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Utopia Comunitária

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Alunos:
Gabriela Bearzi dos Santos
Vittorio Audi Poletto
Zeca Ribeiro de Carvalho


 

Informações Gerais

O nosso trabalho trata da realização de festas comunitárias, na região da Vila Brasilândia, periferia de São Paulo. Alguns integrantes da comunidade se organizam em prol da realização de atividades que consideram importantes para as pessoas. As pessoas responsáveis são a Carla, Val e outros moradores, principalmente vizinhos da região. Val trabalha como empregada doméstica na casa do Vittorio, e realizamos uma entrevista com ela para entender melhor como estas atividades são realizadas.

Conhecendo a proposta

Um grupo de moradores da Vila Brasilândia julga importante que haja uma festa de Dia das Crianças, para tentar diminuir as carências que garotos e garotas que vivem nessas regiões tem ao longo de toda a vida. Três anos atrás, a atividade começou de uma iniciativa expontânea de uma moradora, que achou que a preparação de uma festa de Dia das Crianças seria muito benéfica para as crianças do local.

A festa é realizada na rua e consiste na distribuição de brinquedos, comidas e música, é claro. Para realizar esta atividade, o grupo junta dinheiro ao longo do ano, para depois dividir o que é necessário e cada comprar. Cada um ajuda como quer e como pode, os traficantes da região garantem a segurança, proibindo a circulação com armas ou a venda de bebidas alcoólicas. O grupo pediu para a prefeitura fechar a rua no dia da festa, porém o pedido foi negado, então decidiram fazer mesmo assim e fecharam a rua.

Até hoje foram realizadas 3 festas, todas um tremendo sucesso, os moradores da região e principalmente as crianças, adoraram. Os planos para o futuro são a realização de outras festas de dia das crianças e em outras datas também, como o natal.

 

Discussão

A utopia de nosso grupo é a existência de uma sociedade mais comunitária, onde as pessoas se juntam em prol de um bem comum, e não apenas de interesses individuais. Pensamos que este projeto é um caminho para nossa utopia porque é a própria personificação de tal, as pessoas de uma comunidade se juntam de maneira espontânea e livre para a realização de um evento benéfico para todos os moradores daquela região. As crianças que foram beneficiadas por estas festas, com certeza vão crescer com a ideia que a união e o bem estar da comunidade é possível e importante, e pode ser alcançado pela união e colaboração coletiva.

Não conseguimos encontrar nenhum aspecto negativo na realização da atividade, os objetivos imediatos, como o sorriso no rosto das crianças, estão sendo plenamente alcançados. Consideramos admirável o fato de um grupo de pessoas, que na ausência do Estado para prover os bens necessários para uma boa qualidade de vida, se unem em prol da comunidade e se doam para conseguir realizar atividades pelo bem coletivo.

Entre as experiências escolares que ajudariam na realização de nossa utopia não está o aprendizado de nenhuma matéria ou conceito, e sim na existência de projetos que fomentem a união e colaboração entre indivíduos para a realização de algo. Os projetos sociais e o grêmio escolar são as atividades que mais vão neste sentido no colégio Equipe.

Com as experiências realizadas neste trabalho, a lição mais importante que se tira é a de que é possível, mesmo nas regiões mais carentes (e talvez bem mais nelas), a colaboração coletiva para um bem comum. Consideramos que neste caso o de mais importante que esse grupo pode passar é o exemplo de sucesso para nós e todos os outros que tomarem conhecimento desta atividade, fomentando a coletivização da sociedade.

            O significado de uma união vai além do que a ordem estabelece para as pessoas. O sentimento desse grupo que procura ir contra o que lhes é imposto de forma a valorizar o próprio ser humano, o que hoje não encontramos com facilidade em um mundo permeado pela individualidade.

            São marcantes exemplos como esse, e o mais contraditório com isso tudo é que, ao longo da entrevista, nós nos surpreendemos com as respostas e com as histórias contadas pela doméstica. Isso é a prova de como essa ideologia individualista está enraizada em nós.

            Não conseguimos enxergar como as pessoas podem ajudar as outras, como não há maldade nos pensamentos e como um sentimento de comunidade é extremamente presente.

