Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Escola da Ponte

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1-Informações gerais:

Este trabalho visa a análise da atuação da Escola da Ponte, localizada em Vila das Aves, uma cidade de Portugal. A instituição baseia-se numa proposta diferenciada de ensino, onde é valorizada essencialmente a singularidade de cada aluno, compreendendo que cada um possui uma trajetória de ensino diferenciada, sendo este um processo único e de desenvolvimento pessoal. Os redatores deste trabalho são André Bergel e Helena Obersteiner, alunos do terceiro ano 2010 do Colégio Equipe, tendo como professor orientador Rodrigo Travitzki.

 

Pode-se entrar em contato com a instituição analisada a partir do site www.escoladaponte.com.pt, ou pelo e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

2- Conhecendo a proposta

Em meio a um tempo onde o objetivo maior de quase todas as escolas é qualificar seus alunos para passar em concursos de entrada em faculdades, podemos questionar, afinal, para que serve a escola? A maior parte destes questionamentos não passa do plano teórico, porém alguns o fazem por meio de propostas práticas. Este é o caso do português José Pacheco, educador que, insatisfeito com o modelo educacional das escolas públicas, desenvolveu uma reforma na Escola da Ponte, instituição na qual foram revistos os principais valores que constituem a educação.

A Escola da Ponte foi fundada em 1970, visando à realização de um ensino diferenciado. Porém, é apenas em 1976, com o encaminhamento deste projeto, que surgem questionamentos internos que impulsionam a escola para um projeto completamente diferente. A partir disso, instalam-se as reformas físicas e conceituais que enfim possibilitam a execução daquilo que desejavam os idealizadores da instituição. Data-se 1980 com a inauguração do prédio principal da escola, que conta com uma arquitetura revolucionária para o segmento.

Mas quais são esses valores citados que promoveriam esta reforma,e de que modo o funcionamento da escola coloca-os em prática?

Antes de responder esta pergunta com as características estruturais da escola, é preciso explicitar o ideal no qual ela baseia seu trabalho. Idéias desenvolvidas desde o início do século XX, por pensadores como Decrloly, Adorno e Kant, que tinham como seus princípios: colocar a criança como o centro do processo de ensino; tratá-las como seres originais em sua individualidade; que possuem suas próprias necessidades e sentimentos; deixar de ver as crianças como adultos em miniatura. Esta Pedagogia Ativa passou a visar à formação de um indivíduo autônomo, não apenas um poço de conhecimento prestes a transbordar. Este indivíduo formado seria aquele que aprendeu a aprender.

A práxis deste ideal se dá por meio de uma série de mecanismos que compõe a escola, que vão desde a arquitetura do prédio ao modo dos alunos estudarem. O primeiro aspecto que chega a ser chocante é o fato de que os alunos não são divididos em séries. O que existe são grupos de estudo que integram crianças de diferentes idades. Estes grupos são formados a por interesses comuns baseados nas propostas apresentadas pela instituição. Por meio disto, os alunos são vistos como agentes de seu próprio processo de aprendizagem. Neste cenário, os professores se colocam como orientadores do estudo, que não mais serão figuras autoritárias, detentoras de toda a sabedoria existente. Não havendo assim uma configuração hierárquica, mas a formação de uma comunidade, composta por alunos e professores. Na escola não existem salas de aula, apenas espaços de trabalho, que não são fixos.

O próprio prédio tem como finalidade tornar a escola um lugar agradável e ameno, pois conta com espaços abertos e coletivos isentos de salas de aula. Apesar disso, em entrevista à revista “Nova Escola” José Pacheco ao perguntado se a arquitetura acompanhou as mudanças de ensino da escola, responde:

Não. Aliás, isso é um problema. Nosso sonho é um prédio com outro conceito de espaço. Temos uma maquete feita por 12 arquitetos, ex-alunos que conhecem bem a proposta da escola. Esse projeto inclui uma área que chamo de centro da descoberta, onde compartilharemos o que sabemos. Há também pequenos nichos hexagonais, destinados aos pequenos grupos e às tarefas individuais. Estão previstas ainda amplas avenidas e alguns cursos d'água, onde se possa mergulhar os pés para conversar, além de um lugar para cochilar. As novas tecnologias da informação devem estar espalhadas por todos os lados para ser democraticamente utilizadas pela comunidade, o que já conseguimos.”

Outro diferencial é o de que os alunos, com o objetivo de desenvolver sua autonomia, são responsáveis pelo processo de auto avaliação. Para isso existem duas listas. A primeira “Eu já sei” é utilizada para os alunos poderem expressar quando aprenderam determinada matéria pela qual se responsabilizaram de estudar, e dessa forma poderem ser avaliados por um professor. A segunda, “Eu preciso de ajuda” serve para o aluno clamar por ajuda de um professor quando sente dificuldades em determinado conteúdo.

Porém, dentre todos os mecanismos, o que merece maior ênfase é o sistema das assembléias. A primeira função delas era o de criar e promover a manutenção dos direitos e deveres de todos que compunham a comunidade escolar. Esta assembléia, que funciona de maneira democrática entre todos (alunos e professores) visa o funcionamento da escola a partir destes direitos e deveres, lidando com eventuais problemas visando assegurar o bem comum. Com isto, os alunos passam a entender as regras de uma forma diferente. Pois ao invés de lidar com imposições e respeitá-las por medo ou obrigação, passam a fazer parte de sua criação entendendo-as como valores universais, que servem para si e para o outro.

