Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Capoeira: grupo Negaça e Grupo Ginga Brasília

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Alunos:
Luiza Serber
Miguel
Um outro mundo é realmente possível?
atividade analisada: capoeira

INFORMAÇÕES GERAIS
A atividade que escolhemos e consideramos eticamente adequada é a prática reflexiva da capoeira. Trata-se de um diálogo de corpos estabelecido através do improviso corporal pautado nos movimentos básicos aprendidos em treino. Seu ritual se concretiza na roda, na qual se misturam elementos de luta, dança, jogo, malandragem, malícia, mandinga e até mesmo religião. Tudo isso envolto num ambiente onde a musicalidade é responsável por reger, orientar e ritmar os movimentos dos jogadores.
Entre os diversos grupos de capoeiristas existem muitas variações quanto à maneira de praticar a capoeira. Enquanto elemento cultural, trata-se de um bem imaterial que pode ser praticado em qualquer lugar, mas o treinamento e a organização de rodas costumam acontecer dentro de academias.
Geralmente as pessoas se aproximam dessa atividade através do contato com um mestre que será o responsável por orientar e acompanhar o aluno. Por não se tratar simplesmente de um esporte, na medida em que envolve uma filosofia, uma ética, música, entre outros, a figura do mestre normalmente transcende a posição de mero instrutor de um conhecimento fragmentado.  
Para exemplificar a capoeira como uma atividade que caminha rumo à nossa utopia, utilizaremos como parâmetro ao longo do trabalho dois grupos dos quais participamos:
- Grupo Negaça, com o Mestre Zelão (Espaço Cultural - Rua Cardoso de Almeida, 54 - 2º andar)
- Grupo Ginga Brasília, com o Mestre Brasília (Galpão do Circo - Rua Girassol, 323)


CONHECENDO A PROPOSTA

Há uma polêmica em torno do surgimento da capoeira. Alguns acreditam que ela é vinda de Angola, na África, enquanto outros pensam que ela se desenvolveu no Brasil durante o período colonial pelos escravos. Sabe-se, no entanto, que em sua forma primordial no Brasil, a capoeira tinha essencialmente um caráter de luta definitiva devido ao fato de ser um instrumento de ação e resistência contra o sistema escravocrata. Devido a isso, seu desenvolvimento só foi possível graças à mescla de práticas envolvidas numa roda de capoeira, como a música e a dança, tornando-a uma prática cultural híbrida, não só uma luta. Dessa forma, ela podia ser vista pelos donos de escravos sem que eles percebessem que aquilo representava uma possível ameaça. Essa utilização da capoeira dentro de um regime escravocrata é um dos motivos que a distingui daquela praticada em tempos contemporâneos.
Atribui-se parte do desenvolvimento da capoeira às cidades grandes, como Rio de Janeiro, Recife e Salvador onde negros e mestiços realizavam trabalhos braçais, geralmente em portos, local comum de organização de rodas. São estes trabalhadores que formaram a classe social mais característica dos praticantes de capoeira na época.
Em 1890, a capoeira foi criminalizada e condenada no Código penal da República Velha, segundo o decreto número 847:

Capítulo XIII - Dos vadios e capoeiras
Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal. Pena: de prisão celular por dois a seis meses.

Nesta época ainda não havia dissociação do praticante e da prática e ainda não existia o termo "capoeirista". Somente em 1932, Getúlio Vargas retira a capoeira do Código penal.

As pessoas que trabalham nesta atividade, na maior parte das vezes, obtêm os recursos materiais necessários cobrando as aulas dadas e/ou participando de eventos, apresentações que envolvam essa prática.

