Educação Digital

Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Educação Digital para professores e alunos -1- princípios básicos da internet

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bebesComecei a fazer este guia pensando em preparar melhor meus alunos para o mundo digital. Há muitas possibilidades e perigos rondando a rede, e a escola não pode fugir disso. Depois de juntar muito material, achei que valia a pena fazer um guia completo de internet, voltado ao público escolar, e disponibilizá-lo na própria rede. Faça bom proveito.

Sumário

A internet está substituindo a escola?

Quem acha que o acesso à internet diminui a necessidade de sabermos das coisas e a importância do estudo, é porque ainda não navegou longos oceanos. Ou não aprendeu a duvidar do que lê na rede, nos impressos, ou vê na televisão. Acredita que não precisa saber tanta coisa específica porque agora tudo está à distância de um clique.

Para esta pessoa eu diria “então vai lá, busque o que quer sem saber nada sobre a coisa”. Ela pode até encontrar, se for realmente boa na arte da navegação, mas levará muito tempo. E para confirmar a informação levará mais tempo ainda. Mas esta pessoa imaginária nem pensará em contestar o que leu. Porque quem não estudou (na escola ou fora dela), não pôde se apropriar adequadamente das bases atuais do conhecimento humano, da cultura, que permitem avaliar melhor as informações, distinguir o verdadeiro do falso. Ou pelo menos o mais provável do menos. (Lembrando que, quando falamos das "pessoas em geral", falamos sempre numa suposta "média", e com algum preconceito. Taí nosso presidente como contra-exemplo da hipótese deste parágrafo. Mas deixemos as exceções de lado...)

Uma boa escola deve ajudar o aluno a saber o que quer, conhecer o nome daquilo, e se informar a partir das fontes disponíveis – seja buscando no índice do livro, na biblioteca, numa conversa, na internet, etc.

Um navegador experiente sabe que o segredo para encontrar as coisas na rede é conhecer as palavras-chave certas. Sabe aqueles termos complicados que hoje em dia está na moda pedagógica classificar de "decoreba"? Pois é, eles são nossos melhores amigos na hora de encontrar alguma coisa na internet. Isto nos ajuda a repensar o papel da escola em tempos de informação global. As palavras específicas continuam sendo importantes, provavelmente ainda mais do que antes. Mas nem todas. Não adianta ficar só empurrando pequenas pastilhas de dados nas cabeças dos alunos. Até porque, segundo um estudo, informações curtas podem levar à insensibilidade emocional. Há muito o que pensar neste campo.

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Escola e internet não competem entre si, muito pelo contrário. Podem, e devem, se alimentar uma da outra (sinergia, cooperação). Um ajuda o outro, e os dois se desenvolvem juntos. Tem até gente propondo que a educação digital deveria ser incluída como uma matéria escolar, como Renato Opice Blum (segundo Carpanez).

A “cultura escolar” precisa se apropriar da “cultura digital” com competência, para então poder se desenvolver mais plenamente. Este texto se propõe a ajudar nesse sentido.

 

Guia de segurança na internet para estudantes

A maioria dos sites que falam sobre segurança na internet são dirigidos aos pais, e explicam formas de introduzir as crianças ao mundo digital (coisa que depois de um mês acaba, pois os pequenos já estarão “dando olé” na velha geração). Mas adolescentes não são crianças – têm seus próprios planos e opiniões, embora ainda não respondam legalmente por seus atos. Aquela eterna contradição... Enfim, nossa idéia aqui é falar de internet, segurança e ética para estudantes do ensino médio que queiram navegar de forma eficiente, livre e inteligente.

Navegando com segurança

Os portugueses que navegavam mares desconhecidos tomavam todas as precauções necessárias para evitar a morte. Levavam mantimentos, bússolas, armas, mapas. Desenhavam monstros nos mapas. Quando navegamos pela internet é a mesma coisa. Podemos infectar nossos navios com vírus ou “spys” (espiões), que podem destruir o trabalho de anos ou enviar nossos segredos para outras pessoas. É bom saber navegar, conhecer as precauções mais importantes. Não apenas para evitar a morte (do computador pelo vírus), mas para fugir da ignorância. Ou pior, do conhecimento falso. Do ponto de vista da cultura, isto é a morte.

