Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Emaús e Socialismo: Meios de Produção e Experiências Coletivas

Imprimir

Utopia

O não-lugar, o lugar inexistente, eis o significado desta composição grega de uma série de outras palavras. Para Thomas Morus a Utopia se configurava com uma cidade perfeita. Os socialistas Proudhon, Saint-Simon, Fourier também conceberam de modo teórico a “cidade perfeita” como produto conquistado de uma possível revolução e reorganização da sociedade. Coincidentemente ou não, tais socialistas são tidos como “socialistas utópicos”. Marx e Engels fariam a crítica a estes tal como fizeram referindo-se aos anarquistas e também com os liberais.

Minha Utopia é o marxismo. E explicá-lo aqui não é possível por mim, e não tenho de longe esta pretensão. No entanto vou desenvolver alguns de seus princípios ao tentar clarificar uma maneira que eu considero coerente e possível para o homem se realizar dignamente enquanto sujeito histórico, ou seja, para que possa ocorrer a Revolução.

No estudo de campo do “Temático de Sustentabilidade” eu tomei conhecimento prático vivenciado de fundamentos de uma teoria da qual sou adepto. Fomos a uma Comunidade Emaus localizada em Ubatuba e dirigida por Jorge da Cruz Oliveira. Emaus é o nome de um espaço bíblico de caráter salvífico e libertador, hoje seria correspondente a uma área na Palestina, Emaus traz o princípio de que só o amor pode unir e tirar as pessoas de carências, princípio cristão diga-se de passagem.

Visão geral

Mas o que é, de fato, os Emaus?

“O Movimento Emaús nasceu na França há 50 anos e vive uma proposta de solidariedade entre os pobres. Grupos comunitários recolhem, consertam e reciclam objetos para venderem a pessoas carentes por preços simbólicos”[1] Assim, as comunidades se organizam de tal forma que possam partilhar um pouco para melhorar as condições destas pessoas.

Na Emaus de Ubatuba vivem 120 pessoas, em 27 famílias, onde desde 1980 a taxa de analfabetismo caiu de 98% para praticamente zero. Não venho aqui para fazer propaganda de um grupo ou sequer de uma pessoa, mas sim para desenvolver através de um espaço de resistência que eu conheci os argumentos fundamentais para justificar minha utopia.

Acredito na realização do homem em todos os campos, social, econômico, religioso, político, educacional, enfim, onde o homem pode compreender-se em homeostase, mesmo que esta represente uma serie de questões e angustias a serem elaboras e resolvidas. Até porque não creio em um homem pronto, um sólido monolítico, mas que sua realização está no seu direito de vivência coletiva e autonomia para construção de si mesmo.

Liberalismo e Libertação

Porque não acredito no homem liberal: o homem liberal é um homem secularizado que crê na ciência como seu mito de origem, e desta perde o valor metodológico da própria ciência. O homem liberal crê e vê separação entre sociedade e Estado, não consegue pensá-los juntos. Ele acredita na separação das forças da chamada sociedade civil em Estado (Público com interesses públicos), Mercado (Privados com interesses privados) e Terceiro Setor (Privado com interesses públicos). Tal separação faz da vivência e das decisões algo totalmente despolitizado. O grande representante dessa despolitização liberal são as ONG’s cujas funções se restringem ao “prestar serviço” conciliar um conceito distorcido de solidariedade com um mais distorcido ainda que é o de cidadania, sendo esta compreendida sob o aspecto privatista. Na qual se compreende que as mudanças conjunturais podem alterar as estruturas.

Discordo desta idéia como o Jorge da Emaus de Ubatuba “O homem carente não precisa de esmola precisa de oportunidade.” O Emaus adota outros fundamentos éticos, com origem dentro da Igreja Católica, mais precisamente o padre francês Abbi Pierre, o Emaus tem a finalidade de se constituir de forma coletiva e proporcionar com membros s seus membros a saída da miséria e de condições inadequadas para a nasce vida humana. O cristianismo parece representar uma forma conservadora quase que metafísica que onde ele toca nasce opressão e “inquisições”, não é bem verdade. Vejo sobretudo na religião um grande potencial revolucionário, por funcionar na grande parte das vezes, pelo menos em comunidades próximas ao cristianismo primitivo, em um tempo diferente do tempo da modernidade. Isto é, a tradição propicia um espaço quase que espontâneo de resistência à modernidade, isto pode parecer meio pelego e de fato é se ficarmos somente aqui. O princípio da Emaus é em grande parte compartilhado com inúmeros teóricos da Teologia da Libertação. Entende-se por uma linha progressista dentro da Igreja católica que foi a meu ver protagonista do processo de redemocratização do Brasil. São parecidos na medida em que ambos compreendem que a religião deve ser objetos para a transformação social. Que a pobreza, a miséria e suas variantes foram problemas desenvolvidos pelos homens, portanto cabe a nós homens resolvê-los e não terceirizá-los para Deus ou qualquer outra substância indomável. Que a religião cabe enquanto sua área de atuação for campo do real, dos homens, para que ela vala para uma sociedade menos alienada e não para que contribua para um homem frágil e carente. Para Marx “quanto mais o homem atribui a Deus, menos lhe resta”.

