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O Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

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Alunas: Olívia Bom Ângelo Paradas
Maria Carolina Fernandes

O trabalho vem apresentar o “Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros” como um exemplo de caminho para uma utopia de mundo a qual a dupla julga eticamente correta, e que estabelece uma positiva relação com a vida. Através da reunião de grupos e mestres das culturas tradicionais brasileiras, povos indígenas, artistas, moradores da Vila de São Jorge e região e turistas, que compartilham suas vivências, histórias, saberes, polemizam questões vigentes, celebram e trocam experiências, o encontro propicia, ainda que por tempo limitado, um cotidiano riquíssimo no que se refere principalmente à troca cultural e a paz espiritual, levantando uma auto-reflexão sobre o nosso modo de vida, deixando em evidência como a felicidade pode ser alcançada com simplicidade.

O Encontro ocorre na Vila de são Jorge, Chapada dos Veadeiros – GO. A vila se situa na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, a 35 km de Alto Paraíso-GO.  O acesso é por estrada de terra a partir de Alto Paraíso. Chega-se de carro, moto, ônibus ou bicicleta.

É promovido pela “Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge”, um local de shows e outros acontecimentos culturais da cidade, em parceria com a Associação dos Moradores da Vila de São Jorge (ASJOR). É possível contatar a organização do evento pelo telefone: (62) 3455 1077, e pelo e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .


O Encontro

O Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros ocorre durante as duas últimas semanas de julho. O envolvimento com a comunidade se faz desde a criação da identidade visual do evento que é um trabalho do Moacir, um artista que é responsável pelo estilo que toma conta da cidade, com certas características muito peculiares, misturadas a um desenho que lembra o cordel.

Na primeira semana, as atividades estão concentradas na Aldeia Multiétnica, uma aldeia indígena projetada nos arredores da cidade (cerca de cinco quilômetros) para ser ocupada por diversas etnias indígenas com a finalidade de socialização entre elas e entre os brancos, através de oficinas, apresentações, conversas e palestras. Neste ano, a Aldeia contou com a presença de nove etnias indígenas: Apinajé (TO), Desana (AM), Fulni-ô ()Ingarikó (RO), Kaiapó (PA), Kaingang (PR), Kamayurá (MT), Kariri-Xocó (AL), Krahô (TO) e Yawalapti (MT). A atividade ocorreu do dia 18 ao dia 24 de julho.

Outra grande atração na aldeia é a apresentação dos palhaços sagrados Krahô , os famosos Hotxuás, que fazem imitações, sátiras e caricaturas dos brancos e contam divertidas anedotas da vida com encenações. No último dia das atividades na Aldeia, ocorre uma caminhada até a Vila de São Jorge da qual participam todos os que se envolveram nas atividades das semanas. Nesta atividade temos outra dimensão de ritmo de caminhada, já que os índios realizam várias ‘disparadas’ nas trilhas puxadas, embalados aos ritmos de cantos de várias tribos, que se cruzam.

A caminhada leva à corrida de toras na rua, a apresentação de cantos e danças de todas as etnias no palco, terminando com o ritual de passagem do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada aos moradores da Vila de São Jorge.

Na vila, já na semana seguinte, há o Fórum de Culturas Tradicionais, o Encontro de Capoeiras Angola, e a apresentação e vivência com vários grupos de comunidades tradicionais do Brasil inteiro, dentre eles a Caçada da Rainha de Colina do Sul (GO), o grupo de bumba-meu-boi Boi de Ribamar (ma), as Caixeiras do Divino (MA)”, alguns Grupos de catireiros, o Circo Laheto (GO), Congo de Niquelândia (GO), a Comunidade Quilombola do Sítio Histórico Kalunga (GO), os percussionistas Mamour Ba e elhadji Ba (Senegal), O Maracatu Leão Coroado (PE), Maracatu Piaba De Ouro (Pe), Maracatu }Piaba de Ouro (PE), Lia de Itamaracá, dentre outros. As apresentações ocorrem ao longo dos dias, são muitas e algumas, simultâneas.

Ainda há a Feira de Oportunidades Sustentáveis, que oferece algumas, e informações sobre atitudes dentro da lógica ecológica que ocorrem em algumas comunidades. As exposições de artesanatos e comidas típicas também são interessantíssimas.

