Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Projeto Mulheres Visíveis

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Alunas:
Flora Gehrke e
Gabriela Mano

"Homicídios de mulheres fazem parte da realidade e do imaginário brasileiro há séculos, como mostra variada literatura de caráter jurídico, histórico, sociológico, revistas, notícias de jornal, além da dramaturgia, literatura de cordel, novelas de rádio e televisão, música popular, e pesquisas científicas".

Eva Alterman Blay.

1- INFORMAÇÕES GERAIS

O projeto Mulheres Visíveis "é um projeto de informação, no formato de palestra, e de informação e formação, no formato de mini-curso" 1, onde são abordados temas como dignidade para a mulher, direitos fundamentais dos seres humanos, alguns artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Lei Maria da Penha de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, como denunciar a violência doméstica, alternativas de apoio a mulher, entre outros tópicos. O objetivo é possibilitar uma compreensão sobre o tema e incentivar a denúncia e a valorização da mulher.

"[...] Convencidos de que as mulheres, em número bem maior do que os registrados pelos órgãos competentes, sofrem dentro de seus lares todo o tipo de violência, do mais oculto que é a violência psicológica ao mais brutal que é a violência sexual, desejamos informar as mulheres jovens e adultas sobre as formas como este tipo de violência pode surgir, os direitos humanos que são violados e suas possibilidades de defesa, utilizando-se as leis que nosso país nos proporciona. [...]".2

Contato pelo e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ou pelo telefone (11) 2936-0716.

 

2- CONHECENDO A PROPOSTA

O projeto Mulheres Visíveis tem sua origem na experiência pessoal de uma mulher que sofreu violência doméstica que, partindo de uma apostila sobre abuso sexual de outra mulher, tomou a iniciativa de montar uma palestra visando a conscientização de vítimas de violência doméstica, principalmente em comunidades que não têm acesso à informação.

Os recursos materiais vêm da própria Cristina Mekitarian - a criadora do projeto -, que atualmente está tentando vendê-lo para que ele seja do governo e recentemente também conseguiu o apoio da OAB feminina, que pretende desenvolver um adesivo com a marca registrada do Mulheres Visíveis para arrecadar fundos.

A própria Cristina organiza as palestras, as realiza, financia e é a idealizadora do projeto, sendo assim, sua maior dificuldade são os recursos financeiros. Os cursos são realizados em comunidades onde são requisitados e já obtiveram bons resultados.

Considerando-se que o projeto vem adquirindo um caráter educacional, alfabetizando as mulheres que vão aos cursos - as palestras geralmente são freqüentadas por mulheres com um nível de escolaridade maior -, já foram obtidos excelentes resultados, como casos de 10 semanas de curso que, ao final, as participantes queriam dar continuidade ao processo, porém por falta de verba e espaço físico não foi possível. Além disso, pensando pelo lado da conscientização e da importância da denúncia da violência doméstica, já houve casos de mulheres que tomaram a iniciativa de denunciar seus agressores.

 

3- DISCUSSÃO

A violência continua tão presente nas relações entre as pessoas cotidianamente, que não é raro encontrarmos pessoas que se quer percebam isso. A violência infelizmente já faz parte da nossa cultura, está intrínseca na sociedade. Isso significa que estamos acomodados?

Todos já estão acostumados a temer e preocupar-se consigo mesmo em todo e qualquer lugar que ande pela cidade e em algumas situações, até mesmo dentro de sua própria casa, partindo do pressuposto de que não há o que fazer.

Com relação às mulheres a violência ganha destaque: "Homicídios de mulheres fazem parte da realidade e do imaginário brasileiro há séculos, como mostra variada literatura de caráter jurídico, histórico, sociológico, revistas, notícias de jornal, além da dramaturgia, literatura de cordel, novelas de rádio e televisão, música popular, e pesquisas científicas". Ou seja, as mulheres enfrentam a "violência simbólica da mídia, dos livros escolares, da linguagem, a violência médica, sexual, psicológica, de assedio moral no trabalho, etc. Enfim, a violência nas relações familiares"3.