Internet: benefícios e riscos

A internet é uma mistura de biblioteca, videoteca, banca de jornal, loja de discos, loja de tudo. Sua idéia central é a conexão. Fisicamente, a internet é um conjunto de cabos (e satélites) que conectam computadores de todo o mundo. “Virtualmente”, essa conexão é possível porque textos, imagens, vídeos e músicas podem ser digitalizados - viram um bando de “zeros” e “uns” que são compreendidos por todos os computadores. Cria-se uma unidade para alojar grande multiplicidade. Mas não é só isso. Os textos da internet têm sempre alguns links (hiperlink), esse sublinhado azul (ou não) que leva para outro lugar. O link (ligação, conexão) é a essência da internet. Ele permite aos textos formarem uma grande rede de significados conectados, tornando a informação menos fragmentada e mais fácil de ser encontrada.

O mais estranho é que podemos escrever na internet de dentro do nosso quarto, mesmo sendo um lugar público. Os blogs estão aí pra ficar. Há uma conexão direta entre a vida privada, íntima, e o mundo coletivo, visível a (quase) todos. É uma praça pública mundial onde tem de tudo. Onde as pessoas se encontram pela língua, pelos interesses, costumes, necessidades...

Há muito potencial na internet, ela deverá ser cada vez mais útil às pessoas. Deixar de aproveitá-la seria tolice. Mas sair navegando sem a bússola adequada pode ser mais tolo ainda. Você escreve uma coisa do seu quarto para um amigo que está no quarto dele, e quando vê a escola inteira fica sabendo. Esse é o orkut, berço de muitos contatos interessantes, e também de conflitos violentos.

Liberdade, organização e perigos

Que perigos o mar da internet nos apresenta? Ele é ao mesmo tempo livre e organizado.

Livre para a informação (que corre facilmente pelo mundo) e para as pessoas (que agora podem receber e produzir cultura de uma forma nova – global, bidirecional e multimídia).

E organizado porque todas as informações seguem um formato padrão, um código básico que ajuda os computadores a se entenderem entre si. É o tal HTML a linguagem básica da internet. Uma linguagem comum - a estrutura simbólica da rede - que organiza todas as coisas que estão digitalizadas e disponíveis na internet.

Hoje, quem compreende esta linguagem (ou ao menos sabe utilizá-la para seus propósitos), tende a ser mais livre. Mas também está sujeito a novos perigos.

A liberdade de criação e publicação pode ajudar na democratização da informação, mas por outro lado torna mais difícil distinguir o falso do verdadeiro. E pode tornar as pessoas mais vulneráveis (principalmente crianças e não-iniciados na Educação digital), caso elas exponham certas informações pessoais em sites públicos, como o orkut.

A organização também tem (pelo menos) duas facetas: ela ajuda a guardar e recuperar informações, mas por outro lado pode ser usada como forma de controlar as nossas vidas, numa espécie de Grande Irmão (Big Brother) ultra eficiente. Afinal, todos os dados ficam em algum lugar. Não caia nessa de “anonimato na internet”, isso não existe. Está tudo lá. As palavras-chave, senhas e dados pessoais que você digita, os sites que visita, os lugares de onde acessa a rede, etc. Não adianta “fingir ser outra pessoa” num site qualquer, que os computadores não são assim tão facilmente enganados.

Por isso é bom saber navegar na internet, com eficiência e segurança. Mais liberdade e menos riscos. Só pelo conhecimento isto é possível.

Vamos começar conhecendo os riscos.

Alguns riscos que corremos na internet

Em 2003, ano recorde de ataques e fraudes na internet, o Brasil foi campeão absoluto. Letícia Duarte diz, na reportagem Fraudes pela Internet crescem 275% :

Segundo a consultoria BR Conection, 75% dos ataques mundiais na rede mundial de computadores partem do Brasil. De cada 10 sites de hackers, sete são em português.