            Por isso escolhemos isso como utopia. A relação do homem com o próprio homem, sem intermediação. O homem o reconhecendo como tal, como ser provido de vida, de problemas, de carências e de sentimentos, o que hoje em dia passa a ser ignorado.

            Uma sociedade na qual a união é o que permeia, e não o medo constante de forma a despertar a vontade por segurança. A segurança está na confiança que é depositada no outro. A valorização do outro e o significado da razão para que vivemos é o que tem de ser questionado e é o que procuramos destacar nesse trabalho.

            Não importa realmente se é Natal, se é dia das crianças ou se é festa junina, mas o motivo pelo qual essas manifestações se realizam é o que importa. A vontade por um sorriso, uma ajuda ao próximo, sem querer nada em troca.

            Um a região que não é “atingida” pelo Estado, que não recebe nenhum tipo de auxílio, que não é atendida, mas nem por isso tem motivos para brigar entre si, pelo contrário. Acreditamos que isso torna essa sociedade mais forte, mais unida, representando literalmente o significado da palavra.

            Um pensamento que vá além da individualidade, do desejo de satisfação pessoal e de egoísmo, algo que nos faz pensar o que vale a pena, ou mesmo qual o significado de tudo isso que estamos inseridos, se ninguém se importa com os problemas dos outros.

Há muita discussão a ser levada por entre esses assuntos, porém o que queríamos mostrar é mais uma forma de escape à sociedade em que vivemos, de forma mesmo a questionar tudo isso e vermos como há sim uma saída, ou que há algo lá fora, mesmo que distante, que seja diferente de tudo o que estamos acostumados a enxergar.

           


 

 

Entrevista:

Como foi o natal e o dia das crianças?

O Natal foi normal, ano passado a gente não fez nada, porque a gente não tinha planejado nada. No dia das crianças a comunidade se uniu e fizemos uma festa pro dia das crianças com brinquedos, brincadeiras, bastante coisa pra eles comerem, cachorro quente, pipoca, teve pescaria, e teve um almoço que a gente fez para as crianças.

 

Onde fica a sua comunidade?

Na vila Brasilândia.

 

Existem outras festas na comunidade ou foi só essa do dia das crianças?

Não. A gente só faz no dias das crianças e agora está planejando fazer no Natal e na festa junina a gente também está querendo fazer a partir do ano que vem.

 

Foi a primeira vez que fizeram essa festa?

Não, já é a terceira vez.

 

Você sempre morou lá?

Sempre, há 47 anos. Tenho dois filhos e três netos que moram lá.

 

Como surgiu essa ideia de fazer as festas?

Ah, foi de repente. A gente cismou que as crianças precisavam de um dia deles, especial para eles levarem essa lembrança. Aí a gente se uniu, porque a gente não tem ajuda da prefeitura, de governo, de ninguém. Tudo o que a gente compra sai do bolso da gente. A gente se une, faz uma reunião, e aí a gente começa, cada um vai guardando um pouco de dinheiro, aí quando chega no meio de setembro, assim, a gente já começa a comprar as coisas. Que é brinquedos, bolas, essas coisas que são mais fáceis. A alimentação a gente deixa pra comprar na sema do dia das crianças mesmo.

 

E como ocorre essa organização? Tem algum coordenador?

Tem, a Carla. É a vizinha da gente. Ela que reúne a gente na casa dela, faz reunião, ela que dá opinião, ela que faz o bolo. Cada pessoa dá uma ideia, que são os mais velhos, que se unem e dão ideias. Aí a gente tem duas padarias que fornecem os pãezinhos pra gente, de graça. É a comunidade mesmo, não tem ajuda de ninguém.

 

Aonde ocorre a festa?

É na rua. A gente pediu para a prefeitura fechar a rua para a gente, para não passar moto nem carro mesmo no dia, das nove às dezoito horas. Só que eles não deram autorização, aí a gente fechou por conta própria.

 

Como funciona essa organização? Tem alguém que faz todas as compras?

Não, a gente não dá dinheiro. A gente compra as coisas e deixa tudo na casa da Carla, a gente não dá dinheiro na casa de ninguém. A gente separa, se tiver muita quantidade de compras, pra cada um comprar uma parte.