Blay, em 2005 numa pesquisa sobre direitos humanos e homicídios de mulheres constata que a violência se processa principalmente entre "o marido ou companheiro, o namorado, o noivo, o colega de escola enciumado sem nenhum vínculo, e todas estas categorias na condição de ex: ex-marido ou companheiro, ex-namorado, ex- noivo, ex- colega que se sentiu rejeitado, todos eles infringem uma violência fatal sobre meninas, adolescentes, mulheres de todas as faixas etárias em todos os locais além da casa e especialmente o local de trabalho, de lazer, a rua, etc.".4

A utopia está relacionada com aquilo que consideramos impossível, que está no nosso imaginário. Temos como ideal uma sociedade sem violência, onde se pudessem estabelecer meios de comunicação e troca entre as pessoas sem que fossem utilizados recursos agressivos. A nossa utopia, portanto, é de uma sociedade menos violenta e agressiva, onde todos possam conhecer seus direitos e se sentirem seguros de "levantar a voz" e reivindicá-los para sua própria segurança e bem estar.

Acreditamos que um dos primeiros passos para uma sociedade menos violenta é a conscientização da população de que o conhecimento de seus direitos e a reivindicação são válidas e necessárias. Em uma sociedade democrática se institui os direitos. Vale ressaltar que o direito é geral e universal, ou seja, é válido para todas as pessoas, grupos e classes sociais. Caso os direitos não existam, ou não estejam garantidos, cabe a pessoas, enquanto sujeitos de direitos, lutar por eles e exigi-los.

Outro ponto principal de nossa utopia é que os Direitos Humanos sejam válidos para todos. Porque efetivamente eles não são considerados para todos? Porque algumas pessoas se dão ao direito de ignorar os direitos de outras e porque ainda existem pessoas que não reivindicam seus direitos? Não seria justo numa sociedade democrática que todos tivessem pleno conhecimento de seus direitos básicos e que os mesmos não fossem completamente ignorados por indivíduos que se sentem no direito de fazê-los? O direito de um vai até onde começa a liberdade do outro, assim como o direito de um não deve se sobrepor ao direito do outro, pois os direitos são iguais para todos.

Ao longo do curso de biologia, discutimos se a evolução tem direção, mas, como proposto, agora é a hora de debater sobre a direção que queremos dar à evolução. Será que queremos um mundo de seres humanos que estão perdendo sua humanidade? Para o bom convívio em sociedade, é preciso haver uma troca entre as pessoas, não apenas relações hierárquicas e agressivas.

Ainda durante o Ensino Médio, na disciplina de filosofia entramos em contato com a autora Chauí que afirma que, na nossa cultura a violência é entendida como uso da força física e do constrangimento moral e psíquico para obrigar a pessoa a atuar de maneira contrária a seu ser. Isso significa, tratar o outro como objeto e não como sujeito. Podemos entender que o humanismo está ameaçado?

Temos um categórico não, muitas pessoas estão preocupadas com os rumos da sociedade. Consideramos que o projeto Mulheres Visíveis tem essa mesma utopia, caminhando em direção à conscientização e a um mundo mais justo, combatendo a violência doméstica contra a mulher.

A tentativa de conscientização da mulher através de palestras e cursos é uma boa iniciativa para começar um caminho rumo a outro tipo de desenvolvimento da sociedade, porém apenas a conscientização das mulheres não é suficiente. É necessária uma conscientização geral de toda a sociedade, uma mudança no modo como as pessoas se relacionam com o meio e com os outros. O projeto têm alcançado seus objetivos, mas será que a violência doméstica diminui apenas com as mulheres estando conscientes? Apenas com suas denúncias? Como o projeto está tomando dimensões cada vez maiores, é provável que ele realmente seja meio para mudanças significativas.

Com o projeto Mulheres Visíveis, aprendemos que a iniciativa de um faz a diferença de muitos. E aqui não estamos querendo citar frases de efeito para concluir com a idéia de que o mundo ideal existe ou está logo aí, mas acreditamos que, como no caso da Cristina que a partir de sua experiência pessoal desenvolveu um projeto a fim de conscientizar outras pessoas e que este projeto tem dado resultados, é possível que ao tomarmos uma atitude ela tenha grandes efeitos.


4- REFERÊNCIAS

http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&task=view&id=604&Itemid=29

http://www.usp.br/nemge/textos_violencia/violencia_genero_blay.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300006

http://www.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm

Cristina Mekitarian, idealizadora do projeto Mulheres Visíveis.

 

NOTAS:

1 Texto extraído do site do projeto: http://www.novaeduc.com.br/.

 

2 Idem.

3 Trecho extraído o texto "A VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO ÂMBITO FAMILIAR E SUAS REPERCUSSÕES NA RELAÇÃO DE TRABALHO", de EVA ALTERMAN BLAY.

4 Idem.

Última atualização em Dom, 09 de Maio de 2010 09:55  


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