(Zero Hora)

Gustavo Freitas, no artigo A internet e as crianças e adolescentes, alerta para alguns riscos:

Não há dúvida de que a internet é uma ferramenta que tem auxiliado o crescimento humano, pois o conhecimento que podemos armazenar e consultar através dela é infinito. Mas existe também o “lado negro da força”, como pedofilia, pornografia e crimes cibernéticos (só para citar alguns fatores negativos). Como tudo na vida você tem o direito de escolher o que é melhor pra você e pagar um preço por essa escolha.

(...)

A última pesquisa da SaferNet teve como foco as crianças, adolescentes e jovens e pais no Brasil (1400 entrevistados) e o resultado é alarmante e merece destaque:

87% afirmaram não possuir qualquer restrição para utilizar a internet

53% tiveram contato com conteúdos agressivos

38% dos jovens internautas relataram já ter sido vítima de ciberbullying

10% afirmaram já ter sofrido algum tipo de chantagem on-line

64 % dos jovens usam a Internet principalmente no próprio quarto, contrariando uma das dicas de prevenção que orienta a manter o computador em área comum da residência

55% dos jovens reconhecem que ficam tempo demais na Internet

27% dos jovens afirmam já ter encontrado (presencialmente) ao menos uma vez amigos que conheceram pela Internet

21% afirmam que fornecem livremente o nome da escola e/ou clube que freqüentam

Confira a pesquisa completa na SaferNet Brasil.”

Vejamos agora um fenômeno bem conhecido por alunos e professores, embora nem sempre com esse nome.

Casos de cyberbullying atingem professores e alunos

Segundo Juliana Carpanez, em reportagem para o Globo:

Nesta semana, foram registrados dois casos relacionados a esse tipo de intimidação. Uma professora e uma inspetora de uma escola estadual em Bauru, a 343 km de São Paulo, abriram um boletim de ocorrência depois de se depararem com mensagens ofensivas no site de relacionamentos Orkut. Em outra situação, um aluno que se diz vítima de bullying na escola usou essa mesma rede social para divulgar que não se responsabilizaria por seus atos. "Aos familiares das vítimas peço desculpas e deixo bem claro que eu não quero o perdão de ninguém. Talvez me chamem de assassino", escreveu o jovem em seu perfil.

O bullying é um conjunto de comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos que são adotados por um ou mais alunos contra outros colegas, sem motivação evidente. No caso do ciberbullying, essas mesmas ações são realizadas também contra professores via blogs, Orkut, YouTube, outros tipos de sites, mensageiros instantâneos e mensagens de texto escritos no telefone celular. Para o Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Byllying Escolar (Cemeobes), o uso da tecnologia propicia uma “forma de ataque perversa, que extrapola muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis”.

Os responsáveis por essas ações têm a falsa sensação de anonimato. Mas a internet deixa rastros, e é possível identificar o responsável pelo cyberbullying”, afirmou ao G1 o advogado Renato Opice Blum, especialista em direito digital. Para ele, é necessário que se crie nas escolas uma disciplina sobre como se portar na internet, incluindo nessas aulas os aspectos legais do uso da web. “

Sensação de anonimato facilita ciberbullying
Juliana Carpanez (O Globo, 27/09/07)

Veja mais alguns riscos abaixo e no capítulo “evitando vírus na mente”.

Se você teve contato com alguma coisa dessas, saiba onde denunciar abusos e fraudes na internet.

Há sempre um “rastro digital” que leva à pessoa

Não existe “identidade falsa” na internet, há sempre uma maneira de descobrir a pessoa responsável por cada ação na rede. Tecnicamente isto é tranquilo, o problema no Brasil é burocrático.