São mecanismos como esses que demonstram o grande diferencial da escola, em não ser apenas um local de ensino conteúdista, mas também um ambiente de desenvolvimento pessoal autônomo, que dá ao aluno as chaves para o aprender.

Por ser uma escola pública, os recursos materiais que ela recebe vêm do estado. Por outro lado é necessário entender que há uma comunidade de pais forte por trás da instituição, que dá um apoio para ela. Quanto às pessoas que trabalham nela, é interessante saber que é a única escola do país, segundo José Pacheco, que pode escolher seu próprio corpo docente. É o que ele diz quando perguntado, na mesma entrevista citada anteriormente, sobre a necessidade de uma formação específica para se trabalhar em sua escola. “Não. Eles têm a mesma formação que os de outras instituições. O diferencial é que sentem uma inquietação quanto à educação e admitem existir outras lógicas. Nossa escola é a única no país que pode escolher o corpo docente. Os candidatos aparecem geralmente como visitantes e perguntam o que é preciso para dar aulas lá. Digo apenas para deixarem o nome. No fim de cada ano fazemos contato. Hoje somos 27, cada um com suas especializações.”

Se perguntados a respeito dos principais resultados obtidos por este modelo educacional, poderíamos dizer, em certo ponto de vista, que se trata de um verdadeiro fracasso: muito provavelmente, a maioria de seus alunos custaria a passar na USP. Entretanto falar em resultados neste caso, vai muito além destes supostos indicadores de qualidade de ensino. Uma escola como essa forma alunos autônomos, e até mesmo consegue incorporar ao cotidiano escolar pessoas que foram expulsas de outras escolas, que passam a gostar de aprender. Além disso, a Escola da Ponte promoveu uma inovação no ensino público de português, pois iniciou um processo de autonomização do ensino em relação ministério da educação. Isso significa permitir às escolas a definição daquilo que deve ser o mote de sua educação. Também podemos caracterizar como resultado o surgimento de escolas que tentam adotar um ideal próximo ao da Escola da Ponte, como, por exemplo, a Amorim Lima, uma escola pública da zona oeste paulista.

Para o futuro, a instituição projeta um espaço mais condizente com sua ideologia. Além disso, procura se manter ativa e servir de exemplo para outras escolas, não como um modelo a ser clonado, mas como a prova de que é possível fazer escola de uma maneira diferente.

3- DISCUSSÃO

Encontramos a partir desta proposta de trabalho a possibilidade de discutir a respeito de uma utopia relacionada à educação, onde pudemos conhecer mais profundamente uma instituição que entende o aprendizado de uma forma diferenciada. Não há um nome concreto para esta utopia, mas podemos chamá-la de “educação para autonomia”. Esta atividade foi uma maneira de caminhar para esta utopia pois ela possibilita não apenas uma educação diferenciada na própria instituição, mas uma abertura de possibilidades para outras escolas, em Portugal e no mundo.

Consideramos um ponto negativo o fato de que se esta mudança proposta pela Escola da Ponte, de uma inversão dos valores educacionais e sociais, não ocorrer, a instituição e seus alunos se mostrariam de certa forma isolados, pois, por exemplo, um aluno formado por esta escola encontraria grandes dificuldades no ingresso de universidades que se baseiam no atual método de avaliação. Todavia, isto que apontamos como defeito também se mostra como sua grande qualidade, pois a radicalidade com que aborda essas mudanças talvez seja o único modo para uma real mudança em um âmbito maior. Consideramos também como grande qualidade a grande capacidade de inclusão deste projeto, que não se limita aos que demonstram maior inteligência ou aptidão aos estudos tradicionais.

Admiramos a proposta por não se limitar apenas ao segmento educacional, mas também social, uma vez que entendemos a educação como a melhor ferramenta de mudança de valores já estabelecidos e questionados por nós.

Para podermos realizar este trabalho e entender um pouco sobre a proposta da Escola da Ponte, foram essenciais algumas aulas que tivemos com a diretora pedagógica da nossa escola, Ausonia Donato, sobre os diferentes tipos de educação. Acredito que a constante discussão sobre o que é educação e o modo como ele é feita no nosso dia a dia permitem esta reflexão que fizemos.

Em nossa opinião, os principais aprendizados que envolvem este projeto e a utopia com a qual trabalhamos, não são necessariamente específicos e somente pedagógicos. O modo como José Pacheco acredita no que está fazendo a ponto de fazê-lo com bastante afinco e radicalidade, nos ensina que propostas aparentemente utópicas são possíveis, e que se sempre esperarmos o outro fazer algo permaneceremos parados, com tudo aquilo que nos incomoda à nossa volta.


4- Referências

http://www.escoladaponte.com.pt/

http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-inicial/jose-pacheco-escola-ponte-479055.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_da_Ponte

http://elisakerr.wordpress.com/crianca-rupestre/escola-da-ponte/

http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:vH9rKImTtD4J:www.celsovasconcellos.com.br/Textos/Texto_Reflexo_sobre_Escola_da_Ponte.doc+escola+da+ponte&hl=pt-BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESgUJpCY2i07jpfkIRbxCTgxdjnLz03epJUrX776qya-sM_dyjuXk0VSilRsYn1vnuo4wKMH5whfH2qxcgopIjRii1vZsHn0y_Qg9-g5ri6CapceA25PD3aXs7wGgl94Rk71hdtz&sig=AHIEtbQEgMQlnIqay2hxD3s9JbjJRjuhFQ

Última atualização em Qua, 15 de Dezembro de 2010 13:57  


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