 

Todo mundo participa dessa festa?

São só as vizinhas mesmo. É assim que a gente se une, só a nossa rua, mas a gente aceita crianças de outros lugares também que chegam, ficam sabendo e comem, brincam, tudo isso, não tem preferência.

 

Quantas pessoas estavam na última festa?

Olha, foram umas 250 crianças.

 

Você já teve notícias de festas do mesmo porte ocorrerem em outras localidades?

É, porque onde eu moro tem muito bairro, então a gente faz ali, aí tem o Jardim Guarani, que usa como unidade também, que faz também na rua, tem uma pracinha na rua, que eles se unem lá e fazem, é. Então cada lugar assim faz na sua comunidade para as crianças.

 

Como você avalia o resultado disso?

As crianças ficam muito felizes. Brincam muito, teve manicure, as meninas ficaram super animadas, teve cabeleireiro, então a gente arrumou o cabelo delas, elas ficam muito felizes. Eu acho que elas vão guardar essa recordação com muita alegria, não tem como elas não guardarem.

 

Por que você acredita que essas manifestações não ocorrem em outros bairros e ocorrem nas comunidades?

Eu acho que porque aonde a gente mora tem muita união. A gente é vizinho mesmo. Na hora ruim, que um precisa do outro, a gente está sempre de portas abertas para um ajudar o outro, então tem muita união. Acho que por isso que rola muito.

 

Como é a presença dos traficantes nessas datas?

Olha, eles não interferem em nada, muito pelo contrário, eles ajudam muito, sabe. Eles proíbem, ninguém, das nove às dezoito horas, não vai passar um carro, porque tem uma festinha para as crianças  brincarem a vontade, então a gente não quer que passe carro nem moto, não queremos movimento nenhum nesse horário na rua. Não podem passar com drogas, não podem passar armados... se vocês quiserem dar uma passadinha para ver se está tudo bem, se esta saindo confusão, alguns deles até podem. Mas fora disso, a gente faz a festa tranquila, eles não interferem em nada.

 

E como acontece essa comunicação?

Tem sempre um ou dois que a gente conhece, porque são muitos anos morando lá. Então a gente comunica eles, a gente conhece muito da comunidade e a gente avisa eles.

 

E como é a comunicação com a polícia?

A gente não fala com a polícia, porque geralmente quando eles chegam, eles mandam parar a festa. Porque como a gente não tem o alvará da prefeitura, eles querem que a gente pare a festa. Então a gente nem entra em contato com eles já para evitar. Porque parar uma festa com as crianças brincando ou comendo no meio acho que ficariam triste, então a gente não comunica eles.

 

E eles não entram na comunidade?

Não, não entram. Porque é na rua, não é lugar fechado, ao ar livre, não tem nada tampado, não tem nada. Eu tenho um amigo que trabalha na polícia, e ele sabe que a gente faz a festa. Mas eles nem aparecem. De vez em quando eles dão uma passadinha, olham e vão embora.

 

Não fica muito lotado? De criança?

Muita criança, muitos pais... E nesse horário é proibido os bares que estão abertos vender bebida alcólica.

 

Vocês proíbem, né?

É... A gente pede, fala para o bar não vender, pelo menos só nesse intervalo. Ninguém bebe, só refrigerante o dia inteiro. Os pais que vão são obrigados a beber refrigerante porque a gente não deixa beber. E tudo é a gente. Nesse dia, a gente se sente umas heroínas, porque é a gente que manda.

 

Rola uma música? Um samba?

Rola. Rola mais música para criança, mas rola samba, rola axé... A gente só não deixa tocar funk. A gente acha que não é uma música adequada nem para a família, nem para as crianças. Rola mais música para criança. Mas rola, tem grupo de pagode que pergunta se pode ir tocar para a gente, para as crianças, então a gente faz concurso, para as menininhas sambar, para ganhar brinquedo, eles ficam todos animados. A gente faz corrida de saco...

Esse ano a gente caprichou um pouquinho mais, agora ano que vem a gente vai tentar melhorar muito mais. Já vai começar a partir de março, já tentar reservar dinheiro para a gente ver se consegue fazer melhor.

 

Vocês vão fazer no natal?