Ao contrário do que muitos internautas ainda pensam, é possível identificar sua verdadeira identidade na web, mesmo que no universo virtual eles utilizem nomes falsos. No entanto, pelo fato de essa identificação ser um tanto burocrática -- para ser feita, é necessário uma autorização judicial --, muitos usuários se aproveitam da falsa sensação de anonimato para praticar o ciberbullying, ou intimidação através de meios digitais.”

Sensação de anonimato facilita ciberbullying
Juliana Carpanez (O Globo, 27/09/07)

O que são vírus?

Afinal de contas, o que são vírus? O que há de comum entre a gripe e o “pau” que dá no computador? Vírus são coisas estranhas, os biólogos ainda nem decidiram se estão vivos ou não. Segundo o sr. Smith (Matrix), a humanidade é um vírus.

Segundo o Houaiss, a palavra “vírus” pode significar:

um grupo de agentes infecciosos diminutos (de 10 nm a 250 nm de diâmetro), caracterizados pela falta de metabolismo independente e pela habilidade de se replicarem somente no interior de células vivas hospedeiras; (...) mal moral de conotações patológicas ou contagiosas (Ex.: o v. do anti-semitismo); (...) programa de computador executado independentemente da vontade do usuário e geralmente sem seu conhecimento, capaz de criar cópias de si mesmo (...) e que geralmente danifica, corrompe ou destrói informações; (...) um gosto acentuado, fortíssimo por algo (Ex.: pegou o v. da malhação aeróbica)

Evitando vírus no computador

Dicas de segurança na internet

Em primeiro lugar, lembre-se sempre que a internet é um lugar público. Você pode acessá-la até de seu quarto, o centro da vida privada, que mesmo assim é como se estivessse no meio de uma praça lotada gritando em voz alta. A internet é o lugar mais público que conheço. Então tome cuidado com o que vai escrever, porque os chips têm ouvidos (e memória de elefante). Mantenha sua vida pessoal pessoal. Afinal:

A Internet não é segura. Ataques são provenientes de: amadores, curiosos, "metidos a espertos"; técnicos descontentes; técnicos mal-intensionados(ufrgs.br)

O ideal é deixar de lado o windows, rumando para mac ou linux. Mas se não for o caso, pode começar usando um outro navegador, como o Firefox, o Google Chrome ou o Opera. Você precisará de 3 programas básicos para segurança:

1) um anti-vírus (baixe um gratuito) é condição básica para navegar na rede. Deixe ele sempre atualizado. Os vírus podem danificar seu sistema e destruir arquivos importantes;
2) um firewall (baixe um gratuito) para substituir o que já vem com o windows. Ele protege seu computador de ataques externos, como uma barreira;
3) um anti-spy (baixe um anti-spy gratuito). Espiões são programas que podem enviar seus dados a outras pessoas.

Mas não basta ter o programas, você precisa educar seus hábitos digitais. Tenha cuidado com emails falsos (são muito bem feitos), computadores coletivos, downloads, imagens, links, login, desconfie de tudo. Nenhuma empresa séria chega pedindo senhas ou dados pessoais por email. Nenhum amigo ou namorado manda mensagens com frases genéricas, como “veja só as nossas fotos” ou “que saudades, clique neste cartão que fiz especialmente pra você”. Quando há um link não saia clicando, passe antes o mouse sobre ele (sem clicar) e observe se o endereço na barra de status (embaixo do navegador, ativável no menu “exibir”) é igual ao do link. Repare em pequenas diferenças, como “www.bancodobnasil.com.br”. Nunca clique em nada minimamente duvidoso.

 

VOCÊ NAVEGA COM SEGURANÇA? Descubra neste teste feito especialmente para adolescentes

Veja boas dicas de segurança na internet aqui

Se quiser mais detalhes, tente este tutorial ou esta cartilha, bem completa e organizada.

Ou vá direto ao ponto clicando nos tópicos abaixo, retirados desta outra cartilha.