Durante as tardes ocorrem oficinas e rodas de prosa com alguns integrantes de determinadas comunidades. Neste ano as que mais chamaram a atenção foram as oficinas de Maracatu e a de Percussão, com o Mamour Ba. E as conversas sobre Patrimônio Imaterial, políticas de inclusão digital, e sobre patrimônio Genético.
A cada ano o evento atrai mais pessoas à pequena vila de ex-garimpeiros de cristal e tem desdobramentos importantes para a região da Chapada dos Veadeiros. A movimentação da economia local na época do Encontro proporciona o aumento dos investimentos na infra-estrutura de turismo, gerando trabalho e renda e trazendo bens de natureza social, educacional e cultural à Vila de São Jorge e às cidades vizinhas.

Esse encontro acontece há nove anos e mesmo com as dificuldades encontradas quanto aos recursos e outras formalidades, a produção trabalha com afinco para que aconteça mais um grande Encontro de Culturas. Inicialmente era realizado dentro da asa de shows Cavaleiro de Jorge, e foi se expandindo até tornar-se interesse da cidade toda, que trabalha junta para o evento acontecer. O envolvimento com a comunidade se faz desde a criação da identidade visual do evento que é um trabalho do Moacir, um artista nato que começou suas primeiras pinturas aos sete anos de idade usando apenas o carvão. De família humilde Moacir não aprendeu ler e nem escrever, porém suas pinturas retratam figuras enigmáticas e intrigantes.

O Encontro de Culturas é patrocinado pela Petrobrás, por meio do Fundo da Infância e da Adolescência de Alto Paraíso (GO). Desse modo a empresa se responsabiliza por mobilizar toda a infra-estrutura necessária a acrescentar na cidade para possibilitar as oficinas, as apresentações e a feira de oportunidades sustentáveis. De qualquer maneira muitos moradores são envolvidos na organização, seja em relação ao aspecto turístico (alimentação, hospedagem, passeios), seja como próprios auxiliares do evento, contratados para o apoio ou supervisão de todos os acontecimentos e necessidades ao longo do evento.

Com a inclusão digital e a sensibilização do olhar, os Agentes Culturais poderão, futuramente, dar continuidade ao trabalho de mapeamento e registro do Patrimônio Imaterial da Chapada dos Veadeiros. O primeiro passo nesse sentido foi o Inventário Nacional de Referências Culturais – INRC sobre a Festa da Caçada da Rainha de Colinas do Sul (GO), envolvendo pessoas da própria comunidade. Com a metodologia de pesquisa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o inventário possibilitou um maior conhecimento sobre a Festa e, em 2007, o lançamento do livro e documentário Caçada da Rainha - A Festa da Fé.

A meta, em longo prazo, é dar visibilidade às riquezas culturais e humanas da região, de forma que seja possível o reconhecimento da cidade e dos grupos que participam do evento como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

 

Questão da Utopia

Há diversas questões envolvidas, o próprio nome encontro de culturas já pode ser considerado uma utopia, se formos levar em consideração todos os fatores históricos e de formação cultural do Brasil, estabelecer um espaço onde essas culturas (que não constituem uma unidade, mas uma identidade) possam se harmonizar e permitirem trocas entre elas de uma maneira proveitosa mas ainda distanciada.

Observamos todas as apresentações ao mesmo tempo em que estávamos num lugar geográfico apropriado, a vilazinha de São Jorge, que proporcionava uma aproximação aos grupos e a tudo que estava acontecendo. Isso gerou uma certa utopia de formação de uma unidade, como se todas aquelas culturas e pessoas diferentes juntas, trocando experiências e se conhecendo, propondo discussões e projetos alternativos faziam parte da mesma reivindicação e do mesmo elemento sócio-cultural.

O lugar também já estabelece uma certa misticidade a tudo o que estava acontecendo, fazendo com que as pessoas se agarrassem a todos esses sentimentos, essa euforia e essa necessidade de conhecer rapidamente o outro, criando naqueles 15 dias um conforto e uma identidade um tanto utópica.

Até hoje mencionamos nossas lembranças sobre as experiências nessa viagem, contando sobre São Jorge, como um ideal de cidade e de pessoas. Acontece que nos esquecemos de tudo o que vivemos é simplesmente o cenário de um evento extraordinário, e que abandona a cidade logo depois de seu encerramento. E nos esquecemos também, por alguns instantes, de questões socioeconômicas envolvidas por trás de um mero encontro, dos interesses consumistas e das influências que uma empresa como a Petrobrás pode produzir numa cidadela alternativa.