Conhendo a proposta

Na Emaus Ubatuba o controle é bem centralizado na figura de “Seu Jorge”, líder. “Essa é a minha casa, fui eu quem criei tudo isso” como se fosse um grande pai, esta contradição fica clara, entre o ganho de autonomia das pessoas e a centralização política. Um contraponto com essa visão que a meu ver é retrógada embora funcione apresentou Marilena Chauí quando Secretária de Cultura da gestão Erundina “(...) o cidadão tem três grandes direitos em relação à cultura: chegar aos bens culturais, produzir bens culturais, e discutir a produção e política cultural. É dever do estado prover estes três processos.”[2] Quanto a isso a Emaus Ubatuba ainda não consegue suprir a terceira carência do indivíduo, discutir e participar mais ativamente na duas outras funções. A figura do pai sobrepõe qualquer tentativa de socialização do poder. Estes seriam, sobretudo, os argumentos contrários a figura de Jorge. Acreditando que ele possa ser em certo ponto até populista.

É clássico dos liberais ter medo desses tipos de relações como a dos moradores com Jorge, que estabelecem vínculos fortes entre pessoas detentoras e carentes de poder, tinham medo do Getúlio sendo o pai dos pobres, de Jânio e sua vassourinha e seguem com medo de Lula e o Bolsa Família. Desta forma prosseguirá a ideologia liberal opondo-se a qualquer tipo de relação que fuja à sua, qualquer relação que não aparente e nem traga consigo a secularização e desapego de tudo para além do dinheiro e da produção capitalista.

Nós, filhos desta ideologia urbana e pseudo-cética, olharemos um cara como Seu Jorge com seus 120 filhos e falaremos “Ah! Ele é um líder que usa o paternalismo para esconder o seu totalitarismo!!!” e pronto. A leitura liberal já tentou destruir qualquer tentativa de construção coletiva ou de apego entre o povo e um líder qualquer que seja, positivo ou não.

Oponho-me a esta crítica também, é necessária discussão, mas só depois que tivermos de barriga cheia, ninguém deve falar de barriga vazia. O totalitarismo não serve para este caso, sinto muito cara ideologia liberal.

Na Emaus Ubatuba é obrigatória a participação dos indivíduos em festas comunitárias (no caso, católicas), elevando assim a importância da vivência e experiência coletiva enquanto valor máximo de um grupo. A valorização desses momentos faz com que se ritualize o coletivo, e este é basicamente o grande principio da tradição. A ritualização de experiências, principalmente coletivas.

Tal situação cria um imaginário e experiências coletivas nos moradores relacionando uma serie de fenômenos, crenças, opiniões, festas e outros objetos que seriam utilizados neste processo de “desindividualização” do homem, para assim reabilitá-lo dentro de um coletivo.

Mas tais experiências têm como objetivo chegar onde? O que de fato é essa utopia que estamos buscando pontes para encontrá-la, ou melhor, produzi-la?

Na minha utopia trabalharíamos seis meses do ano em uma atividade qualquer onde o Estado nos indica devido necessidade produtiva, é necessário que haja um mínimo de capacitação e produtividade, nos outros seis meses do ano nos dedicaríamos à nossa formação enquanto indivíduos dentro de um coletivo, ou seja, vivemos a nosso bel prazer, nada de livre arbítrio.

A configuração funcional pode ser outra, depende de uma questão de logística que deve ser estudada mais profundamente, mas o individuo pode trabalhar quatro ou cinco horas por dia para o coletivo e o resto se dedica à sua comunidade, seu bairro, aos bens culturais, enfim, o que bem quiser.

Pode parecer estranho, mas deste modo rompe-se a FUNDAMENTAL ARESTA do capitalismo, a exploração do trabalho. As quatro horas o indivíduo vai trabalhar por que é necessária uma produção mínima para que se possa passar o resto do dia lendo livros, pintando, balançando na rede, escutando o gorjear dos pássaros, ou até apertando parafusos. Necessita esse trabalho mínimo de quatro horas para a sobrevivência do coletivo, e não para uma ascensão social ilusória, ou satisfação da própria alma. Neste caso o trabalho deixa de ter fim em si mesmo e passa a ser objeto da sobrevivência de um coletivo, com um fim claro, comum e igualitário.