Internet

Navegadores ou Browsers

Sites de Busca

LAN House e InfoCentro

e-Mail

Chat - Salas de Bate Papo

Comunicadores Instantâneos

Redes de Relacionamento

Blogs e Fotologs

Redes P2P - Compartilhamento de arquivos

Jogos On-Line

CiberCrime - Crime Digital

CiberBullying

Aliciamento ou Chantagem On-Line

Roubo de Dados

Vírus

Invasão

Justiceiros Virtuais

Software Livre

Créditos

Evitando vírus na mente

A internet tem vírus para os computadores, mas também tem vírus para nossas mentes. São as coisas que lemos por aí e, por algum motivo, acreditamos nelas. Gostamos, simpatizamos, vemos lógica, parece confiável – ou, ao menos, extremamente verdadeiro.

Os “vírus mentais” podem ser benignos, como uma mensagem verdadeira que se difunde rapidamente. Mas a maioria é prejudicial. São idéias falsas, às vezes perversas, superstições sem fundamentos, frases de efeito sem significado, consensos fabricados, por aí vai.

Alguns “vírus mentais”, de tão malignos, são proibidos em qualquer meio de comunicação, como a internet. Dentre os conteúdos proibidos na rede temos:

Pornografia Infantil (Pedofilia on-line)

Racismo, Xenofobia e Intolerância religiosa

Neonazismo

Apologia e Incitação a crimes contra a Vida

Homofobia

Apologia e Incitação a práticas cruéis contra animais

Fonte: safernet.org.br

Veja aqui onde denunciar conteúdos proibidos na internet.

Os exemplos acima são casos extremos, que a maioria concorda. Mas na internet rola todo o tipo de idéia, dos mais variados assuntos e tendências. Como nos livramos dos “vírus mentais malignos” então? Como saber se aquela frase é verdadeira ou não? Como sempre, com conhecimento, desconfiança, confiança, intuição, razão, pensamento crítico e sabedoria. Vejamos mais de perto.

Princípios do pensamento crítico

Contra os “vírus mentais malignos” temos algumas armas. Vejamos um trecho deste site:

O que significa "Pensamento crítico"???

Pensar independentemente (livre de influências e "manipulações alheias")

Exercer a tolerância e a compreensão (mente aberta)

Habilidade para detectar os sentimentos, os interesses subjacentes ao discurso aparententemente lógico

Desenvolver confiança na razão

Refinar as generalizações e evitar as supersimplificações

Distinguir entre fato, opinião, crença

Esclarecer e analisar o significado das palavras e das frases

Avaliar a credibilidade de fonte de informação

Analisar e avaliar argumentos, teorias etc.

Avaliar ações políticas

Decodificar o discurso político, religioso, etc.

Comparar o discurso com a prática real

Distinguir entre fatos relevantes e irrelevantes

Examinar suposições que fundamentam propostas políticas etc.

Distinguir entre fatos e alegações

Reconhecer contradições

Pensar e se expressar com precisão(Fonte: iq.usp.br - Pensamento crítico)

 

E nunca é demais lembrar...

Pensamento crítico: use sempre, mas com moderação!

(Afinal, criticar costuma ser mais fácil do que fazer)

 

Conhecimento, ética e responsabilidade

Como espécie, estamos vivos graças ao conhecimento, é nosso dever e nosso instinto protegê-lo. No bom e no mau sentido. Proteger o conhecimento pode nos levar a questionar idéias que consideramos falsas, expressar nossos saberes com clareza, citar as fontes, etc. Mas a proteção excessiva do conhecimento pode levar ao apego insensato a uma idéia equivocada. Essa é o origem do preconceito (no mal sentido), da superstição, dos slogans vazios, e por aí vai.

Sendo assim, para “evitar o mal”, precisamos de informações, habilidades, e também valores sólidos, éticos, devemos ser responsáveis pelo nosso próprio trabalho, responder por ele, defendê-lo quando necessário. Professores e alunos, mas principalmente professores. E diretores, etc. Pois alunos ainda não são cidadãos completos. Devem se esforçar neste sentialtdo, mas ainda têm um certo “direito ao erro”, maior ou menor dependendo da idade.