A gente ta planejando fazer nesse natal, uma semana antes, a gente fazer um almoço. Ou fazer no sábado.

 

E nesse dia quem é que trabalha? O pessoal que está organizando, quantas pessoas são, mais ou menos?

É mais ou menos umas quinze pessoas.

 

Todos os vizinhos?

É. Tem minha filha, que ajuda a distribuir pipoca, tem gente que vai fazendo e ela vai distribuindo.

 

Existem barracas? Ou são mesas?

A gente faz na casa da gente. A gente vai lá com a bandeja, pega, leva para a rua e distribui. A única coisa que a gente fez em uma garagem, com uma mesa mais ou menos, foi a macarronada. Tinha fila pra pegar. Então a gente teve que por em uma tábua, botou umas cadeiras e serviu uma macarronada para as crianças e para os adultos.

Foi assim que a gente rolou, não tem barraca não tem nada.

A única barraca nem barraca é. A gente fez foi pescaria. Pegou um pouquinho de areia, do vizinho que tava construindo a casa. Ele falou: “Não, fica à vontade!”, e a gente bolou lá uns peixinhos para as crianças brincarem.

 

O que você acha desta motivação que as pessoas têm, de fazer as coisas sem ganhar nada em troca? Como você se sente investindo nisso?

Eu fico feliz. Muito feliz. Eu acho que o que você faz para uma criança, nada vale. Vão meus netos também, minha sobrinha que é pequena, meu sobrinho que também é muito pequeno... Eu acho legal. O sorriso que você vê no rosto das crianças já paga tudo que você ta fazendo.

Você começa a trabalhar na sexta, o bolo começa na quinta, e não tem essa de “Ah, olha, vou deitar, vou descansar que amanhã tenho que trabalhar!”, a gente não pensa nisso. A gente só fica imaginando o rostinho das crianças felizes. A gente não tem a intenção de ganhar nada em troca. Por isso que eu acho que a gente não quer ajuda. Nem do governo, nem do prefeito... Porque depois eles vem cobrar. Eles vem cobrar voto, a gente não quer. A gente quer fazer para as crianças, porque se elas se sentirem felizes a gente vai estar mais feliz.

 

Que tipo de problema vocês enfrentam para organizar isso? Quais são as coisas que mais atrapalham?

Não tem nada que atrapalha. Eu acho que a gente faz com tanto carinho que nada atrapalha.

 

De onde você acha que vem essa união na comunidade?

Olha, é meio difícil explicar porque nós temos esta união tão grande. Porque a gente se conhece a gente cresceu todo mundo junto. E sempre brincando na rua. Desde criança. Nós não temos um espaço assim: “Olha, vou levar meu filho para brincar no clube”. A gente não tem, então a gente sempre brinca na rua. Nossa quadra é na rua, o campo de futebol dos meninos é na rua, então tudo para nós é na rua. Por causa disso acabamos tendo o vizinho como uma família. Porque a gente cresce todo mundo junto. Acaba filho chamando a vizinha de tia, a mãe da vizinha de vó...

A gente vive de portão aberto, se a gente faz um bolo, a vizinha fala “Ai que cheirinho gostoso!” “Estou fazendo um bolo, depois eu te levo!”. E na classe média, rica não tem essa união. É todo mundo de portas fechadas, cada um para si e deus para todos.

As vezes tem um que precisa, fica doente: “Pô, eu não tenho carro e o vizinho tem, é só você bater palma que o vizinho levanta de madrugada e vai socorrer..”

Seria tão bom se todo mundo, da classe média e rica tivesse essa união... Acho que o mundo seria bem melhor. Se chega época de carnaval, a gente faz brincadeira na rua, veste as crianças com fantasias, se não tem instrumento a gente pega lata, panela, frigideira...  Pede para as crianças ficarem tocando, para dançarem, a gente sempre está fazendo alguma coisa para animar a comunidade. A gente não gosta de ver a comunidade parada.

É claro que tem umas briguinhas de vez em quando, quando os meninos jogam a bola no fio e a gente fica sem luz a gente cobra: “Joga mais baixo!”. A gente não tem espaço para nada, então tudo é na rua. Isso que faz a união. 

Última atualização em Dom, 05 de Maio de 2013 04:00  

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