DISCUSSÃO
A nossa utopia parte do princípio de que, atualmente, as relações humanas estão excessivamente mediadas pelo consumo de bens (sejam eles materiais ou não) como, por exemplo, o próprio corpo como forma de linguagem. Dessa forma, as relações estão cada vez mais desprovidas de sensibilidade, respeito, percepção do outro e de si próprio. A nossa utopia seria, então, de que essas relações se baseassem mais em valores éticos e humanos, de forma que a interação entre pessoas e entre pessoas com o meio incorporassem essas características das quais elas se encontram desprovidas.
Consideramos que a capoeira caminha rumo a essa utopia porque ela desperta, promove, incentiva e até cobra de certa forma, uma postura mais consciente. Acreditamos que essa atividade seja capaz de resignificar a possibilidade de atuação político-social -sem necessariamente o uso de partidos formais- e a própria possibilidade de autoconhecimento e reflexão, trabalhando para que possamos sentir (e fazer sentirem) os efeitos de nossas ações na sociedade de uma maneira critica e consciente.
Segundo o grupo de capoeira angola Zimba, “A capoeira, portanto, é prendida dentro de um processo de formações continuas do ser, que se traduz numa filosofia de vida e na assunção de um posicionamento diante do real a partir do qual se traça um caminho de luta e de ação político-social. No nível pessoal, aprendizagem da capoeira é um processo de reinterpretação e reintegração do eu-criativo, compreendendo um caminho de crescimento do sujeito. Através da capoeira se desenvolve a auto-estima, pois a partir dela se aprende a enfrentar os próprios limites, a flexibilizar crenças e convicções, a respeitar a si mesmo, a ter coragem, disciplina e paciência. A capoeira transforma a maneira de ver a si mesmo e ao mundo, abrindo caminhos para a conquista da alegria de viver e da liberdade, sendo, portanto, um instrumento de importância educativa inquestionável.
Identificamos, porém, que essa atividade possui também pontos negativos. Isso ocorre porque a capoeira consiste em um meio possível de chegar a essa postura, mas dependendo da forma como cada indivíduo a pratica, essa atividade também pode se esvaziar e se tornar algo meramente físico, competitivo e agressivo. É possível consumi-la como qualquer outro produto disponível no mercado.
Pelo fato da história da capoeira ser mais velha que sua própria definição técnica, há muita divergência acerca da prática e ensinamento desta atividade. Assim, existem mestres dispostos a ensinar práticas violentas a seus alunos que se interessarem e busquem este tipo de uso, enquanto existem também mestres que propõe uma prática reflexiva -não podendo desqualificar qualquer uma destas aplicações dizendo que uma é “mais capoeira” que a outra. Essa dicotomia é justamente o que constitui sua unidade.
O fato de lidar com um mesmo termo que possui uma divergência interna em relação à maneira como sua definição se emprega na realidade, gera um enriquecimento no que diz respeito às possibilidades e críticas sobre o entendimento da capoeira. Apesar disso, às vezes mesmo praticantes de longa data cometam o equívoco de qualificar a sua prática individual como sendo a legítima e única forma correta. Porém, entendemos que essa passividade aparente em relação às interpretações signifique mais que uma disputa para definir um conceito. Essa situação pode ser tratada como uma forma propícia ao praticante de reconhecer sua autonomia e sensibilidade para através disso conhecer a capoeira como instrumento de potencialização da individualidade e como forma de troca e aprendizado, não se prendendo à esfera do certo e do errado.
Com o aumento da difusão de informação e divulgação da capoeira, esta atividade vem agregando um número de praticantes cada vez maior, levando-nos a questionar o significado deste aumento. Por um lado, a difusão é boa, pois aproxima mais gente de uma prática que pode se aproximar de nossa utopia, o que se opõe à sua marginalização histórica. Por outro lado, isso significa também o crescimento de grupos de capoeira que a vêem e praticam de uma forma negativa ou descaracterizada, que inclusive se apresentam como oposto de nossa proposta, gerando assim o que consideramos como um dos principais pontos negativos.
Entendemos que para solucionar este problema de conceituação e entendimento da capoeiragem, enquanto unidade, é necessária muita força política por parte dos grupos que se entendem realizadores de uma prática semelhante. Força política esta que se dá por meio de vivências e proposta como seminários, eventos, rodas coletivas (como a realizada neste ano de 2008 pela primeira vez na Virada Cultural de SP) que proponham uma reflexão e agregação de valores concebidos coletivamente. Esse papel não deve ser exercido por instituições ligadas a órgãos governamentais que determinem “de cima para baixo” o que pode e o que não pode ser realizado, a capoeira nunca precisou desta forma de limitação para estabelecer uma identidade.
A capoeira angola, enquanto vivência, pode ser exemplificada através da proposta de uma atividade/oficina que propõe “[...] proporcionar aos educandos a prática reflexiva da Capoeira Angola, enquanto corpo físico, social, cultural e histórico na diáspora do Atlântico negro, provocada a partir do inicio da idade moderna com as grandes navegações. Fato este introdutório do pensamento cristão civilizatório às outras culturas como verdade absoluta. Neste contexto surgem culturas denominadas popular, ou do povo, dos dominados, em contraste com a cultura de elite, aquela exercida pelos dominantes. Diante deste cenário buscaremos refletir dialogicamente a relação aluno e mestre, a relação mestre e discípulo na capoeira Angola, tendo como principal parâmetro a construção de ambos na convivência, a qual principia conhecimentos múltiplos, a partir dos elementos constitutivos da capoeira. Por outro lado, também temos como objetivo refletir a prática musical, instrumental, rítmica, poética e vocal da capoeira angola. Sendo esta prática propiciadora do corpo expressivo, lúdico, espiritual, transcendente, flexível. Corpo emanado a partir do ritmo instrumental e vocal sintonizadores e contextualiziadores do local, do lugar, demarcando tempo e espaço do próprio corpo enquanto território.
(Trecho retirado da programação de uma oficina escrita pelo Mestre Zelão, organizando um evento de encontro e vivência entre mestres e alunos para discussão da prática da Capoeira Angola)