A ciência, a academia e a cultura escolar são essencialmente conhecimento coletivo, e devem ser tão transparentes quanto possível. Interesses econômicos e ineficácia podem nublar esta transparência, coisa que precisamos combater incessantemente.

 

Direitos autorais

Segundo Plínio Martins Filho, no artigo Direitos autorais na internet:

O direito autoral se caracteriza por dois aspectos:

1. O moral – que garante ao criador o direito de ter seu nome impresso na divulgação de sua obra e o respeito à integridade desta, além de lhe garantir os direitos de modificá-la, ou mesmo impedir sua circulação.
2. O
patrimonial – que regula as relações jurídicas da utilização econômica das obras intelectuais.

O autor tem direitos sobre que tipo de obra?

São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro.mesma fonte

Se quiser, veja mais trechos selecionados sobre direitos autorais.

A propriedade intelectual é um direito do autor moderno

Autor é um inventor, aquele que cria, tem uma idéia diferente ou desenvolve uma idéia conhecida de maneira própria (sendo aí um co-autor). Antes da linguagem escrita as idéias não tinham donos - a partir do momento em que eram expressas, passavam a ser coletivas. Tradição oral, domínio público, mitologia, por aí vai...

A palavra organizou as idéias de tal forma que levou as pessoas a valorizarem mais os autores de certos conjuntos fixos e estruturados de idéias - que são os textos. Queremos saber se o texto é de Aristóteles ou Platão.

Mas quando o “autor” virou “dono” do texto? (“Dono” no sentido de ser o único a poder ganhar dinheiro com a obra). Não adianta achar que isso é uma invenção moderna. A literatura, a filosofia, a ciência e qualquer outro tipo de trabalho sempre estiveram à venda – salvo algumas raras obras. Talvez a modernidade tenha apenas organizado mais as coisas. Afinal, o roubo de criações alheias é tão antigo quanto a criatividade.

Como as coletividades podem ajudar a proteger os “donos das idéias”? Uma resposta moderna: fazendo acordos e convenções que estabelecem parâmetros nacionais e mundiais para a propriedade intelectual e direitos autorais (veja aqui os tratados assinados pelo Brasil).

Hoje, como vimos, o autor tem direitos morais (é o inventor) e patrimoniais (pode ganhar dinheiro) sobre os produtos de sua criatividade. Para o filósofo Slavoj Žižek, a questão do direito patrimonial – a propriedade privada da idéia – deve ficar cada vez mais complicada dentro do sistema capitalista.

A lei brasileira que trata dos direitos autorais é a LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

Direitos autorais na internet

A propriedade intelectual diz respeito a idéias, expressas em qualquer forma. Na internet, o autor tem os mesmos direitos do que em qualquer outro meio de comunicação. Ele pode proibir ou liberar o uso de sua obra como quiser, a quem quiser.

O problema é como controlar isso no mundo digital. A rede mundial de computadores é uma mídia sem dono, livre. Se o xérox ilegal já é uma prática tão comum (e mesmo essencial para as melhores universidades do Brasil), imagine então a internet.

Talvez seja apenas uma questão de fiscalização, talvez tenhamos que repensar um pouco as leis. Afinal, quanto do preço de um livro ou de um CD vai realmente para o seu autor? Por outro lado, há pessoas ganhando muito dinheiro com pirataria e que, não existindo legalmente, ficam livres de pagar direitos autorais e impostos, dar garantias do produto, seguir a legislação vigente em questões sociais e ecológicas, etc. Mas isto é outra questão, dentre as tantas que envolvem os direitos autorais na internet.

O que é considerado de domínio público?

Como vários países, o Brasil considera que depois de 70 anos da morte do autor, sua obra é de domínio público. Isto quer dizer que você pode usar a obra livremente, desde que cite adequadamente o autor e a fonte. A legislação varia no mundo, em alguns países são 50 anos.