Quando se está vivendo tudo aquilo intensamente temos a certeza de que estamos trocando experiências e valores culturais com os outros, mas realmente só depende de como você se deixa relacionar e absorver tudo de contrastante e sensível que está à sua volta, pela sua maneira de enxergar o mundo e repassar aos outros sua própria vivência.

Se tratando de um encontro de culturas populares regionais do país numa única cidade, ponto de referência turística quando nos remetemos à “porta de entrada da chapada dos veadeiros”, esse acontecimento representa um grande evento no qual todas as oportunidades de consumo são exploradas através da idealização de uma extraordinária beleza natural, e de um local místico muito procurado por pessoas que desejam estabelecer uma sintonia pacífica com as energias do ambiente. De qualquer maneira, por se localizar no centro-oeste brasileiro, em meio à aridez do cerrado, e por ser uma região de acesso um pouco limitado pelo seu isolamento, a época em que o encontro de culturas se realiza é o momento propício para a economia local se concentrar em obter seu melhor rendimento em relação ao ano inteiro; a cidade se transforma ao longo de um mês incomum num cenário fantasioso de festas e trocas de experiências.

Nesse sentido, se formos analisar as causas estratégicas locais pelas quais o encontro é realizado justamente em São Jorge, é evidente o caráter turístico e consumista de seus motivos, mesmo tratando-se de um encontro de cultural, que parece ser realizado apenas com o esforço de nossa grandiosa e representante indústria nacional Petrobrás, que num simples passeio pelas quatro ruas da cidade podíamos observar claramente sua onipresença em todos os aspectos organizacionais e financeiros daquele evento. Em todos os aspectos, a empresa deixava clara a sua contribuição fundamental pela imagem de seu logotipo, seja na construção da infra-estrutura, seja na contratação de uma extensa equipe de profissionais e principalmente dos grupos de cultura popular, seja na divulgação do encontro.

No entanto, vivemos para presenciar que as coisas não ocorreram de maneira brilhante. Inúmeros grupos já anunciados pela programação sequer apareceram no evento, seja pela falta de transporte, alojamento ou mesmo remuneração de cada um deles, esses foram os motivos que não permitiram a sua participação. Foi o momento da viagem que mais nos sentimos controlados, enganados e impotentes, mesmo estando num lugar ideal de beleza e vivências alternativas suficientes para anestesiar qualquer sensação de desgosto.

Além do caráter controlador, a aparente sobreposição com que se davam as relações dos organizadores do evento sobre seus convidados era marcante. Ao mesmo tempo em que se propunham rodas de prosas, permitindo espaço para a discussão de temas atuais relevantes em relação às políticas públicas do país e a situação de comunidades tradicionais, em nenhum momento notamos a presença dos representantes das mesmas, com raras exceções. A crítica não é ao clima impróprio e desconfortável do espaço, mas sim à predominância dessa situação socialmente segregadora.

No entanto, foi evidente a percepção para a maioria dos visitantes da cidade e participantes do evento de que o contato com os grupos era de extrema importância; as pessoas se interessavam intensamente nas vivências culturais, na tentativa árdua de se aproximar às raízes do outro, que estava compartilhando sua manifestação folclórica com imenso prazer no palco, e nos passeios de fim de tarde pelas ruas da vila.

A experiência que tivemos ao vivenciar a viagem a São Jorge contribuiu essencialmente para o nosso olhar sobre a cultura popular, como forma de iniciação de um desejo de buscar se aprofundar no estudo antropológico de nossas raízes e formações culturais, na medida em que mantemos um contato muito distanciado com esse campo de estudo nos meios escolares. No entanto, mesmo quando nos focamos em pesquisar sobre as manifestações populares brasileiras, ainda nos falta uma percepção mais sensível, justamente a vivência que se estabelece para compreendermos uma série de características imateriais dos grupos tradicionais.

 

 

REFERÊNCIAS

 http://www.encontrodeculturas.com.br/

e a participação no encontro de 2008 e 2009.

Última atualização em Seg, 08 de Novembro de 2010 20:11  


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