A concepção do autor do relatório, escolhido como exemplo de uma prática aplicada na realidade, deixa claro aspectos que consideramos virtuosos da dessa ação. A relação de ensino é legitimada por trocas, vivências, conversas e propostas durante encontros informais, ao invés de se estabelecer um contrato institucional que coloca o aluno em um papel inferior frente a uma autoridade. Nesse tipo de ensino institucionalizado, o papel do professor é restringido em relação às possibilidades de atuação educacional fora do meio escolar. Assim, acaba por acontecer uma imposição de uma ética e moral considerada mais adequada para a realização do ensino dentro de determinada instituição e não de uma ética e moral provinda da autonomia e da individualidade do sujeito que a realizará de acordo com os interesses coletivos.
As formas usuais e mais reconhecidas de ensino não se dão de maneira a acompanhar o aluno em uma trajetória mais ampla. As relações pedagógicas estabelecidas costumam adquirir um caráter previsível e limitado. Seu controle se dá por instâncias hierárquicas que qualificam ou desqualificam o aprendizado individual de acordo com uma proposta estabelecida e tida como inquestionável.
Para a realização deste trabalho, acreditamos que utilizamos pouco os aprendizados do ensino médio de maneira formal e objetiva, no entanto, eles aparecem intrínsecos e subentendidos em nossa concepção de conceitos como saúde, ética, sociedade, grupo, cultura, entre outros tantos que perpassam as discussões e problematizações propostas em nosso trabalho. Além dos grupos de capoeira citados dos quais participamos, atribuímos muita de nossa formação em torno desse tema à Dofona.
O futuro da capoeira é difícil de ser definido, mas é através de ações como as que tornaram possível sua recente posição de patrimônio imaterial da humanidade que vemos em nossa utopia uma maior possibilidade de crescimento, atuação e enriquecimento tanto social quanto espiritual.

REFERÊNCIAS

http://pt.wikisource.org/wiki/C%C3%B3digo_penal_brasileiro__proibi%C3%A7%C3%A3o_da_capoeira_-_1890

http://www.capoeirazimbasalvador.com/angola.htm

- Texto do mestre Zelão retirado da programação de oficina de capoeira angola

Última atualização em Qua, 02 de Setembro de 2009 19:45  

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