Também são considerados de domínio público os trabalhos oficiais feitos por funcionários do governo, dentre outros. Veja mais detalhes abaixo:

Domínio público, no Direito da Propriedade Intelectual, é o conjunto de bens culturais, de tecnologia ou de informação - livros, artigos, obras musicais, invenções e outros - cujos direitos econômicos não são de exclusividade de nenhum indivíduo ou entidade. Tais bens são de livre uso de todos, eis que integrando a herança cultural da humanidade.

Bens integrantes do domínio público podem ser objeto, porém, de direitos morais, cabendo sempre citar-lhe a autoria e a fonte.

(...) No Brasil: Os direitos autorais duram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subseqüente ao falecimento do autor. Além das obras em que o prazo de proteção aos direitos excedeu, pertencem ao domínio público também: as de autores falecidos que não tenham deixado sucessores; as de autor desconhecido, ressalvada a proteção legal aos conhecimentos étnicos e tradicionais” Domínio público - Wikipédia

Direitos autorais e cultura escolar

O uso de trechos alheios entre aspas e com citação da fonte é um dos pressupostos da atividade acadêmica e científica de excelência. Um artigo de uma boa revista internacional deve ter referências, e na maioria das vezes se copia trechos de outros autores no próprio texto. Isto faz o conhecimento ficar mais coletivo, sólido, ajuda a articular idéias de diferentes autores. Esta prática não é ilegal. Mas então qual é o limite da cópia? Cinco linhas? Uma página? Ao que parece, pela lei brasileira, é uma questão de bom senso:

Art. 46 - Não constitui ofensa aos direitos autorais:VIII - a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qualquer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da obra nova e que não prejudique a exploração normal da obra reproduzida nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores.”

Mas e se for a obra inteira? É ético xerocar textos alheios? Ou melhor, é legal?

Pela lei, depende da origem do texto. Livros, por exemplo, são mais protegidos do que jornais e revistas semanais. Mas então a escola não pode dar de livros para seus alunos?

Voltemos à lei:

Art. 46 - Não constitui ofensa aos direitos autorais: IV - o apanhado de lições em estabelecimentos de ensino por aqueles a quem elas se dirigem, vedada sua publicação, integral ou parcial, sem autorização prévia e expressa de quem as ministrou

Uma pergunta: seria este “apanhado de lições” a famosa “apostila”? Creio que sim.

Olhando bem, parece que fizeram a lei para não ser entendida. Simplificando o trecho acima, as escolas podem copiar textos para seus alunos mas não podem publicá-los (uma apostila para vender fora da escola, por exemplo). Publicar é tornar público.

Faz sentido. Uma criança dentro da escola tem todo direito à informação fresquinha, direto da fonte. Isso não é ofensa aos direitos autoriais, muito pelo contrário. Honrado deve se sentir o autor que habita o cotidiano escolar e, com sorte, o imaginário das jovens mentes.

 

Trabalhos escolares e internet – regras básicas

No final de qualquer trabalho colocamos as "Referências", que podem ou não ser "bibliográficas" (livros). Os sites devem ter o endereço completo e o nome do portal, de preferência com o dia em que foram acessados (pois endereços de internet mudam).

Uma boa fonte de referência científicas é o google acadêmico. Mesmo assim, seja sempre crítico em relação ao que lê. Nada é garantido, especialmente na internet. Mas conhecendo boas fontes e comparando-as é possível se reconhecer a autenticidade de uma informação. Não é recomendado restringir as fontes de pesquisa a sites abertos como o wikipedia. Eles podem ser um bom começo de pesquisa (muito útil, inclusive, dada sua abrangência e organização didática), mas nunca o final.

Colar ou não colar?

Quando você estiver pesquisando e encontrar um texto bonito num livro ou site, não precisa fingir que ele é seu, nem mudar a ordem das palavras para depois dizer que “não colou”. Tais comportamentos são muito pequenos, mesquinhos, até porque desnecessários. Quando se deparar com um belo parágrafo, não exite, aproveite esta singular criação humana! Recorte e cole (Control C, control V), isto não é nenhuma heresia. Mas use sempre aspas, itálico e cite a fonte logo depois do trecho citado. Como vimos acima, não se pode colar obras inteiras, apenas trechos. NENHUMA FRASE PODE SER RETIRADA DE OUTRO TEXTO a não ser que obedeça às regras acima.

