dos anos 1960 foi o hedonismo tolerante, facilmente incorporado a nossa ideologia hegemônica: hoje o prazer sexual não apenas é permitido, é ordenado - os indivíduos se sentem culpados quando não podem desfrutá-lo."

*

"...o capitalismo liberal-democrático é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível, e tudo o que se pode fazer é torná-la mais justa, tolerante etc."

Hoje a única verdadeira questão é: nós endossamos essa naturalização do capitalismo ou o capitalismo global de hoje contém antagonismos fortes o suficiente para impedir sua infinita reprodução?

Há (pelo menos) quatro desses antagonismos: a sombria ameaça da catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada para a chamada “propriedade intelectual”, as implicações socioéticas dos novos avanços tecnocientíficos (especialmente em biogenética) e as novas formas de apartheid, os novos muros e favelas."

*

"Se ignorarmos esse problema dos excluídos, todos os outros antagonismos perdem seu viés subversivo. A ecologia se transforma em um problema de desenvolvimento sustentável, a propriedade intelectual em um complexo desafio jurídico, a biogenética em uma questão ética.

Sem o antagonismo entre incluídos e excluídos, poderemos nos encontrar em um mundo em que Bill Gates é o principal humanista, lutando contra a pobreza e as doenças, e Rupert Murdoch o maior ambientalista, mobilizando milhões de pessoas por meio de seu império da mídia.

O verdadeiro legado de 1968 é melhor resumido na fórmula “soyons realistes, demandons l’impossible!” [sejamos realistas, exijamos o impossível!].

A verdadeira utopia é a crença em que o sistema global existente pode se reproduzir indefinidamente. A única maneira de ser verdadeiramente realista é imaginar o que, dentro das coordenadas desse sistema, só pode parecer impossível."

Por Slavoj Zizek
Fonte: Folha de S. Paulo, 4/5/2008
(Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves)

Você pode ler o texto todo nos links abaixo:

http://outrapolitica.wordpress.com/2008/06/19/desejar-o-impossivel-e-ser-realista-contra-o-capitalismo/

 

http://cesarkiraly.opsblog.org/2008/06/03/crenca-na-utopia-slavoj-zizek/

 

Última atualização em Ter, 01 de Setembro de 2009 22:45