Nesse tempo de trabalho para o coletivo o Estado delegará funções de trabalho para cada um, sendo que estas serão rotativas, aproveitando ou não as habilidades e interesses de cada um, então eu posso nesse biênio apertar porcas na indústria naval e daqui a dois anos ser transferido para o setor de tecelagem. Assim resolve-se o problema da sustentabilidade de um Estado, sem taxa cambial, taxa de juros nem nada. Além do que essa rotatividade é positiva para as relações sócias e para que não haja uma sociedade enrijecida socialmente.

Na Emaus Ubatuba cada membro acima dos 18 anos é obrigado a prestar um dia de serviços para a comunidade por mês, com um funcionalismo publico muito maior, necessita-se o aumento dessa carga horária em termos significativos. Mas a lógica é a mesma.

Socialismo e Cultura

Creio no socialismo como utopia, pois ele lida com noções coletivas que são inconciliáveis para uma sociedade capitalista, com ONG’s ou não. Só a negação das classes é a possibilidade para vivenciarmos espaços e experiências realmente coletivas, desta forma conseguiremos viver de uma forma digna e igualitária. Prezo por uma utopia onde as coisas residem nos seus verdadeiros espaços e campos, onde o trabalho é entendido como atividade fundamental, mas jamais passível de fetiche ou de ódio. Onde é tão fundamental para o coletivo escrever livros ou apertar parafuso, pelo conhecimento sem finalidades meritocratas vinculadas com o chamado futuro que nada mais é do que a possibilidade de ascensão ilusória.

Para chegar a esta utopia e outras faces dela é necessário, a meu ver um apego na tradição, optarmos pela tradição, esta para ser lida enquanto crítica de si mesma e da cultura. Uma tradição é importante para revitalizarmos laços comunitários e coletivos perdidos no processo da modernidade. Precisamos de experiências coletivas, esses serão nossos analistas, nossos psicólogos, nossos terapeutas.

O conhecimento voltar para sua dimensão natural, não as da patente e sim a social, o conhecimento é por si só um ente social, o capitalismo aperta a cada dia os seus grilhões, temos de romper com estas correntes.

Temos que deixar de separar o Estado da sociedade, queremos um estado que não seja nenhum apêndice, compreendê-lo como corpo orgânico único. Os meios de produção nas mãos dos trabalhadores é a única solução para a superação da exploração do trabalho, a maior chaga da humanidade.

Para fechar utilizarei a frase de Jorge da Emaus Ubatuba “o básico é o trabalho na terra, a gente se apega muito nos livros, na cidade e esquece que é na terra que se tira o sustento” é essa concepção que queremos do trabalho, como algo necessário que não deve ser confundido com outras ambições.

Só assim o homem se libertará da opressão que nós criamos, e desta forma, para alguns, ascenderemos ao Reino do Ceú.



[1] Wikipedia. Movimento Emaus

[2] No ano de 1989 em entrevista ao Programa Roda Viva da TV Cultura.

Fotos do Trabalho de campo, Emaús Ubatuba, setembro de 2010.

Última atualização em Qua, 15 de Dezembro de 2010 14:03  


Para que serve a educação?
 

Selecione uma palavra-chave

Artigos mais lidos desta categoria

Como as interações ecológicas do homem são permeadas pela sua cultura?

Trabalhos Escolares
Com o aumento da população humana que vem ocorrendo pelo menos nos últimos 3 mil anos, o número de parasitas como carrapatos e bichos de pé, assim como o de muitos vírus e bactérias, sendo que...(22771)

O Sistema de saúde Universal Gratuito - França, Reino Unido e Cuba

Utopia e cotidiano: buscando práticas idealistas
"A possibilidade de um mundo diferente está nas mãos do homem, portanto dele depende aceitar, corrigir, mudar e criar políticas que defendam uma sociedade menos decadente, e sim mais igualitár...(22682)

As clínicas de aborto na Holanda

Utopia e cotidiano: buscando práticas idealistas
No século XX alguns países legalizaram o aborto, como a Holanda, a URSS e a Suécia. A Alemanha nazista também legalizou o aborto para as mulheres que eram consideradas "hereditariamente doente...(18477)

Melancia sem sementes: Para quê e para quem?

Trabalhos Escolares
Nessa lógica é que encontramos um paradoxo entre o que a ciência se proporia em sua essência, e a maneira pela qual a ciência e a tecnologia foiram apropriadas por aqueles que concentram em su...(16184)

A Biologia das Embalagens - análise da embalagem de Sucrilhos Kellogg’s

Trabalhos Escolares
Os valores nutricionais tornam-se um artifício cientifico para atrair mais consumidores ao produto em questão. As embalagens não comportam mais o objetivo inicial de comunicar informações nutr...(13055)