E não é apenas uma questão legal, de direitos autorais. Trata-se da concretização de importantes princípios científicos. Ao produzir um conhecimento, você deve fornecer às pessoas os meios para duvidar deste conhecimento. Num experimento, é preciso explicar com detalhes os passos dados para que outros possam testar seus resultados. Num texto científico, por sua vez, é necessário que todas as informações importantes tenham uma fonte, uma origem. Isso permite aos leitores “testarem” as idéias do texto, suas diferentes interpretações, além de aprofundar e enriquecer a discussão.

Outro princípio científico, na verdade um pressuposto do próprio conhecimento humano (coisa que vai além da ciência), é o caráter coletivo e múltiplo do saber – dos saberes. O conhecimento é coletivo tanto em sua produção quanto nos seus efeitos. A opinião dos outros é a melhor maneira de reconhecermos nossas próprias “alucinações”. Uma idéia nascida no seu quarto pode interferir na vida de muitas pessoas.

Se o conhecimento deve ser coletivo e transparente, é importante citar as fontes de uma maneira clara. Isso mostra como o seu trabalho articula o trabalho de muitas outras pessoas. E também ajuda a entender melhor as idéias que habitam seu texto, pois elas vieram de certas pessoas com certas experiências e visões de mundo. Compreender a origem humana de uma idéia ajuda a entender esta idéia em maior profundidade.

O respeito pelo conhecimento é um respeito pela cultura, pelas pessoas que vieram antes de nós, por nós mesmos e pelo esforço da humanidade em criar algo coletivo a despeito de todas as forças que pressionam para o individualismo, o egoísmo, a separação dos corpos e dos espíritos.

 

Referências

(acessadas entre 9 e 14/jan/2009)

MARTINS FILHO, P. 1998. Direitos autorais na Internet, rev. Ciência da Informação, vol.27, n.2. Brasília.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-19651998000200011

vídeo explicando o funcionamento (é bonito de ver, mas não entendi quase nada, deve ser bom para quem manja dos bits...)
http://www.portfolio.com/interactive-features/2007/08/google

Como o google funciona? - Ram Rajagopal
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1867

Segurança na Internet: situação atual - Liane M. R. Tarouco
http://penta2.ufrgs.br/gr952/segurint/segur1.html

Dicas de segurança na internet - Emerson Alecrim
http://www.infowester.com/dicaseguranca.php

Guia de segurança na internet – Carlos E. Morimoto
http://www.guiadohardware.net/tutoriais/guia-seguranca-internet/

Pensamento Crítico - Tibor Rabóczkay
http://www.iq.usp.br/wwwdocentes/trabocka/curesp/pencri.htm

Como Procurar no Google – Dicas (Fernando Panissi)
http://pedrachata.blogspot.com/2007/06/como-procurar-no-google-dicas.html

Dicas de como procurar melhor no Google – sem autor
http://www.dicasparacomputador.com/dicas-de-como-procurar-melhor-no-google

teste de segurança na internet para adolescentes
http://br.mcafee.com/pt-br/landingpages/quiz_teen.asp?cid=43073

Fraudes pela Internet crescem 275% - Letícia Duarte (Zero Hora, 09.11.2003)
http://www.rnp.br/noticias/imprensa/2003/not-imp-031109.html

Sensação de anonimato facilita ciberbullying - Juliana Carpanez, (O Globo, 27/09/2007)
g1.globo.com/Noticias/...MUL110445-6174,00.html

A internet e as crianças e adolescentes - Gustavo Freitas

Cartilha de segurança na internet - o que denunciar
http://www.safernet.org.br/site/institucional/projetos/cnd/o-que-denunciar

Domínio público – Wikipédia

 

 

Última atualização em Ter, 01 de Setembro de 2009 22:36  


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